História com história

Corria o ano de 1984, em plena guerra fria, quando eu, então com 14 aninhos, no auge do meu período punk, grande admiradora do Carl Sagan, do Isac Asimov e de ficção científica escrevi esta história. Descobri há dias, durante uma crise de fada do lar, enquanto revirava a minha sala num frenesim de limpeza, uma pasta com as minhas histórias da adolescência. Foi um momento raro e empolgante, foi uma espécie de arqueologia da memória. E perante a dificuldade de terminar um novo conto, nesta fase de muito trabalho, achei por bem partilhar uma dessas histórias, escrita para um concurso de Português, no 8º ano e com o tema obrigatório “Um dia na vida de um jovem do ano 2020”.
Espero que se divirtam, como eu me diverti quando a encontrei, com a minha percepção do futuro há vinte anos atrás. E até breve, que vêm novas histórias a caminho :).

O dia estava quente e nem parecia que as aulas iam recomeçar daí a pouco mais de duas semanas. A Cati acabava de chegar do acampamento de férias. Decididamente não tinham sido as melhores férias que já passara. Depois de introduzir no computador da escola os dados sobre o que queria encontrar nas férias, este decidiu que ela iria para as selvas protegidas da América do Sul e claro, foi sozinha que mais ninguém teve resultados tão estranhos.
Agora, de regresso à cidade, a Cati sentia-me bastante mais feliz pois já estava com saudades, sobretudo dos amigos. Mal saiu do túnel de chegada dirigiu-se para casa e ao chegar viu-se obrigada a ligar a caixa de comunicação para pedir ao pai que lhe abrisse a porta.
– Olá pai! Desculpa mas o meu cartão automático perdeu a validade. Está tudo bem cá em casa? A mãe está?
– A tua mãe hoje chega mais tarde. Está a trabalhar num projecto novo. Que tal as férias? Melhores que as do ano passado? – perguntou.
– Nem por isso. Francamente até se tornaram aborrecidas – queixou-se.
– Isso é mesmo de ti. Desde os 5 anos que nunca gostas das férias.
– Há alguma coisa para comer? – perguntou a Cati.
– Pede ao novo robot. Chama-se Niki. Tenho de me ir embora, vê se encontras alguns amigos. Até logo!
– Olá Niki – disse a Cati para o novo robot. – Quero que me prepares um gelado enorme e delicioso, o melhor que souberes fazer.
– Não posso, a tua mãe pediu dieta para ti – disse o Niki muito sério.
A Cati riu-se, entusiasmada e sentiu-se bem por estar de volta a casa. Mas apetecia-lhe mesmo comer gelado e por isso saiu.

Estava sentada na mesa do café quando viu um grupo de amigos a aproximar-se.
– Cati, que surpresa, não sabia que já estavas de volta – disse a Vanda.
Falaram durante todo o almoço das férias e dos planos que tinham para o ano seguinte. Mais tarde o Ivo sugeriu que fossem a casa dele para experimentar o novo computador da amizade. Quando chegaram identificaram-se e entraram e ele levou-os logo ao quarto.
– Aqui está a pequena maravilha – disse o Ivo apontando para o computador.
– Quem quer experimentar primeiro? – perguntou.
– Eu – disse a Cati rapidamente.
– Ok, tens de preencher este questionário e depois esperar o resultado.
Alguns segundos depois apareceram os resultados.

Jovem 17 anos
Sexo masculino
Residência – base espacial 16
Código para comunicar: GLB46

Depois de observar os dados a Cati começou a rir.
– Realmente a mim só me acontecem coisas incríveis, primeiro foram as férias na selva e agora um amigo que mora numa base espacial.
– Liga depressa para a base espacial que também quero conhecer esse teu amigo – disse a Vanda.
Depois de escrever o código, a Cati esperou alguns momentos até que apareceu uma imagem no ecran e ouviu-se:
– Olá! Eu sou o Ian e gostava de conhecer-te melhor. Queres vir até á base espacial 16?
– Sim, claro, quero muito. Mas posso levar alguns amigos?
– Sim, não há problema nenhuma. Têm é de apresentar na Estação 4 o meu número de código por questões de segurança. Sem ele não podem passar o campo de forças que protege a base de intrusos. Aqui vai O3TL962. Até logo!
A imagem desapareceu do ecran. Estavam todos muito entusiasmados pois nunca nenhum deles tinha visitado uma base espacial. Avisaram os pais que não dormiam em casa, com a desculpa de ficarem em casa uns dos outros e partiram.
– Vamos depressa para apanharmos a nave de passageiros das 3 da tarde – disse o Ivo.
Já dentro da nave e quase a chegar à base 16 o grupo de amigos estava fascinado. A Base ficava muito mais longe do que eles imaginavam. Fica próxima da primeira Lua de Júpiter e eles nunca tinham feito uma viagem tão longa. A nave demorou duas imensas horas a chegar mas finalmente os amigos sentiram os bancos moverem-se em direcção a um tunel iluminado. Chegaram ao fim e pararam pois qualquer coisa os impedia de continuar e então o Bruno lembrou-se do código para passar o campo de forças. Inseriram o código e foram levados até uma sala onde o Ian os esperava. Ele também tinha trazido alguns amigos para que todos se conhecessem. Decidiram separar-se aos pares e encontrar-se no angar de partida mais tarde.
Distraidamente, enquanto o Ian lhe mostrava a base espacial, a Cati observava-o. Era alto e forte, tinha os olhos grandes e expressivos de um castanho muito claro, quase dourado e o cabelo levemente encaraclado no mesmo tom dos olhos e o sorriso mais lindo que ela já vira.
Entretanto ele pegou-lhe na mão e levou-a para um bar.
– Vamos parar aqui para beber qualquer coisa. Aposto que não ouviste uma palavra do que eu disse, em que estavas a pensar? – disse ele a rir.
Atrapalhada, a Cati disse-lhe qu estava apenas fascinada com tudo aquilo pois era muito diferente da Terra.
– E então o que achas da vida aqui? – perguntou o Ian.
– Sei lá! Conheço muito pouco a vida nas bases espaciais. Lá na Terra as pessoas preocupam-se sobretudo com a recuperação da natureza e não temos muita informação sobre o que se passa fora. Mas explica-me tu. Aliás, eu nem sei bem o que aconteceu antes das bases espaciais.
– Ok, mas é uma história comprida, se te aborrecer diz que eu paro. Tudo começou em 1996 quando os Estados Unidos resolveram construir uma base espacial em órbita da Lua. Teoricamente o objectivo seria a investigação científica, no entanto, escondido da população terrestre construiram 3 bases espaciais para refúgio de um grupo de pessoas selecionado em caso de guerra nuclear. Acidentalmente a farsa foi descoberta por um satélite de espionagem da URSS. Pensando tratar-se de bases militares no espaço este país ataca algumas, aparentemente sem qualquer motivo e sem aviso. Repentinamente as pessoas veem-se no meio de uma guerra mundial. Então, um grupo de pessoas conseguiu apoderar-se das bases espaciais e levaram-nas para longe da Terra na esperança de salvar a espécie humana. Quando a guerra acabou quase todo o planeta estava destruído.
– É incrível como as pessoas se deixaram levar a esse ponto – disse a Cati.
– É verdade, mas felizmente nem tudo estava perdido, pois nessa altura a população sobrevivente organizou um governo comunitário e começou a recuperar a Terra. Já alguma vez viste fotografias da Terra antes da guerra?
– Já – disse a Cati. – Os meus pais mostram-me muitas vezes. Têm muita pena de a nossa geração nunca ter visto aquelas paisagens maravilhosas e acho que todos os adultos se sentem culpados por isso.
– Mas continuando – disse o Ian – o pequeno grupo que tinha partido com as bases espaciais voltou e ajudou muito a população terrestre. No entanto, pouco a pouco foram-se afastando e foi crescendo uma barreira entre os que tinham partido e os que tinham ficado. O resto tu já sabes: o governo construiu cidades e selvas protegidas por campos de força que dentro de pouco tempo serão retirados pois a tecnologia criada para limpar a atmosfera está a ter resultados incríveis. Aqui em cima e apesar de continuarmos ligados à Terra, achamos que já não somos precisos e dedicamo-nos sobretudo à pesquisa científica.
– Estou fascinada – disse a Cati. – As coisas que tu sabes! Nunca imaginei a história dessa maneira. O meu computador de ensino torna tudo mais difícil, por isso nunca passei do primeiro grau em História.
– Se quiseres faço-te um programa novo, mais interessante.
– A sério?! És um génio.
– Bem… vamos continuar a ver a base? – perguntou o Ian.
– Vamos claro! Tu és o melhor guia do mundo.
Continuaram então a visita e Ian mostrou-lhe tudo, desde a sua casa, até à torre de controlo e aos espaços de lazer. E no final, conduziu a Cati através de um corredor enorme, até uma porta enorme que se abriu automáticamente.
– Isto é uma surpresa para ti – disse o Ian.
– Esta é uma espécie de sala de recordações. Os nossos pais quando deixaram a Terra trouxeram com eles tudo o que puderam para recordarem sempre a sua beleza. Estão aqui fotografias, filmes, animais e plantas de todos os lugares do planeta.
– Ian, nem sei o que dizer. Estou fascinada e vou voltar cá mais vezes de certeza.
O Ian sorriu com carinho e disse:
– Acho que vamos ser muito bons amigos. E agora que tal voltarmos que já devem estar à nossa espera?
Correram para o angar, despediram-se uns dos outros e partiram de regresso a casa. Estavam todos muito entusiasmados e falavam ao mesmo tempo.
Chegaram ao Porto muito tarde, partiram a toda a velocidade no passeio magnético e chegaram o mais depressa que puderam.
A Cati chegou a casa, identificou-see entrou. Lá estavam os pais mais um grupo de amigos que falavam alegremente das suas férias. Ela disse que tinha estado em casa da Vanda e que já tinham decidido onde queriam passar as férias do Natal, independentemente do que o computador da escola decidisse.
– Esta minha filha nunca pára de fazer planos – disse a mãe a brincar. – E então para onde é que vocês querem ir?
– Para a Base Espacial 16 – disse ela decidida enquanto todos à sua volta a olhavam surpreendidos. – Mas agora vou dormir que estou muito cansada. Até amanhã!