Africa Hilton

Quem me abriu a porta foi uma mulher pequenina, idosa de muitos anos mas com corpo de criança frágil disfarçado pelo hábito cinzento, austero, de religiosa. Eu, esgotada por onze horas de voo, desgrenhada pela electricidade estática, corada e a ferver com o calor dos trópicos e com uma mochila imensa nas costas devia parecer uma criatura dos infernos e além do mais estava aterrorizada com a ideia de uma estadia no convento o que me alterava inconscientemente o humor e a simpatia.
Apresentei-me de forma seca e quase inaudível e ambicionei secretamente um banho e uma cama como se o mundo acabasse a qualquer momento e eu quisesse morrer limpinha e serena.
– Bem-vinda minha filha! Estamos todas à tua espera. Fizemos um almoço especial para te receber. Deixa-me tirar-te essa mala das costas… – disse a irmã Doroteia numa explosão de energia.
Fiquei paralisada a ver aquele corpo franzininho agarrado à minha mochila, que era quase do seu tamanho, e que me guiava por um labirinto de corredores sem parar de falar um segundo. Arrastei-me atrás dela sem abrir a boca. Vi-a pousar as minhas coisas num quartinho pequeno e cinzento que me pareceu não ter mais do que um crucifixo aterrador na parede. Depois apresentou-me as instalações sanitárias que se resumiam a um chuveiro por cima de um ralo no chão, um lavatório e uma sanita, tudo imaculado, mas onde não pude deixar de reparar num relance, na infindável fila de insecticidas exposta no parapeito da janela: para baratas, formigas, aranhas… fiquei intrigada. Logo a seguir arrastou-me pelo pátio interior, rodeado de muros altos, de onde não se via senão o céu e depois de passarmos por um grupo de raparigas que faziam tranças umas às outras e que abafavam o riso à minha passagem abriu-se à minha frente uma porta, atrás da qual dezenas de mulheres distribuídas por quatro mesas enormes, em pé, começaram a bater palmas, a cantar e a dançar à minha frente.
– É uma canção de boas vindas… – sussurrou a irmã Doroteia ao meu ouvido imediatamente antes de apanhar o ritmo da música e integrar o coro.
Fiquei parada no meio da sala de jantar enorme sem saber o que fazer. Olhei em volta e curiosamente só mais duas mulheres usavam o hábito cinzento das religiosas. Todas as outras usavam coisas diferentes o que dava um colorido surpreendente àquela dança sincronizada. Havia mulheres vestidas com belíssimos saris indianos, com capulanas vibrantes e turbantes africanos, com calças de ganga, com t-shirts e a cena parecia tão surrealista que por momentos julguei que sonhava, ainda durante o voo e que ia acordar a qualquer momento. Acordei destes pensamentos com um intenso aplauso, rodeada de sorrisos e fui imediatamente agarrada por uma mulher que me abraçou intensamente e disse que éramos xarás, como se estivéssemos ligadas por um qualquer laço que eu desconhecia.
– Meu nome também é Lúcia como seu, como a Irmã de Fátima. Temos o mesmo nome, somos todas xarás – diz ela eufórica, com sotaque brasileiro, enquanto me abraçava.
Fiquei aterrorizada com a ideia de ter alguma a coisa a ver com os três pastorinhos, de ter uma ligação mística qualquer ao milagre de Fátima. Acalmei-me quando racionalizei a origem do meu nome. A minha mãe sempre me contara que ao contrário de todas as convenções que me atribuiriam o nome da minha madrinha, Marlene, ela sempre insistira em me chamar Lúcia em homenagem a uma heroína da rádio novela que por alturas do meu nascimento arrebatava as audiências. Comecei a sentir-me mais calma, afinal o meu nome tem origem na cultura pop e não na cultura eclesiástica e tudo o resto é mera coincidência.
Quando acabou a sessão de abraços, cumprimentos e apresentações, indicam-me o meu lugar na mesa e eu cansada e atordoada de emoções, sento-me prontamente e preparo-me para colocar o guardanapo no colo quando vejo num movimento colectivo todas as mulheres a benzerem-se de pé, a inclinarem a cabeça para o peito, a fecharem os olhos e a recitarem em coro uma oração desconhecida. Levanto-me num ápice, coloco as mãos nas costas da cadeira, inclino a cabeça num gesto de respeito e fico atenta a espreitar pelo canto do olho, aguardando o fim do ritual.
O almoço especial era composto por carapaus fritos, xima de milho (que eu viria a descobrir ser o meu maior terror em África porque detesto e faz parte da base alimentar) e tomates que as irmãs não se cansavam de elogiar e de afirmar que provinham da machamba do convento. Salvou-me a papaia doce e macia da sobremesa.
Horas depois de ter chegado consigo finalmente ficar sozinha no meu quarto. Olho angustiada para o crucifixo com aquela figura agonizante e ensanguentada e resolvo esconde-lo debaixo da cama, onde não o visse. Não ia conseguir descansar sem tomar um banho, por isso, num último esforço peguei nas minhas coisas e dirigi-me à casa de banho.
– A xará tá indo tomar banho? – pergunta-me a irmã Lúcia, saída não sei de onde.
– Sim. Sabia-me bem refrescar-me um pouco…
– Então tem de pedir às meninas para lhe trazer água – diz ela. E perante o meu olhar surpreendido a olhar para o chuveiro diz-me a rir:
– Ah! Isso tá aí desde os tempos do colonialismo que estas casas são antigas. Mas não tem água nos cano não. A gente se abastece no poço do quintal e pra tomar banho as meninas têm de trazer bacia com água e caneca. Aguarda aí que eu vou já providenciar.
“Água fria, portanto” pensei eu desanimada e quase à beira de um ataque de nervos antes do meu primeiro banho de caneca.

– Lúcia, nós vamos sair para visitar uma irmã doente no hospital. Queres aproveitar para conhecer um pouco melhor a cidade? – grita uma das irmãs enquanto bate energicamente na porta do meu quarto.
– Sim, boa ideia, vou só vestir-me e já saio – disse eu enquanto fechava o computador e punha de lado os livros, agradecida por aquela oportunidade para interromper o trabalho.
No pátio duas mulheres discutiam acaloradamente sob o olhar sereno e divertido de uma outra, a irmã Lini, uma freira indiana, goesa, tão linda que me parecia sempre saída da capa de uma revista de moda e desenquadrada no convento. Ela aproximou-se de mim, sorriu e fez sinal para me sentar, na certeza de que a discussão ia ser longa.
– Ambas querem levar o four four. É sempre assim para saber quem vai conduzir.
Fiquei a olhar aquelas mulheres a disputar o jipe como se fossem duas adolescentes, quando de repente aparece em cena uma mulher africana enorme, vestida de capulana verde e amarela da cabeça aos pés, pega na chave, entra no jipe e liga a ignição.
– A madre superiora acaba sempre com as discussões. É quase sempre ela que conduz, o que é uma desgraça para nós pois põe a vida de todas em perigo de cada vez que pega no four four.
Mal nos acomodamos todas o jipe arrancou com dois solavancos violentos parando quase em cima do portão que o Sr. José, o porteiro, tentava abrir o mais rapidamente possível para sairmos. O bairro onde se situava o convento era muito movimentado e a rua estava cheia de gente pois o passeio era um verdadeiro mercado informal onde se vendia de tudo desde bebidas brancas e tabaco, a pipocas, bens alimentares, filmes pornográficos, roupa, cartões de carregamento de telemóvel, galinhas e quase tudo o que se imaginasse. A saída do jipe do convento, a alta velocidade e com pouca precisão na direcção criou algum alvoroço entre clientes e vendedores. Ao meu lado uma irmã rezava baixinho com um terço na mão. Quando um miúdo atravessou a rua a correr mesmo à nossa frente soltei um grito abafado e agarrei-me com mais força o banco.
– Não tenhas medo Lúcia! – disse-me a madre superiora a rir – Estamos com Deus, não temos de nos preocupar que não nos vai acontecer nada de mal – afirmou peremptória soltando uma forte gargalhada.
Não fiquei mais descansada com a promessa de segurança divina mas comecei a gostar da adrenalina da viagem.
– Sabes qu
e uma vez – continuou ela – fui buscar o Bispo ao aeroporto e ele disse que nunca viu ninguém conduzir como eu, que de certeza que tinha a mão de Deus sobre a minha no volante.
A gargalhada foi geral.
– Quando queremos pedir alguma coisa ao Bispo basta arranjar maneira de a madre superiora lhe dar uma boleia. Consegue tudo o que quer – afirmou a irmã Lini provocando ainda mais gargalhadas.
Quando finalmente chegamos ao hospital sentia-me como se tivesse terminado uma sessão de contorcionismo mas estávamos todas divertidas e a rir das manobras alucinantes do four four.
– Quem é que vamos visitar? Está muito mal? – perguntei eu.
– É a mãe de uma das nossas noviças. Está com SIDA e não deve ter muito mais tempo de vida – respondeu a madre. – Revezamo-nos para a vir visitar e depois aproveitamos para trazer alguma comida, roupa ou medicamentos para os outros doentes. Aqui é a família que tem de cuidar dos doentes quando eles estão no hospital.
Não percebi muito bem o que aquilo significava até entrar no quarto onde se amontoava uma multidão de pessoas. Eu não conseguia distinguir exactamente quem eram os doentes e os outros. Algumas camas eram partilhadas por duas ou três pessoas, homens e mulheres, velhos e crianças numa promiscuidade doentia que parecia mais acertada para acelerar a morte do que para curar as doenças, como pude comprovar pela companheira de cama da mulher que visitávamos, que sofria de pneumonia. E o cheiro, o cheiro a doenças, suor, comida, o cheiro a morte impregnava todo o ambiente. As irmãs distribuíram o pouco que traziam, rezaram junto dos doentes e da família e fizeram-nos rir, fizeram-nos rir muito. Eu não servi para nada. Comecei a sentir náuseas e tive de vir para a rua apanhar ar até ao final da visita.

Mais tarde, enquanto lia serenamente no pátio, a minha xará aproximou-se de mim e disse-me que as noviças queriam saber como é que eu conseguia fazer o meu penteado. Soltei uma gargalhada. O meu cabelo é encaracolado, tipo fios de telefone e eu não lhe faço absolutamente nada… é mesmo assim. Juntei-me às miúdas para lhes explicar o fenómeno. Estavam a pelar tomate para fazer doce, todas sentadas à volta de uma bacia gigantesca e envergonhadas não levantavam os olhos para mim e falavam tão baixinho que eu mal as entendia. Peguei no canivete e comecei a pelar tomate também e ao final da tarde, já familiarizada com as raparigas iniciei a minha incursão no universo das tranças africanas. Aprendi a fazer vários tipos de penteados e começou a ser hábito à noite depois do jantar, quando acabava a novela e as irmãs se recolhiam, juntar-me ao grupo e continuar a minha formação. Pelo meio também aprendi a fazer doce de tomate, doce de papaia e doce de abóbora e ensinei inglês, salsa e ioga.

Uns dias depois, falava com a irmã Júlia sobre o quanto me sentia envergonhada por ter fraquejado no hospital.
– Lúcia, que disparate. Ninguém fica indiferente ao sofrimento dos outros principalmente quando não estamos habituados. E não podes esquecer-te que aqui somos todas four four como os jipes. Já passamos por guerras, fomes, doenças em vários países. Somos missionárias – disse ela para me animar.
– Mas vocês conseguem rir e fazer rir…
– Olha… estás a ver a irmã Doroteia, com aquele ar frágil? Os seus oitenta e nove anos permitiram-lhe participar na maioria dos grandes momentos do século XX. O pai dela era o dono de todas estas terras que agora formam o bairro. Era gente endinheirada, mas quis seguir a vida missionária e foi enfermeira na segunda guerra mundial, viu quase toda a família morrer durante a guerra civil, em Angola foi refém da Unita, no mato durante meses… a irmã Ermelinda foi violada durante a guerra e abandonada à morte, perdeu o marido e os filhos e ficou quase enlouquecida até decidir…

– Vocês estão com um ar muito sério! – Interrompe-nos a irmã Doroteia a sorrir. – Não querem ajudar-me a preparar a lição da catequese de amanhã?
Por segundos pensei que brincava comigo, mas não, aquela velhinha adorável queria mesmo a ajuda de uma agnóstica convicta, anticlerical para ajudar a preparar a lição da catequese. Ainda tentei argumentar que não tinha formação religiosa, que não ia à missa, que não sabia rezar, nem o nome dos santos e muito menos os mandamentos, mas nada a fez mudar de ideias. Durante o jantar fui o alvo preferido do humor aguçado das irmãs, que faziam questão de no dia seguinte assistir à lição de catequese dada por mim.
– Não, desculpem, eu ajudei a preparar a lição… uma ajuda muito modesta aliás, não me peçam mais nada por amor de Deus – disse eu muito aflita. E mal acabei a frase começo a ouvir uma gargalhada generalizada.
– Irmãs, temos de dizer ao Bispo que os nossos métodos de conversão de novos católicos estão cada vez mais eficazes. A irmã Lúcia está a descobrir a sua vocação – afirmou provocadora a madre superiora e eu desato a rir com elas.

Nesse domingo depois da missa, a que assisti depois de toda uma vida de costas voltadas para a Igreja, juntei-me ao grupo da catequese, onde quase todos eram adultos ou adolescentes e preparei-me para falar da tolerância e do amor ao próximo. Engoli em seco e comecei hesitante a recitar a cartilha que tinha preparado com a irmã Doroteia. Eu suava, gaguejava e olhava incessantemente para o relógio. O grupo olhava-me catatónico, sem interesse nenhum e tenho a certeza que noutro contexto qualquer me apupavam e atiravam com tomates se eu não me calasse rapidamente. E então, de repente, disse-lhes:
– Muito bem, já todos percebemos que isto está a correr mal. Vamos tentar outra coisa. Vou contar-vos uma história, a minha história. A história de uma rapariga que chega aterrorizada a um convento com a perspectiva de aí passar um mês alojada, cheia de preconceitos e medos de coisas que não conhece e que acaba por descobrir por trás dos hábitos, dos rituais, da religião pessoas extraordinárias…
No final da lição, que durou mais do que o previsto, vejo o rosto da irmã Doroteia iluminado e a sorrir-me, a irmã Júlia a enxugar as lágrimas e o grupo da catequese levanta-se e começa a cantar e a dançar à minha volta. Fizemos uma verdadeira festa improvisada e desta vez eu também cantei, ri e dancei até não poder mais.

Nos dias seguintes, a minha fama de oradora e catequista, ultrapassaram os muros do convento e foi alvo de muita risada e brincadeira. Felizmente estava perto o dia da despedida pois tinha de seguir para outra província para continuar o meu trabalho, senão não sei o que seria de mim hoje. Antes de partir, no meio de muitos abraços, beijos, prendas e algumas lágrimas a madre superiora aproxima-se e oferece-me uma chave.
– É a chave do convento Lúcia. As portas desta casa estarão sempre abertas para ti. Lembra-te de nós quando olhares para ela e não te preocupes por não saberes rezar pois vais fazer sempre parte das nossas orações.

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