A culpa é do chinês

A China investe em África sem dó nem piedade. Economicamente é um fenómeno interessante. Socialmente cria fenómenos de racismo revestidos de um humor brutal e recheados de ignorância do outro.
Os angolanos ainda estão a recuperar do choque originado pela capacidade de adaptação dos chineses aos trópicos. É coisa nunca vista pois ao contrário de outros povos que são umas florzinhas e lamentam o calor, os bichos, a lentidão e a falta de infraestruturas, eles vivem como os locais. Em qualquer contentor fedorento, ao Sol, no meio do mato numa barraca improvisada ou na suite presidencial dos melhores hotéis, eles estão em todo o lado. Destacam-se pela fisionomia diferente. “Óooo doutora, mas então diga-me lá. O chinês é preto ou branco?” “É chinês.” Respondo eu a ver a conversa mal parada. “Mas então eles agora vão começar para aí a fazer filhos e não vão sair mulatos? Vai ficar complicado para os miúdos.”
Destacam-se também pela incompetência linguística. Já ouvi angolanos falar Chinês mas nunca ouvi um chinês falar Português.
Dão origem a grandes mitos urbanos e rurais, como o famoso “chegou o chinês, nunca mais se viram cães”. Comem coisas muito estranhas. “Olhe que chinês come tudo que voa e que rasteja. Só não come comboio nem avião”. Um pequeno exagero humorístico mas que retrata bem a estranheza das gentes.
E distingue-se dos demais, sobretudo, por ser a fonte de todos os problemas. Se há uma fila de trânsito, é o chinês que vai lá na frente no camião a complicar. Se nos atolamos no meio do rio, é porque o chinês estava lá atolado. Se ele não estivesse ali a estorvar nós claro que tinhamos passado. Se a estrada tem buracos é porque foi feita por chinês, mesmo as picadas que foram estradas no tempo colonial. Não tem lugar para estacionar? A culpa é do chinês que ocupa o espaço todo. O carro avariou? A culpa é do chinês, nem que seja um Ferrari :).
Infelizmente a maioria dos chineses que cá estão vivem pior que muitos angolanos. Diz-se (não faço ideia se é verdade) que muitos dos trabalhadores da construção civil são presidiários. Certo, é que a maioria vive em condições degradantes, na mais profunda pobreza, à parte, olhados de lado o que confunde a ordem social estabelecida baseada no preto e branco, no rico e pobre, no rural e urbano. Vão dar muito que falar ainda. E entre piadas e gargalhadas Angola vai construindo muros entre uns e outros… e com um jeitinho ainda dizem que a culpa disso também é do chinês.

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Balanço da viagem a Mbanza Congo:

Dois macacos, muitas galinhas do mato (uma delas suicidou-se quando nos viu), um enxame de abelhas doidas, uma praga de moscas tse tse, muitas tabuletas de trânsito chinesas e dores pelo corpo todo.
Comecemos pelo fim. Um terço da viagem (200 e tal km) é feita em estrada de terra batida. Estamos na época da chuva e portanto há sulcos profundos, lama, pedras e basicamente metade do percurso(em horas) assemelha-se a viajar em cima de uma plataforma vibratória. É doloroso. A cereja em cima do bolo é a nódoa negra gigante no osso do pescoço provocada pelo cinto de segurança. Precisava de uns dias de SPA, mas adiante…
Felizmente, este percurso tortuoso tem os dias contados. Há uma estrada a ser construida. Ao longo do caminho, de vez em quando, lá aparece um desvio para meia duzia de metros de alcatrão. A parte deliciosa é que sendo uma estrada construída pelos chineses a sinaletica é imitação. São triângulos ou circulos de madeira pintados a amarelo, com contorno vermelho e sinais impossíveis de compreender: setas que apontam para lado nenhum, rabiscos a imitar saidas e entradas de viaturas e a minha preferida, um gatafunho tipo serpente antes de cada desnível. São exercícios de imaginação.
O raio das moscas do sono é que são uma praga. Eu tenho medo de baratas e de abelhas. Não tenho medo de moscas. Mas, quando um filho da terra, fica em pânico de cada vez que vê uma, a fechar o carro imediatamente, eu começo a ver a minha vida a andar para trás. A dada altura vejo uma bicha pousada no tabliê, comprida, acastanhada, achatada… estranha e pergunto se era aquilo uma mosca tse tse. Foi o caraças. Travanço repentino, agressões à bicha em tentativas desesperadas para a matar ou obrigar a sair do carro. Matei-a eu e seguimos viagem. Na fronteira provincial, a polícia manda-nos parar no controlo e temos de abrir as janelas para falar com as autoridades. O polícia do meu lado pergunta de onde vimos e ao mesmo tempo eu vejo dezenas de moscas daquelas a vir direitinhas a mim. Abano os braços para as enxotar, dou uns gritinhos histéricos (Não foi bonito!), grito Mbanza Congo e fecho a janela na cara do polícia, que perplexo, encolhe os ombros, enxota as moscas à volta dele e sorri. Do lado do motorista a coisa foi mais dificil e enquanto ele mostrava documentos eu, de havaiana na mão, matava moscas.
Numa das poucas paragens onde se pode comprar alguma coisa para comer, estavamos prestes a atacar umas belas bananas-pão assadas quando ouvimos um zzzzzzzzz perturbador. E vimos uma núvens de abelhas. Foi pernas para que te quero, trancas ao carro e pé no acelerador. Medo!
Com as galinhas do mato, foi tudo mais pacifico. São uns bichos bonitinhos e apareciam de vez em quando saídas da berma da estrada. Uma delas, ficou em êxtase por nos ver e atirou-se para debaixo do carro. O motorista ainda pensou em ir ver se os restos mortais davam para cozinhar (são um manjar apreciado, pelos vistos) mas deve ter visto na minha cara que a ideia de levar o cadaver no carro para Luanda me perturbava e desistiu. Fiquei aliviada.
Os dois macacos foram os únicos animais de jeito que vimos em mais de 1000km (ida e volta) por aqueles matos, florestas e savanas fora. A minha alma ficou parva e triste. A guerra deu cabo da fauna e da vida selvagem. Para quem viveu no Quénia é estranho (pelo menos os macacos, as zebras, os bambis e até girafas teriam aparecido em quantidade) . No inicio da viagem ainda dei por mim a espreitar a ver se via zebras ou bambis… nada! Pena… ficamos entregues às abelhas e às moscas.

Angolanices nº 2

O meu contacto com o Português angolano de rua tem continuado a progredir mas as visitas a escolas começam a dar frutos também.

O termo recente mais apreciado foi “então o chefe encosta o acelerador ao tapete!”, transmitido pela secretária ao chefe de uma repartição de educação, ao telefone, porque ele estava atrasado e eu estava à espera.

E sobre o “amolecimento” da educação nas escolas fiquei a saber através de uma professora indignada que hoje em dia “criança nem pode ser berrada, porque lembra de mãe morta à 5 anos e fica traumatizada”

Uma revelação deliciosa têm sido os nomes dos colégios privados… é que não há um com um nome… sei lá… discreto, convencional, para nós que somos todos Joões e Pedros e Marias.
Temos o Colégio Petra Isabel, o Colégio Patricia Rossana, o Elizangela Filomena e o maravilhoso Colégio Herinália Janete… todo um novo mundo de possibilidades.

E para terminar deixo-vos aqui, a visão da escola ideal, de 4 meninos da 3ª classe com quem falei esta manhã:

– Tem de ter Pula Pula (Castelos insuflaveis)
– Têm de cantar os parabéns a todos os alunos
– Tem de ter Carnaval
Eu: – E biblioteca?
– … pode ser… mas eu quero mesmo é ter muito chocolate na escola
Eu: – Mas isso faz mal aos dentes…
– … depois pode chover escova!

Escola da Vida

Aconselho vivamente Angola e Luanda em particular, a quem quiser um curso intensivo sobre como lidar com a frustração. Já estou a ver o título e tudo: “Como manter a calma e a sanidade mental quando nada funciona e nada depende de si”. E os conteúdos também: Exercícios anti-stress; Expectativas e Eficiência – o seu pior inimigo, livre-se delas; a técnica “Não sei, não fui eu, a culpa não é minha”; Estratégias de orientação no labirinto da burocracia inútil; Como mandar pessoas à merda sem perder a compostura… E não era nada má ideia haver igualmente um manual de sobrevivência, com muitos bonecos, porque as nossas capacidades, ao fim de uma semanita, já não são as mesmas.
Quem tiver problemas de controlo, das duas, uma ou fica curado ou avariado para sempre.
O curso pode ajudar mas também podemos exercitar uma competência extraordinária que consiste em não esperar nada, daquilo que não depende de nós e aproveitar o que vier.
Não é fácil. Mesmo com esta teoria zen toda, de vez em quando apetece-me esganar pessoas, arrancar olhos, morder canelas. Também já fiquei de trombas. Não foi bonito… e não resolveu nada.
Na maioria das vezes desço à terra, respiro fundo e fico à espera. Atenção, que não devemos confundir isto com a adopção da inércia colectiva e com o domínio da técnica “não sei, não fui eu, a culpa não é minha”. Nada disso, mantenhamos os nossos padrões de profissionalismo mas, em vez de sucumbirmos á frustração, aproveitemos o que vier. Raramente é o que se tinha planeado mas se estivermos atentos pode ser algo de extraordinário. Ou não… haja paciência .

Angolanices: Lição nº1

Luanda vista de casa.

Luanda vista de casa.

 

Os motoristas, tal como os taxistas de todo o mundo, são uma fonte de informação preciosa e agentes de integração para o desgracado do expatriado que chega a uma terra nova. É através deles que se vão desvendando as regras, a linguagem, a forma de pensar e é com eles que nos rimos de nós e da nossa ignorância e impotência.
Aprendem-se conceitos novos como o de “mulher enquadrada”, por exemplo. Numa sociedade onde o rácio homem/mulher é de cerca de 1:3, segundo a estatistica popular, a maioria das mulheres arranja parceiro, pois há muitos homens com várias mulheres. Então, há uma ou outra que fica sozinha “mas a maioria fica enquadrada”, e a estabilidade social está garantida.
Também se aprendem novas aplicações das palavras, como “chupar” em vez de beber que pode salvar-nos de vários embaraços.
Depois há coisas um pouco mais complexas como “morrer de pensamento” (que é uma das minhas preferidas!). É o mesmo que morrer de desgosto, ou de preocupação, ou de amor (que já não se usa)… enfim, é quando consumimos a vida por cismar demais numa coisa só. Ouvi esta ácerca da desvalorização da moeda que aconteceu no passado, em que de um dia para o outro as pessoas ficaram sem nada, pois o dinheiro amealhado deixara de ter valor. Foi tão mau, que “morreu muita gente de pensamento”.
E tem expressões deliciosas como a “viúva crónica” uma mulher que leva a viuvez tão a peito que veste de preto para o resto da vida e não quer nem ouvir falar de outro homem. Segundo alguns especialistas locais, viúva crónica acha que casamento é doença sem cura para o resto da vida :).

De Luanda com amor

Regresso a Angola. Muitas províncias para visitar, mas mais tempo do que é costume em Luanda. A mesma Luanda que me cheira sempre a gasolina e que me soa a rebarbadeiras, berbequins e martelos pneumáticos, mas que tem uma vida e uma energia admiráveis.
Não é uma cidade saudável, é bruta e agressiva para quem chega desavisado. Não é uma cidade para turistas. É uma cidade de trabalho, onde as oportunidades se atropelam e o dinheiro além de ter outro valor, é por si só um valor.
Para mim, é uma luta constante para não lhe “ganhar azar”, como se diz na minha terra. A capacidade de se ser positivo e ver o copo meio cheio, aqui é essencial e o exercício atinge todo um outro nível de mestria
O trânsito é ridículo. Ninguém se mexe e perdem-se horas absurdas dentro do carro. Mas de que outro modo se poderia apreciar uma pega de caras feita pela polícia a dois motociclistas sem capacete? A moto a tentar fugir por entre os carros e os dois polícias, um atrás do outro a fazer-lhe frente, a atirar-se ao volante e a obrigá-los a parar. Confesso que tive pena de não haver um terceiro polícia a agarrar o acento de trás e a fazer peões.
É obrigatório ter carro. Não se sobrevive em Luanda de outra forma, o que é estúpido dado o caos do trânsito. Sem carro sentimo-nos prisioneiros. Não há táxis, praticamente. Os que há não são de confiança. Já fiquei mais de uma vez cerca de 2h à espera deles. Depois há os táxis “informais”, mas também não são muitos e nem sempre estão disponíveis, para além de corrermos o risco de nos metermos num carro podre e ficarmos apeados, com ele a deitar fumo, num ermo qualquer. Em Luanda também não se anda a pé. Não por medo de assaltos mas porque o barulho é demasiado, os passeios nem sempre existem, o pó e a poluição destroem os pulmões e o calor é imenso. Sem transporte fica-se dependente dos outros para quase tudo. Sobretudo para o lazer e isso é uma chatice. Não há espaços verdes. A ilha de Luanda, mesmo com todos os esgotos da cidade a acabarem no mar, é um oásis de tranquilidade. A nova marginal, que alindou a baixa da cidade, é excelente para um passeio. E depois há alguns espaços culturais, bares, teatro ainda por descobrir. Tudo isto, que ajuda a suavizar a cidade bruta, fica fora de mão por falta de transporte.
A luz falha regularmente por algumas horas. A cidade cresce à bruta, muito para além das suas capacidades e infraestruturas. Cá em casa, apesar de todo o conforto, dentro de portas, estamos num 7º andar sem elevador (grande poupança com ginásio!) e muitas vezes sem luz e água (a bomba não funciona sem luz). O vizinho do lado tem um gerador. Cá em casa não há espaço, pelo que parece. Quando a electricidade falha, partilha connosco um cabo através da janela da cozinha aonde se pode ligar uma extensão para manter o frigorífico, o servidor e os computadores a funcionar. Não deixa de ser hilariante estar em casa sem luz e sem água, mas ligados ao mundo.
No meio deste caos todo, é aqui que se sente o pulsar da nação. É aqui que de meses para meses se vê a cidade a mudar e a crescer, as pessoas a fazer pela vida, o mundo inteiro à procura de oportunidades. É sobretudo aqui que os angolanos, orgulhosos, expressam através de carros sumptuosos e reluzentes, roupas caras e vistosas e um visual sofisticado, o seu sucesso. E é aqui também que esfregam o seu dinheiro na cara de toda a gente. É legitimo. Para quem andou por aqui nos últimos anos é fácil perceber a dimensão do crescimento e do desenvolvimento, em todos os sectores. Há muito para fazer, claro e muito mais para criticar também. Mas não deixa de ser admirável e Luanda é a expressão de todos estes paradoxos. Há que dar-lhe crédito por isso.
Felizmente, Angola não é só Luanda e tenho ainda Cabinda, Zaire, Bié, Kuando Kubango e Namibe pela frente 🙂A general view of Luanda Central A general view of Luanda Central Business District (CBD)

Kunene, versão National Geographic

Sete horas de viagem para ir e vir a Ombala ya Mungo. Duas das quais em estrada nova, alcatroada. Depois de me conformar com a impossibilidade de ir à Namíbia, mesmo aqui ao lado, por não ter um visto de múltiplas entradas e com a impossibilidade de ir a Kuroca, no extremo da província (montanhas, Koi San e populações isoladas que ainda estão agora a ser “descobertas”) por ser muito remoto, eis que a vida me surpreende. Tinha feito as pazes com o “modo trabalho” e a ideia “não estou aqui para passear” mas hoje, ao visitar, em trabalho, a Ombala ya Mungo, a uns 150 km da cidade dou por mim numa espécie de aventura “National Geographic”.

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Visitei o meu primeiro Kimbo, por mero acaso, porque era a casa de um dos professores que nos acompanhavam e ele quis ir cumprimentar a mãe. Não é mais do que uma casa de família no mato, mas é muito mais do que qualquer referência nossa possa imaginar. Imaginem uma quinta toda cercada com paus afiados espetados. Lá dentro, vacas e cabras, muitas, ou não estivessemos em terra de criadores de gado (um pesadelo para quem não come carne), alguma terra cultivada e alguns qilómetros depois nova cerca, alta, mais alta que eu e uma espécie de aldeia lá dentro. A “aldeia” é a casa da família. Logo na entrada 4 casas de pau e palha são os aposentos dos rapazes. Depois uma casa maior em chapa e com janelas de vidro. Era a casa do professor e outros irmãos casados tinham casas idênticas. Depois um caminho estreito levava aos aposentos das raparigas (nada de misturas) e ao pátio das visitas e dos homens. Este é um espaço a céu aberto, cercado por paus altos, com troncos estendidos para as pessoas se sentarem, uma fogueira no meio e caveiras de vacas e cornos a servir de decoração. Quem vai visitar o Kimbo, entra e aguarda ali que o venham receber e convide depois, ou não, para entrar em aposentos mais intímos. Pareceu-me que a espera pode durar horas até alguém dar conta de ter visita em casa. E isto é assim só para os homens. Se a visita for mulher, entra directamente pelo Kimbo adentro, até à palhota da cozinha, que é o lugar delas, ora pois claro. Mais para o interior do Kimbo e por entre casas de adobe, de chapa, galinheiros, cães, cabras, galinhas, crianças aos magotes e celeiros chega-se à “sala”, uma construção redonda, em adobe e palha, com uma entrada que não tem nem um metro de altura. Lá dentro, bancos de paus toscos e um tecto de palha, cheínho de teias de aranha (demasiado baixo para o meu gosto), acolhem a família ou os visitantes mais ilustres.

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O nosso professor deixa-nos à vontade e vai algures buscar a mãe para nos cumprimentar. Chega passado pouco tempo e diz-nos que ela não vem porque está incomodada. Caneco, não era caso para tanto, pensei eu, a senhora se não gosta de visitas fazia um sacrificiozinho que nós também já íamos sair. Mas entretanto, começo a ouvir perguntar, se está mesmo muito incomodada ou só um pouco. Era só um pouco, e já estava a passar. Malária? perguntaram. Parece que sim e já está medicada. Suspirei de alívio, até porque já tinha tido a minha dose de constrangimentos sociais no dia anterior. E de facto as doenças incomodam, parece-me um termo muito bem escolhido.

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E pouco depois lá saímos do Kimbo do professor e fomos visitar a escola onde a comunidade contruiu 6 salas de aula com paus e chapa mas duas turmas ainda tinham aula debaixo da árvore. E muito mais haveria para contar, incluindo a visita ao cemitério apinhado de mortos, mas estou pra morrer… de sono e por hoje só queria deixar aqui a descrição do precioso Kimbo para não me esquecer.