Balanço da viagem a Mbanza Congo:

Dois macacos, muitas galinhas do mato (uma delas suicidou-se quando nos viu), um enxame de abelhas doidas, uma praga de moscas tse tse, muitas tabuletas de trânsito chinesas e dores pelo corpo todo.
Comecemos pelo fim. Um terço da viagem (200 e tal km) é feita em estrada de terra batida. Estamos na época da chuva e portanto há sulcos profundos, lama, pedras e basicamente metade do percurso(em horas) assemelha-se a viajar em cima de uma plataforma vibratória. É doloroso. A cereja em cima do bolo é a nódoa negra gigante no osso do pescoço provocada pelo cinto de segurança. Precisava de uns dias de SPA, mas adiante…
Felizmente, este percurso tortuoso tem os dias contados. Há uma estrada a ser construida. Ao longo do caminho, de vez em quando, lá aparece um desvio para meia duzia de metros de alcatrão. A parte deliciosa é que sendo uma estrada construída pelos chineses a sinaletica é imitação. São triângulos ou circulos de madeira pintados a amarelo, com contorno vermelho e sinais impossíveis de compreender: setas que apontam para lado nenhum, rabiscos a imitar saidas e entradas de viaturas e a minha preferida, um gatafunho tipo serpente antes de cada desnível. São exercícios de imaginação.
O raio das moscas do sono é que são uma praga. Eu tenho medo de baratas e de abelhas. Não tenho medo de moscas. Mas, quando um filho da terra, fica em pânico de cada vez que vê uma, a fechar o carro imediatamente, eu começo a ver a minha vida a andar para trás. A dada altura vejo uma bicha pousada no tabliê, comprida, acastanhada, achatada… estranha e pergunto se era aquilo uma mosca tse tse. Foi o caraças. Travanço repentino, agressões à bicha em tentativas desesperadas para a matar ou obrigar a sair do carro. Matei-a eu e seguimos viagem. Na fronteira provincial, a polícia manda-nos parar no controlo e temos de abrir as janelas para falar com as autoridades. O polícia do meu lado pergunta de onde vimos e ao mesmo tempo eu vejo dezenas de moscas daquelas a vir direitinhas a mim. Abano os braços para as enxotar, dou uns gritinhos histéricos (Não foi bonito!), grito Mbanza Congo e fecho a janela na cara do polícia, que perplexo, encolhe os ombros, enxota as moscas à volta dele e sorri. Do lado do motorista a coisa foi mais dificil e enquanto ele mostrava documentos eu, de havaiana na mão, matava moscas.
Numa das poucas paragens onde se pode comprar alguma coisa para comer, estavamos prestes a atacar umas belas bananas-pão assadas quando ouvimos um zzzzzzzzz perturbador. E vimos uma núvens de abelhas. Foi pernas para que te quero, trancas ao carro e pé no acelerador. Medo!
Com as galinhas do mato, foi tudo mais pacifico. São uns bichos bonitinhos e apareciam de vez em quando saídas da berma da estrada. Uma delas, ficou em êxtase por nos ver e atirou-se para debaixo do carro. O motorista ainda pensou em ir ver se os restos mortais davam para cozinhar (são um manjar apreciado, pelos vistos) mas deve ter visto na minha cara que a ideia de levar o cadaver no carro para Luanda me perturbava e desistiu. Fiquei aliviada.
Os dois macacos foram os únicos animais de jeito que vimos em mais de 1000km (ida e volta) por aqueles matos, florestas e savanas fora. A minha alma ficou parva e triste. A guerra deu cabo da fauna e da vida selvagem. Para quem viveu no Quénia é estranho (pelo menos os macacos, as zebras, os bambis e até girafas teriam aparecido em quantidade) . No inicio da viagem ainda dei por mim a espreitar a ver se via zebras ou bambis… nada! Pena… ficamos entregues às abelhas e às moscas.

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Pelos caminhos de Angola…

Já toda a gente sabe que uma grande viagem começa com um pequeno passo. O que nem toda a gente sabe é que uma viagem pequena pode começar com muitos passos atribulados. Foi o caso desta. Conseguir visto foi uma saga épica, comunicar com a organização em Luanda uma aventura, depois ia perdendo o voo porque a ligação para Lisboa atrasou quase 1h, depois ficamos na pista enquanto reparavam o motor 3 do avião (o que deixou grande parte dos passageiros pra morrer, não eu, claro, mas os outros todos que achavam que os motores 1, 2 e 4, pelo menos, não eram suficientes) e depois como partimos atrasados chegamos ao destino ao mesmo tempo que outros 2 voos e foi um pandemónio para passar a imigração.
Parece muito mau, não parece? Mas não é. Qualquer resquício de ressentimento pelo tempo passado no consulado, pelo drama da organização da viagem ou pelos precalços do voo foram parar às urtigas mal pus os pés fora do aeroporto. Não! Luanda não é bonita. Pelo menos a que eu conheço, o centro, e sempre a correr e de passagem. É basicamente um grande estaleiro de obras, com um trânsito exasperante (acho que os angolanos falam do trânsito tanto como os portugueses do tempo :)), um calor sufocante e preços absolutamente chocantes para quase tudo.
Basta uma voltinha pela cidade para perceber onde estão as construtoras e os bancos portugueses a ganhar dinheiro e porque motivo o meu voo vinha cheio de tugas (homens, que ao que parece as moças não imigram muito para cá…. mas deviam :)). O trânsito, enfim, é intenso, há muita poluição, mas convenhamos… eu vivi em Nairobi… por comparação os condutores aqui são uns carneirinhos no meio do smog. O calor húmido e sufocante dá cabo da vontade de trabalhar, mas com ele posso eu bem, que não há nada como o solinho dos trópicos a deixar o corpo dengoso e a mente descontraída (por falta de energia suficiente para lidar com demasiados pensamentos complexos). Os preços têm-me feito sentir forreta. Quando percebi que o meu almoço mediocre não custou 5 dólares, mas 50 (totó, eu sei, eu sei), que o meu hotel de 200 dólares é apenas uma espelunca com ar condicionado e sem baratas (que é o mais importante, nem discuto), que uma embalagem de leite de soja custa 8 dolares e um pacote de bolachas 5 e que a gasolina custa muito menos (menos de 1 dolar) que comida desenvolvi um estado psíquico preocupante. Fiquei poupada, conto os tostões, não dou esmolas, não dou grojetas, não tenho fome… que medo!
Descobri também uma utilidade importante para os casaquinhos de malha que trouxe comigo: uso-os no quarto para poder ter o ar condicionado fresquinho. Barata e mosquito não gosta de frio 😀
Ainda não perceberam porque é que a coisa está a correr bem? Não!? Como é que eu posso explicar? Para além de todas estas coisas serem pormenores num cenário maior fazem-me rir imenso e depois há as pessoas que me fazem rir também e que riem comigo. Já tinha saudades de me tratarem por “visita”. “Estou aqui com a visita” “Apresento-lhe a visita”. Também tinha saudades dos divertidos equívocos da língua: “eu chupava muito” (bebia muito) “e claro, quem chupa anda com gente que também gosta de chupar” (a propósito do motorista que era alcoólico). E gosto do mix de familiaridade e novidade que está por todo o lado: de poder escolher Cuca ou Super Bock, de poder pedir café e croissants ou fungi, de haver multibancos mas chamarem-se multicaixas, de poder abastecer na Galp ou na Sonangol, ouvir a Antena 1 ou uma rádio local, de ver na rua a vender A Bola e o Jornal de Angola… E amanhã vou para Ondjiva, no Kunene e vou estar a poucos quilómetros da Namíbia e acho que vou gostar ainda mais. Até porque Luanda não tem nada de bonito… que eu conheça… ainda.

DIA(s)POSITIVOS – BEIRA

Gosto de aviões grandes e estáveis. Descobri isto recentemente quando tive de viajar para a Beira de avioneta. Note-se que não tenho medo nenhum de voar, mas o raio do mini avião, apesar do dia limpo e solarengo, saltou, esperneou, abanou e cheguei a pensar que ia fazer loopings no ar. Não gostei! Vista do céu, para quem chega desavizado parece um labirinto de arbustos francês, gigante, rodeado pelo mar e por arrozais verdes. A arborização da cidade é tal, que as casas mal se veem e tudo o que detectamos são as filas verdes riscadas por ruas. Fica-se encantado. E depois entramos no labirinto verde, vemos-lhe as entranhas e num primeiro olhar, a estrutura da cidade totalmente plana, em grelha perfeita, a arquitectura típica dos anos sessenta e a longa marginal continuam a encantar. Mas rapidamente somos despertados pela realidade e não há príncipe encantado que nos valha. A cidade assemelha-se na verdade a um cenário de filme pós apocalípse, em que a maior parte da humanidade foi dizimada por uma doença qualquer e os poucos que ficaram parasitam o que ficou. As ruas são avenidas enormes, desenhadas para uma metrópole desenvolvida e agitada e grandes de mais para o pouco tráfego. Além do mais estão esburacadas e os passeios quase desapareceram. Os edifícios da Beira, belíssimos, (andei um dia inteiro a passear e quase se pode apreciar casa a casa os belíssimos detalhes e pérolas arquitectónicas que estão por todo o lado) estão a cair de podres. Estão todos desbotados, partidos, abandonados, invadidos, vandalizados ou simplesmente a morrer de velhice. A grande maioria deles nunca devem ter tido qualquer tipo de manutenção nos últimos 30 ou 40 anos. E o mar, ali mesmo aos pés da Beira, com praias extensas e a marginal bordejada por palmeiras e acácias também está podre. A água é castanha, absolutamente castanha, um nojo. Todos os detritos da cidade devem ir parar ao mar. É triste ver o Índico de águas naturalmente transparentes totalmente castanho sob o céu azul. A mim a Beira não me deixou só decepcionada, deixou-me zangada. Podia ser uma das cidades mais bonitas e com maior qualidade de vida do mundo, podia ser património da Unesco e no entanto não passa de um cenário gasto e abandonado. Que pena que nem todas as histórias podem ser felizes.

DIA(s)POSITIVOS EM TETE

Nunca tinha visitado a província de Tete antes. O calor intenso, a malária e Cahora Bassa eram praticamente as únicas referências que tinha… que pobreza! Há tanto mais. É certo que o calor é mortífero, mas sobretudo na cidade de Tete, que é baixa e se estende pelas duas margens do Zambeze. Aqui, a temperatura média nesta altura do ano, é de 38º e no meio do dia vai aos 40 e muitos… dureza, mas em outras zonas, a maior altitude, é tranquilamente quente. Também é verdade que a malária anda por aí à solta, sobretudo na cidade. Os mosquitos são uma praga e não há nada que os controle. Apesar de todos os cuidados algumas partes de mim parecem um mapa de sarampo, mas tirando isso eu para já continuo resistente à doença. Quanto ao resto, não há maneira de transmitir o que os olhos veem, nem o que a alma sente. Cahora Bassa materializou-se para mim e saiu do mundo das referências abstractas. É uma criação humana imponente no meio de uma criação da natureza com uma beleza indescritível, de cortar a respiração. A natureza não é só generosa por estas bandas, é uma mãos largas, onde a mãe África perdeu a cabeça! E então nesta altura do ano, com tudo verde e cheio de vida, no final da estação da chuva, é maravilhoso. Mas há mais surpresas. Tete é a província com maior potencial de desenvolvimento neste momento e isso salta-nos à vista de todas as maneiras e feitios. Tem sido descoberto minério, incluindo ouro, na maior parte ainda por explorar e há água mineral, algodão e tabaco com produções e investimentos cada vez maiores. Há empresas de exploração de minério, uma dinâmica de construção impressionantes (edifícios, estradas, pontes… tudo), uma indústria hoteleira florescente que não chega para as encomendas, serviços de transportes que fazem as estradas assemelhar-se à imagem que tenho de alguns lugares dos EUA, com circulação constante de camiões gigantes. A cidade tem o seu quê de pioneirismo, de espírito de caça ao ouro. Está cheia de estrangeiros, sobretudo portugueses que trabalham na construção civil e na barragem, mas também aventureiros, biscateiros, cooperantes, gente em busca de oportunidades e do sonho africano… é uma espécie de imã para aquela dimensão do espírito colonial que não passa pela opressão mas pelo espírito empreendedor e aventureiro. Aqui não há crise! Qualquer coisa dá dinheiro. O mercado é enorme, em acelerado crescimento e com imensas necessidades. Confesso que é um fenómeno muito interessante de observar, o que tenho tido oportunidade de fazer, de perto desde que vim parar a uma espécie de motel de estrada fora da cidade (por estar tudo, mas tudo, absolutamente cheio), propriedade de um português, onde há quartos, um restaurante e um Pub… assim, nem mais! Sou na maior parte das vezes a única mulher no restaurante rodeada por portugueses barrigudos, mal vestidos e que não conseguem dizer uma frase sem meter dois palavrões pelo meio. Um mimo! Estou numa espécie de paraíso para trolhas e camionistas, com bacalhau, pudim de abade prisco e pataniscas na ementa e a televisão sempre ligada na TVI, onde os empregados, todos moçambicanos, me parecem de uma delicadeza e educação extrema, quase aristocrática, por comparação. E isto tudo, em convívio perfeito com a cultura tradicional do interior, onde o Régulo me tratou por excelência, me fez vénias e me ofereceu no final uma saca com massarocas como se me estivesse a dar um baú de pedras preciosas. Tem sido uma semana um bocadinho bipolar. Em breve sigo para a Beira… a ver o que Moçambique me reserva por lá!

REGRESSO AO PRINCÍPIO

Aviso: O texto que vão ler a seguir é totalmente parcial, apaixonado e até é capaz de se tornar meloso. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência… ou talvez não.

O aeroporto é novo. A estrada e a maioria das ruas no centro da cidade são novas. Os carros que as enchem são novos e muitos (é a capital mundial dos Yaris). Vários dos mais belos edifícios da cidade parecem novos, de cara lavada. Há bancos novos, lojas novas, bairros novos, operadores de telemóvel novos, restaurantes novos e empresas novas. Há um mega centro comercial novo. Há pessoas novas, turistas e estrangeiros residentes. Há críticas novas aos políticos, aos sinais de desenvolvimento e às mudanças. Apesar de tudo isso, em Moçambique, as pessoas continuam a distribuir cumprimentos, cortesias e sorrisos. Os “Estamos Juntos” repetidos a torto e a direito, os abraços calorosos e as palmadas nas costas continuam a fazer parte do quotidiano. E é provavelmente um dos países do mundo onde mais se continuam a ouvir as palavras Por favor, Obrigada e Desculpa acompanhadas por sorrisos. As ruas de Maputo continuam bordejadas por árvores, sobretudo acácias, que nesta altura do ano, atingem o seu máximo esplendor e explodem de verde, exuberantes, com ramos que crescem até tocar na vizinha do passeio em frente, cobrindo as ruas de frescura e mudando a face da cidade.

Para mim Maputo continua a ter um certo encanto de cidade de província e emociona-me. Nem sei explicar bem porquê. Gosto de tropeçar nas referências partilhadas, de descer a Karl Max e virar para a Av. Fernão de Magalhães, de ir pela 24 de Julho e sair para a Rua dos Lusíadas, de ter pastelarias e padarias em todo lado e café Segafredo, Delta e Buondi e de ouvir falar português com ritmo tropical. E também gosto de tropeçar nas moçambicanidades e nas africanidades, de as ruas estarem inundadas pela cor da fruta e das capulanas das vendedoras, de o ritmo ser mais lento, do arroz de coco e do molho de amendoim deliciosos…

E estas são as sensações e emoções das primeiras 48h. Acabadinha de chegar e ainda em fase de adaptação ao calorzinho bom e cheia de trabalho, a verdade é que ainda não vi quase nada para além da zona da Polana onde está o hotel e do que me passa pela janela do carro a caminho da Machava para trabalhar. E no entanto, parece que estou aqui há imensos dias porque já fiz muitas coisas e já estive com muita gente. Estou feliz. O projecto que me trouxe cá é apaixonante e estou a aprender imenso. Vai ser uma experiência fantástica. Estou a ser mimada e bem tratada. E Moçambique tem sempre para mim um encanto especial, porque gosto, porque foi aqui que tudo começou para mim até dar uma volta de 180º à minha vida, porque sim.

Durante as próximas semanas ainda vou a Tete e a Sofala e essas então, é que vão ser histórias… a contar a seu tempo :).

FIM DE SEMANA ALUCINANTE

Desde que estou em Kisumu que quero ir ao outro lado da fronteira e o Uganda cumpriu e encantou-me. É lindo, verde, tranquilo, acolhedor, o rio Nilo nasce lá e lá também pode fazer-se rafting num dos percursos de rápidos mais intensos do mundo, no White Waters Nile.

A expedição integrou 3 portugueses e 3 alemães. Saímos das nossas tocas quenianas em diferentes partes do país e lá fomos de autocarro para a outra banda. Primeira percepção: no Uganda as estradas são um espectáculo, sobretudo para quem vai aos trambulhões durante mais de 2h até chegar à fronteira. Chegados a Jinja, a grande surpresa: caminhamos pela cidade até ao nosso alojamento sem ninguém vir atrás de nós a gritar Mzungu, a oferecer serviços… a chatear. Fomos andando pelo centro da cidade encantados com aquela privacidade a que já não estamos habituados, experimentando a cordialidade local na busca do nosso destino por ruas tranquilas bordejadas de árvores e casas lindas. O Explorers Backpackers, onde ficamos é um lugar magnífico onde se pode dormir por $7, comer bem e descansar entre viajantes dos quatro cantos do mundo. Foi também aí que encontramos os primeiros personagens que integraram esta história, desde o recepcionista que gostou tanto do meu nome que me abraçou quase até me partir as costelas, até ao Nash que no último dia, quando estavamos muito atrasadas para o autocarro, saiu do trabalho dele para nos ir lá levar… de borla… coisa nunca vista!

O primeiro dia foi passado a visitar a cidade, que é uma cidade muito especial, muito turística tanto entre estrangeiros como ugandeses e portanto impossível de generalizar o que lá se sente e se passa para o resto do país. De qualquer forma, senti que me fez recuperar um certo estado de encantamento com “África” que há muito não sentia. Fez-me lembrar Moçambique. As pessoas simpáticas e prestáveis, doces, a nostalgia colonial da arquitectura, linda, o verde exuberante, maravilhoso e voltar a ouvir “Por favor” e “Obrigada” fizeram maravilhas ao nosso espirito. Fomos ver a Nascente do Nilo… bem diferente… da do Mondego por exemplo que começa com umas gotinhas a cair de uma rocha. Nada disso! O rio Nilo nasce no Lago Vitória e é grande, largo e imponente desde os primeiros metros de vida. Percebe-se o lugar do parto porque mudam as correntes. Deixam de andar ao sabor do vento e passam a ter ordem e resistência empurrando a água rio acima. Para lá chegar não foi fácil, perdemo-nos pela cidade e a caminho dos barcos que nos levariam lá passamos pelos comerciantes de carvão, pelos pescadores da margem, pelos bairros mais pobres e ficamos com a sensação de “Ups! Acho que não devíamos estar aqui”. Mas era mesmo lá e todos nos trataram bem e arranjamos um barquito para nos levar à ilha no meio do Nilo onde se pode ver a coisa. Ao fim do dia mudamos de poiso. Saímos do Explorers da cidade e fomos para o Explorer Base Camp onde passamos os dias seguintes, a 8km, na margem do Nilo com vistas sublimes sobre os primeiros rápidos do rio.  primeira noite aqui foi absolutamente estranha. Seis residentes estrangeiros no Quéni
a numa mesa de esplanada a partilhar experiências, frustrações e muitas questões sobre o que andavamos a fazer daquele lado do mundo e um rol de personagens incríveis a abordarem-nos, a sentarem-se connosco e a discutir. Parecia que estavamos numa espécie de atendimento ao público. Primeiro chegou o menino americano salvador do mundo. Apresentou-se, sentou-se perguntou quem eramos e que fazíamos. Ele estava no Uganda há quase 2 meses. Ia salvar o mundo através da educação e queria viver em “África” para sempre (só que estava quase a ir embora… afinal tinham sido só uma espécie de férias humanitárias). Acho que nos excedemos um bocadinho na forma como questionámos os valores e as motivações dele, os ânimos acenderam-se e ele saiu da mesa. A seguir veio um ugandês, questionar as questões que tinhamos colocado ao americano. Ficou muito chocado com as nossas opiniões, e sobretudo por não acreditarmos em nada que não passe pelos africanos resolverem sozinhos os seus próprios problemas, a começar pelos governos corruptos que os governam. Também saiu da mesa exaltado. Depois veio outro. Sentou-se e perguntou: afinal o que é que vocês pensam sobre isto? (isto o quê amigo? Donde é que tu saiste?) e lá voltamos ao mesmo. É tão difícil partilhar ideias! Como se não tivessemos já tido emoções suficientes, descobrimos que a carteira de uma das nossas amigas foi roubada neste vai e vem de gente. Ficou sem telefone, sem dinheiro, sem cartões e pior, sem passaporte. Um filme! Teve de ficar para tras e está agora ainda em Kampala, a resolver o problema com a embaixada alemã para poder regressar ao Quénia.

E depois no dia seguinte, lá fomos fazer rafting. Os rápidos têm classificações consoante o perigo que oferecem entre grau 1 (nada) e grau 6 (risco de vida mesmo para os mais experientes). O nosso percurso de 30km incluía vários rápidos de grau 3, 4 e 5 e um de grau 6 que contornamos, por terra com os barcos à cabeça. Eu já tinha experimentado fazer rafting mas nunca com rápidos acima do grau 3 e teria ficado muito feliz por voltar a fazer o mesmo  sem subir no ranking do perigo de vida mas os meus companheiros de viagem não tinham tanto apego à vida e eu como sou uma “Maria vai com todos” não tive outro remédio senão ir com eles. Logo no primeiro rápido a sério o barco virou, fui sugada para o fundo do rio, segui as regras (fechei os olhinhos, embrulhei-me em posição fetal e esperei que o rio me cuspice para a superfícei) e surpreendentemente ganhei confiança. A segurança foi super eficaz e passou-se tudo tão rapidamente que comecei a achar que afinal aquilo não era tão mau como parecia. Foi um dia fantástico, cheio de emoções e adrenalina. No último rápido, o pior de grau 5, depois de termos contornado o 6 fatal, eu olhei para aquela tormenta de correntes revoltadas e pensei 2 vezes antes de entrar no barco, mas depois de tudo o que já tínhamos passado, encolhi os ombros e lá fui. Má hora! O nosso barco encalhou no meio das correntes cruzadas e fomos sacudidos, cuspidos e engolidos pelas águas com violência. Na queda, um dos remos de madeira atingiu-me em cheio na cara e eu fui ao fundo semi-inconsciente. Depois foi o pânico, a dificuldade de sair do meio do rio que me queria engolir, a dor na cara que parecia que ia explodir. Mais uma vez a segurança foi eficaz e lá me salvaram e meteram num barco. Chorei baba e ranho, uma vergonha. Mas o balanço foi muito positivo, apesar de hoje ter um olho negro, uma perna a mancar e dores nos braços de remar 30km. Sobrevivi à parte mais selvagem do Nilo! Claro que ainda há alguns riscos, várias bacterias e parasitas que nos podem ter entrado no sistema, a malária sempre à espreita e surpresa… aquela zona está cheia de moscas tse tse… mas nada que um check up a doenças tropicais não resolva quando voltar à pátria.

Jinja, Uganda, rafting no Nilo… a não perder! It’s once in a lifetime 😉

ENTRE MUNDOS

Acordei mortinha por partilhar coisas bonitas. Ontem foi um dia extraordinário, passado com amigos, a usufruir do Quénia no seu melhor. Mas entretanto descobri que ontem incendiaram um homem aqui ao lado de casa e voltei à Terra. O encantamento esmoreceu e a indignação e tristeza cresceram. Estou entre extremos outra vez. Entre mundos que mal se tocam. O da natureza, das  imagens de sonho, da vida selvagem e da imensidão dos espaços e o das pessoas, da violência, da pobreza e da mentalidade que eu não consigo entender.

Lamento muito mas depois desta história não posso limitar-me a pôr aqui fotografias maravilhosas e fazer o relato de um dia especial. Tenho de partilhar as duas coisas.

No mundo das pessoas, contou-me a nossa empregada ao pequeno-almoço, que um homem foi assassinado aqui ao lado de casa na noite passada (é verdade que ontem ao jantar o guarda nos veio avisar para não sairmos que estava a haver uma confusão qualquer na rua, mas como estavamos cansados nem questionamos o que se passava).

Eu: Bom dia Millicent! Bem disposta?

M.: Bom dia. Sabe o que aconteceu aqui ontem?

Eu: O quê?

M. Incendiaram  um homem!

Eu: Porquê?

M. : Eram dois bandidos, tentaram roubar uma mota e ainda agrediram o dono, mas o povo viu e deram cabo deles. Levavam uma lata de gasolina para a mota roubada e o povo despejou-a em cima de um deles e chegou-lhe o fogo. Morreu queimado.

Eu: E a polícia? Apareceu? Prendeu os assassinos?

M. (muito chocada a olhar para mim): Nããão! É a justiça popular!

(Entretanto passaram-se 5h, entre a altura em que escrevi este post e o agora, em que tenho acesso à internet para o publicar e a caminho o cyber café o meu motorista de tuk tuk, o Pascal, um amor de pessoa e homem de total confiança, vangloriou-se de ter incendiado um bandido na noite passada. Era um, entre os muitos que resolveram fazer “justiça” matando o criminoso à porrada e pegando-lhe fogo no fim. “It’s the Kenyan way”, dizia ele orgulhoso.  Eu às vezes já nem sei o que bem Bem e Mal. Mas isto faz de gente boa tão má como os criminosos.)

No mundo da natureza, ontem, eu, a Mzunguinha e a irmã dela, a Marta, que veio cá de férias, mais o Lawrence andamos a passear pela região. Acordamos bem cedinho e fomos fazer um passeio de barco pelo Lago Vitória e depois abalamos estrada fora até à floresta de Kakamega, onde eu fui atacada por térmitas (formigas gigantes que mordem dolorosamente as pessoas) e onde andamos (sobretudo eles, confesso) a trepar lianas feitos Tarzans e basicamente encantados com tudo o que nos rodeava. Deixo-vos algumas fotos para testemunharem este mundo 🙂