Angolanices nº 2

O meu contacto com o Português angolano de rua tem continuado a progredir mas as visitas a escolas começam a dar frutos também.

O termo recente mais apreciado foi “então o chefe encosta o acelerador ao tapete!”, transmitido pela secretária ao chefe de uma repartição de educação, ao telefone, porque ele estava atrasado e eu estava à espera.

E sobre o “amolecimento” da educação nas escolas fiquei a saber através de uma professora indignada que hoje em dia “criança nem pode ser berrada, porque lembra de mãe morta à 5 anos e fica traumatizada”

Uma revelação deliciosa têm sido os nomes dos colégios privados… é que não há um com um nome… sei lá… discreto, convencional, para nós que somos todos Joões e Pedros e Marias.
Temos o Colégio Petra Isabel, o Colégio Patricia Rossana, o Elizangela Filomena e o maravilhoso Colégio Herinália Janete… todo um novo mundo de possibilidades.

E para terminar deixo-vos aqui, a visão da escola ideal, de 4 meninos da 3ª classe com quem falei esta manhã:

– Tem de ter Pula Pula (Castelos insuflaveis)
– Têm de cantar os parabéns a todos os alunos
– Tem de ter Carnaval
Eu: – E biblioteca?
– … pode ser… mas eu quero mesmo é ter muito chocolate na escola
Eu: – Mas isso faz mal aos dentes…
– … depois pode chover escova!

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Escola da Vida

Aconselho vivamente Angola e Luanda em particular, a quem quiser um curso intensivo sobre como lidar com a frustração. Já estou a ver o título e tudo: “Como manter a calma e a sanidade mental quando nada funciona e nada depende de si”. E os conteúdos também: Exercícios anti-stress; Expectativas e Eficiência – o seu pior inimigo, livre-se delas; a técnica “Não sei, não fui eu, a culpa não é minha”; Estratégias de orientação no labirinto da burocracia inútil; Como mandar pessoas à merda sem perder a compostura… E não era nada má ideia haver igualmente um manual de sobrevivência, com muitos bonecos, porque as nossas capacidades, ao fim de uma semanita, já não são as mesmas.
Quem tiver problemas de controlo, das duas, uma ou fica curado ou avariado para sempre.
O curso pode ajudar mas também podemos exercitar uma competência extraordinária que consiste em não esperar nada, daquilo que não depende de nós e aproveitar o que vier.
Não é fácil. Mesmo com esta teoria zen toda, de vez em quando apetece-me esganar pessoas, arrancar olhos, morder canelas. Também já fiquei de trombas. Não foi bonito… e não resolveu nada.
Na maioria das vezes desço à terra, respiro fundo e fico à espera. Atenção, que não devemos confundir isto com a adopção da inércia colectiva e com o domínio da técnica “não sei, não fui eu, a culpa não é minha”. Nada disso, mantenhamos os nossos padrões de profissionalismo mas, em vez de sucumbirmos á frustração, aproveitemos o que vier. Raramente é o que se tinha planeado mas se estivermos atentos pode ser algo de extraordinário. Ou não… haja paciência .

Angolanices: Lição nº1

Luanda vista de casa.

Luanda vista de casa.

 

Os motoristas, tal como os taxistas de todo o mundo, são uma fonte de informação preciosa e agentes de integração para o desgracado do expatriado que chega a uma terra nova. É através deles que se vão desvendando as regras, a linguagem, a forma de pensar e é com eles que nos rimos de nós e da nossa ignorância e impotência.
Aprendem-se conceitos novos como o de “mulher enquadrada”, por exemplo. Numa sociedade onde o rácio homem/mulher é de cerca de 1:3, segundo a estatistica popular, a maioria das mulheres arranja parceiro, pois há muitos homens com várias mulheres. Então, há uma ou outra que fica sozinha “mas a maioria fica enquadrada”, e a estabilidade social está garantida.
Também se aprendem novas aplicações das palavras, como “chupar” em vez de beber que pode salvar-nos de vários embaraços.
Depois há coisas um pouco mais complexas como “morrer de pensamento” (que é uma das minhas preferidas!). É o mesmo que morrer de desgosto, ou de preocupação, ou de amor (que já não se usa)… enfim, é quando consumimos a vida por cismar demais numa coisa só. Ouvi esta ácerca da desvalorização da moeda que aconteceu no passado, em que de um dia para o outro as pessoas ficaram sem nada, pois o dinheiro amealhado deixara de ter valor. Foi tão mau, que “morreu muita gente de pensamento”.
E tem expressões deliciosas como a “viúva crónica” uma mulher que leva a viuvez tão a peito que veste de preto para o resto da vida e não quer nem ouvir falar de outro homem. Segundo alguns especialistas locais, viúva crónica acha que casamento é doença sem cura para o resto da vida :).

De Luanda com amor

Regresso a Angola. Muitas províncias para visitar, mas mais tempo do que é costume em Luanda. A mesma Luanda que me cheira sempre a gasolina e que me soa a rebarbadeiras, berbequins e martelos pneumáticos, mas que tem uma vida e uma energia admiráveis.
Não é uma cidade saudável, é bruta e agressiva para quem chega desavisado. Não é uma cidade para turistas. É uma cidade de trabalho, onde as oportunidades se atropelam e o dinheiro além de ter outro valor, é por si só um valor.
Para mim, é uma luta constante para não lhe “ganhar azar”, como se diz na minha terra. A capacidade de se ser positivo e ver o copo meio cheio, aqui é essencial e o exercício atinge todo um outro nível de mestria
O trânsito é ridículo. Ninguém se mexe e perdem-se horas absurdas dentro do carro. Mas de que outro modo se poderia apreciar uma pega de caras feita pela polícia a dois motociclistas sem capacete? A moto a tentar fugir por entre os carros e os dois polícias, um atrás do outro a fazer-lhe frente, a atirar-se ao volante e a obrigá-los a parar. Confesso que tive pena de não haver um terceiro polícia a agarrar o acento de trás e a fazer peões.
É obrigatório ter carro. Não se sobrevive em Luanda de outra forma, o que é estúpido dado o caos do trânsito. Sem carro sentimo-nos prisioneiros. Não há táxis, praticamente. Os que há não são de confiança. Já fiquei mais de uma vez cerca de 2h à espera deles. Depois há os táxis “informais”, mas também não são muitos e nem sempre estão disponíveis, para além de corrermos o risco de nos metermos num carro podre e ficarmos apeados, com ele a deitar fumo, num ermo qualquer. Em Luanda também não se anda a pé. Não por medo de assaltos mas porque o barulho é demasiado, os passeios nem sempre existem, o pó e a poluição destroem os pulmões e o calor é imenso. Sem transporte fica-se dependente dos outros para quase tudo. Sobretudo para o lazer e isso é uma chatice. Não há espaços verdes. A ilha de Luanda, mesmo com todos os esgotos da cidade a acabarem no mar, é um oásis de tranquilidade. A nova marginal, que alindou a baixa da cidade, é excelente para um passeio. E depois há alguns espaços culturais, bares, teatro ainda por descobrir. Tudo isto, que ajuda a suavizar a cidade bruta, fica fora de mão por falta de transporte.
A luz falha regularmente por algumas horas. A cidade cresce à bruta, muito para além das suas capacidades e infraestruturas. Cá em casa, apesar de todo o conforto, dentro de portas, estamos num 7º andar sem elevador (grande poupança com ginásio!) e muitas vezes sem luz e água (a bomba não funciona sem luz). O vizinho do lado tem um gerador. Cá em casa não há espaço, pelo que parece. Quando a electricidade falha, partilha connosco um cabo através da janela da cozinha aonde se pode ligar uma extensão para manter o frigorífico, o servidor e os computadores a funcionar. Não deixa de ser hilariante estar em casa sem luz e sem água, mas ligados ao mundo.
No meio deste caos todo, é aqui que se sente o pulsar da nação. É aqui que de meses para meses se vê a cidade a mudar e a crescer, as pessoas a fazer pela vida, o mundo inteiro à procura de oportunidades. É sobretudo aqui que os angolanos, orgulhosos, expressam através de carros sumptuosos e reluzentes, roupas caras e vistosas e um visual sofisticado, o seu sucesso. E é aqui também que esfregam o seu dinheiro na cara de toda a gente. É legitimo. Para quem andou por aqui nos últimos anos é fácil perceber a dimensão do crescimento e do desenvolvimento, em todos os sectores. Há muito para fazer, claro e muito mais para criticar também. Mas não deixa de ser admirável e Luanda é a expressão de todos estes paradoxos. Há que dar-lhe crédito por isso.
Felizmente, Angola não é só Luanda e tenho ainda Cabinda, Zaire, Bié, Kuando Kubango e Namibe pela frente 🙂A general view of Luanda Central A general view of Luanda Central Business District (CBD)