A FESTA

Habituada a trabalhar com gente simples e pobre do meio rural e a viver numa casa de cientistas, o mundo da arte fica a mundos de distância da minha realidade. Foi por isso uma surpresa extraordinária dar por mim esta semana numa festa rodeada de músicos, escritores, poetas, pintores, fotógrafos, gente famosa e aspirantes à fama, tudo embrulhado em glamour e bom gosto.
Eu tive de ir a Nairobi. A minha amiga Eva que vive cá em casa, também. Ela tinha de estar presente num evento de lançamento de livros para conhecer umas pessoas que têm interesse para o trabalho dela. Desencaminhou-me para lhe fazer companhia e como eu gosto de livros e não tinha nada melhor para fazer, disse que sim.
A estação das chuvas já começou, na altura certa do calendário e Nairobi estava transformado numa piscina de lama gigante onde os carros flutuavam, parados, horas a fio. A festa, num dos bairros mais bonitos da cidade, numa casa maravilhosa (que descobri depois ser o estúdio e escritório do músico pop, provavelmente mais famoso do Quénia), com um jardim de sonho, foi ligeiramente perturbada pela tempestade. Em vez de velas ao longo do jardim acenderam-se fogueiras poderosas, em vez de assistirmos aos concertos, leituras e performances ao ar livre, montaram umas tendas gigantes abertas para o palco e não sei de onde apareceram dezenas de funcionários a carregar guarda-chuvas gigantes para nos transportar de tenda em tenda (entre o bar, a exposição de livros etc) e em vez de passearmos as nossas roupinhas de festa incólumes (quem as tinha, que não era o meu caso), passeávamo-las na mesma mas decoradas com salpicos de lama, molhadas, amarrotadas sem problema nenhum . O pior foi a chuva forte trazer com ela milhares (sim, mesmo milhares) de insectos voadores que ficam desvairados com a luz e morrem. Era impossível controlar a quantidade de insectos mortos pelo chão e que voavam em todas as direcções. Quase que desisti de entrar na festa. Mas lá ganhei coragem e tirando aquele momento infeliz em que conversava com dois jovens escritores muito interessantes e gritei quando senti qualquer coisa viva na perna, por baixo das calças, fazendo um esforço enorme para não me despir à frente de toda a gente, as coisas até correram bem (corri para a casa de banho, tirei as calças, matei os dois intrusos que lá estavam, respirei fundo e voltei como se nada tivesse acontecido).
Rapidamente percebi que os famosos cá da terra estavam lá em peso e foi engraçado estar a falar com pessoas veneradas pelos outros mas que nós não fazemos a mínima ideia de quem são. Só percebia a dimensão da fama das pessoas com quem me cruzava pela quantidade de flashes e câmaras de filmar que se viravam para nós.
Para surpresa minha e ao contrário da elite endinheirada deste país, a classe artística pareceu-me despretensiosa, bem humorada, culta e composta por gente bonita e interessante. Era uma faceta do Quénia que eu desconhecia, aliás uma das coisas de que sinto mesmo falta aqui é de arte, de música, concertos, exposições, teatro… tudo muito difícil de encontrar. O meio artístico é pequeno, muito restrito a Nairobi e a pessoas muito interessantes, politicamente críticas, dinâmicas, viajadas mas com um profundo desconhecimento do resto do país. A mim pareceu-me que visitei um mundo paralelo durante umas horas, um mundo muito longe do Quénia. Mas soube-me lindamente!

A SOPA

O império britânico não aprecia sopa. Não faz parte da gastronomia (excepto em Zanzibar) e o hábito da sopa quentinha a forrar o estômago não existe. Cá em casa vivem americanos, ingleses e quenianos e o facto de de vez em quando eu me dar ao trabalho de fazer sopa é-lhes estranho. No entanto, se para os americanos e ingleses é estranho mas gostam de provar e até podem gostar, para os quenianos é mesmo uma coisa incompreensível: é demasiado leve para encher a barriga (acham eles de tudo que não é feito de papas de milho e não cola à parede), só tem vegetais (que não alimentam), não leva carne (sem papa de milho e sem carne a humanidade exterminar-se-ia rapidamente segundo o pensamento queniano).
No outro dia fiz creme de cenoura com gengibre, que é uma delicia. Para não me estar a levantar repetidamente pus tudo na mesa ao mesmo tempo, a sopa e o prato principal, que era arroz basmati com caril de vegetais. Servi a sopa e pus toda a gente à vontade para avançar para o prato seguinte caso não gostassem. Os americanos e os ingleses gostaram e comeram tudo. Os quenianos a meio encheram os pratos rasos de arroz, viraram a sopa por cima e disseram-me que ficava muito bem como molho e que assim, com o arroz enchia mais a barriga. Partiram-me o coração.

KENYA COMEDY

JOURNEY AROUND KENYA IN 12 DAYS – PART III

Durante as poucas horas de serenidade matinal tivemos oportunidade de ver a natureza em todo o seu esplendor, com a maravilhosa luz da manhã e uma selecção invejável de animais selvagens, incluindo belíssimas chitas e leões. Não que o nosso motorista fosse também guia de natureza (como nos tinha sido dito), pois ele além de não conhecer bem o parque sabia menos ainda sobre a vida selvagem e limitava-se a seguir os outros carros de turistas com guias a sério. Mas menos mal, foi uma manhã fantástica e entretanto seguíamos para a saída do parque porque tínhamos uma longa viagem de regresso pela frente.

E já quase a sairmos eis que o insólito acontece. O Moses pára o carro e diz que não quer sair por aquela entrada porque tem medo de estarem lá os guardas do dia anterior e de o multarem. A alternativa era recuar cerca de 150 km para apanhar a estrada de Narok, que é uma das piores do país e que fica a uma maior distância de Kisumu. Ora, quais eram as alternativas? seguir o nosso caminho e se os guardas aparecessem ficar ali uma eternidade, ou apreenderem-nos o carro, ou fazer mais quilómetros, andar mais umas horas de carro e gastar mais gasolina, para a qual o meu orçamento se encontrava limitadíssimo. O mais absurdo: não termos falado sobre isto à saída do lodge e agora termos de voltar tudo para traz.

Dissemos-lhe para fazer o que entendesse, na certeza de que nós não pagaríamos multa nenhuma, nem subornaríamos nenhum polícia e que precisávamos poupar gasolina porque estávamos quase sem dinheiro. A opção foi voltar imediatamente para trás e o nosso pesadelo começou. Ainda nos rimos de vez em quando, porque era tudo tão absurdo que não dava para mais, mas depois o cansaço começou a acumular-se, o pó a entranhar-se na pele e na garganta e foi penoso. Nesse dia saímos do lodge às 7h da manhã, a seguir ao pequeno-almoço e chegamos a casa depois das 9h da noite, sem comer e sem sair do carro. Pelo caminho e apesar da tensão de controlar o ponteiro do combustível e pedir constantemente ao Moses para não passar dos 100km/h para poupar gasolina, ainda tivemos uma paragem em Bonet para ele cumprimentar o irmão e ir beber uma gasosa com ele enquanto nós torrávamos no carro ao Sol e assistimos ao despontar da irritação do Moses perante o quadro inimaginável para ele de os mzungus não terem dinheiro. É preciso explicar que é uma crença geral o facto de todos os mzungu serem ricos e poderem ser absurdamente explorados. E quando eu disse logo no início da viagem que não estava a contar com a despesa da gasolina e que tinha pouco dinheiro comigo (tinha levado algum, por acaso, para comermos pelo caminho, comprar umas lembranças… e pouco mais) eles simplesmente não acreditaram e ele agiu sempre como se eu pudesse pagar tudo e ficou irritado por isso não ser verdade.

Quando chegamos a Kiisi, a última cidade antes de Kisumu a cerca de 100km eu ia atentamente a controlar o ponteiro que ainda não tinha entrado na reserva e disse-lhe que ia meter 500 ksh, que com a gasolina da reserva era suficiente para chegar ao nosso destino pois não tinha intensão nenhuma de deixar uma gota de gasolina no carro para o vigarista do patrão dele. Ele chateia-se. Claramente para o Moses a reserva era um buraco negro. Nunca tinha passado do último tracinho antes dela e não acreditava que abaixo daquele traço ainda houvesse gasolina. Para mim foi a gota de água. Disse-lhe que não tinha mais dinheiro e portanto para ele se desenrascar.

Ficamos umas duas horas paradas na bomba de gasolina dentro do carro à espera que ele resolvesse o problema. A dada altura a Mónica morta de fome pega num queque que ainda tínhamos no carro e mal o leva à boca aparece um puto colado ao vidro a dizer que tinha fome (esclarecimento: aquela é uma das zonas mais férteis do país; as pessoas são pobres, podem ter deficiências nutricionais, mas não passam fome). Que cena absurda. O puto provavelmente estava empanturrado de ugali, a papa de milho que comem como se não houvesse amanhã, mas como éramos mzungu cria cravar um bolito e nós cheias de fome…

Finalmente, o Moses arranjou dinheiro, fez-se à estrada e deixou-nos finalmente em casa. Apesar de muitas promessas de reembolso e desculpas pela cobrança indevida da gasolina por parte do patrão dele… até hoje não vi um único xelim.

E aquele que era para ser um safari super especial de imersão na vida selvagem e no estereótipo africano acabou por se transformar num safari super especial de imersão na mentalidade local, nos insólitos do meu dia-a-dia e na realidade africana. A minha irmã adorou :).

JOURNEY AROUND KENYA IN 12 DAYS – PART II

Maasai Mara é um parque de safaris sobrevalorizado, a meu ver. Os preços são exorbitantes e no Quénia o que não faltam são parques extraordinários. No entanto, quando se quer ter contacto com o estereótipo africano, da savana e da vida selvagem, o Mara é incontornável. E por esse motivo fui lá outra vez. Queria que a minha irmã tivesse a experiência de um safari que corresponde ao imaginário que toda a gente tem dos safaris e queria que fosse especial, se possível com uma noite num dos lodges luxuosos (eu tenho um bocadinho a mania das grandezas, mas percebi rapidamente que sou pobre).

Um amigo de uma amiga tem uma agência de viagens aqui em Kisumu e resolvi pedir ajuda profissional para aproveitar ao máximo a experiência. O lodge não pôde ser verdadeiramente um dos de luxo porque custavam todos de 150 euros/dia/pessoa para cima, mas arranjamos uma alternativa simpática e tínhamos carro de safaris com tecto aberto, motorista e tudo organizado ao pormenor (pensava eu… mas adiante). Como já tive uma muito má experiência com viagens organizadas ao Mara… e com os quenianos em geral quando se trata de explorar mzungus, que acabou por ser muito mais cara que o inicialmente negociado, desta vez confirmei cuidadosamente se o valor final incluída tudo… mesmo, mesmo tudo.

A grande aventura começou às 5.30 da manhã com o Moses a chegar a casa para nos levar ao parque. Dormimos pouquinho e estávamos super cansadas, mas lá fomos animadas para o carro. Antes de sair da cidade paramos para abastecer e no final o Moses pede-me dinheiro para a gasolina…. brincamos!… “What!? I already paid for everything”, disse-lhe eu já a rosnar-lhe nas canelas, que ainda por cima àquela hora a simpatia ainda não está operacional. Ele liga para o patrão e passa-me o telefone. Reafirmei que não pagava nem mais um tostão, sobretudo depois de ter insistido tantas vezes em confirmar se estava tudo incluído. Ele tentou argumentar que a gasolina era sempre à parte… eu disse “Não pago!” e devolvi o telefone ao Moses que trocou algumas palavras com o patrão, pagou a gasolina e seguiu viagem.

Quatro horas depois, chegamos à última povoação antes do parque onde se pode abastecer e o Moses pede-me dinheiro outra vez…. Brincamos! “Eu disse que não pagava mais nada!”. “Mas eu não tenho dinheiro.”. “Mas pagaste a gasolina à saída da cidade!”. “Paguei, mas foi com o dinheiro que o patrão me tinha dado para as entradas no parque e agora não tenho mais e a gasolina está a acabar.” Nesta altura eu deitava lume pelos olhos e só me apetecia cometer atrocidades violentas com o homenzinho. Não só não tínhamos gasolina, como ele não tinha dinheiro, como ainda tinha gasto o dinheiro das entradas e em momento algum lhe ocorreu que eu podia não ter dinheiro comigo. As coisas não começaram da melhor forma!

A única coisa a fazer naquela altura era abastecer e seguir viagem e lidar com a perda depois, mas eu não estava em mim e fiz um esforço enorme para me conter e não estragar aquele que eu queria que fosse um safari muito especial. Lá fomos. Tinha chovido nos dias anteriores e as estradas, em terra batida estavam impraticáveis o que tornou tudo mais difícil e moroso, mas lá acabamos por chegar à entrada. Nessa altura também tinha de me chegar à frente com os bilhetes e se, como residente em pago apenas 10 euros, a minha irmã como turista, paga 40 e com tantos gastos extras eu estava a ver a minha vida andar para traz, por isso fiz um choradinho ao guarda na recepção, que ela tinha esquecido o passaporte, mas era residente… uma cabeça no ar, mas boa pessoa e tal e sim senhor, ela podia pagar como residente só que como íamos para um lodge do outro lado do parque podíamos pagar na outra entrada. Confesso que nem pensei, agradeci e seguimos viagem.

Dois minutos depois de entrarmos no parque e chegados a uma bifurcação, onde para um lado seguia uma larga e seca picada e para o outro um caminho de lama profunda, o Moses resolve ser radical e atirar-se à lama. Como está bom de ver ficamos atolados e todos os esforços dele para nos tirar de lá ainda nos enterravam mais. Eu e a minha irmã estávamos de pé nos bancos apoiadas no tecto a ver a paisagem e o Moses ia fazendo o que podia para desatolar o carro. Ele acelerava e nós enterrávamo-nos. Depois saia apanhava pedrinhas, metia-as debaixo das rodas, acelerava outra vez e continuávamo-nos a afundar. A minha irmã, recém-chegada ao maravilhoso mundo dos animais questionava-se se era seguro estar ali parada com o tecto aberto porque, sei lá!, um leão podia aparecer sem ter almoçado… só nos ríamos. Muito tempo depois e já cansada de ver a história repetir-se, pergunto ao Moses se não era melhor ligar para o patrão para ele ligar aos rangers do parque a avisar que precisávamos de ajuda. Demasiada informação. O homem olhou para mim como se eu tivesse acabado de ler o manual de instruções de segurança de uma central nuclear. E encolheu os ombros e continuou a apanhar pedrinhas. Finalmente, aparece gente. Dois grandes carros de safaris cheios de gente com pinta de ir para os lodges onde eu não pude ficar. Um dos motoristas trocou algumas palavras com o Moses e depois circundou o nosso carro, posicionou-se de frente para nós e bateu de frente, violentamente, empurrando-nos com a grelha gigante para fora da nossa piscina lamacenta. Foi uma operação de salvamento à queniana!

E lá seguimos pelo parque fora a ver a bicharada. Uns dez minutos depois vemos uma belíssima e enorme manada de elefantes a atravessar a estrada a caminho de um lago, mais à frente. O Moses sai da estrada e vai atrás deles parando na margem do lago de onde tiramos fotos fantásticas. Quando regressamos à estrada, no entanto, aparece um carro patrulha de guardas do parque e manda-nos parar. O Moses saio disparado quando o chamaram e deixou o carro atravessado. É absolutamente impensável para qualquer ocidental entender o medo, pânico que os quenianos têm a qualquer tipo de autoridade. Sendo que autoridade se resume a qualquer criatura que fale grosso, seja mal educado e prepotente e se tiver uma farda, então é mesmo muito mau porque só falta encomendarem a alma ao senhor e atirarem-se para o chão. Perante isto eu a a Mónica íamos tirando fotos da paisagem à volta enquanto à frente a conversa durava. Para azar do Moses, aproxima-se um carro e ele tem de vir a correr fazer marcha atrás para ele passar. Nervoso, ele recua, eles passam e ele volta a atravessar o carro e sai disparado a pedir mil desculpas às autoridades e a continuar a conversa e nós a tirar fotos. Uns segundos depois aproxima-se outro carro. A mesma cena. Ele vem nervoso, recua, deixa passar a viatura e atravessa o carro na estrada outra vez antes de sair disparado para junto dos guardas. E nós continuamos a tirar fotos. Entretanto chega outro carro. A mesma cena. Não havia maneira de o Moses endireitar o carro. Deve ter sido o medo da autoridade que lhe queimou os neurónios. E andamos naquele, para traz e para a frente, umas 5 ou 6 vezes até não conseguirmos parar de rir perante um Moses mortificado e a morrer de medo da autoridade. A determinada altura ele entra no carro e sussurra para nós, como se tivesse medo que nos ouvissem, que os guardas o querem multar por ter saído da estrada, pois é proibido. “Isso não é nada connosco Moses! Vocês entendam-se!” e ele lá foi encolhido implorar perdão… bem, é uma cena ridícula que me dá voltas ao estômago, a subserviência e o medo perante quem as pessoas pensam que tem poder. Pelos vistos os guardas disseram-lhe que da próxima tinha de pagar a multa e seguiram. E nós seguimos também que já não podíamos ver elefantes e gazelas à nossa frente.

Note-se que estávamos a caminho do lodge e que a ideia era chegar lá para nos instalarmos, almoçarmos e regressar ao safari, mais tarde, com menos calor. E tínhamos combinado chegar lá por volta da 1h da tarde. Esquecemo-nos do tempo africano. Bolas! Eu já devia saber… Fomos vendo a paisagem e os animais e íamos apreciando tudo mas estávamos cansadas e cheias de fome, com o corpo dorido de andar de carro em picadas desde as 6h da manhã e o Lodge parecia uma miragem que não aparecia mais. Começo a reclamar, a perguntar onde ficava o raio da coisa. “Estamos quase” era sempre a resposta, entre-cortada por gargalhadas nervosas, que me deram cabo dos nervos a mim ao longo dos dois dias. Pelas 4h da tarde chegamos à entrada perto do Lodge e eu, já sem energia e a morrer de fome e cansaço lá fui tirar os bilhetes. “Lamento muito, mas esta senhora, sem passaporte não pode pagar como residente!” Deu-me uma coisinha má e fiz um escândalo. Na verdade eu só queria ir comer e dormir e aquela gente estava a criar-me mais problemas. Os outros senhores disseram que pagamos dois bilhetes de residente, porque é que estes não aceitam a mentirinha. E o pior é que se íamos ter de meter gasolina eu não ia ter dinheiro que chegasse se pagasse o bilhete dela como turista. Foi uma vergonha. Fiz o papel da mzungu doida, aos gritos, prepotente e a chamar nomes feios às pessoas. Resultou. É aquela coisa da autoridade. No fim estavam todos a olhar para mim encolhidos, a dizer para ter calma e a dizer que , tudo bem, me cobravam os dois bilhetes de residente. Eu estava tão tresloucada que nem os ouvia e continuava a gritar até o Moses me pegar no braço e dizer que eles tinham aceitado, para eu me acalmar e sairmos dali. Saímos (mas acho que mais um bocadinho e eu tinha entrado de borla).

Pouco tempo depois chegamos ao lodge onde fomos recebidas decentemente, por um staff profissional e simpático, que nos providenciaram almoço imediatamente e que nos fizeram sentir no paraíso. Cansadas como estávamos, nem pensar em voltar a sair para andar mais quilómetros a ver animais. Só queríamos comer, descansar e acalmar os nervos a ver se no dia seguinte a coisa corria melhor. Antes de almoçar viemos ca fora dizer ao Moses que tinha o resto do dia livre e para aproveitar também ele para descansar. “Mas onde é que eu vou dormir?”. “O patrão não te reservou alojamento?”. “Não, vocês têm de pagar um quarto para mim.” A minha cabeça já não aguentava mais. Disse-lhe para se entender com o patrão que eu tinha pago um safari integral com tudo incluído, virei costas e fui almoçar.

A seguir ao almoço fomos para os nossos aposentos. Uma tenda catita, com muito bom aspecto, no meio de um jardim africano bem cuidado rodeado por mato e vida selvagem. Ao ver o alojamento a minha irmã ficou sem palavras e a primeira coisa que diz é “Eu não fico aqui!”. Tendo em conta o cansaço, a frustração de um safari que queria especial se ter tornado numa anedota e o facto de estarmos a umas 6h de casa, não foi propriamente a coisa mais agradável de ouvir. Sentei-me, olhei para ela e perguntei-lhe calmamente para onde é que ela queria ir. O problema era a possibilidade de haver bichos, de lá entrarem aranhas, cobras, baratas… sei lá… coisas difíceis de ver no meio da savana africana: Que dia! Depois de inspeccionarmos toda a tenda e verificarmos que não haviam outros hóspedes além de nós e depois de tomar-mos banho, dormirmos,  jantarmos e voltarmos a dormir, as coisas compuseram-se e no dia seguinte acordamos cheias de vontade de voltar à estrada, bem humoradas e decididas a começar do zero com o Moses, que era um bocadinho atrapalhado, mas que não tinha culpa nenhuma das trafulhices do patrão.

O clima de paz e amor durou cerca de 2 horas e depois as coisas foram de mal a pior.

AMANHÃ É O MEU DIA!

Amanhã é o dia de todas as Mulheres e dos homens que gostam de mulheres e não têm medo delas. Eu não gosto muito de dias comemorativos disto e daquilo, nem de quotas e coisas que tais, mas gosto menos ainda de viver num mundo onde ser mulher ainda é ser menos, e portanto é preciso recorrer a estas estratégias para termos modelos e voz.
A descriminação das mulheres assume, nos mais diversos locais do mundo, as formais mais perversas e subtis. E sim, em Portugal e no mundo Ocidental também, com requintes de subtileza tais que muitos até pensam que a descriminação não existe mais e que o mundo é perfeito e justo. Não podiam estar mais enganados! Em lugares como onde eu vivo, no Quénia, a desigualdade é brutal e ser mulher é triste, penoso e de pouca valia. Mas para mim é sobretudo triste ver os movimentos feministas e os direitos efectivos das mulheres, a regredir, perigosamente, na parte do mundo onde alcançamos maior igualdade e poder e que servia de farol às mulheres de todo o lado. Ser feminista não está na moda. É ser muito radical, é não gostar de homens, afirmam alguns. Deixem-me contar um segredo: ser Feminista é gostar da Humanidade inteira, em harmonia. Porque a humanidade é constituída por Pessoas singulares, únicas e preciosas para o equilíbrio universal independente do sexo, do género, da orientação sexual, da cor da pele, da religião e demais diferenças menores que nos distinguem.
Ontem, a jantar em casa de uns amigos, aconteceu ver o noticiário da noite e deparei-me com uma forma de opressão, humilhação e desumanidade que despertou uma discussão acesa numa mesa com quenianos e europeus, homens e mulheres. A notícia era que muitos milhares de raparigas não vão à escola e sentem-se profundamente traumatizadas por causa da menstruação, tudo porque os pensos higiénicos (adiante a questão dos tampões que levanta aqui questões ainda mais complexas) são artigos de luxo, totalmente inacessíveis à maior parte da população, sobretudo nos meios rurais. Ora se a notícia em si já é chocante que chegue, mais chocante para mim foi a desvalorização e resignação de toda a gente. Numa sociedade como esta que preza tanto o caminho em direcção à modernidade, onde há restaurante, hotéis e centros comerciais super luxuosos e onde quase toda a gente, mesmo nos bairros de lata tem telemóveis de última geração, televisão e faz visitas regulares aos cibercafés, para mim é óbvio que a falta de solução para este problema se deve exclusivamente a uma questão de prioridades. É óbvio para mim que se os homens tivessem de passar pela menstruação e não tivessem acesso a todos os meios para tornar essa circunstância confortável, rapidamente mudariam este estado de coisas. Se as mulheres tivessem poder e voz e conhecessem a realidade do país em que vivem, esta seria uma prioridade natural. Que sentido faz criar programas de acesso universal ao ensino, quando uma grande parte da população está impedida de frequentar a escola por um motivo tão simples de resolver, sem que ninguém faça nada? Num contexto onde ser mulher é ser menos, é ser sujo, é ser fonte de todo o mal e onde elas aprendem desde que nascem que são totalmente subalternas aos homens, que não têm voz e que devem ter vergonha do próprio corpo e da sua condição, a falta de acesso a condições de higiene pessoal é apenas um reforço da sua inferioridade e uma humilhação, obrigando-as a sair da esfera pública porque estão “sujas” e a recolherem-se dos olhares dos outros como se tivessem lepra. É uma forma descarada de descriminação e de insensibilidade perante as necessidades da própria população por parte dos homens no poder.
A dada altura um amigo dizia-me “… mas olha que não fazem por mal!”. Pois, eu imagino que na maior parte das vezes não se trate de um plano concertado para manter as mulheres subjugadas, com vergonha delas próprias e sem estatuto social para além do de máquina de reprodução, em casos mais extremos. Não, o que acontece é que se são os homens a ter o poder e a não valorizar as mulheres elas tornam-se invisíveis e as suas necessidades e os seus direitos nunca são observados. É mais um caso de zarolhisse do que de má fé.
Por isso para mim ser Feminista não é uma circunstância, é uma condição enquanto ser humano perante a desigualdade absurda a que metade da humanidade sujeita a outra metade, com a melhor das intenções.
E não se iludam aqueles que de vocês estão a sorrir com este absurdo do Quénia, como se fosse uma anedota e longe, muito longe da nossa realidade, porque não nos faltam absurdos domésticos, mais ou menos subtis, de atentado à igualdade entre as Pessoas. Basta estarmos atentos.

VIAGEM À VOLTA DO QUÉNIA EM 12 DIAS – Parte I

Memorável, como todas as viagens, mas com um gostinho especial por desfrutar da companhia da minha irmã que finalmente ganhou coragem para vir a África. Não foi fácil organizar a “Volta”. Por um lado o tempo muito curto, por outro lado a gestão do meu trabalho aqui, por lado ainda, o receio dela em relação a este grande desconhecido. Sendo a pobreza, a miséria e a falta de estruturas um lugar comum associado à África em geral e um estereótipo que impede muita gente de aproveitar ao máximo a experiência, decidi mostrar-lhe o outro lado da moeda: o glamour, a riqueza, o deslumbramento da natureza… até porque o resto, está sempre ali ao lado e bem visível.
Foram dias de diversão e descontracção. Foram horas e horas de viagem por terra de autocarro, de matatu, de tuk tuk… e algumas de voo (para tornar possível passar uns dias na costa). Foram dias de imprevistos, de tensão, de encantamento, de frustração e sempre, de boa disposição. Fomos do extremo oeste, no Lago Vitória, onde eu vivo, até ao extremo este, na costa, para desfrutar de uns belos dias de Sol e Mar (tão preciosos para quem vem do frio e do Inverno Europeu). Pelo caminho exploramos Nairobi, Kisumu e Mombasa, visitamos o incontornável parque de Maasai Mara, descobrimos juntas o maravilhoso parque das Aberdares, passamos momentos lindos na Muringa Farm, na companhia do Erik e da Astrid e atiramos com os nossos corpos cansados para a areia a branca de Diani Beach. Conhecemos pessoas fantásticas, apresentei-lhe amigos novos desta vida e rimos muito.
Aqui fica o relato possível de 12 dias inesquecíveis à volta do Quénia (dos quais estamos ainda, as duas, a recuperar).
O dia D foi o dia 16 de Fevereiro. Depois de duas escalas, em Madrid e em Istambul (que tornam as viagens muito cansativas mas muito mais baratas), a chegada estava prevista para a improvável hora das 4h da manhã. Como de costume tinha tudo organizado (o Martin de prevenção com o seu táxi, para me apanhar às 3h da manhã no Albergue e seguirmos para o aeroporto) e nada aconteceu como previsto (o Martin adormeceu no carro e não me foi buscar). Como devem imaginar Nairobi não é a cidade mais segura do mundo para uma pessoa se fazer à rua de madrugada e apanhar um táxi desconhecido para onde quer que seja. Pior ainda se se tratar de uma mzunga. Dou então por mim na entrada do albergue a ligar ao Martin sem resposta e com o tempo a passar. Olho em volta e não vejo vivalma. Naquela noite, quente e estrelada, Nairobi parecia-me um deserto. Resolvi procurar pelos guardas que fazem segurança ao albergue a ver se conheciam algum taxista que estivesse de serviço. Nem vê-los. Comecei a procurá-los. Achei que estivessem a fazer a ronda ou algo do género. Nada. Entretanto, ao fundo, no jardim, vejo uma sombra compacta no lugar onde estão algumas mesas e cadeiras. Aproximo-me. Frustrada constato que se trata de um saco grande em cima da cadeira ou de um monte de roupa. Não desisto. Como não via bem o que estava à minha frente, resolvi ir lá tocar. Ao primeiro toque, o “monte” ganha vida e, num sobressalto levanta-se. Era o guarda, a dormir embrulhado em meia dúzia de casacos, com um gorro na cabeça e cachecol de lã à volta da cara. Deixem-me dizer que os quenianos em geral e os guardas em particular, são gente estranhamente friorenta. Basta o termómetro descer aos 20º e tiram logo do armário camisolas de lã e blusões de penas. E verifico que o “frio” da noite os perturba particularmente. Depois de algumas dificuldades de comunicação devido ao facto de eu continuar a não entender a pronúncia local (agravada pelo facto de estar a falar com um tipo embrulhado num cachecol) lá conseguimos um táxi seguro, conduzido pelo Filemon e cheguei ao aeroporto a tempo de ver a maninha chegar esbaforida com o calor dos trópicos.
O dia seguinte foi o único em que pudemos visitar Nairobi e não foi fácil seleccionar as “vistas” numa cidade tão grande e diversificada. A Mariana (aka mzunguinha) juntou-se a nós e fomos para o centro de autocarro  (à pois!). Subimos ao topo do KCC de onde se tem uma bela panorâmica da cidade, passeamos pela baixa e demos uma voltinha à cidade, de táxi (na companhia de um Martin acordado e mortificado) a caminho do Westegate (um centro comercial moderno ao nível dos melhores da Europa) onde nos juntamos a um grupo de portugueses para jantar no fantástico Art Café (um dos mais bonitos e melhores que eu conheço!) Um à parte para explicar que durante 1 ano achei que era a única portuguesa no Quénia. Nunca me cruzei com nenhum outro e no MNE tinham-me dito que nem sequer havia representação diplomática por lá. E bastou a Mariana chegar, dar com a embaixada, ir a uma festa organizada por eles para descobrir que afinal, não estamos sós. E outro à parte só para explicar que não gosto de centros comerciais, excepto quando se vive em Kisumu e uma ida ao centro comercial parece uma viagem a um mundo familiar e reconfortante.
Mas adiante. No dia seguinte, acordamos bem cedinho, abalamos para a central da Easy Coach e fizemo-nos à estrada durante 7 horas até chegar a Kisumu. É uma viagem fantástica que permite ter uma percepção forte da diversidade do país através do Rift Valley, das plantações de chá de Kericho e do mundo rural até se chegar a Kisumu.
A cidade é uma típica cidade africana, onde a vida se processa na rua, onde a confusão de meios de transporte, dos mais convencionais, aos mais criativos reina no centro e onde há alguns bairros ricos que parecem bolhas de bem estar e serenidade. O palácio Vitória, onde vivo (assim baptizado pela Mariana, que o conheceu depois de uns dias infelizes a habitar no bairro de lata de Kibera) fica um bocadinho fora da cidade, mesmo, mesmo em frente ao grande lago e na viagem de tuk tuk até lá a minha irmã foi pondo o olho na vizinhança, pobre, nas casas de lama, no lixo e no mau cheiro… de tal maneira que quando chegamos a casa a moça estava muda, tensa e podia ler-se-lhe nos olhos que tudo ali á volta para ela era feio, assustador e que só se queria ir embora. No dia seguinte era dia de seguir para Maasai Mara às 5.30 da manhã e tínhamos que descansar. O impacto inicial desvaneceu-se com uma visita ao Kiboko Bay Resort para ver o maravilhoso pôr-do-Sol e de umas belas gargalhadas na companhia da Lynn e de manhã tínhamos o Moses à nossa espera para o safari mais alucinante e hilariante da minha vida.