A MINHA MAIS RECENTE AVENTURA :)

Estava para aqui a trabalhar na minha tese há uns meses, quando comecei a sentir necessidade de fazer mais do que isso. Isto de ser perguntadora* é muito giro e tal, mas é muito solitário e eu, habituada a bolir em todas as direcções comecei a sentir-me um bocadinho inútil e com saudades de fazer voluntariado e de dar formação… é verdade! e assim as duas vontades juntinhas, logo de uma assentada.
Comecei a procurar organizações que aceitassem os meus préstimos à borlix. Não foi fácil arranjar um projecto que me seduzisse… sim, que eu trabalho à borla mas tenho de estar apaixonada pelo que faço. A maioria das instituições ligadas à Igreja… Cruzes, Credo, Canhoto! Não são para mim. Há por aí muito crente que pode ajudar. Depois algumas, só aceitam voluntariado a pagar, o que me parece um abuso. E outras ainda, com projectos que não me conquistavam. Foi o caraças, mas lá acabei por encontrar um projecto que me conquistou e um lugar onde podia fazer voluntariado através da formação. Ouro sobre azul! Cerejas em cima dos bolos!

Chama-se Ruiru Rehabilitation Center (o link está aqui do lado direito para quem quiser espreitar) e é um centro de acolhimento de órfãos entre os 6 e os 16 anos. É um centro muito pobre, que acolhe 53 crianças e jovens em 3 “barracos” de lata, tão bem organizados quanto possível. Foi um projecto criado de raiz, sem apoios nenhuns, por alguns mzungu e outros quantos locais que a pouco e pouco envolveu a comunidade de Ruiru, que é uma zona industrial e foi recebendo donativos e contribuições em género, incluindo a oferta do terreno onde está instalado o centro. Neste momento só existem dois dormitórios e as respectivas latrinas, uma sala multiusos (que serve de refeitório, espaço de lazer e sala de aulas) e uma pequena cozinha. Há um projecto para construir uma casa a sério quando se reunir os fundos necessários.
No centro está permanentemente um dos dois funcionários. Todas as crianças vão à escola, há uma constante tentativa de manter a proximidade com a família alargada, se for o melhor para elas. Em alguns casos os miúdos estão mesmo entregues ao centro e à sua sorte. Alguns têm histórias muito complicadas. Uns quantos ficaram órfãos recentemente, aquando da violência pós-eleitoral de 2008. Dois irmãos mal falam. Viram a mãe ser violada e assassinada… há várias histórias assim.
Mas há também um espírito magnífico no centro, de cooperação, entreajuda e muito afecto. Os mais velhos cuidam dos mais novos, todos ajudam nas tarefas domésticas (mesmo os rapazes, o que, aqui, é lindo) e há um sistema de compensação que aprecio particularmente. Os melhores alunos têm direito a uma viagem no final do ano lectivo (no último foram a Mombasa ver o mar e ficaram encantados), os mais bem comportados também têm compensações, assim como os mais solidários… é bonito. A comunidade local dá um apoio precioso, a fábrica do pão fornece pão diariamente, a do leite fornece leite, a da fruta igual e muitos voluntários da região contribuem para o centro.
Eu fiquei responsável por acompanhar os mais velhos e facilitar actividades que vão ao encontro das necessidades deles. Discutimos em conjunto o que seria melhor para começar e eles pediram qualquer coisa que tivesse a ver com orientação profissional porque em breve vão ter de ser autónomos. Ontem, por exemplo, passei o dia a trabalhar com eles a descoberta de potencialidades e pontos fortes de cada um e a forma de os maximizar e orientar para determinadas profissões. A auto-estima é algo a trabalhar constantemente pois eles sentem-se menosprezados e desvalorizados. É um desafio fantástico. E tenho aprendido tanto com eles! Alguns são miúdos com garra, duros; outros são dóceis e muito frágeis e eu sou só uma mzungu perguntadora lá no meio a tentar ajudá-los a ser a versão melhor deles próprios. Gosto disto!

* tradução literal da palavra swahili para investigadora “mtafiti”

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ÀS VOLTAS NO NYANZA – ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Kisumu – Esta é a terceira maior cidade do Quénia, capital da província do Nyanza, situada numa extensa baía do Lago Vitória. Rodeada pelo lago e pelos imponentes montes Nandi, a cidade tem uma geografia peculiar. A actividade comercial é intensa e não faltam mercados, supermercados e milhares de vendedores de rua. O trânsito, composto pela mais variada parafernália de transportes do país, a saber: os omnipresentes matatus, os preciosos tuk tuk, os boda boda (bibicletas de passageiros) e os piki piki (motos de passageiros), é caótico e colorido e pode ser hilariante. Apesar da correria e do frenesim comercial também aqui há parques, zonas verdes e belos bairros residenciais e as pessoas são na generalidades simpáticas e generosas.

Lago Vitória – Apesar de mítico e possuidor de uma beleza extraordinária o lago não parece atrair muitos turístas, nem o Quénia parece ter muito interesse em desenvolver infraestruturas de lazer e turismo, como acontece nos países vizinhos. Infelizmente, as margens do lago estão basicamente recheadas de bairros de lata de pescadores pobres. É difícil encontrar um parque junto à água, um restaurante, um hotel, um espaço de lazer. Mas existem… é preciso é ser perguntador e procurar debaixo das pedras. O Kenya Wildlife Service tem aqui um santuário interessante, mesmo na margem do lago, a poucos quilómetros da cidade, o Impala Park. É um belo lugar para passeios, piqueniques e muito fotogénico. Um pouco mais adiante há uma pérola, o Kiboko Bay Resort, que fica na margem, com uma paisagem de cortar a respiração e onde se pode pernoitar a preços decentes em super tendas com chão e casa de banho e mobília, comer divinamente no restaurante, no jardim, ou na piscina (experimentei camarão com erva príncipe e chorei por mais) e passear de barco no lago com direito a visita aos hipopótamos que se banham pelas margens (a não perder). Não há muitas mais opções turístcas na região, excepto um resort de luxo numa das ilhas do lago e um muito interessante pequeno resort com cabanas de tecto de palha em Mbita, no extremo sul do lago, do lado do Quénia, claro! Que eu ainda não sei se vou visitar esta semana. Depende dos transportes e dos Census 2009.

Transportes – Dentro da cidade e entre grandes cidades, há imensos e variadas opções. No entanto, nos percursos regionais entre cidades mais pequenas a coisa limita-se ao matatu, o que aqui é um bocadinho pior do que em outros lugares porque parece haver um entendimento tácito entre os matateiros e a polícia por forma a estes circularem com gente a sair pelas janelas. Estou a falar de viaturas de 14 lugares que levam em média 20 pessoas por viagem. Não é bonito! Hoje, por exemplo, tive oportunidade de fazer uma destas viagens maravilhosas entre Kisumu e Kisii, a cerca de 2h de distância. Tudo é mais organizado que nos circuitos urbanos, é certo, o que ajuda um pouco. Em vez de as pessoas se sentarem no colo umas das outras ou nos intervalos dos bancos, os matateiros fornecem pequenas tábuas rijas para colocar nos espaços entre os bancos. Haja conforto na viagem! Ora, como o que tem de ser tem muita força e eu tinha mesmo de vir a Kisii porque só aqui há 3 associações de CJ, lá tentei negociar um lugar à janela, na frente, com espaço por baixo dos meus pés para a mochila, por 2,80 euros. Nada mau. A viagem acabou por ser medianamente confortável, rápida e sem dúvida barata. Quanto à ida a Mbita, tenho de averiguar a distância porque um mzungu tem limites.

Census 2009 – Está na ordem do dia: hoje é dia de recenseamento nacional sob o slogan “Rise and be counted” (os quenianos são muito dramáticos). Espantosamente, uma coisa tão normal para uns pode ser uma dor de cabeça para outros. Aqui é uma verdadeira enxaqueca. As pessoas desconfiam de tudo. O facto de terem de responder a questões sobre pertença étnica fá-los temer represálias tribais, as questões sobre rendimentos fá-los temer a polícia… enfim… e no meio disto tudo há ameaças de “terrorismo” por parte de grupos extremistas que tentam assustar ainda mais as pessoas e um sem fim de programas de televisão e de rádio a tentar explicar aos cidadãos o que se passa. Tudo se vai desenrolar entre as 18h e as 22h de hoje. Supostamente todas as casas do Quénia serão visitadas por recenseadores devidamente identificados e treinados, acompanhados, nos meios rurais, pelos Mais Velhos ou Autoridades locais. A polícia está em alerta máximo (o que quer que isso seja!) e como nunca se sabe a que nível do imponderável as coisas podem chegar, a minha possível ida a Mbita está congelada até ter a certeza que toda a gente se levantou e foi contada em paz e sossego. Pela minha parte, estou à espera que me contem, sim, porque os turistas, estudantes, imigrantes etc, também têm de ser contados. Depois, conto como foi a contagem cá em casa!

Mas como é que alguém…??… eu, claro!

Na loja da Safaricom em Kisumu, hoje.

– Sim, já verifiquei tudo, tenho saldo, tenho o cartão inserido, marco o código certo… tudo. A única coisa que está mal é que a placa não faz a ligação à internet!

– Ontem tivemos um problema por causa da trovoada, mas hoje as ligações estão normais!

– Pelos vistos a minha não está (denotando alguma impaciência!). Tente ver o que se passa, por favor, porque deve ser alguma anomalia com o cartão.

– Deixe-me só levar o cartão para verificar uma coisa e já volto!

(Passam-se minutos infinitos de ansiedade sem notícias)

– Ora cá estamos outra vez. Diga-me uma coisa, saiu do país?

– O quê??? Não!…

– Estranho, porque tem o cartão da banda larga com tarifário de roaming…

– Não pode ser. Eu só uso esse cartão na placa de banda larga. Para o telemóvel tenho outro cartão.

– E nunca usou o cartão da placa no telemóvel?

– Eu não!!! Só o coloco no telemóvel para… para… Nãããão! Não pode ser! (e aqui comecei a rir)

– Para introduzir os dados e creditar saldo, certo? (completou o funcionário a rir também)

– Pois… se calhar troquei os cartões… e olhe… então por ainda estar com o tarifário de roaming é que ando a gastar uma fortuna em telemóvel, certo!?

– Pois… é muito mais caro!

Resumindo: a internet funciona lindamente, aqui a morcona é que de vez em quando faz das suas. Mas felizmente ainda bem que aconteceu senão andava a pagar tarifário de roaming até ao fim dos meus dias no Quénia :).

ÁFRICA MINHA

No meio de tantas notícias más e sérias e depois dos últimos posts mais pessimistas, hoje vou esquecer os problemas do mundo e partilhar convosco outra coisa.
Finalmente encontrei o que tanto ansiava. É difícil de explicar, é algo que se sente. Basicamente é aquilo que me faz querer voltar a África quando estou longe. Estou muito mais feliz!
A viagem de Nairobi para Kisumu durou umas 7h. Éramos 4 mulheres num Rav4 pois vim de boleia com 3 freiras do convento onde estou hospedada (a residência da minha primeira melhor amiga, que conheci nas aulas de Swahili) e entre muito boa disposição e risota fomos parando vezes sem conta pelo caminho, para comprar queijo (queijo, no Quénia, imaginem!!!), para comprar frutas, hortaliças e sei lá que mais aos vendedores de beira de estrada, que colam a mercadoria e a cara aos vidros do carro impedindo-nos de sair para fazer as compras. É preciso lutar com determinação e querer muito os produtos para se conseguir sair e comprar qualquer coisa. Foi portanto, com 4 mulheres, muitas malas e comida que atravessamos uma das partes mais belas do país. A viagem é emocionante! Passamos pelo Rift Valley, por parte da floresta Mau, por quilómetros e quilómetros de plantações de chá, por outros tantos de plantações de cana de açúcar e de arroz, por montes e montanhas e vales até que, chegamos finalmente ao lago. Se bem que Kisumu é geograficamente uma baia é possível, mesmo assim ter uma ideia da dimensão. Parece mar, sem fim e a janela do meu quarto está virada para lá.
Hoje foi o primeiro dia de trabalho. Era preciso começar a visitar as organizações de Comércio Justo locais. Na internet nenhuma delas tinha endereço físico e resolvi ir ao mercado de artesanato a ver se alguma banca pertencia a estas organizações para me indicarem onde ficavam as instalações e oficinas. Foi logo à primeira. Uma chamada telefónica da menina da banca e meia hora depois tenho a directora de uma delas a chegar de carro para me levar em visita. Resumindo o que a trabalho diz respeito, a coisa correu tão bem que esta vai ser um dos meus casos de estudo e já está tudo organizado para a minha estadia.
Mas a forma como cheguei a esta organização foi apenas o prelúdio daquilo que o dia me reservava. Na primeira viagem que fiz de matatu, duas raparigas que iam no banco atrás de mim, batem-me no ombros, tocam-me no cabelo e entre rizinhos perguntam-me se os meus caracóis são verdadeiros… podia ter levado a mal, é verdade! Mas não, antes ri-me com elas, apresentamo-nos e nunca mais pararam de me fazer perguntas, ao ponto de dar por mim a explicar a toda a gente dentro do matatu o que era o Comércio Justo e a distribuir abraços à saída, para além de ter ficado com o telefone das moças e prometer visitar a casa delas qd tiver oportunidade. Entretanto, porque precisava de voltar á mesma organização de tarde, resolvi apanhar um tuk tuk que se perdeu no meio da cidade porque cismou que ele, e não eu, é que sabia como chegar ao local. Típico! O que não é típico é ele chegar ao destino perdido de riso por eu saber o caminho e ele não e fazer um desconto no preço pela incompetência dele e pela simpatia minha.
Já pelo fim da tarde, a chover torrencialmente, e a caminho do convento que fica uns quilómetros fora da cidade e requer matatus interurbanos, pergunto a uma rapariga qual o matatu certo para o meu destino e ela resolve levar-me lá, contra a direcção da viagem dela e oferece-se para me pagar a viagem. (Dizia ela que sempre que vai a Nairobi fica tão perdida e ninguém a ajuda, que quando pode dá sempre uma mãozinha a quem vem de fora) Estes matatus interurbanos, não têm controlo de lotação e além de mim viajavam lá dentro mais 19 pessoas, ao que somavam dois sofás no tejadilho e as almofadas dos mesmos distribuídas pelos passageiros. Só hoje conheci mais gente, falei com mais estranhos e tive mais demonstrações de generosidade e simpatia do que ao longo dos últimos meses em Nairobi, onde as pessoas só se aproximam para mendigar ou para tentar extorquir dinheiro. Para além do factor humano fundamental, em Kisumu parece Verão, com 30º de calor húmido e está sol. Foi o dia mais produtivo e provavelmente mais feliz que tive desde que cá estou!

AS MUDANÇAS À MINHA PORTA

Ultimamente parece que o mundo está a mudar a uma velocidade alucinante, à frente dos meus olhos, enquanto eu estou sossegadamente sentada no meu sofá, como se estivesse a ver um filme em modo acelerado.
Uma grande parte das coisas que tenho lido e aprendido sobre as mudanças climáticas, a pressão demográfica e o desenvolvimento parece que teimam ultimamente em sair dos livros e materializar-se aqui. Em alguns casos é fascinante, noutros é assustador, mas em ambos os casos fico com a sensação de viver num laboratório.
Por exemplo, apesar de as mudanças climáticas serem evidentes em todo o mundo e de termos acesso a informação sobre o que se se passa por todo o lado, nesta região de África começam a sentir-se consequências ambientais, económicas e sociais que ainda não se sentem na Europa, pelo menos de forma tão óbvia. No corno de África e na região dos grandes lagos, o aquecimento global traduz-se numa enorme redução da precipitação anual, que se tem vindo a sentir há alguns anos e que agora resulta numa seca intensa. A seca origina perda de colheitas, redução do caudal dos rios, baixa do nível dos lagos ou mesmo desaparecimento de alguns e isso põe em perigo o equilíbrio dos ecossistemas, a segurança alimentar, a biodiversidade e a paz social. Agora que a seca também se sente intensamente na capital, onde a electricidade é racionada e a água também, multiplicam-se as notícias sobre o impacto económico daí resultante (com negócios e empresas afectados e aumento do desemprego) e outros, que me pareciam ainda mais distantes como o facto de numa região de forte implementação da pastorícia, a perda de pasto levar os pastores a invadir terrenos agrícolas para alimentar os animais. Ora sendo a divisão das actividades laborais muito marcada etnicamente (entre pastores e agricultores) estas tensões sociais podem acender o rastilho do sempre latente conflito étnico.
A fome é um facto em muitas regiões do Quénia e nos países vizinhos. As lutas internacionais, regionais e étnicas pelo acesso e domínio da água também. As novas doenças e epidemias, como a gripe suína já chegaram e atingiram crianças de uma escola primária isolada, sem ninguém perceber como. Por entre um não acabar mais de problemas e consequências nefastas, multiplicam-se também os esforços para os solucionar e atenuar. O governo do Quénia criou um programa de emergência para apoio alimentar às regiões mais afectadas e isoladas, com a ajuda dos militares. A Cruz Vermelha do Quénia e outras organizações locais fazem recolha de alimentos nos supermercados e apelam à solidariedade nacional. Apesar de todas as organizações internacionais e do Apoio do Programa Alimentar Mundial (muito insuficiente) é bom ver os quenianos a tentar resolver os seus problemas.
A reflorestação e protecção dos ecossistemas está na boca do mundo, é tema de conversas de café e título de todos os jornais. O Presidente resolveu ontem promulgar a prisão imediata de todos os “settlers” da floresta Mau que não abandonem os seus terrenos (há um esquema de compensação para quem provar a propriedade das terras), mesmo sabendo que muitos são familiares e amigos de Membros do Parlamento e de gente muito importante. Claro que a transição para a reflorestação da floresta deveria ter sido feita com tempo e ter uma forte componente educacional (os agricultores habituados à técnica do “cortar e queimar” floresta para cultivar vão continuar a faze-lo noutro lugar) mas de alguma forma está a ser feita e isso já é positivo.
E num contexto de profunda injustiça social e económica onde a consciência social e de cidadania quase não existe, onde as pessoas fazem muito pouco para se defender a si próprias e parecem preferir esperar pela intervenção divina, foi lindo, ontem ligar a televisão e ouvir centenas de trabalhadores da Kenya Airways, a horas de iniciarem uma greve nacional depois de falhadas as negociações do sindicato com a companhia, a cantar “the people united cannot be defeated”.
O Quénia é um belo lugar para assistir de camarote ao bom e ao mau dos nossos tempos. É como ver o mundo a mudar mesmo à minha porta.

AS MUDANÇAS À MINHA PORTA

Ultimamente parece que o mundo está a mudar a uma velocidade alucinante, à frente dos meus olhos, enquanto eu estou sossegadamente sentada no meu sofá, como se estivesse a ver um filme em modo acelerado.
Uma grande parte das coisas que tenho lido e aprendido sobre as mudanças climáticas, a pressão demográfica e o desenvolvimento parece que teimam ultimamente em sair dos livros e materializar-se aqui. Em alguns casos é fascinante, noutros é assustador, mas em ambos os casos fico com a sensação de viver num laboratório.
Por exemplo, apesar de as mudanças climáticas serem evidentes em todo o mundo e de termos acesso a informação sobre o que se se passa por todo o lado, nesta região de África começam a sentir-se consequências ambientais, económicas e sociais que ainda não se sentem na Europa, pelo menos de forma tão óbvia. No corno de África e na região dos grandes lagos, o aquecimento global traduz-se numa enorme redução da precipitação anual, que se tem vindo a sentir há alguns anos e que agora resulta numa seca intensa. A seca origina perda de colheitas, redução do caudal dos rios, baixa do nível dos lagos ou mesmo desaparecimento de alguns e isso põe em perigo o equilíbrio dos ecossistemas, a segurança alimentar, a biodiversidade e a paz social. Agora que a seca também se sente intensamente na capital, onde a electricidade é racionada e a água também, multiplicam-se as notícias sobre o impacto económico daí resultante (com negócios e empresas afectados e aumento do desemprego) e outros, que me pareciam ainda mais distantes como o facto de numa região de forte implementação da pastorícia, a perda de pasto levar os pastores a invadir terrenos agrícolas para alimentar os animais. Ora sendo a divisão das actividades laborais muito marcada etnicamente (entre pastores e agricultores) estas tensões sociais podem acender o rastilho do sempre latente conflito étnico.
A fome é um facto em muitas regiões do Quénia e nos países vizinhos. As lutas internacionais, regionais e étnicas pelo acesso e domínio da água também. As novas doenças e epidemias, como a gripe suína já chegaram e atingiram crianças de uma escola primária isolada, sem ninguém perceber como. Por entre um não acabar mais de problemas e consequências nefastas, multiplicam-se também os esforços para os solucionar e atenuar. O governo do Quénia criou um programa de emergência para apoio alimentar às regiões mais afectadas e isoladas, com a ajuda dos militares. A Cruz Vermelha do Quénia e outras organizações locais fazem recolha de alimentos nos supermercados e apelam à solidariedade nacional. Apesar de todas as organizações internacionais e do Apoio do Programa Alimentar Mundial (muito insuficiente) é bom ver os quenianos a tentar resolver os seus problemas.
A reflorestação e protecção dos ecossistemas está na boca do mundo, é tema de conversas de café e título de todos os jornais. O Presidente resolveu ontem promulgar a prisão imediata de todos os “settlers” da floresta Mau que não abandonem os seus terrenos (há um esquema de compensação para quem provar a propriedade das terras), mesmo sabendo que muitos são familiares e amigos de Membros do Parlamento e de gente muito importante. Claro que a transição para a reflorestação da floresta deveria ter sido feita com tempo e ter uma forte componente educacional (os agricultores habituados à técnica do “cortar e queimar” floresta para cultivar vão continuar a faze-lo noutro lugar) mas de alguma forma está a ser feita e isso já é positivo.
E num contexto de profunda injustiça social e económica onde a consciência social e de cidadania quase não existe, onde as pessoas fazem muito pouco para se defender a si próprias e parecem preferir esperar pela intervenção divina, foi lindo, ontem ligar a televisão e ouvir centenas de trabalhadores da Kenya Airways, a horas de iniciarem uma greve nacional depois de falhadas as negociações do sindicato com a companhia, a cantar “the people united cannot be defeated”.
O Quénia é um belo lugar para assistir de camarote ao bom e ao mau dos nossos tempos. É como ver o mundo a mudar mesmo à minha porta.

BANCO DAS MULHERES

Inaugurou há cerca de quinze dias, em Dar-es-Saleem, na Tanzania, e já é um sucesso. É sabido e vem nos livros que um dos entraves ao desenvolvimento em África é o facto de a banca ser pouco flexível, estar mergulhada em burocracia e não dispôr de produtos financeiros inovadores de acordo com o contexto local para promover o investimento e a poupança dos cidadãos africanos. O Banco das Mulheres (literalmente Women’s Bank) vem preencher esta lacuna e tem por objectivo alargar a sua presença a outro países africanos. Após anos de espera pelo licenciamento e apoio público, um grupo de mulheres, cientes das suas especificidades e necessidades, conseguiu finalmente concretizar este projecto. Porque as mulheres têm geralmente menos capacidade de oferecer garantias bancarias, uma vez que raramente detêm a propriedade da terra ou possuem empregos assalariados com remuneração regular, mas possuem uma enorme capacidade de trabalho e oferecem mais confiança no pagamento de crédito (demonstrado por vários estudos sobretudo relativos ao micro-crédito), assim como uma maior capacidade de gestão da riqueza (afinal são elas que de muito pouco fazem muito para alimentar as suas famílias), o Banco das Mulheres nasceu para elas. Para abrir uma conta basta apresentar um documento de identidade e depositar 2USD, para financiar os seus projectos basta apresentar ao banco as suas ideias e necessidades e negociar, caso a caso, cada pedido de crédito para o qual o banco dispõe de uma série de produtos de micro-crédito inovadores. Uma vez que as mulheres que mais necessitam destes serviços à medida, são as que vivem em meios rurais e mais isoladas, o Banco das Mulheres prevê a abertura de inúmeras pequenas filiais nas localidades mais pequenas assim como a criação de um serviço de apoio ao cliente e de operações bancárias disponível por telefone, a baixo custo e abrangendo todo o país numa primeira fase.
O Banco das Mulheres, existe já em muitos países onde, à semelhança do que aconteceu com o Gramen Bank, disponibiliza uma série de produtos inovadores e adaptados às realidades locais, com resultados excelentes, como no caso do Sri Lanka ou da Índia. Em África esta é a primeira experiência.