KAREN, O LADO MAIS BURGUÊS DA CIDADE

É a parte mais rica de Nairobi. A maioria dos habitantes são descendentes de antigos colonos, uma pequena percentagem são novos ricos, as propriedades são enormes e alguns dos restaurantes e bares da moda estão aqui, integrados em jardins maravilhosos, com decorações de cortar a respiração e a fazer-nos sentir quase noutro país. É aqui o cume dos contrastes da cidade.
Usufruir de todo este luxo, conforto, bom gosto e bem-estar tão perto de bairos de lata e de gente que vive com menos de 50 euros por mês, provoca-me crises existênciais e taquicardia.
Mas tenho de confessar que aproveitar um belo domingo se Sol, como o que passou para almoçar no jardim do Talisman (em cima) e provar o maravilhoso sushi e chamuças de coentros e feta na companhia de um belo vinho branco italiano, seguido de capuccino e bolo de chocolate no Karen coffee house (em baixo) junto a uma árvore de jasmim completamente florida que enchia o ar de um aroma doce e suave… quase que faz esquecer o lado pobre da cidade, e por umas horas sentimo-nos simplesmente privilegiados!
Agora para me livrar do sentimento de culpa vou passar a semana a andar de matatu e a comer em casa… porque, convenhamos que apesar de europeia sou patrocinada pela FCT ( não pelas Nações Unidas, como muita gente que anda por Karen) e o meu orçamento não é suficiente para andar pelo distrito muitas vezes :).

A OUTRA CIDADE

Uma coisa coisa boa deste meu trabalho é que me obriga a girar e a levantar as pedras para ver o que está por baixo e assim fico com uma perspectiva abrangente da realidade. Isto nem sempre é fácil ou agradável mas é fundamental. Já tinha aqui referido que Nairobi é uma cidade cheia de contrastes mas ainda não tinha mergulhado neles (e convenhamos que ainda não mergulhei, estou só a fazer snorkling).
Esta semana visitei uma organização de Comércio Justo que fica no Bairro de Lata de Mathare Valley, um dos mais antigos e o segundo maior da cidade. O maior, o famoso bairro de Kibera, tem mais de meio milhão de habitantes e fica já aqui ao lado da zona “bem” onde eu estou instalada. Já visitei e trabalhei em outros bairros de lata, em outras cidades (nomeadamente em Maputo, que conheço bem), mas nada se parece com o que encontrei aqui em Nairobi. Ao contrário daquilo que me é familiar os bairros de lata não se desenvolvem como um anel à volta da cidade. Aqui, eles crescem e aparecem onde há espaço e até parece haver uma lógica diferente, pois muitas das zonas periféricas da cidade são mais nobres e aí abundam as casas de luxo e grandes propriedades. Assim, toda a cidade é pontuada por estes bairros, maiores ou mais pequenos, e que estão em constante crescimento com o fluxo crescente de pessoas que abandonam o campo para tentar a sorte na cidade. De cerca forma constituem um microcosmos (muito macro em alguns casos), com regras sociais muito próprias, com um mercado imobiliário dinâmico (pois é, muitos dos “barracos” são alugados e fonte de rendimento e investimento para muita gente), etc.
Um facto que me surpreendeu é que a maioria das casas e “estabelecimentos comerciais” do bairro, são mesmo totalmente construídos em chapa. Parece lógico, eu sei, por isso mesmo se chamam bairros de lata, mas os que eu conheço são frequentemente construídos em adobe, com lama e pedras (o que mantém as casas mais frescas), com algumas casas com paredes de tijolo mesmo e a chapa apenas a servir de telhado e a remendar uma ou outra parede. Mas aqui, a chapa domina tudo. A chapa, o pó, o fumo e o lixo. As “casas” são quase coladas umas às outras, a privacidade é nula. O saneamento e a electricidade inexistentes, as vielas (sim, que não se pode chamar rua a sítios onde quase só se passa de lado) em terra batida. E claro, o verde da cidade, que tanto me encantou à chegada, não existe nestas paragens, nem os ecopontos, nem os “beautification programs”. Por vezes, o verde termina no quarteirão ao lado, mas nunca chega aos bairros. Aqui reina a paisagem árida, lunar, ao estilo “Mad Max”, coberta de chapa reluzente e um sentido de humor brilhante. É impossível não reparar em pormenores como o “Confort Funeral Services”, anunciado por uma tabuleta gigante pintada à mão na frontaria de um “barraco” esburacado e manhoso. (Depois de uma vida neste caos, há que pelo menos ser sepultado com conforto… é justo!)Lindo também é o “Sunshine Hotel”, que não deve ter um único raio de Sol durante todo o dia, pois está enfiado no meio de outros barracos num buraco lamacento. E não podemos esquecer o Hotel Barcelona e o Hotel New York a dar um ar cosmopolita à vizinhança. Igualmente impressionante é o número de Igrejas, de todos os credos que nascem como cogumelos pela cidade toda, mas que aqui, nos bairros de lata, encontram uma espécie incubadora. Os nomes são reveladores “Friends Church” (pois claro, valham-nos os amigos num sítio destes), “Hope Church” (booooring!), “End Times Glory Minister” (uns visionários bem informados) e por aí em diante. (A questão das Igrejas merece um post próprio. Eu ando a anotar os nomes sempre que passo por uma nova e a tentar perceber o fenómeno. A seu tempo voltarei ao assunto).
Esta foi uma primeira impressão, muito superficial. Mas vou voltar aqui e vou conhecer outros bairros de lata e irei dando conta do que vejo. Para já, vou mudar-me por umas semanas para o Monte Quénia. Não vai ser fácil sobreviver ao ar limpo e despoluído. Estou tão “agarrada” ao monóxido de carbono que temo pela minha saúde. Mas é a vida do “Perguntador” (tradução literal do swahili para investigador).

IMAGENS DE NAIROBI

Já que tanta gente manifestou vontade de visitar o Kenya resolvi pegar na máquina fotográfica e começar a tirar fotografias para verem o que vos espera. São todos muito bem-vindos! E olhem, toda agente me diz que Nairobi é o que o país tem de menos bonito…

Entrada do museu nacional. A exposição é interessante, o espaço do museu é muito bonito e as obras de arte espalhadas pelo jardim são excelentes… e o restaurante com esplanada é uma pérola.

Restaurante do museu

Instalação com fotos antigas e arte no jardim do museu.

Central Park de Nairobi. É proibido sujar e estragar. Apoiado!

O parque, a baixa da cidade e as flores por todo o lado.