A LESTE, O PARAÍSO

Para quem anda distraído, é importante começar a dar o verdadeiro valor ao impacto que o extraordinário desenvolvimento económico da China e da Índia vai ter (e já está a ter) no mundo e muito especialmente, em África.

Não há equívocos entre interesses públicos e pessoais, ajuda e corrupção.  A China e a Índia têm interesses estratégicos no continente, nos recursos naturais, no mercado de trabalho, nas relações diplomáticas e são claros quanto ao que pretendem. Estão aqui para fazer negócio e nestes negócios, que não são ajuda, nem cooperação, nem caridade ainda não percebi muito bem se os cidadãos comuns ficam a ganhar, mas os estados africanos são soberanos nos negócios que fazem e seja a democracia mais desenvolvida e com mais mecanismos de supervisão e o balanço talvez seja positivo.

E isto veio a propósito de uma notícia publicada hoje nos jornais e da reacção dos leitores online. Os EUA desaconselham os seus cidadãos a visitar o Quénia por questões de segurança, enquanto a Somália for um foco de tensão e ameaça regional. Eis a resposta deliciosa deste leitor que espelha a opinião da maioria dos que fizeram comentários online:

Submitted by Krue
Posted Janeiro 27, 2010 05:22 PM

Thank you mr. Ambassador and I continue to wonder what you are doing in this unsafe country enjoying it so much that you mix and mingle with the locals in traditional regalia. Spare us your cheap talk and go back to the US as soon as you can. With no Americans visiting Kenya, Kenya will not lose much if anything at all. They do not visit as much anyway. Kenya needs to tap the east especially China, there are investors, tourists and are a whopping 2 billion of them!

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Bay of Tigers

“Today I have a new book you will love to read. It’s the ‘Bay of Tigers'” e eu sorri. Tentarem vender-me a “Baía dos Tigres” em Nairobi tantos anos depois de o ler pela primeira vez foi, no mínimo, insólito.

Em 1997 eu ainda não tinha posto os pés em África, nem em lado nenhum para além da Península Ibérica, e o rastilho que daria origem uns anos depois ao meu Big Bang ainda mal se tinha acendido, mas nesse ano, antes de o meu universo começar a expandir-se, o Pedro Rosa Mendes, jornalista do Público, partiu para uma viagem extraordinária, durante meses, por terra, de Angola a Moçambique. A “Baía dos Tigres” é o relato dessa viagem. Só que a viagem não foi um safari idílico ao interior do continente africano, foi uma espécie de descida ao Inferno, através da guerra civil em Angola e de um continente marcado por conflitos, miséria e violência. É um livro duro de ler mas extraordinário.

Lembrei-me muitas vezes dele quando em 2005 fui pela primeira vez a Angola e tal como ele (apesar de a guerra já ter acabado), não conseguia ver para além da destruição, dos edifícios e casas do Huambo cobertos de buracos de balas, dos tanques abandonados na berma da estrada, das carcaças de carros incendiados, dos painéis gigantes com centenas de fotos de crianças desaparecidas. Uma África bem diferente da dos relatos dos exploradores clássicos em busca do exótico e como o autor refere ” There is no scenery, no villages, no people around fires, or elephants silhouetted against the sky. I could speak of such things, I was hoping to, but it would be a lie.”

Foi difícil para mim ultrapassar estas imagens e encontrar beleza humana e natural em Angola, que é um país fantástico e reli a Baía dos Tigres outra vez quando voltei, dessa vez com uma sensação de intimidade, porque era capaz de reconhecer os lugares, as situações, alguns personagens. E o livro ficou sempre associado a esta minha experiência dura e riquíssima dos primeiros anos do meu Big Bang.

Foi por isso estranho ir a Nairobi e recomendarem-me o livro. Deixem-me só explicar uma coisa: em Nairobi há uma boa livraria, não, em Nairobi há uma excelente livraria, daquelas onde os livreiros não são vendedores de livros mas apaixonados por livros e onde se criam laços e empatias com os clientes. Eu desgraço-me de cada vez que lá vou. Adoro passar às vezes horas a conversar com um dos donos e ouvi-lo falar dos clássicos africanos, dos últimos lançamentos, das coisas que ele anda a ler. Por incrível que pareça, nestas intimidades literárias a nacionalidade das pessoas não tem importância nenhuma e o senhor apesar de me conhecer bem e de saber já que tipo de livros me interessam, me emocionam ou me aborrecem, não sabia que eu era Portuguesa e falava-me da Baía dos Tigres e do autor como se tivesse descoberto uma pérola num lugar exótico e distante. Quase, quase que comprei a edição em inglês para ver a tradução, mas resisti e fiquei-me por uma bela conversa com direito a capuccino, sobre Angola e Portugal e as armadilhas da História e as histórias da vida.

ENCONTROS

A diversidade de personagens que cruzam o meu caminho não deixa de me surpreender. E é extremamente útil porque funcionam como uma espécie de disjuntor cerebral quando caio na tentação de olhar os outros com os meus óculos de ver o mundo, que dispara e faz shut down às minhas generalizações e aos meus preconceitos.

Um tipo mal encarado e com pinta de Mafioso russo (de quem eu tentava fugir a sete pés) revela-se um artista francês, viajante e conhecedor do mundo… e da história de Portugal (com excepção daquela parte em que ele teimava comigo que foi o Vasco da Gama que descobriu o Brasil). Uma mulher simples que me parecia pobre e ignorante, revela-se uma verdadeira força da natureza e directora de uma escola, viúva e a fazer malabarismos com a vida para manter 3 filhas na Universidade e ainda por cima era senhora de uma cultura geral brilhante. Um condutor de tuk tuk, dono de um jeito gingão e ar de malandro revela-se um poeta e um espírito curioso (segundo as suas próprias palavras “eu nunca saí de Kisumu e passo umas 15h por dia a conduzir este carro mas conheço o mundo inteiro através das pessoas que se sentam aí atrás”) que me pergunta mil e uma coisas até chegarmos ao meu destino e que até já me fez explicar-lhe no meio do trânsito, com laranjas, como funciona o movimento da terra porque não entendia porque é que no Norte do mundo o Sol demorava mais a pôr-se e havia mais horas de luz em certas alturas do ano.

Ninguém é o que parece, ou pelo menos, ninguém é só o que parece e eu estou em crer que este disjuntor devia ser implantado em toda a gente. Se é verdade que todos temos tendência a fazer generalizações e que ninguém está livre de preconceitos, ao menos que tenhamos um sistema de alerta integrado para podermos reformular, reaprender e reolhar os outros. E isto acontece também no sentido inverso, obviamente. A maioria das pessoas que me vai conhecendo por cá pensa que todos os Portugueses são adeptos de futebol, liberais, opinativos, bem dispostos, pouco amigos das manhãs… simpáticos (porque só me conhecem a mim) e que Portugal é o lugar mais interessante do mundo (vários manifestam vontade de imigrar para lá, um dos meus taxistas favoritos quer que a filha vá para lá estudar, enfim se eles soubessem…). E assim vamos perigosamente construindo as imagens que temos uns dos outros sem mecanismos de alerta que nos ajudem a ver e a apreciar a singularidade.

E depois faz-me confusão, num mundo extraordinariamente diverso e rico haver quem queira viver num mundo só com uma cor, uma língua, uma religião, uma forma de estar, um pensamento único. Nunca ninguém lhes ensinou que os ecossistemas são mais resistentes e adaptáveis quanto maior a diversidade que integram? E é muito difícil vivermos todos juntos, sem dúvida, mas a alternativa…. Não me parece um lugar minimamente interessante e capaz de me vai tornar numa pessoa melhor.

BY THE SEA

Eis um livro raro, daqueles que nos seduzem e nos fazem sentir infelizes quando lemos a última página porque a magia terminou.

O narrador desta história é Saleh Omar, um exilado político improvável da longínqua Zanzibar, que tem por bagagem uma preciosa caixa de mogno com incenso. “I am a refugee, an asylum seeker. These are not simple words, even if habit of hearing them makes them seem so. I arrived at Gatwick airport in the late afternoon of 23 November last year. It is a familiar minor climax in our stories, leaving what we know and arriving in strange places, carrying little bits of jumbled luggage suppressing secret and garbled ambitions.”

Não se trata de um jovem, perseguido por motivos políticos ou outros, mas de um idoso, no fim da vida que atravessa o mundo em busca de paz e redenção. Ao contar-nos a sua história, abre-nos a porta e convida-nos a entrar num mundo que em muitos aspectos já não existe, a Zanzibar do início do século XX, do grande mercado das especiarias, das histórias coloniais.

O mar, que vê ao longe, através da janela da casa onde mora, numa pequena localidade costeira inglesa é praticamente o único elo de ligação entre duas vidas, a  actual no exílio e a outra, em Zanzibar, onde o azul e o cheiro do mar contaminavam um quotidiano feito de outros rituais, de outros ritmos e de outras cores. O Mar e um outro homem, Latif Mahmud, alguém intimamente ligado ao seu passado. E através do encontro entre estes dois homens renascem emoções adormecidas de amor, traição, ódio com origem numa ilha distante ao largo do Índico, noutro mundo, noutro tempo.

O autor deste romance, Abdurazak Gurnah, é também ele um filho de Zanzibar, onde nasceu em 1948, antes de ir estudar para Inglaterra, em 68, onde é actualmente professor de Literatura, na Universidade de Kent. Alguém disse um dia (supostamente alguem famoso, cujo nome não me recordo) que um escritor deveria escrever sempre sobre coisas que conhece. Gurnah fá-lo sem dúvida e com uma mestria e elegância absolutamente sedutoras.

Excerto

“She was nineteen, and I was thirty-two, not as big a difference in age as it might sound to some ears now. She had spent five or six of those years in the dark, proving and ripening until a man came to ask for her. She had never been anywhere, hardly ever read and did not even listen to the radio. Her days in those years were the work and pleasures of the house, and decorating and preening herself to receive and visit other women in similar restraint to herself. While I travelled, acquired a little, very little, learning, worked for the British and thereby understood something of the workings of our irredeemable world, set up a prosperous business and owned two houses. We had ardly spoken, had never been alone together before our wedding, I had not even seen her standing without the black shroud around her. Yet we were fortunate and had few difficulties in the beginning of our life together. She loved the house as I did, and loved for us to sit in the upstairs room, the outer veranda door open to the sea a few feet away, and the other door open to the balcony over the inner courtyard, listening to the radio or playing cards. There we spoke and told each other things we had never said before. And I new then what a desert my life had been before that, and learnt the sweetness of silence between companions.”

ANO NOVO, BLOGUE NOVO

A ideia era antiga: migrar o blogue para WordPress, torná-lo mais flexível e investir um poucos mais nele. Afinal esta aventura começou como um meio para publicar contos que eu ia escrevendo e acabou por se tornar num Diário, num Caderno de Viagens, num repositório de Inquietações, Opiniões, Imagens e partilha de Experiências. Precisava de crescer e eu queriar dar-lhe  novo rosto também, mais sóbrio, organizado e mais fácil de ler. Aqui está o resultado final. Ainda há muito para fazer, ainda tenho muito que aprender para o tornar melhor, mais bonito e interessante, mas para já está novo e de cara lavada e a partir de agora conto com os vossos comentários e sugestões de utilizadores para me ajudarem a melhorá-lo.

Espero que gostem e que continuem a visitar a Histórias à Solta.

MZALENDO, O PATRIOTA

Quantas vezes nos perguntamos sobre o que podemos fazer para tornar as nossas sociedades mais justas e os nossos governos mais transparentes enquanto cidadãos comuns? Apenas para, na maioria das vezes, nos acomodarmos à frustração de não podermos fazer nada, ao sentimento de inferioridade de quem acha que não tem poder nem voz. É assim em Portugal. É assim quando os níveis de abstenção eleitoral são elevados, é assim quando não exigimos os nossos direitos e manifestamos os nossos descontentamentos, é assim quando os movimentos sociais são pobres e é assim quando confundimos política com partidarismo e nos demitimos daquele que eu acho que é o nosso primeiro dever e direito enquanto cidadãos: participar activamente na sociedade, a nível local e global. Mas é assim em muitos lugares. Chamam-lhe crise democrática, alienação social… enfim, é um sintoma grave de um mundo em agonia.
Mas em muitos lugares do mundo a situação é ainda mais grave do que em Portugal, muito mais grave. Muitas democracias são artificias. outras tantas são jovens, outras ainda de democracia só têm o nome. Em muitos lugares falta consciência democrática, conhecimentos e instrumentos de participação social e de supervisão do Estado e falta sobretudo um certo nível de bem-estar social que permita às pessoas serem cidadãos de pleno direito. Não tenhamos ilusões. Enquanto a primeira preocupação do indivíduo for a sobrevivência até ao dia seguinte, seja por falta de comida, de água, de segurança, não podemos esperar que ele seja activo na defesa e no desenvolvimento dos seus concidadãos. E em muitos lugares este é o quotidiano da maior parte da população e a democracia apenas uma palavra estrangeira, imposta por estrangeiros para satisfação de alguns estrangeiros.
Apesar de tudo, de vez em quando, o solo mais árido pode produzir milagres, como as rosas efémeras do deserto de Atacama, da mesma forma que nas sociedades mais improváveis podem surgir fenómenos sociais extraordinários e inspiradores.
O Quénia não é um exemplo de estabilidade e maturidade democrática e enfrenta os mesmos problemas de muitos outros países no mundo onde a democracia não foi conquistada pelo povo mas imposta pela comunidade internacional e onde a maior parte da população se preocupa mais com a sobrevivência quotidiana do que com a participação social. Também não é um exemplo de transparência e responsabilidade governativa. Mas foi aqui que nasceu, contra todas as probabilidades, o MZALENDO: Eye on Kenyan Parliament e o MARS Group Kenya, dois sites que têm por objectivo supervisionar e responsabilizar o Estado. Curiosamente, mzalendo, significa “patriota” em Swahili e, de facto, haverá maior acto de patriotismo (seja o nosso conceito patriótico associado a fronteiras, línguas, religiões ou pertença comum à humanidade) do que monitorizar, denunciar, comentar e participar para cuidar da nossa sociedade?


IMAGENS DO QUOTIDIANO