Párem lá de ajudar os pobrezinhos…

Era uma vez uma escola rural num país pobre. Muitas das crianças iam para a escola sem comer e a vida em geral era muito difícil. Um dia o governo fez um acordo com uma organização humanitária americana para que esta doasse a farinha necessária para se fazer papas de milho. A comunidade foi mobilizada para que as mães rotativamente cozinhem na escola e sirvam a refeição ao final da manhã. O Governo está feliz porque tem mais crianças na escola e está mais perto de cumprir mais um ODM, as crianças estão felizes porque podem comer pelo menos uma refeição por dia e os pais estão felizes pela mesma razão.

Esta cena de vir às lágrimas acontece numa região onde praticamente só se produz milho e arroz. Só que quando a colheita é boa o milho excedente não se vende porque a aldeia está cheia de milho gratuito daquela generosa organização, ou então as pessoas não conseguem fazer farinha por não terem dinheiro para pagar a moagem pois não conseguem obter nenhuma forma de rendimento. Quando a colheita é má e as coisas pioram ainda mais, as pessoas ficam sem forma de comprar sementes para voltar a plantar os campos. Felizmente, podem contar sempre com os senhores Macgovern e Dole, os dois magnatas do sector agrícola, antigos senadores americanos, que criaram a organização que envia a farinha de milho para a comunidade.

Esta foi a história com que me deparei hoje de manhã numa comunidade pobre eternamente agradecida aos senhores americanos que lucram e perpetuam a pobreza deles. Quando vi os sacos de milho “USAID – not for sale” empilhados na escola fiquei doente e em conversa com várias pessoas cheguei a pensar que lhes ia provocar um curto circuito cerebral por questionar aquela doação e argumentar que eram apenas vantajosas para os agricultores americanos. Estou um bocado cansada de assistir vezes sem conta às mesmas histórias de terror disfarçadas de contos de fadas. Só me apetecem dizer: “Acordem, meus amigos!”

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Banqueiro dos Pobres – A história do Grameen Bank

A expectativa relativamente a este livro era enorme. O microcrédito é uma realidade incontornável para quem trabalha na área do Desenvolvimento, uma inovação com resultados comprovados, que veio para ficar e tinha, portanto, bastante curiosidade em conhecer melhor o homem por trás da ideia e o processo de crescimento do Grameen Bank.

É sem dúvida, um livro inspirador, daqueles que nos fazem acreditar que é possível mudar um bocadinho o mundo. É uma história impressionante de experiências, erros e sucessos. É um testemunho apaixonado sobre a visão de Muhamad Yunus relativamente ao mundo que o rodeia, aos problemas dos nossos tempos e sobre a melhor forma de os resolver.

E eu dei por mim, apesar de tudo, com vontade de morder nas canelas do Sr. Yunus, que é como quem diz de lhe dizer muitas vezes “Olhe que não…”. “Sossega, olha que o homem ganhou um prémio Nobel e tudo, deve perceber mais disto que tu” era uma frase que ecoava permanentemente na minha cabeça… sem grande sucesso no apaziguamento da minha inquietação.

Deixem-me esclarecer uma coisa, eu sei que o microcrédito é uma ferramenta poderosíssima na luta contra a pobreza e que o Grameen Bank e o seu fundador são exemplos fantásticos de preserverança, criatividade e sucesso. O problema é que não acho que esta seja uma panaceia para a pobreza e a solução para todos os problemas de má governação e exclusão social.

Ao ler esta biografia quase que acreditamos que o Sr. Yunus é um sujeito tão vulgar como o nosso vizinho do lado e que só porque teve uma boa ideia e trabalhou árduamente conseguiu alcançar todos os seus sonhos. É assim que ele se vê a si próprio e é assim que o vemos se nos deixarmos levar pelo discurso apaixonado. Mas não é verdade. Ele é um cidadão privilegiado de um dos países mais pobres do mundo, que teve oportunidade de estudar no estrangeiro, de se rodear de pessoas influentes e de pertencer à élite e esse facto foi crucial em várias fases da vida do Grameen Bank. Fosse ele um comum cidadão anónimo (sem conhecer pessoas influentes no governo do Bangladesh, no Banco Mundial, nas Nações Unidas, em grandes ONGDs) e duvido muito que a história fosse a mesma.

Concordo totalmente com ele quando crítica a “indústria” do desenvolvimento e a forma como a ajuda é canalizada e mal usada. Quando ele afirma que instituições como o Banco Mundial seriam muito mais eficazes se tivessem sedes em países como o Bangladesh,  em vez de Washington, se estivessem próximos da pobreza que querem combater e se poupassem recursos necessários para os mais pobres reduzindo o peso da “máquina” do desenvolvimento e os privilégios dos que lá trabalham, tem o meu total apoio.

Mas quando compara os pobres do Bangladesh com o pobres do Ocidente criticando sobretudo na Europa, aquilo que ele considera um obsoleto sistema de protecção social que impede os pobres de sair da pobreza, que os marginaliza e destitui de auto-confiança e meios para serem auto-suficientes, cai numa generalização infeliz e desconhecedora da realidade. Quando coloca no mesmo patamar a influência nefasta do ultra-liberalismo económico e aquilo a que chama a “caridade” Europeia, afirmando que a competição é muito mais eficaz para promover o desenvolvimento (desde que “socialmente responsável” mas sem controlo estatal) do que a caridade, pois os pobres sabem muito bem como sair da pobreza, por si próprios, se tiverem acesso a algum dinheiro, eu pergunto-me se estamos a viver no mesmo mundo.

Em primeiro lugar os Sistemas de Segurança Social não são todos iguais e não podem ser todos metidos no mesmo saco. Mas mesmo generalizando e mesmo com todas as limitações e incongruências que reconhecemos no sistema, não é um sistema baseado na caridade, mas sim na solidariedade e na cooperação. É muito imperfeito, precisa de supervisão, precisa de políticas mais eficazes mas baseia-se no princípio da solidariedade em que quem tem mais deve contribuir para ajudar quem tem menos e em que o Estado deve providenciar serviços básicos a todos os cidadãos. Eu sei que é um conceito Europeu, entranhado na nossa genética histórica, mas o facto de ele o criticar tanto fez-me pensar a sério no assunto. É uma opção política, sem dúvida. Eu prefiro viver num Estado solidário do que num Estado meramente competitivo mas percebo o ponto de vista dele relativamente ao poder da competição, o que não posso é ficar indiferente quando ele chama caridade à solidariedade e quando faz afirmações categóricas sobre a forma como os “nossos” pobres, a viver de pensões e subsídios são subjugados e castrados pelo sistema. Não consigo deixar de ser cínica e de pensar que adorava ver a cara do Sr. Yunus perante a criatividade e empreendedorismo de tantos Portugueses que dominam de tal forma o sistema que fazem dele um modo de vida, que se aproveitam das falhas enormes que existem para manipular a seu favor os recursos que devem ser usados com maior justiça e critério. Não estamos a falar da Srª X do Bangladesh que depois de um microcrédito ganhou auto-confiança, ganhou um pouco mais de dinheiro e agora pode comer 3 refeições por dia (o que é excelente, sem dúvida). Estamos a falar de pobres, que apesar de todas as falhas do nosso sistema educativo foram à escola, que apesar de todas as falhas do nosso sistema de saúde têm uma muito maior esperança de vida e que apesar de todos os problemas podem ter acesso a incentivos para criar empresas, pequenos negócios ou viverem de biscates prestando serviços necessários, muitas vezes muito bem pagos.

Também não posso concordar com o Sr. Yunus quando afirma que todos os pobres sabem como sair da pobreza desde que tenham dinheiro. Continuamos a falar de realidades a universos de distância. Para ele sair da pobreza é poder comer 3 vezes ao dia e morrer depois dos 50 anos e para isso basta se calhar escapar a um intermediário para ter um pouco mais de lucro na fiação de tecido, ou comprar uma bicicleta para ir vender directamente ao mercado. Quando ele tenta passar esta ideia de um quase empreendedorismo natural por parte de todos os pobres, eu gostava que ele viesse aqui, ao Quénia (sim, porque ao Bangladesh eu nunca fui e portanto concluo que por lá as coisas possam ser diferentes) e perguntasse aos pobres quais são os seus sonhos (como diria uma querida amiga a trabalhar nos bairros de lata de Nairobi, “se for vendedor de tomates, quer vender um bocadinho mais de tomates, nem sequer quer ter uma loja, uma banca mais bem localizada ou revender tomates para outros vendedores”) para perceber que as pessoas quase não sonham, que a inércia e o “follow the leader” são o pão deles de cada dia e que ter acesso a microcrédito, por si só não resolve nada.

Fiquei decepcionada. Reconheço obviamente a importância do micro-crédito e o mérito do Grameen Bank na sua criação e difusão mas esta ideia de que o Sr. Yunus se vangloria de não ser nem de Esquerda, porque acredita que o Estado deve interferir o menos possível na vida colectiva e que é a competição no mercado que permite ultrapassar a pobreza, nem de Direita, porque acha que o ultra-liberalismo actual é cruel e explora os mais pobres perpetuando a pobreza, deixa-me desconcertada. A crença dele no mercado regido por princípios de solidariedade social é interessante mas a sociedade à imagem do Grameen Bank é uma utopia (privado, lucrativo mas a ajudar os pobres) se não houver regulamentação e uma sociedade civil forte e participativa.

Recomendo vivamente a leitura do livro. Dá que pensar. Faz-nos sair das nossas zonas de conforto e provoca-nos inquietação. É bom! Is Food for Thought.

NO REINO DO MEDO E DA INÉRCIA

Confesso que não sei muito bem como abordar isto. É um tema delicado. Há mais de um ano que ando a fugir dele, mas ele persegue-me e domina de tal maneira a vida à minha volta que não posso não falar nele. De alguma forma acreditava que com o tempo ia compreender, ia desvendar verdades ocultas ao primeiro olhar e ia poder explicar. Não foi assim que aconteceu. Continuo sem entender, sem desvendar e sem ser capaz de explicar.
A forma como as pessoas vivem a Religião e a forma como a Religião comanda a vida das pessoas não pode ser descurada pelos profissionais do Desenvolvimento porque ela interfere em todos os aspectos da vida e do quotidiano.
Não quero de forma alguma discutir a Fé e a forma como cada indivíduo vive a sua espiritualidade. E também não quero fazer uma apologia das religiões, se são melhores ou piores. Muito menos quero assumir o papel de conhecedora e crítica das religiões.
Hoje quero apenas dar conta das minhas inquietações, das minhas questões e partilhar uma realidade à qual eu acho que quem trabalha em prol do Desenvolvimento, em países como o Quénia não pode ficar indiferente.
Em muitos países africanos, a religião, assume um papel preponderante na vida das pessoas de uma forma impensável para qualquer Europeu. É, sem dúvida, o resultado de centenas de anos de missão evangelizadora do Ocidente, da destruição da História africana (um dos maiores crimes do Colonialismo a par da escravatura), da economia de mercado das almas onde hoje em dia competem centenas de Igrejas em busca de seguidores, de poder e de dinheiro. E é claro, o resultado da pobreza extrema e das dificuldades da vida que a tornam vazia de sentido, de conforto e de esperança sem a presença de um Deus criador e sem a crença de uma vida melhor depois da morte. E a Fé pode e é, sem dúvida, um excelente paliativo que torna a vida das pessoas mais suportável e que lhes dá respostas importantes para a sua felicidade. Mas em nenhum outro lugar como no Quénia, esta omnipresença me pareceu mais devastadora. É indiscutível que a presença da Igreja em África tem um papel fundamental no desenvolvimento. Em muitos locais onde os próprios governos não chegam, a Igreja está presente, no meio das maiores adversidades e nos lugares mais inóspitos. E está presente a evangelizar mas também a promover a educação, a saúde, o desenvolvimento comunitário. Aliás basta ver a quantidade impressionante de organizações de cariz religioso ou de inspiração cristã, islâmica, hindu… Se esta presença se traduz em benefício efectivo para as populações, isso já é outra história. Tal como acontece com ONGDs ou agências para o desenvolvimento, há projectos bons e maus, há resultados melhores e piores e a Igreja não escapa a esta lógica.
No entanto, aqui, para além das centenas de religiões, desde as mais comuns de inspiração cristã como católicos, metodistas, adventistas, protestantes, anglicanos, jeovás, ou de inspiração muçulmana ou hindu (cujas respectivas populações são bastante significativas) há uma miríade de outras religiões, com as designações mais estranhas e insondáveis e os propósitos mais insólitos. São as Trompetas de Zion, a Igreja das Pastagens Verdes, a Igreja dos Amigos, o Tabernáculo da Felicidade, a Fonte da Redenção… e mais um sem fim delas. Todas estão em todo o lado. Qualquer barraco de chapa ou de madeira serve para acolher os crentes e as crenças e na maior parte das vezes competem entre si pelo prémio do “Pastor que consegue berrar mais alto”.
No meio deste cenário encontra-se algo terrível: a impossibilidade de não se ter religião. E acho isto terrível porque coloca as pessoas sob o escrutínio comunitário dos guardiães da moral e dos bons costumes para quem não ter religião é ser amoral. E perante esta realidade os rituais multiplicam-se como se houvesse uma necessidade constante de se mostrar publicamente o quanto se é religioso e portanto, pessoa de bem. Todas as actividades do dia a dia são pautadas por orações colectivas: aulas, reuniões, dia de trabalho no escritório, refeições e tudo o mais que se consiga imaginar. Muitas religiões estão miscigenadas com crenças animistas e com a cultura tradicional, fechando os crentes numa espécie de mundo paralelo, onde a vida se desenrola através de lógicas que não me fazem sentido e onde prevalece o obscurantismo.
Mas pior que tudo isto é a cultura do medo. É um fenómeno transversal a todas as religiões e alimentado por todas elas. O Quénia é um reino do Medo. As pessoas têm medo de tudo o que é diferente, têm medo de se destacar, têm medo de ser criticas, têm medo de não preencherem os requisitos da moral e dos bons costumes, têm medo da “autoridade”, têm medo de castigos divinos, de espíritos dos antepassados, de pragas e magia, têm medo pensar, de ter opiniões, de ter iniciativa e criatividade. Desde muito cedo é inculcada nas crianças a cultura do medo e a apologia da obediência. O espírito crítico, a reflexão e a individualidade são destruídos muito cedo e a religião perpetua esta ausência ao longo da vida das pessoas.
Na minha investigação sobre as mulheres e a criação de auto-emprego a minha maior frustração é ouvir constantemente a resposta “Vou pedir a ajuda de Deus”, “Vou aguardar a ajuda de Deus”, “Está nas mãos de Deus” a todas as questões da vida para as quais bastava as pessoas saírem desta letargia doentia e fazerem qualquer coisa por si próprias. O medo e a inércia de mãos dadas com a santa omnipresença religiosa a alimentar a pobreza e a ignorância. Mas há uma coisa que me intriga. O Quénia, como já disse várias vezes é uma sociedade muito diversificada e profundamente desigual e perante toda a diversidade de etnias e grupos religiosos é impossível não observar determinados padrões de desigualdade. Os grupos muçulmanos e hindus detêm a maior parte da riqueza do país. As zonas mais ricas de Nairobi pertencem-lhes, as maiores empresas e negócios também e é muito menos comum encontrá-los em situações de extrema pobreza. Essa está reservada àqueles que pertencem a cultos cristãos e que vivem no reino do medo e da letargia, se bem que outras tradições religiosas também os cultivam. Não percebo.
E no meio deste quadro, para mim profundamente triste, acho que quem trabalha com estas populações tem de estar atento a estes fenómenos, tentar compreender o seu porquê e trabalhar para mudar as mentalidades. E sobretudo as Igrejas e as instituições de inspiração religiosa, que trabalham com seriedade para melhorar a qualidade de vida das pessoas, devem repensar-se e supervisionar o que em nome delas é feito em países como o Quénia.
Não vale a pena desenvolver complexos programas de apoio ao desenvolvimento enquanto as pessoas continuarem a viver numa cultura de mão estendida à ajuda internacional, de medo à mudança e de crença na intervenção divina para lhes resolver todas as dificuldade, porque aqui quando alguém precisa de dinheiro a primeira coisa em que pensa é onde é que vai arranjar um sponsor (uma palavra que toda a gente adora) e depois pede ajuda a Deus para aparecer alguém que lhes dê o tal dinheiro
Não adianta ensinar artes e ofícios quando ninguém se atreve a fazer algo diferente do que toda a gente faz, a arriscar uma ideia, a tentar um negócio. Não adianta conceber e pôr em prática belíssimos projectos para diminuir a incidência do HIV/Sida ou os casos de violência doméstica quando as pessoas acreditam que tudo acontece de acordo com os desígnios de Deus e que ele tudo resolverá.
E acho sinceramente que as instituições religiosas têm um papel fundamental na mudança deste estado de coisas, na erradicação do sentimento “Big Brother is whatching you”, no fim da cultura do medo, do ócio e da inércia e na transição para uma nova fase, de ruptura com a missão civilizadora da evangelização, através do culto da solidariedade, do diálogo  e da liberdade individual.

CULTIVAR VS ACEITAR A DIFERENÇA

Ultimamente tenho pensado bastante nesta questão e a aceitação da diferença, em vez do cultivo da diferença, parece-me cada vez mais uma atitude perigosa, paternalista e que pouco contribui para a construção de uma verdadeira sociedade intercultural global. A aceitação da diferença é um valor importante da cultura ocidental e, sobretudo Europeia onde apesar de haver resistências e intolerâncias, se verifica não só a valorização da diferença per si, mas também a sua valorização em termos de mais valia, nomeadamente na construção do espaço Europeu. E eu sempre achei isto tudo muito bem, muito nobre e muito produtivo, até ao dia em que saí da minha zona de segurança, onde faço parte da maioria e partilho os meus valores e referências e passei a ser a pessoa estranha e diferente para os outros. E aí aceitar as diferenças deixou de ser suficiente para mim, pois não muda nada, não acrescenta nada, é estéril.
Tudo isto torna-se ainda mais preocupante quando os profissionais do Desenvolvimento, caem no ciclo vicioso das concessões culturais, fazendo de conta que são iguais e que tudo partilham e aceitam, em nome de um acesso mais fácil às pessoas e comunidades com quem querem trabalhar. Para além de ser uma atitude de desonestidade para com eles próprios, é uma atitude de profundo desrespeito pelos outros, de paternalismo fácil que parte do princípio que a cultura ocidental, ao contrário das outras, é magnânima e tudo integra a bem da sagrada estabilidade sem conflitos. O argumento recorrente é que para conseguir trabalhar com populações isoladas, sem acesso a TV e informação sobre outras formas de ser, de estar e de viver, é preciso aceitar as diferenças e fazer concessões para evitar o temido choque cultural com o qual, supostamente estas pessoas são incapazes de lidar. É impressão minha ou quem diz isto está a perder uma belíssima oportunidade de expor estas populações à diferença que eles próprios representam, perdendo assim a oportunidade de partilhar outros mundos e outros valores e de cultivar a diferença? E é claro que é difícil, que demora mais tempo a ganhar a confiança das pessoas, a conquistar o nosso espaço e a ter margem de manobra. Mas não é impossível. E se abraçarmos o desafio de cultivar a diferença, isso não significa que esteja sempre tudo bem, que na mútua descoberta encontremos sempre pontes, compreensão e diálogo. Nada disso. Não é simples e não há fórmulas mágicas para lidar com as diferenças, mas na partilha reside o respeito pelas mútuas particularidades e isso eu acho que é fundamental.
Apesar de já ter passado por outros países em África e por outros lugares do mundo nada me preparou para o desafio que o Quénia representa para a minha capacidade de lidar com as diferenças. Nunca, nenhum outro lugar colocou tão em causa os meus valores e a minha forma de ver o mundo. Vivo em permanente choque cultural há quase um ano e rapidamente descobri que aceitar simplesmente as diferenças dos outros e tentar passar despercebida não me ajudava em nada, não mudava nada, era uma atitude estéril. Faço muito poucas concessões. Não escondo de ninguém o que sou, o que sinto e o que penso. E sabem que mais? Funciona! Funciona porque as pessoas não são estúpidas por serem pobres, por viverem isoladas e por não estarem expostas à diferença.
Mas deixem-me dar-vos um exemplo. A religião. O Quénia é o país que eu conheço onde a religião é mais presente no dia a dia das pessoas e onde o fundamentalismo e o fanatismo religioso tem mais ovelhas para os seus rebanhos. Para além disso é uma questão colectiva e praticada em praça pública. Os vizinhos anotam quem vai ou não à missa, em qualquer esquina ou canto de jardim nos deparamos com pregadores, armados de amplificadores a tentar doutrinar as massas e rodeados de público atento, a vida da maior parte das pessoas é pautada por uma inércia doentia que tem origem na crença de que deus tudo resolve e tudo providência. O creacionismo é uma crença comum, mesmo nas universidades e a teoria da evolução não é ensinada nas escolas. Todos os momentos quotidianos são pautados por orações colectivas. E alguém sem religião é, simplesmente, considerada amoral. Ora eu consigo aceitar, num patamar intelectual, que a religião seja importante na vida das pessoas, que as conforte e as enquadre socialmente. O que não sou capaz de aceitar é que um indivíduo desonesto, alcoólico, preguiçoso, que bate na mulher e nos filhos e que vai à missa seja considerado um cidadão modelo, enquanto que outro indivíduo honesto e honrado mas sem religião seja visto com desconfiança e não seja considerado uma pessoa de bem. E aqui eu tenho um papel a desempenhar se assumir a minha diferença e expor aos outros o meu mundo e os meus valores. Eu não fico de olhos fechados e cabeça baixa de cada vez que há uma oração colectiva (às refeições, em reuniões, formações etc.) e continuo a fazer o que estava a fazer ou simples retiro-me respeitosamente e regresso quando tudo terminou. No início as pessoas falam baixinho entre si e olham desconfiadas, mas depois há sempre alguém mais corajoso que se aproxima e questiona a minha atitude e aí, abre-se uma janela de oportunidade fantástica para a partilha da diferença e respeito mútuo, num patamar de igualdade entre os indivíduos. E depois, com o tempo, o convívio e a partilha, chegam habitualmente à conclusão “ela não é religiosa mas é boa pessoa” e aí, nessa fase, temos espaço para trabalhar e cultivar a diferença. E entretanto, descobrimos novos mundos juntos. É claro que eu gostava que as pessoas desenvolvessem espírito crítico, ganhassem autonomia e deixassem de ser dominadas pela religião, é assim que eu penso. E é claro que a maior parte gostava de me transformar numa ovelha do rebanho. Mas o que está em causa não é conquistar o outro para o nosso lado, ainda que trabalhemos nesse sentido, é simplesmente cultivar as diferenças e mostrar que o mundo é diverso e os indivíduos singulares e que isso não representa problema nenhum.