Insólitos, azares e desmancha prazeres


Foram uns dias ricos de tudo e o tempo voou. Dormi onde não devia, andei atrás de um avião na pista do aeroporto, dei boleia a uma tribo inteira que se espremeu dentro do carro, fui recebida no palácio e enfreitei monstros dos Infernos.
Chegar a qualquer lado com bom aspecto tem sido difícil nos tempos que correm, mas adormecer num restaurante nunca me tinha acontecido. Foi no Lubango. Tinha acordado as 4h da manhã, tinha voado e estava há horas à espera de carro para seguir viagem. Deixaram-me sozinha num restaurante e passei pelas brasas em cima de um prato de comida, que o cansaço era maior que a fome. Quando estremeci e abri os olhos tinha meio restaurante a olhar para mim perplexo e a minha reputação na lama.
Depois lá desci a Serra da Leba, atravessei montanhas, oásis e desertos até chegar à cidade do Namibe e o cansaço ficou para tras.
Mas antes ainda, naquela fase depois de acordar em que não sabemos ainda distinguir o sonho da realidade, andei de autocarro atrás de um avião no meio da pista do aeroporto. Verdade. Íamos para o Lubango. Os passageiros estavam todos no autocarro e o motorista avança pela pista e pára junto ao primeiro avião com a escada engatada. Ouvimos perguntar se é aquele o voo nº tal. Não era. Repetimos a cena junto de mais 3 ou 4 aviões, que não eram o nosso e, de repente, o autocarro trava com violência, ouvem-se gritos de susto e insultos ao motorista e eu vejo um avião a passar mesmo à nossa frente, rentinho a nós. Andamos nisto tempos infinitos à procura do avião até que lá aconteceu encontrá-lo já depois da hora que era suposto partirmos. E depois houve aquele momento, aqueles segundos de “ai a minha vida!”, quando o comandante nos dá os bons dias e diz que o tempo está agradável na nossa rota até Windoeck, na Namíbia… com uma escala no Lubango.
Dois dias depois, estou num jipe a caminho do Kamucuio. Preveem-se umas 6h de viagem, na maioria em estrada de terra batida e picada, pelos matos e montanhas do Namibe adentro para visitar as escolas do munícipio. Paisagem encantadora. Viagem dura. Muitos rios para atravessar, secos, com apenas alguns fios de água onde as mulheres lavam a roupa. Ficamos com o carro atolado duas vezes, a viagem demorou o dia inteiro. Foram os Mucubais que nos ajudaram. Povo semi nómada de criadores de gado… a fazer lembrar os Masai do Quénia. Eles com catanas à cintura, missangas ao pescoço, envoltos em panos coloridos. Elas com pulseiras de latão nas pernas e nos braços, colares de missangas, apertados à volta das mamas, a obrigá-las a cair para a barriga, panos coloridos na cabeça e à volta da cintura. Todos com os dentes da frente afiados. Muitos com lama vermelha sobre a pele. Pediram-nos boleia para as mulheres, depois de nos ajudarem a sair da areia do rio. Eram quatro, com bebés pequenos. Tudo bem. Apareceram, não se sabe de onde, mais seis e um número impreciso de crianças de colo. Depois apareceram as cestas enormes e as trouxas. Não cabiam todos. Tinham de caber. Ou vão todos ou não vai ninguém e tinhamos prometido boleia. Foram todos. É verdade!… e ia um chinês também, que precisava telefonar para o virem rebocar porque o camião dele não se mexia. Desapareceu no meio das Mucubais, dos cestos, das trouxas e das crianças. Nunca mais o vi.
Quando chegamos a Kamucuio, era certo que teríamos de pernoitar e, com sorte, regressar no dia seguinte. Disseram-me que ficaríamos no Palácio, sem qualquer problema. Imaginei o Palácio, no meio do mato, num município do fim do mundo… os bichos… respirei fundo. Afinal o Palácio era uma Casa de Passagem, bonita de arquitectura colonial, cuidada, confortável e a parecer um sonho depois da viagem. O município, era afinal, bonito, cuidado, com belos edifícios coloniais recuperados, rua bordejadas por árvores frondosas e estrategicamente situado entre o céu e os cumes das montanhas.
Depois de um belo banho de bacia e caneca, como nos bons velhos tempos, roupinha lavada e barriga forrada à espera do jantar, o alpendre da casa parecia o paraíso. Quando minutos depois chegou uma bela garrafa de vinho tinto alentejano, que bebemos entre gargalhadas e a contemplação da tempestade que se desenhava no horizonte, o mundo parecia perfeito. Perfeito até ao momento em que acenderam a luz do alpendre e um escaravelho gigante, do tamanho da palma da minha mão, colidiu desorientado com o candeeiro e me caiu aos pés.

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2 Respostas

  1. Minha querida…de monotonia não sofres!!! Acontece sempre algo para agitar o teu dia…andas sempre envolta de aventuras desenfreadas…umas mais divertidas que outras mas tens mesmo de te habituar porque é parte integrante do teu trabalho!lol…venham mais aventuras e mais relatos geniais…beijinhos maninha!!!

  2. Sim, de tédio não morro tão cedo 😛 Beijocas!

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