MUDAR O MUNDO

Há muito, muito tempo, quando me projectava no futuro imaginava-me sempre no papel de salvadora do mundo. Mesmo quando o meu maior sonho era ser astronauta, o objectivo era sempre ter um impacto que ficasse na história. Tinha um bocado a mania das grandezas, é verdade. Depois, comecei a descer à Terra, a ganhar consciência social e continuava a querer salvar o mundo a trabalhar em campos de refugiados ou nos lugares mais inóspitos onde as pessoas morriam de fome. Eram os anos 80 e pela primeira vez as imagens de fome na Etiópia, a guerra do Biafra, o espectáculo humanitário do Live Aid ,entravam-nos pela casa dentro. Mas nessa altura a indústria do desenvolvimento ainda era uma criança e as minhas primeiras tentativas de sair para salvar o mundo foram frustradas.
Rapidamente comecei a perceber que não havia fome só em África. Lá no burgo, apesar de estarmos a ser invadidos de dinheiro dos fundos estruturais e a modernizar as nossas infra-estruturas, as nossas instituições e a nossa economia também havia quem passasse fome, quem não tivesse onde viver, quem não pudesse ir à escola.
Muitas voltas da vida depois, acabei por ir parar a África e por centrar o meu trabalho no continente. Mas já não tenho a mania das grandezas nem acredito no meu poder para salvar o mundo inteiro (nem sei se é suposto ter salvação). Hoje em dia, perguntam-me muitas vezes o que é preciso fazer para vir trabalhar para África. E eu pergunto sempre “Mas o que queres vir para cá fazer?”. Na grande maioria das vezes a resposta é sempre igual “Quero ajudar os pobres, as criancinhas, os que morrem de fome”. Eu respiro fundo (reconheço à distância aquela mania das grandezas de salvador do mundo) e normalmente digo “Se é por isso que queres vir, não precisas, podes fazer o mesmo em qualquer lado. Basta abrir os olhos para ver que na nossa “casa” também há pobreza, desigualdades e injustiças”. Eu sei que na maioria das vezes devo dizer isto até com alguma frieza e cai mal a quem sonha ser super-homem ou super-mulher com a melhor das intenções. O problema é que de boas intenções e gente cheia de super poderes ao serviço dos fracos e oprimidos, mas que só os querem usar em lugares exóticos e desconhecidos, está o mundo cheio.
E devem, por esta altura estar a perguntar “Mas então o que é que ela está lá a fazer?”, o que é mais que legítimo. É fácil, eu estou aqui por mim e não pelos outros. Estou nesta parte do mundo porque quero aprender mais sobre culturas que me fascinam, sobre sociedades que não entendo e, sobretudo, porque quero aprender mais sobre mim própria e crescer como pessoa. E eu sei que o facto de me expor a situações extremas, duras, ou nem por isso à vezes, mas o exercício da flexibilidade e da adaptabilidade permite-me confrontar-me comigo própria e descobrir-me. Não estou cá para ajudar ninguém, não mais do que ajudaria em qualquer outro lugar, porque a diferença acredito que a fazemos com as pessoas que nos rodeiam todos os dias.
Recentemente vivi um momento lindo, que me fez pensar nestas coisas. Fiz um pequeno curso de psicologia e aconselhamento infantil que me deu imenso prazer e que me ensinou a recorrer aos jogos e às brincadeiras para comunicar com crianças que sofrem de traumas. Pouco depois, num dia em que estava a fazer voluntariado no orfanato em Ruiru aproximei-me de uma menina que anda sempre muito caladinha mas que se agarra às nossas pernas e braços como se fosse uma questão de vida ou morte. Peguei num papel e lápis de cera de todas as cores e sentamo-nos no chão. Pedi-lhe para desenhar qualquer coisa e ela assim o fez. Pedi-lhe para explicar o que tinha desenhado e de repente vi abrir-se a porta para o coraçãozinho dela. Através do simbolismo dos desenhos com que ia enchendo a folha de papel falou-me dos medos, dos sonhos, da vida.
Claro que nada disto substitui uma terapia especializada com alguém devidamente qualificado, que infelizmente não temos e de que muitos miúdos precisam. Mas naquele momento fez a diferença, abriu uma porta, criou uma ponte para o mundo de outra pessoa. Uma ponte que permite ajudar a mudar esse mundo, a construir segurança e confiança onde só há medos, a levar explicações onde só há perguntas e confusão, a plantar afecto onde só há ressentimento e abandono. E visto assim, apesar de estar a falar apenas de uma menina de 8 anos, uma única pessoa no meio dos biliões de pessoas do mundo, parece-me muito, parece-me importante e sinto que estou mesmo a mudar o mundo; pelo menos o meu e o dela.

ESPIRITO DE NATAL

Comecei recentemente a reparar que as grandes cadeias de supermercados, os Continentes do Quénia, têm “ilhas” de cestas plásticas vermelhas e brancas, mas nunca percebi bem o que era. Finalmente explicaram-me, são os “cabazes de Natal” pré-fabricados para os patrões darem aos empregados de casa. Dentro das cestas estão uns quilos de farinha para fazerem a papa de milho, óleo e outro tipo de farinha para as chapatis (uma espécie de crepes que substitui o pão). Cada cesta custa a módica quantia de 12 euros. Nada de mais para um presente de Natal a quem lhes cuida da casa, dos filhos, do cão e lhes atura os dias bons e maus e, muita falta de educação. O que é curioso é que estas pessoas ganham por mês pouco mais do que o valor da cesta, muitos deles apenas 20 ou 30 euros e com isso sustentam famílias. Se em vez da pirosa e poluidora cesta plástica lhes dessem pelo menos o valor dela em dinheiro, eles apreciariam muito mais, comprariam muito mais coisas do que a cesta contém e pelo menos poderiam escolher em que gastariam aquele dinheiro que lhes faz tanta falta.
Quando vi isto, pensei nas cores do Natal. Os italianos de Breccia (alguns) querem um “White Christmas”, sem imigrantes de outras cores e aqui no Quénia temos cestas natalícias para celebrar o “Black Christmas” que é a cor dos pobres.
E assim vai o espírito de Natal num mundo a preto e branco.

O QUÉNIA NO SEU MELHOR

Um destes dias cheguei a casa feita num oito, como se diz na minha terra :). Tinha andado um bom bocado a pé e cheguei a casa cheia de dores na perna e na coluna e atirei-me para o sofá a ver se a coisa passava. Nisto chega a Lucy para a sessão de limpeza e mal eu lhe digo porque estou tão quietinha, ela não tem meias medidas: saca um frasquinho da carteira, levanta-me a saia e massaja-me violentamente a perna, isto sem eu ter tempo, nem para dizer “Ai!”. Muito rapidamente põe-me ao corrente dos efeitos milagrosos do líquido no frasquinho. “Isto é tiro e queda, cura tudo” e a seguir vieram dois ou três exemplos de mazelas desaparecidas em familiares e amigos próximos, tudo, graças ao miraculoso produto (cá para nós, com uma inquietante cor amarela!).
Peço-lhe então para ver o frasquinho e leio o micro rótulo a ver se descobria o princípio activo da coisa. Basicamente o que dizia, em vez da composição era o seguinte “Este medicamento é milagroso e actua através do Espírito Santo. Caso não fique curado é porque não tem fé suficiente.”
Claro está, que a coisa só passou com uma bela dose de anti-inflamatórios, uns medicamentos muito mais democráticos, que tanto curam crentes como descrentes.

Fiz um curso prático de Psicologia e Aconselhamento infantil, muito interessante mas sofri um choque cultural violento logo na primeira sessão. Pouco depois das apresentações, pediram-nos para fazer uma lista de “Regras da sala de aula” (lembro que éramos todos adultos, formados e profissionais). A Lista de regras era infindável e, por vezes, contraditória. Não se podia interromper a aula, mas devíamos participar activamente, devíamos limitar os nossos movimentos (não sei mt bem a quê), tivemos de eleger uma espécie de delegado de turma e tínhamos de nos respeitar uns aos outros. No entanto, no momento seguinte dei por mim a assistir a uma discussão acesa sobre quantas vezes por dia deveríamos rezar durante a formação. Disse bem, não era se devíamos rezar, mas quantas vezes e a grande maioria inclinava-se para o número 5 (à chegada, antes de cada intervalo, ao almoço e à saída). Eu acho que fiquei um bom tempo paralisada a tentar perceber o que se passava até que não aguentei mais e apelei ao meu direito de não rezar ao senhor vez nenhuma. “Vocês rezem as vezes que quiserem, mas não esperem que toda a gente partilhe o mesmo sistema de crenças. Eu não rezo e quando vocês rezarem eu vou lá fora tomar um cafezinho”. Surpreendentemente, a única pessoa não africana que lá estava, uma rapariga argentina, apressou-se a dizer que me fazia companhia.

Hoje vinha do Centro de Rebilitação e uma colega de lá passou num centro comercial e parou para perguntar a que horas fechava ao domingo. Quando lhe perguntei que lugar era aquele, disse-me que era o centro comercial das Nações Unidas. Ou seja, os funcionários para além de receberem principescamente e terem regalias sociais do outro mundo, imunidade diplomática e uma polícia só para eles, também têm uma espécie de department store só deles totalmente tax free.

O QUÉNIA DE 5 EM 5

5 DESCOBERTAS BOAS
1 – A Aljazeera, um dos melhores canais de informação que conheço
2 – O sumo de tree tomato… divinal!
3 – Meditação… fiz um curso, comecei a praticar e fiquei agarrada
4 – Os safaris e a vida selvagem (a0 vivo é muito mais interessante que no NG)
5 – O Talismã, o meu restaurante preferido no mundo inteiro

5 DESCOBERTAS ESPANTOSAS
1 – A poderosa indústria filipina de telenovelas dramáticas onde nunca faltam ceguinhos, gémeos, bastardos mal amados e maus como as cobras, sogras do demo e heroínas românticas burras todos os dias.
2 – A poderosa indústria cinematográfica da Nigéria – Nollywood – um mundo!
3 – A comunidade Somáli e a Somália sobre as quais poucas referências tinha e que passaram a fazer parte da minha vida.
4 – O inglês do Quénia. É um facto que jamais vou entender correctamente o que as pessoas dizem.
5 – O preço das massagens e dos produtos de spa (um luxo acessível devido aos ordenados miseráveis)

5 DESCOBERTAS TRISTES
1 – A dimensão brutal da divisão social (de origem étnica, de género, económica etc)
2 – O fosso económico sem fundo entre miseráveis, pobres, ricos, muito ricos e escandalosamente ricos
3 – A corrupção paralizante e presente em todas as dimensões da vida
4 – O Norte árido, pobre e esquecido (e onde habitam algumas das tribos mais extraordinárias do continente)
5 – O fanatismo religioso e o obscurantismo alimentado por quase todas as religiões

Corrupção, batota ou apenas outsourcing num mercado competitivo?

Um artigo de opinião delicioso. Ora espreitem 🙂

http://www.nation.co.ke/oped/Opinion/-/440808/685850/-/4pn4d9/-/index.html

QUE GÉNERO DE IGUALDADE QUEREMOS CONSTRUIR?

O casamento entre dois homens de origem queniana, que teve lugar recentemente no Reino Unido, deu origem no Quénia a expressões de homofobia próximas do delírio colectivo mas abriu o debate, ainda que muitas vezes insano, sobre um dos maiores tabus deste e de muitos países africanos. E quando a maioria, incomodada simplesmente por ter de falar no assunto, preferia que os homossexuais simplesmente não pudessem existir, eu questiono-me até que ponto não estamos nós todos, ainda que através do silêncio e da negligência, a participar neste jogo perigoso contra os direitos individuais, quando criamos, por exemplo, Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, que defendem a igualdade de género apenas numa perspectiva heterossexual moralista.

Um dos argumentos mais utilizados e quanto a mim dos mais absurdos e desinformados, é o de a homossexualidade não existir em África e de a sua defesa ser uma forma de imperialismo ocidental. Ora o imperialismo tem as costas larguíssimas por aqui e a sua definição é bastante selectiva. Também é considerado imperialista, por muitos, a defesa dos direitos das mulheres ou a insistência da comunidade internacional na necessidade de acabar com a corrupção, ou até os direitos laborais. Claro que já não é de todo imperialista a dinâmica cada vez maior de destruição ambiental ou os padrões de consumo. A referência ao imperialismo serve sobretudo para accionar o sentimento de culpa ocidental quando se tenta promover direitos e liberdades, como se as culturas fossem estanques, fechadas ao mundo e às influências exteriores e como se fosse possível cristalizá-las. Ou seja, como se fosse possível ter telemóveis de última geração e internet e dar a volta ao mundo em algumas horas, mas continuar a viver de acordo com a sociedade do tempo de Jesus ou Maomé, sociedade esta, ainda por cima, interpretada ao bel prazer de cada um, de cada pastor, de cada padre, de cada líder muçulmano.

No Quénia, a respeito desta questão, a única coisa verdadeiramente imperialista, é a lei que criminaliza a homossexualidade, que foi introduzida no início do sec. XX pelo governo colonial britânico, baseada numa lei inglesa de 1533, que tornou o crime punido com pena de morte até 1861, altura em que foi reduzida para prisão entre 10 anos a perpétua. Em Inglaterra a homossexualidade foi descriminalizada em 1967 pelo “Sexual Offences Act”, mas mantém-se no Quénia onde esta herança do imperialismo britânico justifica, agora, um puritanismo africanista que não é mais que o resultado deste cocktail onde a uma lei caduca dos ingleses, se junta o fundamentalismo religioso (de todas religiões), o obscurantismo e o desrespeito pelo indivíduo.

O artigo de opinião de Okiya Omtatah Okoiti, com o título “Unlike Christianity and Islam, homosexuality is unAfrican”, publicado no Daily Nation resume na perfeição o tipo de posições que se esgrimiram a propósito deste assunto. Mas outros argumentos competem para a insanidade da discussão a que por cá se assiste, entre os quais, a ligação constante da homossexualidade à pedofilia com várias pessoas a afirmarem que se se aceitar um comportamento estamos a um passo de aceitar o outro. Esquecem-se, estes malabaristas da retórica, que num caso estamos a falar do comportamento sexual consentido entre dois adultos e noutro de abuso sexual de menores. Se pensarmos que esta semana foi notícia de primeira página um relatório que denuncia o abuso sexual continuado de milhares de raparigas quenianas, nas escolas, pelos próprios professores, homens supostamente heterossexuais, e que o impacto da notícia foi muito menor do que a do casamento destes dois cidadãos quenianos, algo vai muito mal. Não entendo!

Felizmente, muitas foram também as vozes que se ergueram para refutar estes argumentos violentos e defender a privacidade do casal em causa, apesar do risco, sempre presente, de serem eles próprios acusados de serem homossexuais (caso contrário não os defenderiam, no pensamento de muitos). Recordo em particular uma observação de uma das principais cronistas da imprensa queniana, uma mulher sem papas na língua, que afirmava a propósito, que o maior problema dos quenianos era preocuparem-se em demasia com o que se passa em cama alheia. Eu não podia concordar mais!

Mas a bem da discussão, independentemente dos argumentos, o melhor de tudo foi ter-se criado espaço para falar em público de tão grande tabu. Os jornais foram invadidos literalmente por e-mails e cartas veementes, contra e a favor, a questionar e a informar… enfim, a opinar sobre a homossexualidade.

Mas a defesa da homossexualidade é uma falsa questão. Não é a homossexualidade ou a heterossexualidade que deve ser defendida, mas os indivíduos que, independentemente das suas orientações sexuais, papéis sociais ou de género devem ter acesso aos mesmos direitos de cidadania e ao respeito. E é por isto mesmo que as políticas de desenvolvimento e nomeadamente os ODM, ao centrarem-se exclusivamente na promoção da igualdade de género, estão a ser insuficientes e a pactuar com uma visão redutora da sexualidade humana assente na heterossexualidade e na dicotomia do masculino e feminino. Nem sequer vou argumentar recorrendo a Foucault ou outros pensadores contemporâneos sobre a construção social do próprio sexo, que tem muito que se lhe diga, como resposta à recorrente visão funcionalista da sexualidade e sobre o que é “natural” ou não é “natural”.

Quero apenas deixar aqui um alerta preocupado, para a necessidade de se ir mais longe e com mais empenho na defesa dos direitos dos indivíduos que é tão frágil em tantos lugares do mundo. Apesar de compreender, de certa forma, a limitação dos ODM no que respeita à defesa exclusiva da igualdade de género, como forma de centrar todos os esforços e recursos nessa batalha árdua, não posso deixar de achar a estratégia perigosa e reflexo de um certo moralismo ocidental, onde apesar do muito já alcançado em termos da garantia de direitos individuais, se continua a advogar a heterossexualidade como modelo de comportamento sexual “correcto“. Acredito sinceramente que seria muito mais produtivo e justo defender a igualdade entre todos os indivíduos, independentemente da sua cor, etnia, género, orientação sexual, classe social ou religião. Seria mais difícil, é certo, pois não há sociedades perfeitas onde todos vemos expressas as nossas convicções e valores, mas promoveria o respeito pelas diferenças e o diálogo.

NOTÍCIA DO DIA

Não é uma notícia em destaque nos media quenianos, mas é a notícia do dia para mim, que ainda estou a digerir o conteúdo.
Na Somália, os “Rebeldes” fundamentalistas, ligados aos talibã da al-Qaeda, proibiram a utilização de toques de telemóvel com música, isto depois de recentemente terem proibido a dança, a música e o cinema, incluindo nos casamentos. Por lá os telemóveis só podem tocar pregações e canticos religiosos. Na passada semana um desgraçado mais herege levou com 25 chicotadas em público por ter sido apanhado a ver vídeos musicais indianos no telemóvel. Dizem os senhores da Lei que estas medidas são fundamentais para eliminar todas as fontes de corrupção das pessoas.
O que eu me tenho lembrado do Ahmed, que tem um Ipod recheado de boa música e que segundo ele é o único conforto que lhe resta quando está lá em reportagem.
Só me apetece chorar, não sei bem se de riso se de tristeza… talvez das duas coisas.