Banqueiro dos Pobres – A história do Grameen Bank

A expectativa relativamente a este livro era enorme. O microcrédito é uma realidade incontornável para quem trabalha na área do Desenvolvimento, uma inovação com resultados comprovados, que veio para ficar e tinha, portanto, bastante curiosidade em conhecer melhor o homem por trás da ideia e o processo de crescimento do Grameen Bank.

É sem dúvida, um livro inspirador, daqueles que nos fazem acreditar que é possível mudar um bocadinho o mundo. É uma história impressionante de experiências, erros e sucessos. É um testemunho apaixonado sobre a visão de Muhamad Yunus relativamente ao mundo que o rodeia, aos problemas dos nossos tempos e sobre a melhor forma de os resolver.

E eu dei por mim, apesar de tudo, com vontade de morder nas canelas do Sr. Yunus, que é como quem diz de lhe dizer muitas vezes “Olhe que não…”. “Sossega, olha que o homem ganhou um prémio Nobel e tudo, deve perceber mais disto que tu” era uma frase que ecoava permanentemente na minha cabeça… sem grande sucesso no apaziguamento da minha inquietação.

Deixem-me esclarecer uma coisa, eu sei que o microcrédito é uma ferramenta poderosíssima na luta contra a pobreza e que o Grameen Bank e o seu fundador são exemplos fantásticos de preserverança, criatividade e sucesso. O problema é que não acho que esta seja uma panaceia para a pobreza e a solução para todos os problemas de má governação e exclusão social.

Ao ler esta biografia quase que acreditamos que o Sr. Yunus é um sujeito tão vulgar como o nosso vizinho do lado e que só porque teve uma boa ideia e trabalhou árduamente conseguiu alcançar todos os seus sonhos. É assim que ele se vê a si próprio e é assim que o vemos se nos deixarmos levar pelo discurso apaixonado. Mas não é verdade. Ele é um cidadão privilegiado de um dos países mais pobres do mundo, que teve oportunidade de estudar no estrangeiro, de se rodear de pessoas influentes e de pertencer à élite e esse facto foi crucial em várias fases da vida do Grameen Bank. Fosse ele um comum cidadão anónimo (sem conhecer pessoas influentes no governo do Bangladesh, no Banco Mundial, nas Nações Unidas, em grandes ONGDs) e duvido muito que a história fosse a mesma.

Concordo totalmente com ele quando crítica a “indústria” do desenvolvimento e a forma como a ajuda é canalizada e mal usada. Quando ele afirma que instituições como o Banco Mundial seriam muito mais eficazes se tivessem sedes em países como o Bangladesh,  em vez de Washington, se estivessem próximos da pobreza que querem combater e se poupassem recursos necessários para os mais pobres reduzindo o peso da “máquina” do desenvolvimento e os privilégios dos que lá trabalham, tem o meu total apoio.

Mas quando compara os pobres do Bangladesh com o pobres do Ocidente criticando sobretudo na Europa, aquilo que ele considera um obsoleto sistema de protecção social que impede os pobres de sair da pobreza, que os marginaliza e destitui de auto-confiança e meios para serem auto-suficientes, cai numa generalização infeliz e desconhecedora da realidade. Quando coloca no mesmo patamar a influência nefasta do ultra-liberalismo económico e aquilo a que chama a “caridade” Europeia, afirmando que a competição é muito mais eficaz para promover o desenvolvimento (desde que “socialmente responsável” mas sem controlo estatal) do que a caridade, pois os pobres sabem muito bem como sair da pobreza, por si próprios, se tiverem acesso a algum dinheiro, eu pergunto-me se estamos a viver no mesmo mundo.

Em primeiro lugar os Sistemas de Segurança Social não são todos iguais e não podem ser todos metidos no mesmo saco. Mas mesmo generalizando e mesmo com todas as limitações e incongruências que reconhecemos no sistema, não é um sistema baseado na caridade, mas sim na solidariedade e na cooperação. É muito imperfeito, precisa de supervisão, precisa de políticas mais eficazes mas baseia-se no princípio da solidariedade em que quem tem mais deve contribuir para ajudar quem tem menos e em que o Estado deve providenciar serviços básicos a todos os cidadãos. Eu sei que é um conceito Europeu, entranhado na nossa genética histórica, mas o facto de ele o criticar tanto fez-me pensar a sério no assunto. É uma opção política, sem dúvida. Eu prefiro viver num Estado solidário do que num Estado meramente competitivo mas percebo o ponto de vista dele relativamente ao poder da competição, o que não posso é ficar indiferente quando ele chama caridade à solidariedade e quando faz afirmações categóricas sobre a forma como os “nossos” pobres, a viver de pensões e subsídios são subjugados e castrados pelo sistema. Não consigo deixar de ser cínica e de pensar que adorava ver a cara do Sr. Yunus perante a criatividade e empreendedorismo de tantos Portugueses que dominam de tal forma o sistema que fazem dele um modo de vida, que se aproveitam das falhas enormes que existem para manipular a seu favor os recursos que devem ser usados com maior justiça e critério. Não estamos a falar da Srª X do Bangladesh que depois de um microcrédito ganhou auto-confiança, ganhou um pouco mais de dinheiro e agora pode comer 3 refeições por dia (o que é excelente, sem dúvida). Estamos a falar de pobres, que apesar de todas as falhas do nosso sistema educativo foram à escola, que apesar de todas as falhas do nosso sistema de saúde têm uma muito maior esperança de vida e que apesar de todos os problemas podem ter acesso a incentivos para criar empresas, pequenos negócios ou viverem de biscates prestando serviços necessários, muitas vezes muito bem pagos.

Também não posso concordar com o Sr. Yunus quando afirma que todos os pobres sabem como sair da pobreza desde que tenham dinheiro. Continuamos a falar de realidades a universos de distância. Para ele sair da pobreza é poder comer 3 vezes ao dia e morrer depois dos 50 anos e para isso basta se calhar escapar a um intermediário para ter um pouco mais de lucro na fiação de tecido, ou comprar uma bicicleta para ir vender directamente ao mercado. Quando ele tenta passar esta ideia de um quase empreendedorismo natural por parte de todos os pobres, eu gostava que ele viesse aqui, ao Quénia (sim, porque ao Bangladesh eu nunca fui e portanto concluo que por lá as coisas possam ser diferentes) e perguntasse aos pobres quais são os seus sonhos (como diria uma querida amiga a trabalhar nos bairros de lata de Nairobi, “se for vendedor de tomates, quer vender um bocadinho mais de tomates, nem sequer quer ter uma loja, uma banca mais bem localizada ou revender tomates para outros vendedores”) para perceber que as pessoas quase não sonham, que a inércia e o “follow the leader” são o pão deles de cada dia e que ter acesso a microcrédito, por si só não resolve nada.

Fiquei decepcionada. Reconheço obviamente a importância do micro-crédito e o mérito do Grameen Bank na sua criação e difusão mas esta ideia de que o Sr. Yunus se vangloria de não ser nem de Esquerda, porque acredita que o Estado deve interferir o menos possível na vida colectiva e que é a competição no mercado que permite ultrapassar a pobreza, nem de Direita, porque acha que o ultra-liberalismo actual é cruel e explora os mais pobres perpetuando a pobreza, deixa-me desconcertada. A crença dele no mercado regido por princípios de solidariedade social é interessante mas a sociedade à imagem do Grameen Bank é uma utopia (privado, lucrativo mas a ajudar os pobres) se não houver regulamentação e uma sociedade civil forte e participativa.

Recomendo vivamente a leitura do livro. Dá que pensar. Faz-nos sair das nossas zonas de conforto e provoca-nos inquietação. É bom! Is Food for Thought.