A LESTE, O PARAÍSO

Para quem anda distraído, é importante começar a dar o verdadeiro valor ao impacto que o extraordinário desenvolvimento económico da China e da Índia vai ter (e já está a ter) no mundo e muito especialmente, em África.

Não há equívocos entre interesses públicos e pessoais, ajuda e corrupção.  A China e a Índia têm interesses estratégicos no continente, nos recursos naturais, no mercado de trabalho, nas relações diplomáticas e são claros quanto ao que pretendem. Estão aqui para fazer negócio e nestes negócios, que não são ajuda, nem cooperação, nem caridade ainda não percebi muito bem se os cidadãos comuns ficam a ganhar, mas os estados africanos são soberanos nos negócios que fazem e seja a democracia mais desenvolvida e com mais mecanismos de supervisão e o balanço talvez seja positivo.

E isto veio a propósito de uma notícia publicada hoje nos jornais e da reacção dos leitores online. Os EUA desaconselham os seus cidadãos a visitar o Quénia por questões de segurança, enquanto a Somália for um foco de tensão e ameaça regional. Eis a resposta deliciosa deste leitor que espelha a opinião da maioria dos que fizeram comentários online:

Submitted by Krue
Posted Janeiro 27, 2010 05:22 PM

Thank you mr. Ambassador and I continue to wonder what you are doing in this unsafe country enjoying it so much that you mix and mingle with the locals in traditional regalia. Spare us your cheap talk and go back to the US as soon as you can. With no Americans visiting Kenya, Kenya will not lose much if anything at all. They do not visit as much anyway. Kenya needs to tap the east especially China, there are investors, tourists and are a whopping 2 billion of them!

MZALENDO, O PATRIOTA

Quantas vezes nos perguntamos sobre o que podemos fazer para tornar as nossas sociedades mais justas e os nossos governos mais transparentes enquanto cidadãos comuns? Apenas para, na maioria das vezes, nos acomodarmos à frustração de não podermos fazer nada, ao sentimento de inferioridade de quem acha que não tem poder nem voz. É assim em Portugal. É assim quando os níveis de abstenção eleitoral são elevados, é assim quando não exigimos os nossos direitos e manifestamos os nossos descontentamentos, é assim quando os movimentos sociais são pobres e é assim quando confundimos política com partidarismo e nos demitimos daquele que eu acho que é o nosso primeiro dever e direito enquanto cidadãos: participar activamente na sociedade, a nível local e global. Mas é assim em muitos lugares. Chamam-lhe crise democrática, alienação social… enfim, é um sintoma grave de um mundo em agonia.
Mas em muitos lugares do mundo a situação é ainda mais grave do que em Portugal, muito mais grave. Muitas democracias são artificias. outras tantas são jovens, outras ainda de democracia só têm o nome. Em muitos lugares falta consciência democrática, conhecimentos e instrumentos de participação social e de supervisão do Estado e falta sobretudo um certo nível de bem-estar social que permita às pessoas serem cidadãos de pleno direito. Não tenhamos ilusões. Enquanto a primeira preocupação do indivíduo for a sobrevivência até ao dia seguinte, seja por falta de comida, de água, de segurança, não podemos esperar que ele seja activo na defesa e no desenvolvimento dos seus concidadãos. E em muitos lugares este é o quotidiano da maior parte da população e a democracia apenas uma palavra estrangeira, imposta por estrangeiros para satisfação de alguns estrangeiros.
Apesar de tudo, de vez em quando, o solo mais árido pode produzir milagres, como as rosas efémeras do deserto de Atacama, da mesma forma que nas sociedades mais improváveis podem surgir fenómenos sociais extraordinários e inspiradores.
O Quénia não é um exemplo de estabilidade e maturidade democrática e enfrenta os mesmos problemas de muitos outros países no mundo onde a democracia não foi conquistada pelo povo mas imposta pela comunidade internacional e onde a maior parte da população se preocupa mais com a sobrevivência quotidiana do que com a participação social. Também não é um exemplo de transparência e responsabilidade governativa. Mas foi aqui que nasceu, contra todas as probabilidades, o MZALENDO: Eye on Kenyan Parliament e o MARS Group Kenya, dois sites que têm por objectivo supervisionar e responsabilizar o Estado. Curiosamente, mzalendo, significa “patriota” em Swahili e, de facto, haverá maior acto de patriotismo (seja o nosso conceito patriótico associado a fronteiras, línguas, religiões ou pertença comum à humanidade) do que monitorizar, denunciar, comentar e participar para cuidar da nossa sociedade?


QUE GÉNERO DE IGUALDADE QUEREMOS CONSTRUIR?

O casamento entre dois homens de origem queniana, que teve lugar recentemente no Reino Unido, deu origem no Quénia a expressões de homofobia próximas do delírio colectivo mas abriu o debate, ainda que muitas vezes insano, sobre um dos maiores tabus deste e de muitos países africanos. E quando a maioria, incomodada simplesmente por ter de falar no assunto, preferia que os homossexuais simplesmente não pudessem existir, eu questiono-me até que ponto não estamos nós todos, ainda que através do silêncio e da negligência, a participar neste jogo perigoso contra os direitos individuais, quando criamos, por exemplo, Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, que defendem a igualdade de género apenas numa perspectiva heterossexual moralista.

Um dos argumentos mais utilizados e quanto a mim dos mais absurdos e desinformados, é o de a homossexualidade não existir em África e de a sua defesa ser uma forma de imperialismo ocidental. Ora o imperialismo tem as costas larguíssimas por aqui e a sua definição é bastante selectiva. Também é considerado imperialista, por muitos, a defesa dos direitos das mulheres ou a insistência da comunidade internacional na necessidade de acabar com a corrupção, ou até os direitos laborais. Claro que já não é de todo imperialista a dinâmica cada vez maior de destruição ambiental ou os padrões de consumo. A referência ao imperialismo serve sobretudo para accionar o sentimento de culpa ocidental quando se tenta promover direitos e liberdades, como se as culturas fossem estanques, fechadas ao mundo e às influências exteriores e como se fosse possível cristalizá-las. Ou seja, como se fosse possível ter telemóveis de última geração e internet e dar a volta ao mundo em algumas horas, mas continuar a viver de acordo com a sociedade do tempo de Jesus ou Maomé, sociedade esta, ainda por cima, interpretada ao bel prazer de cada um, de cada pastor, de cada padre, de cada líder muçulmano.

No Quénia, a respeito desta questão, a única coisa verdadeiramente imperialista, é a lei que criminaliza a homossexualidade, que foi introduzida no início do sec. XX pelo governo colonial britânico, baseada numa lei inglesa de 1533, que tornou o crime punido com pena de morte até 1861, altura em que foi reduzida para prisão entre 10 anos a perpétua. Em Inglaterra a homossexualidade foi descriminalizada em 1967 pelo “Sexual Offences Act”, mas mantém-se no Quénia onde esta herança do imperialismo britânico justifica, agora, um puritanismo africanista que não é mais que o resultado deste cocktail onde a uma lei caduca dos ingleses, se junta o fundamentalismo religioso (de todas religiões), o obscurantismo e o desrespeito pelo indivíduo.

O artigo de opinião de Okiya Omtatah Okoiti, com o título “Unlike Christianity and Islam, homosexuality is unAfrican”, publicado no Daily Nation resume na perfeição o tipo de posições que se esgrimiram a propósito deste assunto. Mas outros argumentos competem para a insanidade da discussão a que por cá se assiste, entre os quais, a ligação constante da homossexualidade à pedofilia com várias pessoas a afirmarem que se se aceitar um comportamento estamos a um passo de aceitar o outro. Esquecem-se, estes malabaristas da retórica, que num caso estamos a falar do comportamento sexual consentido entre dois adultos e noutro de abuso sexual de menores. Se pensarmos que esta semana foi notícia de primeira página um relatório que denuncia o abuso sexual continuado de milhares de raparigas quenianas, nas escolas, pelos próprios professores, homens supostamente heterossexuais, e que o impacto da notícia foi muito menor do que a do casamento destes dois cidadãos quenianos, algo vai muito mal. Não entendo!

Felizmente, muitas foram também as vozes que se ergueram para refutar estes argumentos violentos e defender a privacidade do casal em causa, apesar do risco, sempre presente, de serem eles próprios acusados de serem homossexuais (caso contrário não os defenderiam, no pensamento de muitos). Recordo em particular uma observação de uma das principais cronistas da imprensa queniana, uma mulher sem papas na língua, que afirmava a propósito, que o maior problema dos quenianos era preocuparem-se em demasia com o que se passa em cama alheia. Eu não podia concordar mais!

Mas a bem da discussão, independentemente dos argumentos, o melhor de tudo foi ter-se criado espaço para falar em público de tão grande tabu. Os jornais foram invadidos literalmente por e-mails e cartas veementes, contra e a favor, a questionar e a informar… enfim, a opinar sobre a homossexualidade.

Mas a defesa da homossexualidade é uma falsa questão. Não é a homossexualidade ou a heterossexualidade que deve ser defendida, mas os indivíduos que, independentemente das suas orientações sexuais, papéis sociais ou de género devem ter acesso aos mesmos direitos de cidadania e ao respeito. E é por isto mesmo que as políticas de desenvolvimento e nomeadamente os ODM, ao centrarem-se exclusivamente na promoção da igualdade de género, estão a ser insuficientes e a pactuar com uma visão redutora da sexualidade humana assente na heterossexualidade e na dicotomia do masculino e feminino. Nem sequer vou argumentar recorrendo a Foucault ou outros pensadores contemporâneos sobre a construção social do próprio sexo, que tem muito que se lhe diga, como resposta à recorrente visão funcionalista da sexualidade e sobre o que é “natural” ou não é “natural”.

Quero apenas deixar aqui um alerta preocupado, para a necessidade de se ir mais longe e com mais empenho na defesa dos direitos dos indivíduos que é tão frágil em tantos lugares do mundo. Apesar de compreender, de certa forma, a limitação dos ODM no que respeita à defesa exclusiva da igualdade de género, como forma de centrar todos os esforços e recursos nessa batalha árdua, não posso deixar de achar a estratégia perigosa e reflexo de um certo moralismo ocidental, onde apesar do muito já alcançado em termos da garantia de direitos individuais, se continua a advogar a heterossexualidade como modelo de comportamento sexual “correcto“. Acredito sinceramente que seria muito mais produtivo e justo defender a igualdade entre todos os indivíduos, independentemente da sua cor, etnia, género, orientação sexual, classe social ou religião. Seria mais difícil, é certo, pois não há sociedades perfeitas onde todos vemos expressas as nossas convicções e valores, mas promoveria o respeito pelas diferenças e o diálogo.

AS MUDANÇAS À MINHA PORTA

Ultimamente parece que o mundo está a mudar a uma velocidade alucinante, à frente dos meus olhos, enquanto eu estou sossegadamente sentada no meu sofá, como se estivesse a ver um filme em modo acelerado.
Uma grande parte das coisas que tenho lido e aprendido sobre as mudanças climáticas, a pressão demográfica e o desenvolvimento parece que teimam ultimamente em sair dos livros e materializar-se aqui. Em alguns casos é fascinante, noutros é assustador, mas em ambos os casos fico com a sensação de viver num laboratório.
Por exemplo, apesar de as mudanças climáticas serem evidentes em todo o mundo e de termos acesso a informação sobre o que se se passa por todo o lado, nesta região de África começam a sentir-se consequências ambientais, económicas e sociais que ainda não se sentem na Europa, pelo menos de forma tão óbvia. No corno de África e na região dos grandes lagos, o aquecimento global traduz-se numa enorme redução da precipitação anual, que se tem vindo a sentir há alguns anos e que agora resulta numa seca intensa. A seca origina perda de colheitas, redução do caudal dos rios, baixa do nível dos lagos ou mesmo desaparecimento de alguns e isso põe em perigo o equilíbrio dos ecossistemas, a segurança alimentar, a biodiversidade e a paz social. Agora que a seca também se sente intensamente na capital, onde a electricidade é racionada e a água também, multiplicam-se as notícias sobre o impacto económico daí resultante (com negócios e empresas afectados e aumento do desemprego) e outros, que me pareciam ainda mais distantes como o facto de numa região de forte implementação da pastorícia, a perda de pasto levar os pastores a invadir terrenos agrícolas para alimentar os animais. Ora sendo a divisão das actividades laborais muito marcada etnicamente (entre pastores e agricultores) estas tensões sociais podem acender o rastilho do sempre latente conflito étnico.
A fome é um facto em muitas regiões do Quénia e nos países vizinhos. As lutas internacionais, regionais e étnicas pelo acesso e domínio da água também. As novas doenças e epidemias, como a gripe suína já chegaram e atingiram crianças de uma escola primária isolada, sem ninguém perceber como. Por entre um não acabar mais de problemas e consequências nefastas, multiplicam-se também os esforços para os solucionar e atenuar. O governo do Quénia criou um programa de emergência para apoio alimentar às regiões mais afectadas e isoladas, com a ajuda dos militares. A Cruz Vermelha do Quénia e outras organizações locais fazem recolha de alimentos nos supermercados e apelam à solidariedade nacional. Apesar de todas as organizações internacionais e do Apoio do Programa Alimentar Mundial (muito insuficiente) é bom ver os quenianos a tentar resolver os seus problemas.
A reflorestação e protecção dos ecossistemas está na boca do mundo, é tema de conversas de café e título de todos os jornais. O Presidente resolveu ontem promulgar a prisão imediata de todos os “settlers” da floresta Mau que não abandonem os seus terrenos (há um esquema de compensação para quem provar a propriedade das terras), mesmo sabendo que muitos são familiares e amigos de Membros do Parlamento e de gente muito importante. Claro que a transição para a reflorestação da floresta deveria ter sido feita com tempo e ter uma forte componente educacional (os agricultores habituados à técnica do “cortar e queimar” floresta para cultivar vão continuar a faze-lo noutro lugar) mas de alguma forma está a ser feita e isso já é positivo.
E num contexto de profunda injustiça social e económica onde a consciência social e de cidadania quase não existe, onde as pessoas fazem muito pouco para se defender a si próprias e parecem preferir esperar pela intervenção divina, foi lindo, ontem ligar a televisão e ouvir centenas de trabalhadores da Kenya Airways, a horas de iniciarem uma greve nacional depois de falhadas as negociações do sindicato com a companhia, a cantar “the people united cannot be defeated”.
O Quénia é um belo lugar para assistir de camarote ao bom e ao mau dos nossos tempos. É como ver o mundo a mudar mesmo à minha porta.

O MATA E A GUERRA DOS SEXOS

Parece que se trata de brincadeiras mas, infelizmente, são questões muito sérias. Na sequência dos conflitos pós-eleitorais em 2007, os líderes dos dois principais partidos resolveram a questão com a criação de uma coligação governamental encabeçada por dois homens, o actual presidente Kibaki e o actual primeiro ministro Raila Ondinga. Mas a convivência dos dois tem sido difícil. Entre conflitos de interesses, protagonismos, favoritismos e escândalos financeiros e pessoais, o Quénia vive na iminência de o governo cair e serem convocadas eleições antecipadas. Não me lembro de dia nenhum em que os jornais não apresentem grandes cabeçalhos sobre a crise da coligação. É um verdadeiro jogo do Mata, aquele que estes dois senhores jogam, a ver quem morre primeiro. O problema é que o país ainda não recuperou da violència pós eleitoral, ainda não se pacificou nem se reconciliou e o fantasma dos conflitos étnicos, aguçados pelo perverso jogo destes dois políticos, pairam como uma ameaça constante à paz e à democracia.
Tudo piora quando se recorre a estratégias absurdas para alimentar este jogo e entreter o povo. Durante a última semana, o país viu-se mergulhado numa verdadeira Guerra dos Sexos, quando um grupo de mulheres ilustres anunciou a Greve do Sexo durante uma semana, como forma de protesto de todas as mulheres do Quénia contra a instabilidade da coligação. Também parece uma brincadeira, mas infelizmente não é. Durante uma semana, o Kibaki e o Ondinga (cuja própria senhora veio a público dizer que nessa semana o primeiro-ministro seria privado dos seus”direitos conjugais”) viram as atenções centrarem-se naquilo que acabou por ser interpretado como um disparate de meia dúzia de feministas e que acabou por elevar o sexo ao estatuto de arma. Num país onde a violência sobre as mulheres é socialmente aceite eu pergunto-me quantas terão poder para gerir a sua sexualidade e negar aos seus parceiros aquilo, que para eles é considerado um direito legítimo, em nome da estabilidade de um governo que nada faz para as proteger. Para quem leva uma tareia por não ter a comida na mesa à hora certa, a ideia de dizer “não” ao sexo exigido pelo parceiro, não deve parecer muito boa ideia. Por outro lado, mesmo que a maior parte das mulheres pudesse recorrer à sua sexualidade como se de uma arma se tratasse, isso não legitimaria também o mesmo recurso por parte dos homens? E depois assiste-se ao absurdo do senhor fulano de tal que resolveu processar o grupo de mulheres que lançou a campanha, porque como esteve sem sexo durante uma semana sentiu-se muito mal, subiu-lhe a tensão, apareceram-lhe terríveis dores de cabeça e coitado, não aguenta com dores nas costas, tudo, segundo ele, porque a sua Maria se recusou a cumprir as suas obrigações conjugais. E é absurdo um suposto grupo de feministas, lançar uma campanha deste género, recorrendo ao sexo como arma por uma semana, validando assim, as “obrigações” a que as mulheres estão sujeitas no seu dia a dia. Como se o sexo fosse uma cláusula contratual aceite por todos e apenas violada durante uma semana para desviar a atenção do ridículo dos políticos para pôr a ridículo as mulheres.
Felizmente, muitas mulheres também se revoltaram contra esta campanha e tentaram elevar a discussão a um nível mais sério, mais útil e mais eficaz, mas o estrago já estava feito.

QUE NUNCA NOS FALTE LIBERDADE!

Hoje é um dia importante no país onde nasci. É importante para todas as mulheres porque têm direitos iguais, para todas as crianças que podem ir à escola, para todas as pessoas que podem ser o que lhes der na real gana, para todas as pessoas que podem defender as causas que bem entenderem e para todas as pessoas que podem manifestar-se, criticar e opinar sem serem abatidos pela polícia à queima-roupa ou detidos sem culpa formada. É importante para a Esquerda e para a Direita porque podem coexistir.
Sempre achei o 25 de Abril um dia importante, mas nunca como este ano. Há muitas coisas que estão mal, todos sabemos. Também preferia ter um ensino de qualidade em vez de ter ensino obrigatório até aos 18 anos para embelezar as estatísticas. Gostava que houvesse mais equilíbrio social, mais oportunidades, menos preconceitos. Gostava que o meu país fosse melhor. Gostava de ter melhores políticos e melhores cidadãos.
Mas hoje estou longe de casa, num país fascinante que estou a descobrir aos poucos, mas onde há várias coisas que me incomodam. Todas elas têm a ver com a falta de liberdade. Incomoda-me um líder estudantil ser impedido de completar a sua formação por se ter manifestado, incomoda-me a homossexualidade ser um crime, incomoda-me as mulheres não terem direitos iguais e serem constantemente vítimas de violência, incomoda-me o fanatismo religioso que impõe códigos morais castradores e que atentam contra a liberdade individual, incomodam-me os preconceitos relativamente a tudo o que foge à norma e incomoda-me bastante que me chamem mzungu, que significa europeu, mas que na verdade serve para denominar todos os brancos. Se o significado fosse literal, seria motivo de orgulho para mim, porque é o que eu sou – Europeia – cada vez mais, sempre que me confronto com outras culturas. Assim não.
São tantas as faltas de liberdade que me incomodam que me lembrei especialmente de casa, hoje.
E assusta-me que na maior parte do mundo a liberdade seja um bem cada vez mais escasso. Podia fazer-se com as revoluções o que alguns casais apaixonados fazem com os casamentos: renovar os votos. Eu quero renovar os votos da revolução francesa para que na Europa nunca nos falte liberdade, nem igualdade, nem fraternidade.