Super Catarina

Para a Catarina que faz seis anos hoje

A festa de aniversário acabou e estava na hora de ir dormir. Tinha sido um dia cheio de surpresas e coisas boas. Mal a Catarina deitou a cabeça na almofada adormeceu, de tão cansada que estava depois de passar o dia a correr, a brincar, a abrir prendas e a comer coisas boas. Mas passado pouco tempo e apesar do cansaço, começou a sentir frio e acordou. Os cobertores tinham levantado voo e esvoaçavam de um lado para o outro do quarto. Ela não achou piada nenhuma. Tinha sono e frio e queria dormir e por isso mal um dos cobertores passou perto dela, agarrou-o com força para o obrigar a voltar para a cama. Mas qual quê? O cobertor ganhou ainda mais velocidade e quando a Catarina deu fé voava também pelo quarto fora sem conseguir pôr os pés no chão até que, de repente, o cobertor pairou sobre a cama e caiu atirando com ela para o colchão.
– Cobertor, pára quieto! Quero dormir! – disse-lhe a Catarina muito séria a ver se ele se deixava de brincadeiras.
“Parabéns a você! Parabéns a você!…” Alguém cantava no quarto com uma voz linda, muito suave e alegre. Mas, estranhamente não se via ninguém. A Catarina, sentada no meio da cama, olhava de um lado para o outro a tentar perceber de onde vinha aquela vozinha, mas não via nada.
– Ei! Estou aqui em baixo, sentada no teu joelho, olha para mim! – gritou a vozinha.
Era uma linda fada, das que voam e são pequeninas, com um vestido azul comprido que esvoaçava quando ela voava e os cabelos loiros muito compridos.
– Catarina, sou a tua fada dos sonhos e hoje estou aqui por um motivo muito especial – disse ela com ar divertido.
– Uma fada! Que fixe!… Onde está a tua varinha de condão? – perguntou a Catarina intrigada.
– Isso já não se usa, miúda! Andas a ler contos de fadas muito antigos. Agora o que está na moda são os sopros de estrelas. Eu sopro na tua direcção e atiro-te com milhares de estrelinhas à cara para fazer cumprir os teus desejos – informou a fada.
– E posso pedir o que eu quiser!? – diz a Catarina a bater palmas de contente.
– Não! Nada disso! Hoje é um dia muito especial, fizeste seis anos. E todos os meninos, na noite em que fazem seis anos são visitados pela sua fada dos sonhos para escolherem um super poder.
– E posso escolher o que eu quiser?
– Não! Nada disso! Hoje vais experimentar cinco super poderes durante a noite e de manhã, antes de acordares, vais ter de escolher um que vai ficar contigo para sempre e fazer de ti uma menina muito especial – disse a fada enquanto batia as asinhas delicadas e puxava os cobertores para cima da Catarina para ela adormecer.
A fada dos sonhos soprou e atirou com milhares de estrelinhas para o ar. A Catarina fechou os olhos e começou a ver-se no recreio da escola a brincar com os amigos. A fada segredou-lhe ao ouvido que o primeiro super poder que ela ia experimentar era a super força. Ia ficar tão forte que podia levantar as árvores só com uma mão. Então, ao fundo, começaram uma zaragata. Um grupo de meninos começou a empurrar e a bater em outros meninos que brincavam sossegados. Era hora de a super Catarina entrar em acção. Atravessou o recreio a correr e quando chegou perto do grupo agarrou nos braços dos dois meninos mais fortes que estavam a bater nos outros e muito zangada começou a girar com eles à volta e atirou-os ao chão. Só que ela tinha mesmo muita força e não estava habituada por isso quando os largou, os infelizes meninos voaram para tão longe que quando caíram no chão partiram três costelas, dois dedos, quatro dentes e não paravam de chorar. Enquanto todos batiam palmas à Catarina por ela ter sido tão forte e corajosa e por os ter defendido ela correu para os dois miúdos e começou a chorar quando viu que os tinha magoado tanto.
Nessa altura chegou a fada dos sonhos, voltou a soprar-lhe estrelinhas e segredou-lhe ao ouvido que o segundo poder ia transformá-la na menina mais inteligente do mundo. A Catarina estava então na sala de aula e a professora, mais à frente, ensinava muitas coisas novas. Sempre que ela tentava ensinar algo novo, enquanto todos os meninos ficavam entusiasmados por aprender, a Catarina dizia logo “Eu sei, eu sei, posso ir mostrar como se faz?” e passado pouco tempo os colegas já não a suportavam. Ela sabia tudo, não os deixava aprender, mais ninguém falava na aula e a professora já não sabia o que lhe havia de fazer. No fim do dia, a própria Catarina estava muito triste. Os outros meninos já não gostavam dela e ela já não gostava da escola porque era aborrecido não haver nada para aprender, não haver nada de novo.
Então a fada dos sonhos chegou, soprou-lhe estrelas mais uma vez e disse-lhe que o terceiro super poder ia permitir-lhe voar. Desta vez, na praia, a Catarina feliz da vida abre os braços, corre e levanta voo. As pessoas que a viam nem queriam acreditar. Como era possível uma menina voar assim? Que maravilha! E ela ria e ganhava cada vez mais velocidade com os cabelos a esvoaçar ao vento e acenava para as pessoas que na praia a olhavam maravilhadas. Foi então que de repente sentiu uma bicada na testa, uma grande confusão de penas e se desequilibrou. Distraída, sem estar habituada a voar e sem conhecer as regras de trânsito dos pássaros tinha atropelado um grupo de gaivotas que iam sossegadas a caminho do seu rochedo no meio do mar. Com o acidente e a atrapalhação, ouviram-se muitos gritos, soltaram-se muitas penas e a Catarina caiu estatelada no areal.
A fada dos sonhos aparece de novo e diz-lhe que o super poder seguinte ia fazer dela a menina mais doce do mundo, pois tudo em que tocasse ficava doce. Na cozinha, o pai prepara-lhe uma linda torrada com azeite e sementes de mostarda, mesmo como ela gosta e quando a Catarina pega nela e mete à boca começa a torcer o nariz porque lhe sabia a chocolate. A seguir vem para a mesa um belo rolo de carne, mas mal o mete na boca fica a saber a caramelo. Tudo o que ela experimentava fica a saber a doces e pelo fim do jantar já estava enjoada.
Mais uma vez, e agora a última, a fada dos sonhos chega ao pé dela, sopra-lhe estrelas e segreda-lhe ao ouvido que o quinto super poder a vai transformar na menina mais rápida do mundo. A correr a Catarina é mais veloz do que ninguém. Na escola a professora dá inicio a uma corrida e a Catarina sai disparada, mal se vê e atravessa a meta toda contente. Depois senta-se à espera que os outros cheguem, o que só acontece muito tempo depois. Na praia, a brincar com outros meninos, acontece o mesmo, chega sempre muito mais depressa que os outros e depois fica sozinha à espera. Até entrou num concurso e fez a mesma corrida vinte vezes só para não ficar sozinha mas depois também se cansou de chegar à meta e voltar ao início, e chegar à meta e voltar ao início e chegar à meta e voltar ao início e acabou por ficar, como sempre, à espera dos outros e nem sequer estava feliz por ter ganho porque já sabia que ganhava sempre.
Então a fada dos sonhos voltou, fez-lhe cócegas no nariz para ela acordar e perguntou-lhe com que super poder queria ficar. A Catarina sentou-se na cama ensonada e começou a pensar em voz alta.
– A força, não quero. É muito perigoso e posso magoar os outros meninos. A inteligência também não pois não tem piada nenhuma saber tudo; é bom aprender. Voar também não quero. É muito bom mas o céu é para os pássaros e podem haver muitos acidentes. A doçura enjoa e eu gosto de todos os sabores, não quero passar a vida a comer coisas doces, tudo com sabor a chocolate, caramelo, chantily… não, quero os sabores todos. E também não quero a rapidez. É aborrecido saber que vamos ganhar as corridas todas e não gosto de ficar sozinha à espera de toda a gente.
– E então não vais querer nenhum super poder? – perguntou a fada dos sonhos muito intrigada.
– Não! – disse muito séria a Catarina – Não quero ter super poderes, pensava que era mais divertido.
– Então vais ter de descobrir os teus próprios super poderes, aqueles que nenhuma fada te pode dar e que mais ninguém tem – disse a fada a sorrir para ela.
– Mas eu tenho super poderes? – perguntou a Catarina.
– Claro que tens, muitos. Toda a gente tem super poderes. Só tens de os descobrir. Tens de confiar em ti e descobrir os super poderes que fazem de ti uma menina tão especial, diferente de todas as outras. Tens de descobrir a Super Catarina.
E então a fada bateu as asinhas novamente e puxou os cobertores, soprou mais estrelinhas e disse baixinho “Bons sonhos e feliz aniversário!”.

Anúncios

Conto de Fadas

Está uma noite mágica, ambígua, iluminada. A Lua sempre me fascinou. Mesmo quando a Lua era apenas a Lua e não resplandecia com memórias. Sou uma mulher lunar. Estou sentada na varanda, a beber gin e a fumar um cigarro. Estou sozinha e olho o mar à minha frente, por trás do casario que desce até ao porto, por trás dos mastros de barcos que atravessaram o Atlântico para repousar aqui. E por trás do mar iluminado, quase dourado está a montanha imensa. Não tem luz própria como as estrelas, não reflecte a luz como o mar e portanto nem o luar denuncia a sua presença imponente. Só eu sei que está lá, depois do casario, depois dos mastros dos barcos, depois do mar. Não é uma questão de fé. É que eu sei que a Lua é um astro extremamente selectivo, que nem tudo revela. Abraço as pernas e pouso a cabeça nos joelhos para recordar.
No local onde nasci, muito longe, do outro lado do mundo somos um pouco diferentes. Se alguém nascer durante o dia tem o dom de tudo ver. Pode ver com os olhos e com o coração. Pode ver a alma das pessoas também. Mas se alguém nascer durante a noite, é um ser mais frágil e delicado e tem o dom de se tornar invisível sempre que se sente em perigo, para se proteger. O local onde eu nasci é uma pequena ilha perdida no mar. Não sei porque motivo somos diferentes de todas as outras pessoas. Há lendas e mitos sobre a nossa Criação, é certo, mas nenhuma explicação verdadeiramente satisfatória. Levamos uma vida simples e tranquila. Vivemos da comunhão com o mar. É do mar que retiramos alimentos, energia, medicamentos, histórias. É de mar que fazemos as nossas estradas para encontrar outros povos com quem convivemos e fazemos transacções. É no mar que encontramos satisfação, quando o contemplamos, quando mergulhamos, quando cheiramos a maresia. Raramente saímos da nossa ilha, sobretudo as pessoas lunares que são mais frágeis e delicadas e sofrem mais com as doenças do mundo.
Um dia, acabava de sair da água depois do meu mergulho matinal quando uma nuvem branca poisou na praia à minha frente envolvendo tudo num abraço de neblina que não me permitia ver as minhas próprias mãos. Sentei-me no areal à espera que o sol voltasse. E então vi-o claramente a caminhar na minha direcção. Era um rapazinho espevitado de uns sete anos, com um andar muito seguro de si e um olhar doce e sábio impróprio para a idade dele.
“Quem és tu? Andas perdido?” perguntei eu curiosa.
“Não, acabei de encontrar o que queria. Vim propositadamente à tua procura, Luana” respondeu ele muito sério.
“À minha procura?! Porquê?” continuei, sem perceber nada do que se estava a passar.
“ Sou o teu Guardião. Queres muito sair para o mundo exterior, conhecer o que há para lá da ilha, conhecer as outras pessoas, mas não podes ir sozinha. Eu vou contigo” disse o rapaz com autoridade.
“Mas eu posso proteger-me, fico invisível, nada me poderá fazer mal. Não é um miúdo como tu que me vai ajudar, pelo contrário ainda me vais atrapalhar mais e tenho eu de tomar conta de ti” respondi já cansada daquela conversa.
Foi então que a neblina se tornou mais púrpura e num ápice o rapazinho deu lugar a uma bela jovem de cabelos negros e sorriso delicado.
“Luana, já devias saber que tudo tem muitas formas e muitas faces. Eu posso ser o que eu quiser” disse ela num tom provocador, quando o púrpura deu lugar ao rosa e a jovem se transformou num ancião de cabelos muito brancos e o rosto sulcado por rugas.
“Eu sou um Guardião. Não somos um mito nem seres encantados. Somos tão diferentes de vocês aqui na ilha, como vocês de todas as pessoas do mundo exterior e a nossa missão é proteger-vos, sobretudo a vocês lunares quando querem aventurar-se para lá do mar. É muito fácil esquecer quem são lá fora. A minha missão é zelar para que isso não aconteça” afirmou ele com determinação e ternura na voz.

Quando cheguei ao mundo exterior fiquei fascinada com tudo. Vivia em sobressalto, é certo, e durante os primeiros meses acho que quase ninguém me viu. Tinha medo dos automóveis, dos barulhos, da forma de falar mais brusca das pessoas, dos animais que nunca tinha visto, dos objectos desconhecidos. Tinha medo de tudo mas por outro lado vivia fascinada com as descobertas intermináveis, com os novos mundos, pessoas, formas de estar que desfilavam na minha frente. Pouco a pouco fui-me habituando ao mundo exterior e perdi o medo e deixei de me tornar invisível e estava feliz.
Um dia ao entardecer, enquanto lia tranquilamente num banco em frente ao mar senti que alguém se aproximava e se sentava ao meu lado.
“Que livro maravilhoso é esse que desvia o teu olhar do sol a adormecer?” perguntou-me o homem que acabara de chegar. Sorria para mim e tinha um ar intrigado como se quisesse realmente uma resposta para aquela pergunta.
“Estou à espera da Lua, que está quase a chegar” respondi eu muito séria.
“Olha” disse ele a apontar para o céu, “Já chegou, está ali, vê”.
Fechei o livro e sorri também. Falamos do Sol e da Lua, dos lugares por onde tínhamos passado, de coisas banais, de coisas que nos tinham acontecido, de tudo e de nada. Quando dei conta a Lua já estava alta, majestosa a iluminar o mar e o mundo à nossa volta. Ele tinha acabado de chegar àquele lugar. Vinha para trabalhar ali e quem sabe ficar, ou talvez voltar a partir. Durante muitos dias, muito tempo, continuamos a encontrar-nos. Perdíamos a noção das horas. Sentíamo-nos bem só por estarmos juntos e éramos felizes.
Uma noite aproximei-me dele em silêncio. O luar iluminava-lhe o rosto afável e os olhos ternos. Parei. Olhei novamente, com mais atenção. Parecia-me diferente, algo nele deixara de me ser familiar. Observei atentamente o perfil do rosto, a estrutura óssea equilibrada, a curvatura dos ombros os gestos delicados com que acariciava os braços para se aquecer do frio que a noite trouxera. E de repente o meu coração explodiu, acelerou como se estivesse a falar muito depressa, a dizer muitas coisas ao mesmo tempo. As minhas pernas ficaram paralisadas, incapazes de andar e as ideias, dentro da minha cabeça giravam num turbilhão doentio. Usei de todas as minhas forças para me arrastar até àquele banco e sentar-me ao lado dele. Aproximei-me para o beijar e o meu corpo incendiou-se de sensações desconhecidas. Tentei cumprimenta-lo timidamente. Ele não me respondeu. Continuou a olhar o mar e a tentar em vão aquecer os braços. Toquei-lhe no ombro a tremer e ele não reagiu. Levantei-me, coloquei-me diante dele e ele continuava a olhar para o mar através de mim, como se eu fosse invisível.
Voltei àquele lugar todos os dias. Tentei deixar de temer o amor que crescia dentro de mim. Amaldiçoei a Lua, o mar e a ilha. Entristeci. Voltei a todos os lugares onde nos encontrávamos até ele se conformar com a minha ausência e partir.

Em noites como hoje, de Lua cheia, de magia, não consigo deixar de pensar nele. Estou abraçada às pernas com a cabeça pousada nos joelhos a relembrar os momentos felizes que vivemos juntos.
“Luana anda comigo” disse uma gaivota que pousou na minha varanda.
“Estou a ficar louca… estou a ouvir vozes…” pensei eu confusa, quando a luz da Lua iluminou a minha varanda de tal maneira que me obrigou a fechar os olhos.
“Já nem te lembras de mim!” disse-me um rapazinho espevitado, muito seguro de si, parado à minha frente. “Sou eu, o teu Guardião, anda comigo”, insistiu.
“Mas para onde me queres levar?” perguntei eu curiosa.
“Vamos para casa, Luana, já não és feliz. Já viste o mundo, já aprendeste muito, já tiveste o que querias” respondeu o rapaz enquanto me puxava pela mão.
“Não, Guardião, a única coisa que eu verdadeiramente quero é o amor dele e perdi-o porque tenho medo, porque sou uma cobarde” disse-lhe eu com lágrimas nos olhos e a alma dilacerada.
“Não é verdade! Tu és como aquela montanha por trás do casario, por trás dos mastros dos barcos, por trás do mar. És poderosa e surpreendente mas também frágil e delicada como se estivesses à deriva no mar. E da mesma forma que tu sabes que a montanha está ali, mesmo quando a noite esconde a sua presença, também tu precisas que alguém consiga ver a tua alma para saber onde estás mesmo quando estás invisível”.
“Mas eu quero deixar de ser invisível. Quero que ele me consiga ver. Não quero mais ninguém, não percebes?” gritei-lhe.
“Ninguém pode ser o que não é! Tu és diferente e só vais ser feliz com um igual” insistiu o Guardião enquanto me agarrava com força a mão e me puxava.
Fechei os olhos e vi a ilha, o meu mar tranquilo, as pessoas que me amam e comecei a sentir-me flutuar, a sentir-me mais leve até voltar a sentir terra firme debaixo dos pés. Abri os olhos e vi a minha praia, a minha casa e senti-me bem.

– É um privilégio recebe-lo na nossa ilha – disse Solaris ao homem que ajudava a desembarcar.
– O privilégio é meu. Há muito que queria aprender a vossa tecnologia de gestão de recursos hídricos. Pelo que sei, a ilha é energeticamente auto-suficiente recorrendo exclusivamente ao mar – disse o homem entusiasmado.
– Já sabe que a nossa única condição é manter o mistério sobre a nossa existência. Ninguém pode saber as nossas coordenadas.
– Eu sou um homem de palavra e vou cumprir o prometido – disse o homem com confiança.
– Eu sei, garanto-lhe que sei. Não está em si agir de outra forma – respondeu Solaris a sorrir.
– Mas vamos, depois trazemos as suas coisas, a minha casa é já ali ao fundo e você deve querer descansar um pouco.
Avançaram pelo passeio junto ao mar, bordejado de árvores frondosas e flores coloridas e de repente Solaris viu um rapazinho com ar espevitado sair a correr do meio do casario e parar com ar traquina atrás de um banco de jardim onde uma mulher lia serenamente.
“Um Guardião?! Que estranho… que andará aqui a fazer?” pensou ele intrigado. Entretanto continuou a conversar com o estrangeiro mas de repente este ficou para trás, parado no meio do passeio a olhar fixamente a mulher que lia. Solaris olhou para ele, para o Guardião, que o estrangeiro não via, novamente para ele e sorrindo começou a afastar-se ligeiramente.
O homem aproximou-se silenciosamente e sentou-se junto a Luana. Atrás o Guardião dançava e rodopiava sem parar de rir, enquanto Solaris observava atentamente a cena.
– Que livro maravilhoso é esse que desvia o teu olhar do sol a adormecer? – perguntou o homem que acabara de chegar.
Luana pousa o livro nos joelhos com as mãos trémulas e olha devagar para ele, mas quando os olhares de ambos se cruzam ela desaparece. O homem fica perplexo a olhar o banco vazio sem saber o que pensar. Solaris aproxima-se coloca-lhe a mão no ombro, sentam-se e começam a conversar.
– Meu amigo, há muitas coisas sobre a ilha que você desconhece… – começa ele.
Atrás do banco o rapazinho com ar espevitado dá pulos de felicidade e não pára de dançar.

A árvore da vida

Quando o correio chegou, vivia-se uma manhã ordinária, sem grande agitação no hospital. Longe da azáfama e do caos dos hospitais públicos, aqui o ambiente era tranquilo, desinfectado e silencioso. Na recepção imponente coberta de mármore e obras de arte, o carteiro tinha por hábito não só entregar, mas também ajudar a recepcionista a separar a correspondência em pequenos montes que se espalhavam pelo balcão, na esperança de lhe conquistar um sorriso que funcionava como uma espécie de barómetro para prever o curso desse dia. Se, por acaso ela lhe sorria, ele iluminava-se e sentia-se o homem mais feliz do mundo. Acreditava que o dia só lhe poderia correr bem, cantava, espalhava o bom humor que lhe sobejava e à noite, quando deitava a cabeça na almofada fechava olhos e sonhava que a abraçava, que ela se encolhia nos seus braços e lhe devolvia um sorriso ainda mais doce. Habitualmente ela mal retirava os olhos da correspondência para olhar para ele e os seus gestos, mecânicos, na ânsia de organizar o balcão e alinhar os montes de correspondência a distribuir, raramente incluíam sorrisos. Um seco “Obrigada, Sr. Martins. Até amanhã.” colocava um ponto final naquela colaboração quotidiana e ele saía cabisbaixo depois de a ver desaparecer no corredor com dezenas de cartas nos braços, com a certeza de que ia ter um dia triste, azarado, solitário.

– Bom dia Sr. doutor, tem aqui a sua correspondência – disse ela e saiu do consultório irritada, como sempre, com a falta de cortesia do director, um homem mal-humorado, seco, que a ignorava diariamente e nem sequer a cumprimentava.
Afonso Soares afastou-se da janela, pegou na sua chávena de café, já quase frio e sentou-se na secretária. Olhou surpreendido para o monte de cartas na sua frente, como se elas se tivessem materializado naquele momento e depois reparou numa caixa que estava mesmo ao lado. Abriu-a com curiosidade. Não tinha remetente, nem carimbo dos correios, parecia ter sido entregue pessoalmente. Lá dentro, um pequeno bonsai ansiava por luz e quando o colocou em cima da mesa, na sua frente, encostou-se lentamente na cadeira e ficou a mirá-lo. Era um imbondeiro, uma árvore extraordinária que quando adulta pode atingir os vinte metros de altura e dez de diâmetro, a árvore da vida, um dos símbolos de África. Vê-la em miniatura, ali na sua frente, tantos anos depois de ter olhado uma pela última vez, pareceu-lhe estranho, irreal. Voltou a pegar na caixa à procura de mais qualquer coisa que lhe explicasse aquela encomenda estranha. Encontrou um pequeno cartão, escrito à mão, com caligrafia delicada, onde podia ler-se apenas “Obrigada”. Intrigado, franziu a testa, voltou a remexer na caixa, virou o cartão mas não encontrou mais nenhuma pista.
Entretanto entra repentinamente no consultório o seu sócio.
– Afonso, aquele investimento que fizemos na nova ala… – começou ele a dizer exaltado.
– Sabes que árvore é esta, Raul? – pergunta-lhe sem tirar os olhos do bonsai.
– Mas… que raio…sei lá! Não é uma daquelas árvores japonesas!? Mas o que é que isso interessa? Afonso, estamos com problemas sérios para resolver, porque raio estás aí a olhar para um vaso?
– É um imbondeiro Raul. Uma miniatura de um imbondeiro, a árvore da vida. Uma árvore sagrada em muitos lugares de África, que muitos acreditam facilitar a comunicação entre os vivos e os mortos. Ninguém sabe a idade dos imbondeiros. Ao contrário das outras árvores elas crescem ocas e não formam os anéis que nos permitem detectar a sua idade…
– Muito bem! Eu aqui cheio de problemas para resolver e tu a dares aulas de botânica. Estou a perceber… fez-te recordar o grande aventureiro Afonso Soares. Olha, eu não sei como essa porcaria veio aqui parar, mas é bom que te lembres que o grande aventureiro perdeu um pé por causa de uma mina e quase ia perdendo a vida, passou dois anos em coma e quando finalmente acordou resolveu ser um tipo responsável, abriu este hospital comigo e deixou para trás o grande viajante, aventureiro, salvador do mundo. Bolas Afonso! Estamos cheios de dívidas. Preciso da tua ajuda para resolver uma série de coisas e tu nem me ouves!
– Deixa-me sozinho alguns minutos. Só alguns minutos. Eu já vou ter contigo. Prometo – disse Afonso sem tirar os olhos do imbondeiro.
Raul deu meia volta e saiu furioso do consultório batendo com a porta. Entretanto, o telefone começou a tocar.
– Sr. doutor, é a sua esposa. Diz que não tem o telemóvel ligado e ela precisa fala urgentemente consigo – diz a recepcionista do outro lado da linha.
– Diga-lhe que estou numa reunião. Não quero falar com ela agora – disse Afonso indiferente.
– Mas… Sr. doutor, a sua esposa diz que é por causa do seu filho. Está muito aflita! – Insistiu ela mais uma vez.
– Passe a chamada – retorquiu, seco.
– Afonso, meu Deus, não consigo falar contigo e estou desesperada. O Filipe teve uma crise qualquer na escola, perdeu a cabeça, partiu tudo, partiu a sala de aula toda, agrediu colegas e professores e levaram-no para um hospital psiquiátrico porque estava incontrolável. Eu não sei o que fazer. Preciso de ti – disse ela desesperada, a chorar.
– Controla-te que assim não resolves nada. Já vou ter contigo – respondeu enervado.
Há dois dias que não ia a casa. Ia ficando pelo hospital e quando dava conta verificava que já era muito mais que um negócio, um trabalho, tinha-se transformado numa espécie de refúgio também.

Muito longe dali, da cidade, do burburinho das pessoas, da poluição e dos carros, numa pequena praia do Indico, destaca-se na paisagem uma pequena casa caiada rodeada por um jardim de cortar a respiração. Um verdadeiro jardim do Éden, repleto de árvores, flores e todo o tipo de plantas. No alpendre, voltado para o mar, uma mulher dorme tranquilamente embalada por uma cama de rede. É jovem ainda, não terá mais de quarenta anos, mas tem um ar doente e macilento como se a vida estivesse aos poucos a despedir-se dela.
– Isabel, acorde… vamos lá, que está na hora do remédio – disse suavemente uma mulher enquanto lhe tocava no ombro.
– Tive um sonho bonito – respondeu ela a sorrir enquanto se espreguiçava. – Onde estão as crianças? Já voltaram da escola?
– Sim senhora. Eu mesma fui buscá-los depois de arrumar a cozinha e agora a Dila foi com eles na praia – disse-lhe enquanto ajudava Isabel a erguer-se para tomar o medicamento.
– E o meu amor, Dosinda? Na estufa, como é costume? – perguntou a sorrir entre duas colheres de xarope.
– Sim e já veio espreitá-la várias vezes mas voltou. Está a fazer a poda dos bonsais.
– Estás a ver. Está tudo perfeito para a minha partida, preciso só de falar com o Velho Tembe. Pedes-lhe para vir aqui, por favor?
– Claro Isabel. Mas não gosto quando você fala assim. Você ainda vai curar. Tem de lutar pela vida – respondeu a mulher com lágrimas nos olhos.
– Minha querida Dosinda, já falamos sobre isso. Eu tenho um tumor maligno incurável e não quero passar os dias que me restam enfiada num hospital a ser retalhada a cada nova cirurgia só para prolongar um pouco a vida, longe de tudo e todos que amo. Eu tive uma boa vida. Quero ter uma boa morte também. As ervas e xaropes do Velho Tembe ajudam-me a suportar a dor e a ter ânimo. Mas vai lá chamá-lo, por favor, preciso que ele me ajude a fazer só mais uma coisa.

Afonso entrou no consultório ainda de madrugada. Não conseguia dormir e resolvera ir trabalhar. O filho já estava em casa, sob forte medicação e com um diagnóstico preocupante. Uma criança de d
ez anos, incapaz de controlar a agressividade e a raiva; incapaz de comunicar. Ele cruzou os braços sobre a secretária, pousou a cabeça e começou a chorar infeliz, impotente.
De repente sentiu que algo lhe rodeava os tornozelos, as pernas e que o ia aprisionando. Abriu os olhos e aterrorizado viu na penumbra a sombra de um imbondeiro que se agigantava dentro daquela sala e cujas raízes o prendiam e invadiam. De repente sentiu-se arrancado à cadeira onde estava sentado e em pânico, enquanto se contorcia viu-se ser levantado no ar e atirado para dentro da árvore gigante. Caiu num chão de terra vermelha, sentiu um calor pesado e mal conseguia abrir os olhos com tanta luz. Ouvia um tiroteio intenso que se aproximava cada vez mais, sentia uma agitação brutal à volta dele, o pó a invadir-lhe os pulmões e quando se levantou e olhou em volta encarou um cenário terrível de gente já quase sem vida, esqueléticos, doentes, que corriam para se esconder no mato e fugir ao tiroteio que os perseguia. Afonso ficou parado, paralisado, a olhar. Já tinha estado ali. Já tinha vivido aquilo… tudo aquilo que ele queria esquecer. De repente viu soldados a aproximarem-se, a disparar e algumas pessoas a começar a cair por terra. Viu uma mãe ser atingida na cabeça e lutar por cair de joelhos e depois para a frente para não esmagar o filho que trazia nas costas, preso numa capulana e então viu um homem que saiu como um felino enfurecido do meio do mato e começou a correr contra a corrente, na direcção dos soldados até ficar ao alcance das balas que choviam à sua volta, só para soltar aquele bebé das costas da mãe e salvá-lo. Afonso continuou parado no meio daquele cenário aterrorizador, perplexo, a ver-se a si próprio, há quinze anos atrás, a reviver outra vida. Confuso e perturbado Afonso vê-se então a si próprio a correr como um louco com uma criança nos braços na sua direcção e quando este corre através de si como se ele não estivesse lá, como se não existisse, Afonso sente numa explosão sensorial todas as emoções daquele homem que corre com uma criança nos braços e tenta fechar os olhos e tapar os ouvidos para sair daquele lugar.
Então deixa de ouvir o ruído das balas, as pessoas a correr, os gritos e abre lentamente os olhos. Está deitado sobre a secretária. O dia já nasceu e os primeiros raios de sol invadem o consultório. Afonso coloca as mãos na cabeça e encosta-se para trás na cadeira ainda com o coração acelerado. À sua frente está o pequeno imbondeiro com um cartão encostado ao tronco. Ele olha-o com estranheza. Jurava que o bonsai tinha vindo apenas com um cartão a dizer “obrigada”. E agora ali estava outro, com a mesma caligrafia, onde podia ler-se “coragem”.

– Isabel, você sabe que isto vai precisar de muita energia sua, que você não tem porque a vida está lhe abandonando – disse o Velho Tembe preocupado.
– Preciso fazer isto antes de partir. Devo a um homem tudo aquilo que sou e tudo aquilo que tenho. Tudo aquilo que me permitiu ser feliz e despedir-me da vida sem ressentimentos eu ganhei de um homem com quem passei uma noite, uma única noite na vida e do qual me afastei sem sequer me despedir.
– E não chega teres-lhe enviado um bonsai e um cartão a agradecer? – perguntou o homem que entretanto se aproximou deles.
– Meu amor, estás com ciúmes – disse Isabel a sorrir. – Mas não devias. Eu sinto obrigação de fazer isto pelo tanto que ele me deu. Eu estava perdida quando o conheci, destroçada, no meio de uma guerra que eu já nem conseguia descrever.
– Isabel, partilha com ele essa história, conta tudo para ele entender o que você quer fazer, minha filha e te ajudar também – disse o Velho Tembe, sábio como sempre.
– Eu vou continuar nossas combinações e depois volto para te ver – despediu-se o Velho enquanto se afastava.
– Queres ouvir, então? – perguntou-lhe Isabel enquanto lhe acariciava o rosto.
– Claro, se é importante para ti, se queres voltar a esses lugares da tua memória… – respondeu ele.
– Aqueles foram os piores tempos da guerra em Angola. Estávamos em 93 o Huambo foi cercado pela Unita durante 56 dias e ocupado em Março. Meses depois a cidade foi bombardeada pelas forças governamentais, que a conquistaram. Não é difícil imaginar o que foram esses meses. Toda a loucura da guerra, tudo o que de pior existe nos seres humanos à solta, descontrolado. Eu era uma miúda que queria ser jornalista, mas acho que tinha ido para lá porque queria morrer. Foi uma fase muito amarga para mim, muito dura. Fui para o epicentro da guerra como repórter free lancer. Vi tudo o que não se deve jamais ver. Um dia estava a caminho de um campo de refugiados quando o jipe que seguia à frente do meu foi atingido por uma mina. As viaturas ficaram destruídas e os que sobrevivemos tínhamos que seguir a pé até ao campo. Dois dias depois, esfomeados, feridos, desorientados começamos a ouvir tiros de metralhadora e percebemos que havia uma aldeia à frente que estava a ser atacada. Quando voltou o silêncio aproximamo-nos. Já não se viam soldados. De repente ouvi um choro de criança, olhei para o lado e vi uma mulher, que mais parecia um fantasma de si própria, pegar num bebé e coloca-lo ao peito para lhe dar de mamar. Lembro-me que me apeteceu muito chorar quando vi aquela cena mas depois… depois, saído do nada vejo um homem enlouquecido, que pegou na criança e a arrancou ao seio da mãe e que se atirou àquela mulher, agarrando-lhe os seios, subjugando-a com o peso do seu corpo. Julguei que ia assistir a mais uma de tantas violações da guerra. Olhei para a criança que no chão não parava de chorar, olhei para o soldado morto ao meu lado, retirei-lhe a arma da mão, aproximei-me deles e disparei sobre o homem com raiva. Quando o homem tombou percebi que lhe corria leite pelos cantos da boca. A mulher olhou para mim assustada, pegou na criança e fugiu a correr. Não tinha sido uma tentativa de violação, o homem estava esfomeado e do corpo daquela mulher tomou-lhe apenas o leite. Deixei cair a arma, gritei desesperada, cai de joelhos no chão e então começou a chover e eu fiquei ali, no meio da lama, não sei por quanto tempo, vazia.
Foi então que conheci o Afonso. Era médico no campo de refugiados, que afinal era perto da aldeia atacada e tinham ouvido o ataque e vindo ver se havia sobreviventes que pudessem ajudar. Era contra todas as normas de segurança, mas ele não se importava. Encontrou-me no mesmo local onde cai no meio da lama. Não tinha mais do que uns arranhões no corpo e estava suja e encharcada mas tinha a alma ferida de morte. Quando anoiteceu, depois de ter tratado dos doentes mais graves, veio ver-me. Eu não falava. Aqueceu água, despiu-me, lavou-me, deu-me alguma roupa confortável e limpa, fez-me café, olhou bem dentro dos meus olhos, abraçou-me com ternura, deu-me a mão e arrastou-me para fora da tenda, para fora do campo. Lembro-me que estava uma noite escura e de repente surge na minha frente um imbondeiro enorme a assombrar a noite. O Afonso estendeu uma capulana no chão, sentou-se e disse-me muito sério que já sabia diagnosticar a minha doença. Segundo ele sofria de “Pesada Escuridão”, ou seja andava há tempo de mais a ver cenas de terror, infelicidade, tristeza, violência e precisava apenas de ver outras tantas coisas belas, alegres que me tocassem a alma. Lembro-me de olhar para ele e achar que era louco, que não havia ninguém saudável naquele lugar. Então ele disse-me que tinha a mesma doença que eu em estado crónico e que a única maneira de a tratar era estar atento à humanidade que florescia até nos momentos piores ou então ir até ao imbondeiro, deitar-se a olhar as estrelas. Aquele imbondeiro já tinha vivido tanto, tantas coisas boas e más que lhe dava uma sensação de conforto indescritível. Dava-lhe a certeza de tudo ser passageiro menos aquela árvore. E depois a visão das estrelas na escuridão reforçavam ainda mais aquele conforto… havia luz, algures, mesmo que ali se vivesse na escuridão
mais profunda. A determinada altura dei-lhe a mão, acariciei-lhe o rosto e beijei-o. Abraçamo-nos com doçura e fizemos amor como quem quer dar vida ao outro. Quando acordei, nos braços dele ao amanhecer, sabia que não podia ficar ali. Estava frágil, era muito fácil ficar encantada por aquele homem terno. Sabia que tinha de encontrar o meu caminho sozinha. Sabia, a partir daquele dia, que há sempre luz até na noite mais escura e que mesmo no meio da loucura, da maior desumanidade é possível encontrar amor, ternura, beleza. Deixei-o enquanto dormia e chegada ao campo apanhei boleia de uma coluna humanitária da Cruz Vermelha que saia do Huambo.
– E o que queres fazer, Isabel? Eu ajudo-te mas não quero que te prejudiques. Isso Não! – disse-lhe com carinho.
– Meu amor, eu preciso apenas que sejas forte, que entendas o que está acontecer. Não lamentes ter menos tempo do que gostarias comigo. Pensa apenas, na enorme felicidade que foi termos tido a oportunidade de partilhar o mesmo tempo e o mesmo espaço neste universo imenso.

– Bom dia, Sr. doutor, a sua correspondência – disse-lhe a recepcionista e ia já a sair do consultório sem esperar resposta quando Afonso a chamou.
– Joana, leve-me este bonsai daqui para fora. Leve-o para a recepção, para sua casa, deite ao lixo mas não quero voltar a vê-lo – disse-lhe num tom decidido.
– Está a falar desta plantinha na sua secretária? – perguntou ela apontando, a medo.
– Vê aqui mais algum bonsai!? Tire-me isso da frente e desapareça também… já! – gritou.
“Grosso! Mal educado!” pensou ela enquanto pegava na planta e saia quase a correr do consultório.
Era uma planta esquisita, pensou a Joana, mas era pequenina e ali, naquela recepção enorme ia ficar deslocada. Resolveu levá-la para casa. Arranjou um cantinho simpático para a acomodar, ao lado do sofá e instalou-se, sozinha como todas as noites, a ver televisão. Estava quase a dormitar, a ganhar coragem para se levantar e ir para a cama, quando sentiu a luz a falhar e se viu rodeada por escuridão. De repente viu uma sombra enorme a crescer à sua volta e um barulho ensurdecedor de coisas a partir, a cair ao chão. Começou a tremer de medo e agarrou-se à cabeça aos gritos quando o vidro da janela em frente se partiu em mil estilhaços e o vento entrou com violência na sala arrastando-a do sofá. Então viu as raízes de uma árvore enorme que lhe tomara a casa rodearem-lhe a cintura e a atirarem-na pela janela fora. Joana caiu aterrorizada numa superfície confortável e fofa. Olhou em volta e viu que estava numa cama, completamente encolhida, agarrada aos joelhos e que estava a ser abraçada por um homem. Voltou-se suavemente, ainda com receio e viu o carteiro. Viu-o a dormir sereno, tranquilo, com um sorriso nos lábios e sentiu-se bem naquele abraço.

– Afonso está alguém a tocar desenfreadamente à companhia, vais lá tu ver o que se passa? – perguntou-lhe a mulher ensonada.
– A esta hora? Já não se pode dormir sossegado? – resmungou enquanto se levantava e descia as escadas.
– Joana!? Mas o que é que se passa? Você está maluca? Já viu as horas?
– O Sr. doutor desculpe, mas esta planta é para si. Eu acho que ela está embruxada. Aconteceram coisas muito estranhas lá em casa… eu levei-a para casa, sabe?… enfim, coisas muito estranhas e depois… depois eu vi isto encostado à planta – e mostrou-lhe um pequeno bilhete onde podia ler-se numa caligrafia que já lhe era familiar “Afonso” – e juro que não sei de onde isso apareceu. Olhe, Sr. doutor essa planta é para si, está escrito, eu não a quero lá em casa. Tenha uma boa noite – e virou costas deixando Afonso perplexo a olhar o bonsai.
Levou-o para a sala, sentou-se a olhar para o imbondeiro em miniatura e começou a abanar a cabeça de incredulidade. Foi então que num ápice o imbondeiro se agigantou e o devorou novamente. Afonso voltou a cair na terra vermelha e então uma mulher deu-lhe a mão e arrastou-o por um caminho. Ele não conseguia ver-lhe o rosto e olhava em volta na expectativa de estar ver um cenário familiar, de se ver novamente a si próprio quinze anos atrás. Quando deu conta, era noite escura e aquela mulher continuou a arrastá-lo até chegarem a um imbondeiro, onde se deitaram a ver as estrelas.
– O que é que isto significa? Porque é que eu estou aqui? – perguntou confuso.
– Tens uma doença crónica, lembras-te? Pesada Escuridão. E há muito tempo que não tomas a medicação – disse-lhe Isabel a sorrir enquanto o olhava nos olhos.
– Eu lembro-me de vir a este lugar, para descansar, para me afastar do trabalho…
– Tu vinhas a este lugar para voltar a ter esperança, para acreditares que tudo faria algum sentido. Mas estiveste muito tempo em coma, sem ver as estrelas e esqueceste-te de voltar a procurar o teu sentido da vida.
– Agora lembro-me de ti… desapareceste, nunca soube sequer o teu nome – respondeu Afonso.
– Nessa noite salvaste-me mas eu tinha de partir sozinha, como fiz. Foi brusco talvez, mas não conseguiria faze-lo de outra maneira.
– O bonsai… foste tu? – perguntou Afonso curioso.
– Fui. Queria despedir-me de ti e agradecer-te. Sonhei contigo neste lugar numa noite de tempestade e sem o imbondeiro e senti que onde estivesses precisavas de recordar quem eras. Agora estou a ficar muito cansada. Tenho de ir. Fica aqui mais algum tempo, o tempo que precisares a olhar as estrelas e quando voltares a ver o bonsai lembra-te de mim.
Ela beijou-o na testa, levantou-se e desapareceu na noite escura. Afonso deitou-se novamente e sentiu regressar uma serenidade que o tinha abandonado há anos.

O quarto estava iluminado por dezenas de velas e cheio de flores. Parecia um jardim. O Velho Tembe, segurava numa das mãos de Isabel e cantava uma canção que parecia de embalar. O marido segurava-lhe na outra mão e acariciava-lhe os cabelos. À volta da cama as crianças, a Dila e a Dosinda rezavam em silêncio.
– Ela já partiu e conseguiu fazer tudo o que precisava antes de ir embora – disse o Velho Tembe com um sorriso sereno.

Muito longe dali, Afonso acordou no sofá quando o dia amanhecia. Lembrava confuso todas as emoções e acontecimentos dessa noite, sem perceber se tinha sonhado, se tinha sido real, quando olhou para o imbondeiro e viu o bonsai completamente florido e um bilhete encostado ao tronco. “As flores do imbondeiro, como a vida”. Afonso sorriu, sentiu-se iluminado.