Jacarandás azuis do Huambo

A caminho do Lar para visitar o meu avô, tentava apaziguar o espírito e o sentimento de culpa que me atormentava por não o ver mais vezes. Enquanto descia a Rua da Boavista e me aproximava da Carvalhosa o meu estômago ia-se apertando e na minha cabeça abundavam os pensamentos tristes. Éramos os dois toda a nossa família. Vivemos sempre juntos até que um dia, de um momento para o outro, perdi o meu avô. A culpa foi de um AVC que lhe desarranjou a mente e lhe debilitou o corpo tornando-o dependente e exigindo cuidados constantes. Desde esse dia o meu avô vive no passado, que lembra com extraordinária exactidão. Revive vezes sem conta as alegrias, tristezas, tragédias e emoções que o marcaram ao longo dos seus setenta e dois anos de vida e é incapaz, durante a maior parte do tempo, de se lembrar do que fez há cinco minutos. É capaz de acender o fogão para fazer um chá e provocar um incêndio, de abrir a água para o banho e ver-se a braços com uma inundação, de entrar no autocarro para ir ler o jornal ao Palácio e depois não se lembrar qual o autocarro que o traz de volta para casa. Por vezes tem momentos de lucidez. Eu desço a rua da Boavista a rezar para que a minha visita coincida sempre com um desses momentos. É muito doloroso ver o meu avô naquela casa, perdido nas suas memórias, morto para mim que já não o reconheço. O meu avô, um homem forte, encorpado, de olhos azuis muito vivos e cabeça sempre erguida, que cuidou de mim, que me ensinou tudo o que sei e que enfrentou com coragem todos os desafios que a vida lhe lançou, agora não é mais que um homem à espera da morte.
Ia perdido nestes pensamentos quando finalmente cheguei ao Lar. Encontrei o meu avô sentado num cadeirão no jardim, a dormitar. Ele tinha cada vez mais dificuldade em movimentar-se, com o corpo a ceder aos anos e à doença, mas obrigava sempre os funcionários do Lar a colocarem-no no jardim. Nunca gostou de estar fechado, de espaços pequenos e a doença não lhe curou a claustrofobia.

– Olá avô! Que belo dia para se estar no jardim. Como te sentes? – perguntei eu angustiado tentado perscrutar no rosto dele se aquele era um dia de lucidez.
– João, meu filho, ainda bem que chegaste. Precisamos ir ao Huambo!
– O quê… mas avô… – comecei eu a balbuciar invadido por uma tristeza infinita.
– Não João, não estou doido. Estou com saudades. Quero acabar a vida na minha terra, visitar o túmulo dos meus antepassados, os lugares da minha juventude… quero voltar para nossa casa João.
– Mas avô, tu estás doente, a viagem é longa… não ias aguentar.
Caiu sobre nós um silêncio inquietante e eu sentia a mente dele em luta com o corpo debilitado, a estudar todas as possibilidades, a analisar o assunto de todas as perspectivas para depois me apresentar novos argumentos. É assim o meu avô.
– João, promete-me uma coisa: quando eu partir tu partes também. Partimos juntos para outro mundo. Eu vou ter com todos os que amei, que me aguardam do outro lado, o teu pai, a minha doce Alice… e tu voltas a Angola, ao Huambo, à tua terra. Voltas lá nem que seja só para encontrares essa parte da tua história e depois segues com a tua vida.
– Prometo avô – disse eu muito sério, cheio de medo de o perder e de me lançar naquela empreitada.
– E agora, meu filho, vai buscar a cadeira de rodas e leva-me ao Largo do Viriato – disse ele cheio de energia e bem disposto – que o jacarandá deve estar florido e faz-me sentir mais perto de casa.

O sol brilha no Huambo. É sempre assim. Sol e calor. Estamos na época dos morangos e mamões, do calor seco e do pó vermelho, dos jacarandás azuis que pintam o céu da cidade.
O meu avô partiu há 3 meses. O seu velho coração parou de bater durante o sono e ele partiu em paz para uma viagem que aguardava há muito tempo. A minha viagem demorou a preparar. Eu nunca estive preparado para a fazer. Fui para Portugal ainda criança, pela mão do meu avô. Ao contrário da maioria dos “retornados” não tínhamos família, nem raízes no velho continente. O meu tetravô chegou a Angola no início do século, fugido de uma guerra qualquer e determinado a voltar as costas à pátria e instalou-se no Huambo desde o dia em que a cidade, então Nova Lisboa, foi construída com o intuito de ser capital do país. A história trocou-lhe as voltas e retirou-lhe esse protagonismo mas a cidade cresceu e transformou-se no lar da nossa família. O meu tetravô viveu muitos anos e pôde ver o seu “império” familiar crescer durante quase um século, um império de amor e afectos que se estendeu a toda a província. Cresci a ouvir o meu avô contar histórias desse império, do irmão dele que vivia na Luvemba e casara com uma filha do Soba, das idas ao Bailundo para visitar os avós, dos tios da Caála… histórias do jango e da Ombala como ele dizia ao som do umbundo, uma língua que ele insistia em ensinar-me quando eu era criança. O meu avô dizia sempre que a cor da pele não definia as nossas origens e que a nossa família de brancos e mulatos era angolana até à alma. Ele perdeu tudo entre duas guerras, a colonial e a civil. Perdeu coisas, propriedades, dinheiro, mas perdeu sobretudo o império de afectos, as pessoas que amava e quando já só éramos os dois, guardou no coração o outro amor que lhe restava, o amor pelo Huambo e partiu comigo para um país desconhecido.
Eu cresci e estudei sem grande convicção, que nunca soube o que queria fazer da vida, mas obrigado pelo sentido do dever imposto pelo meu avô. Transformei-me num homem tranquilo, sem grandes sonhos nem projectos, sem grandes amigos nem grandes paixões. Senti-me sempre seguro com coisas simples. A paixão e arrebatamento do meu avô pela vida bastavam-me. Vivia esses sentimentos através dele mas no meu pequeno mundo eram as pequenas coisas do quotidiano, a disciplina do meu dia, os meus hábitos inalteráveis que me norteavam e me davam serenidade.
Cumprir a promessa feita ao meu avô e partir foi a maior aventura da minha vida. Estou no Huambo há duas semanas. A guerra acabou há apenas três anos e os contrastes que se vivem e se sentem por aqui provocam-me tumultos que nunca antes senti. Tudo é grande, imenso, avassalador. A cidade está a renascer. A reconstrução parece imparável e há uma dinâmica de esperança que emociona. Mas há também as histórias da guerra que já não consigo ouvir, os escombros e as ruínas, as marcas dos ataques aéreos e de balas que perfuraram a alma dos edifícios da cidade, os mortos que ainda estão sepultados nos quintais, os órfãos, os loucos, os miseráveis, as minas que nos travam os passos, a falta de luz e água potável, a falta de saneamento e o lixo. A minha salvação são os jacarandás, que me lembram o meu avô e a força dele. O Huambo está coberto de flores azuis que dão cor ao céu e que me fazem sentir, de alguma forma, em casa.
Disseram-me que a época das chuvas está quase a chegar e que a paisagem mudará completamente. Tudo ficará verde, as mangas vão amadurecer, o ar vai adoçar com o cheiro a terra molhada e eu decidi ficar por cá mais tempo para assistir à transformação.

Tertúlia no Jardim Tunduru

Estavam todos reunidos à volta de um antigo banco de jardim. Sentado ao centro com um livro na mão, Feliciano lia com vivacidade para os demais que ouviam muito sérios aquelas palavras que ganhavam vida na sua boca. O Jardim Tunduru era cúmplice destas reuniões literárias que sempre que possível aconteciam aos sábados de manhã sob as suas árvores centenárias que protegiam o grupo dos olhares curiosos e do sol. A maioria dos rapazes mal sabia ler. Sabiam outras coisas, eram mestres na disciplina de “Fazer pela Vida” desde muito cedo mas não sabiam arrumar bem as letras para criar palavras. Eram sete amigos, todos do Bairro do Aeroporto, quase todos vendedores de batiks. O José e o Alface também eram aprendizes de “artista dos batiks” e ao fim de semana vinham tentar a sorte e vender peças aos turistas juntamente com os amigos vendedores. Sim, porque o grupo apesar de informal funcionava como uma empresa. O Mestre Neto era um artista reconhecido e o seu trabalho podia encontrar-se nos melhores pontos de venda de Maputo, do Piripiri ao Hotel Polana, da Costa do Sol ao Mercado Central. Era ele que desenhava directamente a esferográfica no pano de algodão e que tinha na cabeça a paleta de cores da obra final; depois um grupo de aprendizes “pintavam” pacientemente com a cera derretida e tingiam as várias camadas de cores; primeiro o amarelo, depois o laranja, o vermelho, o preto ou o azul.

O José era o mais novo do grupo e não teria mais de catorze anos. Depois de muitos anos a ajudar a mãe no mercado do peixe tinha chegado à conclusão que queria uma vida menos dura. A ideia de trabalhar sentado todo o dia, trocar o pivete do peixe pelo cheiro da cera e das tintas e ainda poder dizer que era um artista fizeram-no encher-se de coragem e ir falar com o Mestre Neto, seu vizinho. Da sua casa, parede com parede com o pátio do “atelier” José podia ver os batiks coloridos pendurados ao sol, ouvir as galinhas e os patos que passeavam de um lado para o outro e aperceber-se das conversas alheias. Um dia surgiu a grande oportunidade.
– Alface! Andas adormecido outra vez?! Deste com o vermelho no lugar do laranja! Tá tudo estragado, tudo estragado.
– Xi! Desculpa mestre… me distraí…
– És o mais antigo e é só asneiras, só asneiras… desaparece da minha vista!
– Mas eu não posso… – começou Alface a balbuciar como se estivesse à espera de se tornar invisível.
– Desaparece daqui, não te quero ver mais hoje! – Gritou o mestre irritado. E Alface fugiu a correr levantando uma nuvem de poeira e criando um tumulto entre os patos e galinhas que andavam pelo pátio.
José não teve meias medidas e resolveu passar “por acaso” na casa do mestre aproveitando o alvoroço. Contou do seu sonho de ser artista e da dificuldade de convencer a mãe a prescindir da sua ajuda no mercado. Falou como se a arte lhe corresse nas veias e a sua vida dependesse desta oportunidade. Mestre Neto ficou impressionado.
– Eu entendo-me com D. Ermelinda. Ficas aqui a aprender, no lugar do Alface que só dá desgosto.
– Mas pai, o Alface tem mulher e filho e precisa do trabalho – disse Feliciano, o melhor dos aprendizes.
– Assunto encerrado!
– Pai, ele é bom desenhador você é que não deixa ele fazer desenho – insistiu.
– Ele é bom desenhador! Bom desenhador! Então não te lembras quando eu estive doente há uns anos, dos belos desenhos que ele fez de helicópteros?! Batiks cheios de helicópteros por cima das palmeiras, das casas, dos barcos de pesca… helicópteros! Tão bem desenhados que nem sequer passavam por pássaros. E sabes quantos vendi, quantos? Nem um! Nem um!
– Isso foi depois das cheias. Isto andava cheio de helicópteros da ajuda internacional e nós ficávamos a ver aquilo todo o dia e ele quis imortalizar o cenário nos batiks – continuou o Feliciano a defender o amigo.
– Isto é um negócio sério. A gente desenha o que o turista quer e não o que a gente gosta. Já alguma vez viste uma girafa? Não! Mas turista gosta e portanto a gente desenha girafas como se elas passeassem todos os dias aqui pelo bairro… Percebes!? Turista não sabe que no nosso bairro não cabe girafa, que está cheio de gente que mal se pode mexer, mas não interessa… Percebes?! – gritou Mestre Neto muito vermelho com as veias do pescoço salientes e o olhos a soltar faíscas.
– E tu José fica descansado. Amanhã falo com a tua mãe e tudo se resolve.

Acabou por correr tudo bem. José conseguiu o que queria e mestre Neto, que afinal tinha coração mole, acabou por deixar ficar o Alface. Só que para não ter prejuízo acabou por integrar os dois no grupo de vendas em part time. Durante parte da semana eram aprendizes e durante a outra metade eram vendedores juntamente com outros rapazes. Ao sábado era dia da feira do Pau Preto junto ao forte e Mestre Neto tinha um ponto de venda privilegiado onde se concentravam quase todos os seus vendedores. A estratégia comercial estava bem sabida, que era aquela a vida deles. O segredo era vencer o turista pelo cansaço, rodeá-lo de tanta obra de arte que ele perdia o discernimento, deixá-lo sem ar e sem fala no meio de uma roda asfixiante de vendedores em aparente concorrência, todos a gritar em uníssono “Faço bom preço, patrão! Faço bom preço! Olha que ninguém tem preço melhor!” até que num acto de sobrevivência o turista aponta para um batik qualquer, compra sem reclamar o preço e foge dali. É uma estratégia quase sempre eficaz, pelo menos com os turistas mais desavisados e cheios de medo dos assaltos e da violência da cidade.
Feliciano, que é só artista também costuma ir, mas não vai vender nada. Ele gosta de subir até ao Jardim Tunduru e sentar-se por lá tranquilamente a ler. Se chover sobe mais um pouco e vai até ao Centro Fanco-Moçambicano, mas do que ele gosta mesmo é de ficar no jardim no meio do verde e de todas aquelas árvores e plantas dos quatro cantos do mundo. Um dia, os outros rapazes estranhando as suas ausências prolongadas e pensando que havia rabo de saias naquela história resolveram segui-lo e quando perceberam que estava simplesmente a ler começaram a gozar com ele até que Feliciano lhes propôs sentarem-se em volta dele e ouvirem a história que estava a ler. A partir daquele dia, as manhãs de sábado tornaram-se sagradas para todos. Um romance podia demorar meses a ser lido em voz alta e o grupo esperava ancioso sábado, após sábado para conhecer o resto da história. As vendas ressentiram-se e Mestre Neto reclamava, mas a culpa era sempre dos turistas que não apareciam, ou da concorrência que era muita… e a vida continuou como sempre.

A inauguração da exposição tinha atraído muito mais gente do que se esperara. A sala estava cheia e as pessoas, muito elegantes nos seus trajes de cerimónia, conversavam alegremente enquanto apreciavam as fotografias expostas e aguardavam o momento solene da entrega de prémios. O evento era famoso e reunia sempre o trabalho de alguns dos fotógrafos mais proeminentes do país, que se tinham destacado com trabalhos sobre o continente africano. Em destaque, no meio da sala encontrava-se a fotografia vencedora do primeiro prémio. As pessoas admiravam-na com um ar enternecido, sorriam muito e sussurravam entre si. Tomás Valentim era o grande artista da noite e estava rodeado por admiradores que não paravam de elogiar aquele trabalho.
Finalmente deram início à cerimónia de entrega de prémios e o presidente da Associação Nacional de Fotógrafos Profissionais colocou nas mãos de Tomás Valentim a máquina fotográfica de cristal ao que se seguiram inúmeros aplausos e a conferência de imprensa.

– Sr. Tomás Valentim, quando viu esta imagem, soube logo que podia tornar-se numa obra de arte? – perguntou entusiasmada uma jornalista na primeira fila.
– Essa é uma pergunta difícil… não sei… sabia com toda a certeza que estava perante um quadro vivo comovente e único…
– Teve oportunidade de conhe
cer pessoalmente algum dos intervenientes desta situação? – perguntou outro jornalista?
– Não, confesso que não me atrevi a interromper aquele momento sublime e limitei-me a imortalizá-lo.
– Sr. Tomás Valentim, acho que todos nós teremos a nossa interpretação pessoal para o que está acontecer nesta imagem, mas gostava de conhecer a sua. Você que esteve ali, tão perto, diga-nos… o que é que nós estamos a ver?
– Estamos com certeza perante um grupo de rapazes que representa a energia, a potencialidade e o futuro promissor de um país extraordinário. Um país onde nem todos os jovens têm de trabalhar, onde muitos deles se formam com qualidade e discutem novas ideias. Quem sabe se não estarão entre estes jovens alguns dos futuros intelectuais e dirigentes de Moçambique?

A conferência de imprensa continuou, com o artista a falar da sua obra e da sua carreira que chegava agora a um momento de consagração. O público e os jornalistas ouviam encantados as suas palavras e não tiravam os olhos da enorme fotografia pendurada por trás de Tomás Valentim onde se podia ver um banco de jardim onde um jovem com um livro na mão discursava perante um grupo de outros jovens que o rodeavam concentrados, descontraidamente sentados a seu lado ou no chão à sua frente. Ao lado, o título da obra :“Tertúlia no Jardim de Tunduru. (Maputo, 2006)”.

Emília

Um dia, num lugar improvável encontrei uma rapariga extraordinária, a Emília. Conhecemo-nos em Mabilibili, uma aldeia da província de Maputo em Moçambique, a sessenta quilómetros e mais de três horas de distância da capital, em 2003 e nunca a vou esquecer. Eu estava lá a tentar aprender coisas que achava muito importantes. Ela estava lá a tentar fugir da vida que a sorte lhe reservara. Tinha dezasseis anos mas o rosto dela, duro e fechado, parecia ter vivido muito mais vida. Havia nela qualquer coisa de selvagem, de indomável e uma força perturbadora no olhar que não deixava ninguém indiferente. As colegas do internato da escola não gostavam dela. Tinham-lhe medo. Ela também não parecia importar-se com isso. Aliás parecia que mais ninguém existia para ela, como se estivesse num limbo, entre mundos, de passagem para outro lugar. Tinha nascido na Suazilândia, para onde a família fugira durante a guerra, num campo de refugiados. Depois cresceu na África do Sul onde o pai trabalhara nas minas até a família ter ganho coragem para voltar às origens, à Ponta do Ouro, no extremo sul de Moçambique. Nunca encontraram mais do que a pobreza e a fome em nenhum destes lugares. E a ela, apesar do seu porte altivo e da inteligência aguçada, a vida parecia não ter muito mais para oferecer. Já devia ter casado, ter filhos e estar a cuidar da casa da família do marido, a apanhar lenha e a cozinhar, a ir buscar água a quilómetros de distância, a lavrar a machamba para ter o que comer. Mas a Emília estudava. Era a melhor aluna da turma dela e tirando um ou outro ano perdido na deriva da família, ela nunca tinha reprovado. Enquanto as colegas da mesma idade brincavam umas com as outras fazendo tranças e rindo às gargalhadas, a Emília, que eu nunca vi sequer sorrir, passeava sozinha pelas redondezas. A escola, o internato e o poço comunitário ficavam no centro da aldeia, mas dali apenas se viam os pequenos caminhos de terra que se embrenhavam na mata desenhando um labirinto de caminhos que uniam as casas, distantes umas das outras. A Emília tinha o hábito de percorrer o labirinto sozinha e quando por acaso a via, ficava sempre com a sensação que ela estava apenas parcialmente na minha frente. O olhar dela, distante, ausente, andava perdido em outras paragens.
Um dia perguntei-lhe o que gostava mais de estudar. “Física” disse ela prontamente. “Gosto de tudo, mas a física explica como é feito o mundo”. “E que profissão gostavas de ter?” insisti eu. “Vou ser engenheira civil e sair desta miséria. Quero construir estradas!”
Pouco tempo depois desta conversa vim embora e nunca mais vi a Emília. Espero que ela tenha conseguido pelo menos, construir uma estrada qualquer para chegar a outro destino. De facto, o lugar dela não era ali.

Clara

Era uma carta emotiva, escrita com caligrafia quase infantil, que lhe queimava as mãos e fazia disparar o ritmo cardíaco a cada frase “É um orgulho ter na nossa aldeia uma pessoa com tamanha capacidade de compaixão e dedicação aos outros”, “Rezo a Deus para que te proteja nessa missão tão importante”. O nome que constava no remetente era-lhe completamente desconhecido, mas o nome dela, Clara, era familiar para aquela mulher que lhe escrevia de longe e que a tinha em tão grande consideração.
– Clara, anda comer… não me digas que estás outra vez a receber cartas de admiradores?! És a rapariga mais famosa de Terras do Bouro.
– Nada disso, ela é quase uma santa por lá.
– Parem com isso! Estas cartas não significam nada, são desabafos de pessoas que não têm com quem conversar e que acham extraordinário o simples facto de alguém sair da aldeia.
– Minha amiga, estás enganada. Quando voltares para casa tens direito a uma estátua na igreja da aldeia, ao lado da nossa senhora e a um passeio anual de andor na procissão de Agosto.
– Lá estão vocês a gozar comigo! Vamos mas é planear as actividades de amanhã que há muito trabalho pela frente.
– Ainda não é público, mas ontem quando fui buscar o António ao hospital, dei-me conta que o surto de cólera está a crescer a olhos vistos. Já há muita gente de quarentena. Não era má ideia reforçar os cuidados com a água e a higiéne.
– Vamos fazer uma reunião geral com as mamãs. Afinal são elas que cuidam dos miúdos dia e noite e são muito mais do que funcionárias da instituição.

O pôr do Sol estava encantador. Era quase impossível desviar os olhos do céu e ali na praia então, o efeito ainda era mais hipnotizante. A baía de Wimbi parecia que ia pegar fogo com o mar a espelhar aquela maravilhosa combinação de laranjas, azuis e amarelos como se estivéssemos a olhar para a paleta de um pintor que tenta criar uma nova cor fulminante. Só sabemos que não vão erguer-se labaredas devoradoras porque estamos rodeados pelo cheiro doce do mar e pelo verde fresco das árvores atrás de nós. A Clara não conseguia tirar os olhos deste cenário e cada vez se aconchegava mais no abraço do Luca.
– Ei! Dorminhoca, acorda! São quase seis da manhã, temos de nos despachar.
– Ummm… não… mas temos… o quê?
– Olhem para ela. Tá com ar de quem estava a sonhar com o italiano mais famoso de Pemba.
– A nossa menina também é a mais famosa da terra dela. Fazem um belo casal, sim senhor!
– Ó pessoal… deixem-me… acordar… que raio…
– Clarinha, meu amor, vá lá! Veste-te e vamos embora e não sonhes mais com o bello Luca.
– Eu não sei o que ela viu na criatura…
– Pois não, porque és cego! Senão mesmo sendo gajo e mesmo não gostando de homens percebias que o moço é um arraso.
– Parem com isso. Os bidões têm água? Posso ir tomar o meu banho?… Além do mais eu não estava a sonhar, eu não sonho, vivo com vocês, por isso só posso ter pesadelos!E saiu a correr, a fazer caretas para os amigos.
Estavam juntos em Pemba há quase um ano. Eram todos voluntários. Trabalhavam com os meninos deficientes do orfanato. O famoso Luca, era um novo voluntário italiano, de passagem por Pemba e pelo coração da Clara. Ela era a única portuguesa e resolveu ir para Moçambique depois de ter estudado em Itália durante um ano lectivo. Nessa altura, andava na Universidade do Minho, mas não lhe bastava ter saído de casa para estudar na cidade, queria mais, e então resolveu ir estudar um ano para fora. Foi um ano que mudou a vida dela. Nunca ninguém na aldeia tinha ido assim, para fora, estudar… Depois foi uma bola de neve. O curso acabou e ela só queria voltar a partir. Foi quando surgiu a possibilidade de Moçambique. Foi quando começou a nascer a lenda.

– Artur, a nossa Clara nunca mais nos dá uma data certa para o regresso. Só sabemos que é no próximo mês, mas ela não se decide.
– Estou morto por a ter em casa. Faz-nos falta a alegria dela. E fico sempre preocupado com ela lá… as doenças… sei lá, ando há um ano com o coração nas mãos.
– Deus protege-a. E devemos dar graças a Deus por termos uma filha assim, que é um exemplo para todos. Ouviste o que o senhor padre disse hoje na missa, sobre ela? Fiquei tão emocionada.
– Eu não me interessa. Eu só quero a minha filha aqui, com a gente outra vez… às vezes acho que ela não quer voltar e que está a adiar esta decisão a ver se arranja maneira de ficar lá.
– Ó homem, não sejas assim. Então a rapariga ia ficar lá para sempre a fazer o quê?
– Vamos ver, vamos ver…

Clara pegou na bicicleta e foi dar uma volta. Era domingo, não tinha nada para fazer e queria estar sozinha. Meteu o livro de contar a vida na sacola e abalou pela beira-mar. Não tardou a afastar-se da cidade, da praia do Wimbi e a embrenhar-se na mata costeira pelos caminhos que levam às praias selvagens, de areia branca e mar verde esmeralda, transparente e puro, quente, sem ondulação e bordejadas por palmeiras gigantes que parecem tocar o céu. Mas não estava sozinha. Tinha por companhia os pescadores, que com a água pela cintura atiravam as redes ao mar generoso. Mas a praia é muito grande e é fácil encontrar tranquilidade e silêncio.Sentou-se a contemplar a paisagem. Sentia uma dor aguda no coração sempre que pensava que em menos de um mês teria de partir. Sentia uma dor ainda maior sempre que pensava que em menos de um mês teria de chegar a casa… a casa… Um lugar para onde a remetiam todas as memórias da infância mas onde ela não era capaz de projectar o seu futuro. Aquele pequeno vale verde que fora todo o seu universo parecia-lhe agora castrador, desencantado, estéril. Clara sorriu triste. Pegou no livro de contar a vida, que era como ela chamava ao diário que a acompanhava para todo o lado e releu novamente as últimas anotações: “Não encontro forma de ficar cá, ou de continuar este trabalho noutro lugar qualquer do mundo. No orfanato não precisam mais de mim, querem dar oportunidade a novos voluntários. E todas as pessoas que conheço que me podiam ajudar, acham que eu quero ficar pelas piores motivações, por medo, e aconselham-me a regressar e pensar bem. Ainda tive esperança de encontrar um grande amor. Era um bom motivo para ficar. Mas estou condenada a cruzar-me com pessoas em trânsito, como eu. Sinto-me tão perdida!” Fechou os olhos e suspirou e as lágrimas começaram a cair sem parar. De repente sentiu que não estava sozinha. Abriu os olhos e viu-o, sentado, tranquilo à sua frente, como uma aparição milagrosa.
– Então, moça, não pode chorar tanto assim.
– Não me apercebi da sua chegada, Mais Velho…
– Eu sou assim, nunca ninguém dá por mim quando chego. Só sou importante onde não estou. É o meu destino.
– Mas… isso parece-me muito triste.
– Sabe moça… vou contar-lhe uma história. Eu nasci muito tarde, muito depois dos nove meses, de muita reza, muitos rituais, muita conversa entre os vivos e os mortos. Minha mãe não aguentava mais sentir-me a crescer nas entranhas como se estivesse a alimentar-me da sua própria carne, da sua própria vida. Meu pai ganhou medo do filho que não queria conhecer o mundo. Não podia ser coisa boa. Nenhuma criatura parava o relógio da natureza para atrasar o seu nascimento. Os antepassados, em alvoroço, com este escândalo natural, atazanavam os vivos com exigências mirabolantes na tentativa de repor a ordem. Durante muitos meses fui considerado culpado de todas as desgraças que se abateram sobre a nossa aldeia e a nossa gente. Acreditavam que eu até era capaz de mudar o sol de lugar, de secar os rios e o mar, de soltar os ventos e as doenças. Um dia quiseram me matar. A mim e a minha mãe, que era todo o meu universo. Vieram os feiticeiros mais importantes da terra, deram-lhe a beber umas ervas que lhe adormeceram a vida e abriram-lhe a barriga. E nessa precisa altura eu nasci, e vi o mundo e os
Homens e fiquei entregue à minha sorte, renegado e abandonado no mato. Assim, nunca me gostaram, nunca me conheceram e nunca esqueceram o filho que gozou a ordem das coisas e não queria nascer.
– E nunca mais voltou à sua aldeia?
– Nunca. Mas sei de tudo o que se passa por lá. Por onde passo oiço sempre rumores da famosa aldeia e histórias sobre mim, ou melhor, sobre o mito que criaram a meu respeito, o filho maldito que não queria nascer.
– Deve sentir-se muito só no mundo…
O Mais Velho sorriu, sereno e pegou na mão da Clara.
– Hoje estou aqui com a moça, a contar histórias para lhe aliviar o coração. Não estamos sozinhos. Nunca.
Clara sorriu também e levou as mãos ao rosto para secar as lágrimas. Quando voltou a abrir os olhos não viu ninguém. Ficou desorientada a olhar para a praia, ergueu-se para tentar ver mais longe, mas não viu vivalma. Nem o Mais Velho, nem os pescadores que ao longe andavam na sua lide… ninguém.
Voltou a sentar-se perplexa e, de repente, viu, num vislumbre, as pegadas que partiam do lugar onde estava e que uma onda do mar suavemente apagava.

Ângelo e Ângela

Chovia torrencialmente. Parecia que o mundo se preparava para o Juízo Final. Era impossível andar em linha recta tal era a violência do vento que se aliava à chuva para dificultar os passos. Era preciso muito azar para o automóvel ter avariado naquele exacto momento. Quando percebeu que o velho Alfa Romeo não ia dar nem mais um passo, Ângelo olhou em seu redor, desesperado, como se esperasse um sinal divino que lhe desse uma pista sobre o que fazer a seguir. Viu um velho café do outro lado da rua, iluminado por uma luz ténue, amarelada, que naquele fim de tarde tenebroso lhe pareceu o lugar mais aprazível do mundo. Lá dentro, a maioria das mesas estavam vazias, mas as poucas pessoas que lá estavam pareciam tão alheadas do mundo exterior enquanto conversavam ou liam calmamente o jornal que esta visão lhe transmitiu uma sensação de conforto imediato. Resolveu sair do automóvel e atravessou a rua, como pôde, rompendo a cortina de chuva que o fustigava. Não via quase nada e tentava simplesmente avançar em linha recta até à porta do café. De repente, uma dor aguda quebrou-lhe a concentração e uma mulher que saíra determinada do café pedia-lhe desculpa aos berros, ainda agarrada ao puxador da porta que o atingira violentamente na cara. Ângelo mal a ouvia com o barulho ensurdecedor da chuva e do vento, tentou endireitar o corpo encharcado e fazer um gesto com a mão que lhe indicasse que ele estava bem, que não tinha sido nada e nessa altura viu-a. E foi atingido por uma dor ainda mais insuportável, uma dor da alma que o arrancou daquele lugar e o atirou para longe, para outro lugar há 18 anos atrás.

– Bom dia!… Não, não te mexas. Deixa-me olhar bem para ti, estás tão linda, serena com os cabelos espalhados assim na almofada. Quero decorar este momento – disse ele enquanto sorria.
– Ângelo! Não olhes para mim assim, assustas-me e… e eu tenho de levantar-me!
– És o amor da minha vida Ângela, nunca me canso de olhar para ti. Nunca vou esquecer o dia em que nos conhecemos. Foi o dia mais feliz da minha vida.
– E agora estamos aqui no fim do mundo, a viver numa casa abandonada em frente ao mar sem saber quando podemos ser expulsos, quase sem nada para comer e no meio de uma guerra que não é nossa!
Ele agarrou-lhe o braço e puxou-a de encontro ao peito num abraço forte e cheio de ternura.
– Só precisamos de estar juntos para sermos felizes. Olha bem lá para fora. Vês algum sinal de guerra? Eu só vejo o mar azul e tranquilo a dar-nos os bons dias e o mundo inteiro a olhar para nós com inveja. Os últimos dois meses, desde que chegámos, têm sido perfeitos.
– Ângelo! Pára! Hoje fiquei de ir ter com a Maria que está em casa sozinha com os miúdos e desesperada sem notícias do marido.
– E o que é que eu vou fazer no paraíso sem ti? Não gosto de ficar aqui sozinho.
– Porque raio não vês a realidade à nossa volta? Não podemos viver a vida toda como se estivéssemos de férias. O mundo está a desmoronar-se à nossa volta!
– Eu não quero estar longe de ti nem um segundo. Nós não precisamos de muita coisa… eu só preciso de ti. Nós saímos da Europa para ter uma vida diferente, para termos tempo, para nos amarmos…
Ela levantou-se, decidida, libertou-se do abraço que a segurava e saiu do quarto.

Ângelo atravessava apressado o corredor na direcção da biblioteca. Mal via onde punha os pés, carregado de livros, mas já sabia o caminho de cor. O curso de Filosofia não lhe dizia muito, mas na faculdade tinha descoberto outro mundo. Era um tipo popular, sempre bem disposto, optimista, sonhador. Defendia todas as causas nobres que lhe batiam à porta e acreditava piamente nelas. Ora eram os pandas em vias de extinção, ora era a fome em África, a desflorestação da Amazónia, o direito à autodeterminação de povos indígenas. Andava constantemente em campanha e acreditava que podia mudar o mundo. Naquele dia em particular preocupavam-no a existência do Apartheid e a segregação racial e sentia crescer dentro dele uma necessidade enorme de sair para o mundo e defender aquilo em que acreditava. Estava absorvido nestes pensamentos quando a porta da biblioteca se abre bruscamente contra ele atirando com todos os livros ao chão.
– Desculpa… desculpa… não te vi. Eu ajudo-te.
Ângelo que tentava apanhar os livros, olhou atordoado para aquela rapariga que lhe pedia desculpa num sussurro, muito corada.
– Não faz mal. Deixa.
E pegou-lhe no braço suavemente para ela se levantar e para poder vê-la.
– Como te chamas?
– Ângela.
Ele nunca se tinha sentido assim, o coração a bater disparado, as mãos suadas, o tempo parado à volta deles e aquele nome a ecoar repetidamente “Ângela”, “Ângela”.
– Desculpa… mas… tás bem? – perguntou ela
– Sim… nunca estive melhor. Hoje é o dia mais feliz da minha vida! – disse ele a sorrir.

Desde aquele dia ela passou a fazer parte da vida dele. Ou melhor, desde aquele dia conquistá-la tornou-se na principal causa de Ângelo. Não foi difícil. Ele era bonito e inteligente, alegre e tinha uma paixão por tudo o que o rodeava que o tornavam irresistível. Ela encantou-se com toda aquela energia, com a dimensão dos sonhos dele e rapidamente fizeram planos juntos. Ângelo queria ir viver para África, ter uma vida simples, ajudar as pessoas. Queria uma vida de aventuras, onde pudesse ser um personagem importante da história. Jamais se poderia imaginar numa vida de luta pelo dinheiro, pelo estatuto, fechado entre quatro paredes de uma sala de aula qualquer. Ela iria com ele. Acreditava nas mesmas coisas e, sobretudo, acreditava nele. Poucos meses depois de se conhecerem, largaram tudo e partiram.

– Você sente-se bem? – gritou ela novamente no meio da tempestade
Ângelo estremeceu. Voltou ao presente, olhou-a nos olhos e a custo, baixinho, pronunciou o nome dela.
– Meu Deus! Você tem a testa a sangrar – disse ela assustada enquanto agarrava com força pelo braço e o puxava para dentro do café.
– Como eu sou desastrada! O que eu fui fazer. Sente-se aqui e deixe-me ver esse ferimento.
– Ângela! – disse ele bruscamente enquanto lhe agarrava a mão com que ela lhe tocava a testa. – Porque te foste embora naquele dia?
Ela ficou petrificada. Olhou para o rosto dele tentando reconhecer os traços que lhe estavam gravados na memória. Não conseguia articular uma palavra e sentia o mundo inteiro a girar à volta dela.
– Ângela! Eu preciso de saber. Diz-me só porque saíste de casa sem deixar rasto e me abandonaste?… Deves-me esta explicação… há quase vinte anos.
De repente, ela endireitou-se na cadeira, desviou o olhar e soltou-se.
– Desculpe, o senhor deve estar a confundir-me com alguém – disse enquanto olhava para o relógio.
– Lamento muito tê-lo magoado, mas agora tenho de ir.
– Não! Não te vou deixar sair sem me dizeres…- e levantou-se para ir atrás dela.
– Já lhe disse que me está a confundir com alguém – disse ela saindo disparada do café.
– Ângela, eu era capaz de te reconhecer até no Inferno! Diz-me porque te foste embora! Diz-me e depois vai-te embora de vez, mas diz-me… porquê? – gritou-lhe desesperado.
A chuva era cada vez mais intensa, já anoitecera e não havia luz eléctrica. O céu era agora iluminado por relâmpagos persistentes e estavam os dois encharcados, sozinhos no meio da rua.
– Diz-me! – gritou Ângelo desesperado com todas as suas forças.
Ela começou a recuar. Queria fugir dali, mas aquele homem não a deixava partir.
– Amavas-me demais! – gritou Ângela com raiva e lágrimas nos olhos enquanto se afastava no meio da escuridão.
Ele não se moveu. Não tentou alcançá-la. Ficou a vê-la partir até desaparecer na noite.