Procurada!… por tráfico de cajú.

ImageOuvia-se por todo o aeroporto: “passageiro Moreira da Silva ao gabinete do check in”. O polícia que se preparava para me carimbar a saída no passaporte, olha para mim e diz-me que é melhor ir ver o que se passa. “Eu!?” “Sim, estão a chamar o seu nome” Tinha-me parecido que poderia ser qualquer outra pessoa.

Lá fiz o caminho todo de volta e entro na parte reservada do check in onde as malas de porão passam no raio X. “Temos algumas dúvidas sobre as coisas que leva na mala. Consegue dizer-nos o que são estes volumes?” Olho para a imagem do raio X e desato a rir “Ahhhhh, isso são sacos com castanha de cajú” “E onde está o documento de exportação?”, pergunta a funcionária. “Ó minha senhora, então eu comprei isso acabadinho de torrar na chapa, na rua, como havia de ter documentos?” Ela continua, em tom pedagógico, a explicar a necessidade de documentos para levar o que quer que seja do país. “Ok, pois… eu tenho muita pena, mas não tenho documentos, e também não lhe quero causar problemas, por isso fique lá com os cajus” digo eu. “Nada, também não quero prejudicá-la, eu já percebi que não sabia… como fazemos?”

Aqui eu fico baralhada. Quando me colocam um problema eu fico à espera que me apresentem uma solução, por isso aqui eu só podia dizer-lhe que era com ela. A funcionária é que me disse que era ilegal levar 4kg de cajú para Portugal, ela que dissesse o que queria.

“O meu chefe vai dar-me problemas”, responde-me. “Pois, isso não pode ser, fique lá com o cajú” “Não, também não é preciso, mas se me der uma contribuição para eu depois aturar o meu chefe, é mais fácil, sabe?” Eu não sabia… estava a léguas e nem pensei, peguei no porta moedas “Ahhh é só isso, tudo bem, deixe ver se tenho alguns meticais” “Seja mais discreta”, pede-me a funcionária. E lá lhe dei 500 meticais que acho que tornaram uns cajus baratinhos numa compra muito cara, mas pude voltar à sala de embarque e trazer o produto do crime comigo.

Durante o resto da noite, chamaram ao gabinete do ckeck in mais 5 ou 6 pessoas. Deve ter sido um dia lucrativo 🙂

Moçambique – Alerta amarelo!

A última semana foi passada em Muxungué e na região envolvente, uma das mais pobres e isoladas. No início do mês houve ataques armados, mortos, feridos e pânico generalizado. Ganharam vida, velhos e novos fantasmas da guerra. A viagem foi adiada até ao limite porque havia que cumprir normas de segurança e a região, já bem isolada, ficou quase interdita, com recolher obrigatório e estradas desaconselhadas.

A desinformação é muita mas da boca da população o que se houve é que tudo começou com um ataque das autoridades e descambou com um contra-ataque da Renamo. É comum a polícia impedir as reuniões, comícios e actividades em geral da Renamo. Há casos de dirigentes agredidos, militantes presos e espancados. Desta vez, como em outras, a polícia entra num edifício onde estavam reunidos militantes da Renamo, dispara indescriminadamente, espanca e prende uma série de pessoas. É de salientar que estamos em época de campanha eleitoral para eleições municipais a realizar em Junho e que a actividade partidária é mais do que normal.

Ora a seguir, consta que um grupo de militantes da Renamo, numa bela noite entra pela esquadra da polícia adentro e dispara a matar sobre quem lá estava. Diz o povo que perante esta confusão toda, não faltaram oportunistas a servir-se da confusão para causar ainda mais distúrbios e roubos e pânico. Foi um pandemónio! Morreram várias pessoas. A população fugiu da cidade, as escolas fecharam, os negócios fecharam e durante dias ficou toda a gente na expectativa.

A Renamo há muito que pede uma revisão da lei eleitoral para ter direitos iguais aos da Frelimo. (Direitos estes alterados pelo governo e contrários ao Acordo de Paz) O Presidente, pessoa pouco querida por gente de todos os quadrantes políticos incluindo o dele, parece que é do tipo arrogante, surdo e pouco competente. Ouve-se falar de Chissano com muita saudade.

A compôr o circo da desmocracia, o presidente histórico da Renamo, abalou há meses para o seu reduto de guerra na Gorongosa, a partir de onde faz exigências ao governo e ameaça pegar em armas de vez em quando. Neste momento, 15 dias após os atentados em Muxungué, a Renamo exige ser levada a sério nas suas reivindicações e quer respostas do governo ou não se candidatará a eleições. O governo, infantiliza o adversário e faz-se de mouco e de burro. O povo, entre a piada fácil (do género “o Chissano levou anos a tirar o Dlakama do meio do mato e o Guebuza manda-o para lá outra vez) e a desvalorização dos acontecimentos, não deixa de sentir um nervoso miudinho de quem sabe que as coisas podem dar para o torto.

Felizmente, um conflito aqui na região, não deve ser do interesse de ninguém nesta altura. Mas temos uma democracia da treta, gente prepotente com armas e uma população ignorante e não me parece que dois velhos casmurros e com egos enormes consigam resolver a desmocracia a bem.

Domingo no Chimoio

Ao domingo vai-se à missa, casa-se, sai-se à rua e almoça-se em família. Um pacote de actividades banais engalanado por toaletes brilhantes e coloridas, música, dança, cânticos e a fatidica morte da galinha.

Basta um pequeno passeio na cidade, pela manhã, para vermos a religião em acção. As igrejas (de todas as confissões possíveis e imaginadas) estão repletas de gente, com as portas abertas e os crentes menos madrugadores encavalitados, do lado de fora, a tentar participar na missa. Em todas elas se ouvem cânticos alegres e se vê as pessoas a dançar e a bater palmas. Nada de missas cinzentas e solenes. À volta das igrejas veem-se grupos de pessoas a ensaiar cantorias e a dançar. Elas de capulanas iguais, eles de fato (sempre dois tamanhos acima) e gravatas espampanantes. São a personificação da alegria. Em algumas igrejas evangélicas a alegria é elevada a histeria, com os cânticos e danças a roçar o transe e um pastor de microfone na mão aos gritos a falar do Senhor. 

Este ritual dominical confunde-se com outro, que são os casamentos, também eles cheios de cantigas, danças, música. É tradição, depois da cerimonia religiosa os noivos e os convidados irem celebrar para a praça ou jardins da cidade. É um mar de gente embrulhada em cores vibrantes, elas de rosa choque, vermelho sangue, azul turquesa, verde fluorescente, eles de camisas de cetim a combinar com elas e fatos com calças de pregas, sempre dois tamanhos a cima. Os grupos dos casamentos chegam muitas vezes em carrinhas de caixa aberta que circulam pela cidade com toda a gente lá dentro a cantar e a dançar. O carro dos noivos, quando existe, é enfeitado com fitas de Natal brilhantes. Depois é ver esta gente toda na praça principal: filas de homens e mulheres uns em frente aos outros a cantar e a dançar. Filas de gente a seguir o noivo, que impõe o ritmo, e que serpenteiam pela praça em festa. É uma alegria.

Mas domingo, sem almoço em família, não é domingo e almoço em família é sinónimo de galo. Sim, o tradicional não é galinha e quando perguntei porquê o galo, que até é mais duro e mais pequeno, disseram-me que era “por ser galo, claro, por ser macho!”. Uma explicação brilhante. Quer isto dizer que por entre as pessoas em festa e emperiquitadas que andam na rua ao domingo de manhã se vê uma grande quantidade delas a carregar galos destinados à guilhotina e à panela. Aliás depois das cantorias da missa, começa a ouvir-se os galos a correr pela vida nos quintais, a fugir à cozinheira assassina. Os vizinhos aqui do lado, por exemplo, hoje tiveram um difícil de matar. Fartou-se de correr e cacarejar e voltar a fugir das mãos da morte, mas acabou na panela como os outros.

 

A betinha nos trópicos

A betinha sou eu, claro. Uso maquilhagem nem que tenha de recorrer ao retrovisor do jipe, fujo, grito e choro com insectos feios, descasco a fruta e disponha-a com arte no prato, uso perfume e creme de corpo e verniz nas unhas.  E não como carne (pelos deuses!).

São pequenas coisas que fazem parte de mim, dos meus hábitos de conforto. Obviamente não morro sem elas, mas lá por de vez em quando andar nos confins de África não significa que tenha de parecer uma mulher das cavernas. Sem exageros, que não me maquilho propriamente com olhos esfumados a fazer trabalho de campo, nem ando de saltos altos e clutch… mas há que manter os meus padrões mínimos de bem-estar. Eu não sou outra pessoa cá, sou a mesma.

Mas hà situações muito engraçadas. É conhecida a minha mariquice com a bicharada pequena. Ainda há uns dias, deixei um grupo de adolescentes com quem estava a trabalhar perplexos e a chorar de rir porque fui mordida por uma tse tse, e saí disparada a correr pela sala fora (doi que se farta, verdade!)… e não voltei a entrar. Obriguei toda a gente a vir para fora, enfrentar uma ventania dos infernos. Nessa noite quando lavei o cabelo, de balde e caneca, parecia que me saia lama da cabeça.

Mas também houve aquele dia em que o jipe não chegava à escola e tivemos de nos fazer a pé pelo meio do mato. À frente era só homens grandes e fortes mas  a certa altura começam a fugir aos gritos. “O que foi?”, pergunto eu. “Tem cobra doutora.” Eu suspiro, sorrio “As cobras fogem com a trepidação, batam os pés com força ao andar que elas fogem” e lá segui à frente, a enchotar répteis com eles todos atrás de mim desconfiados.

E houve um dia em que ia sendo atropelada enquanto me maquilhava. Sim estas coisas podem pôr em risco a vida das pessoas. Era a casa de passagem mais simples por onde passámos. Tudo limpíssimo mas conforto mínimo. Um quarto com uma cadeira de plástico e uma cama no meio. Cozinha, escritório e sala de refeições ao ar livre. Latrina ao fundo do quintal. Espelhos, nada. Então, estou eu a pôr rímel usando um dos retrovisores do jipe quando o motorista entra sem me ver e faz marcha atras sem eu ter tempo, nem para um ai. Tive de carregar na maquilhagem dos dias seguintes para disfarçar a nódoa negra na testa. O senhor ficou inconsolável e eu com uma bela dor de cabeça.

Mas uma das coisas mais caricatas é a minha aversão à empregadagem. Não às pessoas, em si, claro, mas ao facto de haver empregados para tudo, dentro de casa a toda a hora. Por um lado, eu gosto de tratar das minhas coisas e por outro gosto de privacidade. O facto de ser uma betinha complica-me ainda mais a situação porque baralha as pessoas. É um hábito entranhado na cultura local em todos os países africanos por onde passei. Quem tem alguma coisa, arranja logo um empregado ou empregada para cozinha e serviço doméstico a tempo inteiro. Sim, não há cá trabalho a dias.

Uma pessoa sai de manhã da casa de banho, ainda estremunhada, e já tem o batalhão de limpeza à porta de Cif e esfregona na mão. E eu só com o meu meio neurónio matinal a funcionar faço tudo pela metade e tenho de voltar várias vezes à casa de banho. Então, está a empregada a lavar a sanita e eu peço desculpa mas preciso lavar os dentes. Depois ela está a lavar o lavatório e eu peço desculpa mas preciso maquilhar-me e quando ela julga que está tudo arrumado eu vou lá outra vez arrumar os caracóis e molho tudo. É um stress.

A parte gira, é que com as mudanças graduais dos papéis de género, há cada vez mais homens domésticos em África. Neste momento em que escrevo, por exemplo, está o Sr. António, no corredor, a passar roupa a ferro e deve estar amuado porque eu não o deixei fazer o almoço.

 

O melhor são sempre as pessoas

A humanidade sempre me fascinou e não há nada melhor do que deixarmo-nos surpreender por ela. Abana-nos as estruturas, as crenças, os preconceitos. Coisas como, ouvir alguém que julgamos ignorante a transmitir sabedoria, alguém que julgamos vulnerável a demonstrar tenacidade e resistência ou alguém que julgamos inflexível a abraçar a mudança, são das coisas mais maravilhosas a que podemos assistir. E mesmo quando tentamos não criar expectativas sobre os outros e achamos que tudo é possível (com muito treino e vários erros, que o exercício é difícil :)), este tipo de surpresas são fascinantes. As pequenas coisas que revelam o melhor da humanidade. E que nos fazem descer à Terra para não pensarmos que já sabemos tudo.

Esta semana dura de trabalho terminou com chave ouro. Com aquele momento em que, depois de dias a fio a pensar que não se sabe por onde começar para melhorar a vida das pessoas e promover algumas mudanças, percebemo que afinal elas já começaram e que está tudo bem.

Foi num encontro com facilitadores comunitários, pessoas que organizam encontros comunitários para mudar práticas tradicionais que prejudicam a saúde ou as crianças ou as mulheres, por exemplo. Sobre o fim do projecto que os formou e orientou levanta-se um Mais Velho, e no seu melhor português muito pensado e articulado com dificuldade diz isto:

“Os conhecimentos estão dentro de nós e não podemos parar. Temos ainda que trabalhar com essas ideias porque não ajudou a (…), ajudou a nós mesmos e o caminho é para a frente. Não se anda para trás. Só gostava de mais formação ainda, porque o conhecimento não acaba e é preciso ser aumentado para ir mais avante”.

Não sei se isto fora do contexto tem o mesmo efeito que teve em mim quando ouvi… mas fez-me ganhar a semana.

País rico, país pobre

OLYMPUS DIGITAL CAMERATantos anos de apoio ao desenvolvimento, tantos indicadores positivos e tanto por fazer ainda. Às vezes nem sei bem o que pensar. Moçambique foi bom aluno e deu saltos quantitativos e qualitativos importantes. O país de há 10 anos não é o mesmo de hoje, verdade. Mas povoações como as que tenho visitado não terão mudado muito. São as mais pobres das mais pobres, num conceito de pobreza o mais alargado possível.
Hoje há muito mais infraestrutras, há turismo, há um mercado empresarial florescente, matérias-primas a serem descobertas em quantidade. Os doadores têm vindo a cortar de ano para ano o apoio ao desenvolvimento que compunha o orçamento de estado porque supostamente Moçambique já não precisa. Mas as novas actividades económicas não parecem estar a complementar as receitas e a vida vai correndo “à maneira” como se diz por cá, ou seja, com sacrifício.
As incongruências seriam de rir às gargalhadas se não fossem tão tristes. Veja-se o caso de uma operadora de redes móveis que lança uma mega campanha de doação de internet às escolas. Faz uma espécie de road show onde distribuem t-shirts e doam uma placa de banda larga com tráfego ilimitado para 30 anos. Excelente, não!? Seria, se as escolas tivessem electricidade e computadores e quem soubesse trabalhar neles. Mas estas escolas, mal têm um quadro para escrever com giz e professores que sabem escrever e pais a saber que é importante mandar os filhos à escola.
E, assim, “à maneira” alheias à banda larga e outras coisas do outro mundo, há povoações que continuam a viver como há 10, há 20 ou há 30 anos, onde as crianças com 13 e 14 anos já são mães, onde a maioria das tradições são bárbaras para as mulheres (e aqui não há relativismo cultural que me valha), onde a educação não é valorizada, as violações são normais e até incentivadas por cultos do arco da velha.
Mas os indicadores de desenvolvimento continuam fantásticos, supostamente a qualidade de vida das pessoas aumentou imenso e o crescimento económico é invejável. Faz-me lembrar aquela piada sobre como é que se explica um valor médio. “Se eu tenho 4 galinhas e tu não tens nenhuma, em média temos 2 galinhas cada um” , e ninguém passa fome quer o tolo acreditar (acrescento eu).
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Salva pela Escola

Tinha 12 anos quando lhe disseram que ia ser casada. Ela disse que só queria estudar e fugiu. A família encontrou-a, arrastou-a para casa amarrada ao selim de uma bicicleta e espancaram-na de tal forma que passou mais de um mês sem andar. O “noivo” era cunhado de uma irmã, tinha 59 anos e 2 mulheres. Ela voltou a fugir. Correu pelos matos e foi dar a um posto de Polícia a uns 40km de distância. Pediu ajuda. O Polícia notificou a familia para comparecer no posto e deixou-a dormir numa arrecadação.
A família foi buscá-la. Já tinham pago lobolo ao noivo e ela tinha de ir. Insistiu que só queria estudar. Disseram que ela queria era outro homem. A Polícia chamou uma mais vellha para lhe confirmar a virgindade. Afinal era verdade, ela só queria estudar. A família voltou para casa de mãos a abanar e a ameaçá-la de morte se voltasse à aldeia. No posto conseguiram um acordo com a escola para ela não pagar nada e arranjaram-lhe onde ficar em casa de um professor casado.
Aos 15 anos teve bolsa de estudo para fazer até ao 12º ano num internato. Nunca repetiu e esteve sempre no quadro de honra da escola.
Tem 19 anos e um ar de miúda traquina, olhos vivos e língua solta. Trabalha no Governo distrital. Entrou nos quadros da administração pública. Quando receber o primeiro salário vai ter uma casa só dela e roupa. Vai deixar de lavar e secar de noite para vestir de dia. O sonho imediato é aprender a mexer no computador lá do escritório. Mais tarde gostava de ser médica.
Eu acredito que ela até pode ser astronauta, se quiser… garra, não lhe falta e já viajou entre mundos diferentes, afinal.