Labirintos da memória

Vai para duas semanas que ela não consegue dormir. Não consegue dormir para além daqueles poucos minutos de sono profundo em que sonha com os flamingos e acorda aterrorizada, quase sem conseguir respirar. Todas as noites a mesma cena, a mesma angústia, o mesmo medo. No sonho está um belo dia de Sol e céu azul e um grupo de flamingos cor de rosa voa tranquilamente sobre a superfície de um lago demarcado a branco por uma aureola de sal que brilha com a luz. Simone esta na margem, sentada num banco de madeira, protegida pela sombra de uma acácia. Esta a olhar para o lago enquanto espera por alguém. Ela nunca se lembra por quem espera, mas acorda com a sensação clara de estar junto daquele lago a aguardar por alguém.6132_1148796651021_2118988_n
Está sozinha quando a água azul, bordejada por cristais de sal, começa a ficar vermelha, da cor do sangue. No princípio, ela pensa que são os flamingos cor de rosa, em bando a pousar na água, que dão a ilusão de a pintar de outra cor. Mas a mancha vermelha vai-se alastrando, engolindo a água e os flamingos levantam voo em alvoroço e escurecem o céu. A água, até então calma do lago, agita-se, revolta-se e levanta-se do leito em ondas medonhas que começam por cobrir a orla de sal e depois por invadir toda a terra em volta. Simone levanta-se de um salto, com o coração a bater descompassado e, quando se prepara para correr dali para fora, é atacada pelos flamingos que a imobilizam enquanto fazem um barulho ensurdecedor. Tudo à volta dela é vermelho: a água, o céu, os flamingos. Tem os braços e o rosto ensanguentados pela luta e num último esforço de sobrevivência tenta libertar-se e correr. Sente a presença de outra pessoa muito próxima, vira-se com esforço, levanta-se e quando olha nos olhos do recém chegado ouve um tiro, seco e rápido, sente uma dor aguda no peito e começa a ver tudo vermelho em seu redor.
Nesse preciso momento, Simone acorda. Todas as noites, a mesma hora, ela acorda deste sonho mau depois de ter passado a maior parte da noite sem dormir e não consegue voltar a fechar os olhos.

 

– Se voltares a cruzar o meu caminho, acabo contigo! Desaparece da minha vista, para sempre.- dizia Teresa, num tom frio e implacável enquanto o ameaçava com uma adaga antiga, mas afiada.
– Mas filha, não foi por mal, tudo o que eu fiz foi para te proteger. Não queria que soubesses a verdade para não sofreres.
– Não voltes a chamar-me filha! Eu não sou tua filha. Tu és um assassino. Mataste os meus pais, ficaste com as propriedades e os bens deles e só não me mataste também porque era apenas um bebé e a mãe… a tua mulher, não deixou e quis ficar comigo.
– Meu Deus! A morte da tua mãe deixou-te louca, que disparates estás para aí a dizer? Os teus pais foram assassinados pelos rebeldes e pediram-me, desesperados, para fugir contigo no colo e te salvar.
– Mentira, tudo mentira… a mãe… a tua mulher contou-me tudo antes de morrer. Eu estava lá. Ela tinha um peso enorme dentro dela, uma culpa, um remorso imenso por nunca me ter dito a verdade e não conseguia morrer sem aliviar o coração.
– A tua mãe tomava tantos medicamentos por causa da doença que não estava nela. Ela confundiu tudo, não foi assim que as coisas aconteceram.
– Sai daqui, de uma vez por todas. Desaparece da minha vida – gritou Teresa completamente transtornada e com a adaga perigosamente próxima do rosto do homem que lhe roubara a família.

 

De tempos a tempos a vida dos homens vale menos. Nessas alturas morre-se com facilidade, com mais facilidade. Muitas vezes às mãos daqueles em quem confiamos ou quando menos esperamos. Quase sempre sem aviso prévio ou explicação.
Viviam-se tempos desses quando eles morreram. Morreram por um punhado de terra, um piano de causa, pratas e porcelanas, uns títulos do tesouro, um cofre com dinheiro e jóias e dois baús de memórias. Morreram ás mãos do capataz, homem de confiança, que já tinha servido a geração anterior. A ida a muitos encontros de grupos armados que lutavam pela independência envenenou-lhe o coração. Começou a odiar os donos da casa. A mestiçagem e o nascimento naquela terra não lhes dava legitimidade, nem cidadania, nem direito à vida. Não foram mortes ideológicas, nem políticas, nem com nenhum sentido de vingança. Foram mortes mesquinhas, nascidas da ganancia.
É curioso que, nesses tempos, em que a vida dos homens vale menos, a memória não tem onde guardar tantas mortes e rapidamente morre também.

 

– Doutor, já lhe disse que não tenho memórias da minha infância. Não sei porquê mas não me lembro de nada antes dos seis ou sete anos. As minhas primeiras memórias são da escola, da minha avó a levar-me o lanche ao recreio, das brincadeiras com os outros miúdos… Fui uma criança normal. Os meus pais morreram num acidente quando era pequena mas vivi sempre com a minha avó, tios, primos… tudo normal doutor. Eu só preciso que me receite qualquer coisa para dormir.
– E esse sonho recorrente que a Simone tem? Alguma coisa no sonho lhe parece familiar, lhe traz alguma lembrança?
– Doutor, é um sonho horrível. Dê-me algo para eu dormir e não sonhar ,por favor…
– Eu vou dar-lhe e vou ajuda-lá Simone, mas a insónia e um sintoma de algo que precisamos consertar e preciso da sua ajuda para descobrir o que é. E esse sonho tem uma carga simbólica enorme que precisamos explorar.
– Eu não gosto de me lembrar dele, mas e verdade que no início, naquele momento em que estou sentada a ver o lago e os flamingos, enquanto espero por alguém, sinto… não sei como explicar… sinto-me bem naquele lugar… mais do que sentir bem, reconheço aquele lugar. Mas eu não tenho memória de alguma vez ter estado ali.

 

Teresa sentou-se na sala. Á frente dela, encostado aos joelhos, tinha um pequeno baú de pau preto, ricamente trabalhado, com entalhes de prata. Na mão, a chave que a mãe adoptiva lhe entregara antes de morrer, quando lhe contou a verdade sobre as suas origens.
Acariciou a madeira, fechou os olhos e inalou o cheiro forte do ébano. Ali dentro estava tudo o que restara da vida dos pais. Ela não tinha memória deles. Ninguém  á volta dela se lembrava deles. O que estivesse naquele baú contaria a única história a que ela tinha acesso. A história dela. Pegou na chave devagarinho, rodou-a na fechadura e abriu o tampo para trás.
A primeira coisa em que pegou foi numa caixa de sapatos. Lá dentro tinha roupa de bebé recém nascido. Pegou numa camisinha cor de rosa, minúscula, e quando a abriu viu o nome Teresa bordado no peito. Sentiu as lágrimas a quererem fugir e respirou fundo. Ao lado estava um conjunto de discos em vinil: Bach sobretudo. Vários livros. Num deles, Teresa reparou que havia uma flor seca a marcar uma página com uma pequena nota : “Hoje fizeste-me sentir o homem mais feliz do mundo, Meu Amor!” Sorriu. Pareciam ter sido felizes. Essa ideia dava-lhe uma enorme sensação de conforto. Continuou a analisar cuidadosamente o conteúdo do baú, até que chegou a uma caixa metálica de biscoitos. Abriu-a com cuidado, como se de uma caixa de Pandora se tratasse. Estava cheia de fotografias. Umas muito antigas, amarelecidas pelo tempo mostrando várias pessoas em poses de retrato e uma fotografia da casa, em construção. Outras a preto e branco, ainda os retratos de família, alguns em frente á casa, fotografias de crianças e jovens. Uma em particular, chamou-lhe a atenção: um casal muito jovem a rir, felizes. Ela encostada a uma bicicleta, ele a segurá-la pela cintura. Seriam os seus pais? Tão bonitos, tão felizes, tão jovens? Olhou atentamente cada pormenor dos seus rostos e corpos na tentativa de encontrar semelhanças físicas. Não poderia ter a certeza. Continuou a ver outras fotografias, algumas também a cores e reparou em várias do mesmo casal, já mais velho, com uma criança nos braços. Teresa olhou com cuidado. Era ela. A criança era muito parecida com as fotos dela própria mais pequena. Afinal, eram estes os seus pais. Continuou a ver fotografias até que uma lhe chamou a atenção. Aí, o mesmo casal segurava duas crianças. A mãe com um bebé de colo e o pai com uma criança de seis ou sete anos. Os quatro sorriam para a câmara. O bebé de colo era igualmente muito parecido com ela, nas suas fotografias de criança, mas a menina mais velha também era parecida com outras fotografias que Teresa tinha com mais idade. Encostou-se no sofá sem conseguir tirar os olhos daquelas pessoas que eram a sua família. Quem era aquela criança? Seria possível ter tido uma irmã? E perdida nestes pensamentos, Teresa olhou para o horizonte, para a savana que se estende para lá do alpendre da casa, até ao lago, ao fundo, que brilha com os cristais de sal a refletir a luz do Sol e onde os flamingos pintam a água de vermelho.

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Coisas que só me acontecem em Luanda

Uma pessoa vai à baixa comprar papel de embrulho para um presente. Depois de muito trilhar por entre buracos, poças de água, lama, caos rodoviário e multidões de gente, encontra uma loja de tudo. Sim, daquelas do tipo das dos chineses, mas pior que as dos chineses.
Entramos e quando a porta se fechou atrás de nós, suspiramos de alívio com o ar condicionado a refrescar o corpo e olhamos espantadas para a parafernália de brinquedos, têxteis lar, material escritório, roupa, perucas e extensões, artigos para festas e mais mil e uma coisas que se possam imaginar, tudo pendurado no teto ou acomodado em prateleiras sobrelotadas e espalhado pelo chão.
Sinto que se der um passo inicio uma reacção em cadeia que pode provocar um cataclismo destruidor. Não vemos ninguém. E é então que somos dominadas pelo cheiro intenso a marisco. Eu e a minha amiga olhamos perplexas uma para a outra. “Cheira a marisco!?” – perguntamos em simultâneo.
Ouvimos uma voz, longínqua a dizer “Pode entrar.” Avançamos às cegas por entre a mercadoria e damos de caras com um balcão, onde por entre calculadoras, caixa registadora e mais sei lá o quê se encontra uma bacia de plástico, enorme, cheia de camarão cozido e várias folhas de jornal com montanhas de cascas. Tranquilas e empenhadas, duas mulheres agarradas a dois enormes camarões, perguntam o que desejamos, sem os largar.
“Queremos papel de embrulho”
“Procura aí do teu lado e vê qual queres” diz uma delas a chuchar uma cabeca de camarão com a máxima concentração.
Conseguimos encontrar o expositor. Os papéis eram todos pirosos mas lá se escolheu o menos mau. Estavam as folhas todas emaranhas e não conseguíamos tirar o que queríamos sem ajuda. Uma das mulheres, compreensiva, larga a cabeca de camarão e vem em nosso auxílio sem sequer limpar as mãos. Foi tão eficiente a agarrar as folhas que eu nem tive tempo de dizer “cuidado, vai ficar a cheirar a camarão”. Ainda teve a delicadeza de limpar subtilmente as mãos à parte de trás da folha, que enrolou muito direitinha e nos entregou. Mal ficou com as mãos livres atacou outro bicho e nunca mais o largou enquanto fez a conta, o troco e se despediu de nós.
Chegadas à rua, mal sentimos o choque de calor, barulho e cheiro a podre da cidade, suspiramos de alívio. Parecia que tínhamos vivido uma versão angolana das Crónicas de Narnia, onde em vez de um armário, tinhamos a loja a servir de portal entre mundos.

Procurada!… por tráfico de cajú.

ImageOuvia-se por todo o aeroporto: “passageiro Moreira da Silva ao gabinete do check in”. O polícia que se preparava para me carimbar a saída no passaporte, olha para mim e diz-me que é melhor ir ver o que se passa. “Eu!?” “Sim, estão a chamar o seu nome” Tinha-me parecido que poderia ser qualquer outra pessoa.

Lá fiz o caminho todo de volta e entro na parte reservada do check in onde as malas de porão passam no raio X. “Temos algumas dúvidas sobre as coisas que leva na mala. Consegue dizer-nos o que são estes volumes?” Olho para a imagem do raio X e desato a rir “Ahhhhh, isso são sacos com castanha de cajú” “E onde está o documento de exportação?”, pergunta a funcionária. “Ó minha senhora, então eu comprei isso acabadinho de torrar na chapa, na rua, como havia de ter documentos?” Ela continua, em tom pedagógico, a explicar a necessidade de documentos para levar o que quer que seja do país. “Ok, pois… eu tenho muita pena, mas não tenho documentos, e também não lhe quero causar problemas, por isso fique lá com os cajus” digo eu. “Nada, também não quero prejudicá-la, eu já percebi que não sabia… como fazemos?”

Aqui eu fico baralhada. Quando me colocam um problema eu fico à espera que me apresentem uma solução, por isso aqui eu só podia dizer-lhe que era com ela. A funcionária é que me disse que era ilegal levar 4kg de cajú para Portugal, ela que dissesse o que queria.

“O meu chefe vai dar-me problemas”, responde-me. “Pois, isso não pode ser, fique lá com o cajú” “Não, também não é preciso, mas se me der uma contribuição para eu depois aturar o meu chefe, é mais fácil, sabe?” Eu não sabia… estava a léguas e nem pensei, peguei no porta moedas “Ahhh é só isso, tudo bem, deixe ver se tenho alguns meticais” “Seja mais discreta”, pede-me a funcionária. E lá lhe dei 500 meticais que acho que tornaram uns cajus baratinhos numa compra muito cara, mas pude voltar à sala de embarque e trazer o produto do crime comigo.

Durante o resto da noite, chamaram ao gabinete do ckeck in mais 5 ou 6 pessoas. Deve ter sido um dia lucrativo 🙂

Moçambique – Alerta amarelo!

A última semana foi passada em Muxungué e na região envolvente, uma das mais pobres e isoladas. No início do mês houve ataques armados, mortos, feridos e pânico generalizado. Ganharam vida, velhos e novos fantasmas da guerra. A viagem foi adiada até ao limite porque havia que cumprir normas de segurança e a região, já bem isolada, ficou quase interdita, com recolher obrigatório e estradas desaconselhadas.

A desinformação é muita mas da boca da população o que se houve é que tudo começou com um ataque das autoridades e descambou com um contra-ataque da Renamo. É comum a polícia impedir as reuniões, comícios e actividades em geral da Renamo. Há casos de dirigentes agredidos, militantes presos e espancados. Desta vez, como em outras, a polícia entra num edifício onde estavam reunidos militantes da Renamo, dispara indescriminadamente, espanca e prende uma série de pessoas. É de salientar que estamos em época de campanha eleitoral para eleições municipais a realizar em Junho e que a actividade partidária é mais do que normal.

Ora a seguir, consta que um grupo de militantes da Renamo, numa bela noite entra pela esquadra da polícia adentro e dispara a matar sobre quem lá estava. Diz o povo que perante esta confusão toda, não faltaram oportunistas a servir-se da confusão para causar ainda mais distúrbios e roubos e pânico. Foi um pandemónio! Morreram várias pessoas. A população fugiu da cidade, as escolas fecharam, os negócios fecharam e durante dias ficou toda a gente na expectativa.

A Renamo há muito que pede uma revisão da lei eleitoral para ter direitos iguais aos da Frelimo. (Direitos estes alterados pelo governo e contrários ao Acordo de Paz) O Presidente, pessoa pouco querida por gente de todos os quadrantes políticos incluindo o dele, parece que é do tipo arrogante, surdo e pouco competente. Ouve-se falar de Chissano com muita saudade.

A compôr o circo da desmocracia, o presidente histórico da Renamo, abalou há meses para o seu reduto de guerra na Gorongosa, a partir de onde faz exigências ao governo e ameaça pegar em armas de vez em quando. Neste momento, 15 dias após os atentados em Muxungué, a Renamo exige ser levada a sério nas suas reivindicações e quer respostas do governo ou não se candidatará a eleições. O governo, infantiliza o adversário e faz-se de mouco e de burro. O povo, entre a piada fácil (do género “o Chissano levou anos a tirar o Dlakama do meio do mato e o Guebuza manda-o para lá outra vez) e a desvalorização dos acontecimentos, não deixa de sentir um nervoso miudinho de quem sabe que as coisas podem dar para o torto.

Felizmente, um conflito aqui na região, não deve ser do interesse de ninguém nesta altura. Mas temos uma democracia da treta, gente prepotente com armas e uma população ignorante e não me parece que dois velhos casmurros e com egos enormes consigam resolver a desmocracia a bem.

Domingo no Chimoio

Ao domingo vai-se à missa, casa-se, sai-se à rua e almoça-se em família. Um pacote de actividades banais engalanado por toaletes brilhantes e coloridas, música, dança, cânticos e a fatidica morte da galinha.

Basta um pequeno passeio na cidade, pela manhã, para vermos a religião em acção. As igrejas (de todas as confissões possíveis e imaginadas) estão repletas de gente, com as portas abertas e os crentes menos madrugadores encavalitados, do lado de fora, a tentar participar na missa. Em todas elas se ouvem cânticos alegres e se vê as pessoas a dançar e a bater palmas. Nada de missas cinzentas e solenes. À volta das igrejas veem-se grupos de pessoas a ensaiar cantorias e a dançar. Elas de capulanas iguais, eles de fato (sempre dois tamanhos acima) e gravatas espampanantes. São a personificação da alegria. Em algumas igrejas evangélicas a alegria é elevada a histeria, com os cânticos e danças a roçar o transe e um pastor de microfone na mão aos gritos a falar do Senhor. 

Este ritual dominical confunde-se com outro, que são os casamentos, também eles cheios de cantigas, danças, música. É tradição, depois da cerimonia religiosa os noivos e os convidados irem celebrar para a praça ou jardins da cidade. É um mar de gente embrulhada em cores vibrantes, elas de rosa choque, vermelho sangue, azul turquesa, verde fluorescente, eles de camisas de cetim a combinar com elas e fatos com calças de pregas, sempre dois tamanhos a cima. Os grupos dos casamentos chegam muitas vezes em carrinhas de caixa aberta que circulam pela cidade com toda a gente lá dentro a cantar e a dançar. O carro dos noivos, quando existe, é enfeitado com fitas de Natal brilhantes. Depois é ver esta gente toda na praça principal: filas de homens e mulheres uns em frente aos outros a cantar e a dançar. Filas de gente a seguir o noivo, que impõe o ritmo, e que serpenteiam pela praça em festa. É uma alegria.

Mas domingo, sem almoço em família, não é domingo e almoço em família é sinónimo de galo. Sim, o tradicional não é galinha e quando perguntei porquê o galo, que até é mais duro e mais pequeno, disseram-me que era “por ser galo, claro, por ser macho!”. Uma explicação brilhante. Quer isto dizer que por entre as pessoas em festa e emperiquitadas que andam na rua ao domingo de manhã se vê uma grande quantidade delas a carregar galos destinados à guilhotina e à panela. Aliás depois das cantorias da missa, começa a ouvir-se os galos a correr pela vida nos quintais, a fugir à cozinheira assassina. Os vizinhos aqui do lado, por exemplo, hoje tiveram um difícil de matar. Fartou-se de correr e cacarejar e voltar a fugir das mãos da morte, mas acabou na panela como os outros.

 

A betinha nos trópicos

A betinha sou eu, claro. Uso maquilhagem nem que tenha de recorrer ao retrovisor do jipe, fujo, grito e choro com insectos feios, descasco a fruta e disponha-a com arte no prato, uso perfume e creme de corpo e verniz nas unhas.  E não como carne (pelos deuses!).

São pequenas coisas que fazem parte de mim, dos meus hábitos de conforto. Obviamente não morro sem elas, mas lá por de vez em quando andar nos confins de África não significa que tenha de parecer uma mulher das cavernas. Sem exageros, que não me maquilho propriamente com olhos esfumados a fazer trabalho de campo, nem ando de saltos altos e clutch… mas há que manter os meus padrões mínimos de bem-estar. Eu não sou outra pessoa cá, sou a mesma.

Mas hà situações muito engraçadas. É conhecida a minha mariquice com a bicharada pequena. Ainda há uns dias, deixei um grupo de adolescentes com quem estava a trabalhar perplexos e a chorar de rir porque fui mordida por uma tse tse, e saí disparada a correr pela sala fora (doi que se farta, verdade!)… e não voltei a entrar. Obriguei toda a gente a vir para fora, enfrentar uma ventania dos infernos. Nessa noite quando lavei o cabelo, de balde e caneca, parecia que me saia lama da cabeça.

Mas também houve aquele dia em que o jipe não chegava à escola e tivemos de nos fazer a pé pelo meio do mato. À frente era só homens grandes e fortes mas  a certa altura começam a fugir aos gritos. “O que foi?”, pergunto eu. “Tem cobra doutora.” Eu suspiro, sorrio “As cobras fogem com a trepidação, batam os pés com força ao andar que elas fogem” e lá segui à frente, a enchotar répteis com eles todos atrás de mim desconfiados.

E houve um dia em que ia sendo atropelada enquanto me maquilhava. Sim estas coisas podem pôr em risco a vida das pessoas. Era a casa de passagem mais simples por onde passámos. Tudo limpíssimo mas conforto mínimo. Um quarto com uma cadeira de plástico e uma cama no meio. Cozinha, escritório e sala de refeições ao ar livre. Latrina ao fundo do quintal. Espelhos, nada. Então, estou eu a pôr rímel usando um dos retrovisores do jipe quando o motorista entra sem me ver e faz marcha atras sem eu ter tempo, nem para um ai. Tive de carregar na maquilhagem dos dias seguintes para disfarçar a nódoa negra na testa. O senhor ficou inconsolável e eu com uma bela dor de cabeça.

Mas uma das coisas mais caricatas é a minha aversão à empregadagem. Não às pessoas, em si, claro, mas ao facto de haver empregados para tudo, dentro de casa a toda a hora. Por um lado, eu gosto de tratar das minhas coisas e por outro gosto de privacidade. O facto de ser uma betinha complica-me ainda mais a situação porque baralha as pessoas. É um hábito entranhado na cultura local em todos os países africanos por onde passei. Quem tem alguma coisa, arranja logo um empregado ou empregada para cozinha e serviço doméstico a tempo inteiro. Sim, não há cá trabalho a dias.

Uma pessoa sai de manhã da casa de banho, ainda estremunhada, e já tem o batalhão de limpeza à porta de Cif e esfregona na mão. E eu só com o meu meio neurónio matinal a funcionar faço tudo pela metade e tenho de voltar várias vezes à casa de banho. Então, está a empregada a lavar a sanita e eu peço desculpa mas preciso lavar os dentes. Depois ela está a lavar o lavatório e eu peço desculpa mas preciso maquilhar-me e quando ela julga que está tudo arrumado eu vou lá outra vez arrumar os caracóis e molho tudo. É um stress.

A parte gira, é que com as mudanças graduais dos papéis de género, há cada vez mais homens domésticos em África. Neste momento em que escrevo, por exemplo, está o Sr. António, no corredor, a passar roupa a ferro e deve estar amuado porque eu não o deixei fazer o almoço.

 

O melhor são sempre as pessoas

A humanidade sempre me fascinou e não há nada melhor do que deixarmo-nos surpreender por ela. Abana-nos as estruturas, as crenças, os preconceitos. Coisas como, ouvir alguém que julgamos ignorante a transmitir sabedoria, alguém que julgamos vulnerável a demonstrar tenacidade e resistência ou alguém que julgamos inflexível a abraçar a mudança, são das coisas mais maravilhosas a que podemos assistir. E mesmo quando tentamos não criar expectativas sobre os outros e achamos que tudo é possível (com muito treino e vários erros, que o exercício é difícil :)), este tipo de surpresas são fascinantes. As pequenas coisas que revelam o melhor da humanidade. E que nos fazem descer à Terra para não pensarmos que já sabemos tudo.

Esta semana dura de trabalho terminou com chave ouro. Com aquele momento em que, depois de dias a fio a pensar que não se sabe por onde começar para melhorar a vida das pessoas e promover algumas mudanças, percebemo que afinal elas já começaram e que está tudo bem.

Foi num encontro com facilitadores comunitários, pessoas que organizam encontros comunitários para mudar práticas tradicionais que prejudicam a saúde ou as crianças ou as mulheres, por exemplo. Sobre o fim do projecto que os formou e orientou levanta-se um Mais Velho, e no seu melhor português muito pensado e articulado com dificuldade diz isto:

“Os conhecimentos estão dentro de nós e não podemos parar. Temos ainda que trabalhar com essas ideias porque não ajudou a (…), ajudou a nós mesmos e o caminho é para a frente. Não se anda para trás. Só gostava de mais formação ainda, porque o conhecimento não acaba e é preciso ser aumentado para ir mais avante”.

Não sei se isto fora do contexto tem o mesmo efeito que teve em mim quando ouvi… mas fez-me ganhar a semana.