Labirintos da memória

Vai para duas semanas que ela não consegue dormir. Não consegue dormir para além daqueles poucos minutos de sono profundo em que sonha com os flamingos e acorda aterrorizada, quase sem conseguir respirar. Todas as noites a mesma cena, a mesma angústia, o mesmo medo. No sonho está um belo dia de Sol e céu azul e um grupo de flamingos cor de rosa voa tranquilamente sobre a superfície de um lago demarcado a branco por uma aureola de sal que brilha com a luz. Simone esta na margem, sentada num banco de madeira, protegida pela sombra de uma acácia. Esta a olhar para o lago enquanto espera por alguém. Ela nunca se lembra por quem espera, mas acorda com a sensação clara de estar junto daquele lago a aguardar por alguém.6132_1148796651021_2118988_n
Está sozinha quando a água azul, bordejada por cristais de sal, começa a ficar vermelha, da cor do sangue. No princípio, ela pensa que são os flamingos cor de rosa, em bando a pousar na água, que dão a ilusão de a pintar de outra cor. Mas a mancha vermelha vai-se alastrando, engolindo a água e os flamingos levantam voo em alvoroço e escurecem o céu. A água, até então calma do lago, agita-se, revolta-se e levanta-se do leito em ondas medonhas que começam por cobrir a orla de sal e depois por invadir toda a terra em volta. Simone levanta-se de um salto, com o coração a bater descompassado e, quando se prepara para correr dali para fora, é atacada pelos flamingos que a imobilizam enquanto fazem um barulho ensurdecedor. Tudo à volta dela é vermelho: a água, o céu, os flamingos. Tem os braços e o rosto ensanguentados pela luta e num último esforço de sobrevivência tenta libertar-se e correr. Sente a presença de outra pessoa muito próxima, vira-se com esforço, levanta-se e quando olha nos olhos do recém chegado ouve um tiro, seco e rápido, sente uma dor aguda no peito e começa a ver tudo vermelho em seu redor.
Nesse preciso momento, Simone acorda. Todas as noites, a mesma hora, ela acorda deste sonho mau depois de ter passado a maior parte da noite sem dormir e não consegue voltar a fechar os olhos.

 

– Se voltares a cruzar o meu caminho, acabo contigo! Desaparece da minha vista, para sempre.- dizia Teresa, num tom frio e implacável enquanto o ameaçava com uma adaga antiga, mas afiada.
– Mas filha, não foi por mal, tudo o que eu fiz foi para te proteger. Não queria que soubesses a verdade para não sofreres.
– Não voltes a chamar-me filha! Eu não sou tua filha. Tu és um assassino. Mataste os meus pais, ficaste com as propriedades e os bens deles e só não me mataste também porque era apenas um bebé e a mãe… a tua mulher, não deixou e quis ficar comigo.
– Meu Deus! A morte da tua mãe deixou-te louca, que disparates estás para aí a dizer? Os teus pais foram assassinados pelos rebeldes e pediram-me, desesperados, para fugir contigo no colo e te salvar.
– Mentira, tudo mentira… a mãe… a tua mulher contou-me tudo antes de morrer. Eu estava lá. Ela tinha um peso enorme dentro dela, uma culpa, um remorso imenso por nunca me ter dito a verdade e não conseguia morrer sem aliviar o coração.
– A tua mãe tomava tantos medicamentos por causa da doença que não estava nela. Ela confundiu tudo, não foi assim que as coisas aconteceram.
– Sai daqui, de uma vez por todas. Desaparece da minha vida – gritou Teresa completamente transtornada e com a adaga perigosamente próxima do rosto do homem que lhe roubara a família.

 

De tempos a tempos a vida dos homens vale menos. Nessas alturas morre-se com facilidade, com mais facilidade. Muitas vezes às mãos daqueles em quem confiamos ou quando menos esperamos. Quase sempre sem aviso prévio ou explicação.
Viviam-se tempos desses quando eles morreram. Morreram por um punhado de terra, um piano de causa, pratas e porcelanas, uns títulos do tesouro, um cofre com dinheiro e jóias e dois baús de memórias. Morreram ás mãos do capataz, homem de confiança, que já tinha servido a geração anterior. A ida a muitos encontros de grupos armados que lutavam pela independência envenenou-lhe o coração. Começou a odiar os donos da casa. A mestiçagem e o nascimento naquela terra não lhes dava legitimidade, nem cidadania, nem direito à vida. Não foram mortes ideológicas, nem políticas, nem com nenhum sentido de vingança. Foram mortes mesquinhas, nascidas da ganancia.
É curioso que, nesses tempos, em que a vida dos homens vale menos, a memória não tem onde guardar tantas mortes e rapidamente morre também.

 

– Doutor, já lhe disse que não tenho memórias da minha infância. Não sei porquê mas não me lembro de nada antes dos seis ou sete anos. As minhas primeiras memórias são da escola, da minha avó a levar-me o lanche ao recreio, das brincadeiras com os outros miúdos… Fui uma criança normal. Os meus pais morreram num acidente quando era pequena mas vivi sempre com a minha avó, tios, primos… tudo normal doutor. Eu só preciso que me receite qualquer coisa para dormir.
– E esse sonho recorrente que a Simone tem? Alguma coisa no sonho lhe parece familiar, lhe traz alguma lembrança?
– Doutor, é um sonho horrível. Dê-me algo para eu dormir e não sonhar ,por favor…
– Eu vou dar-lhe e vou ajuda-lá Simone, mas a insónia e um sintoma de algo que precisamos consertar e preciso da sua ajuda para descobrir o que é. E esse sonho tem uma carga simbólica enorme que precisamos explorar.
– Eu não gosto de me lembrar dele, mas e verdade que no início, naquele momento em que estou sentada a ver o lago e os flamingos, enquanto espero por alguém, sinto… não sei como explicar… sinto-me bem naquele lugar… mais do que sentir bem, reconheço aquele lugar. Mas eu não tenho memória de alguma vez ter estado ali.

 

Teresa sentou-se na sala. Á frente dela, encostado aos joelhos, tinha um pequeno baú de pau preto, ricamente trabalhado, com entalhes de prata. Na mão, a chave que a mãe adoptiva lhe entregara antes de morrer, quando lhe contou a verdade sobre as suas origens.
Acariciou a madeira, fechou os olhos e inalou o cheiro forte do ébano. Ali dentro estava tudo o que restara da vida dos pais. Ela não tinha memória deles. Ninguém  á volta dela se lembrava deles. O que estivesse naquele baú contaria a única história a que ela tinha acesso. A história dela. Pegou na chave devagarinho, rodou-a na fechadura e abriu o tampo para trás.
A primeira coisa em que pegou foi numa caixa de sapatos. Lá dentro tinha roupa de bebé recém nascido. Pegou numa camisinha cor de rosa, minúscula, e quando a abriu viu o nome Teresa bordado no peito. Sentiu as lágrimas a quererem fugir e respirou fundo. Ao lado estava um conjunto de discos em vinil: Bach sobretudo. Vários livros. Num deles, Teresa reparou que havia uma flor seca a marcar uma página com uma pequena nota : “Hoje fizeste-me sentir o homem mais feliz do mundo, Meu Amor!” Sorriu. Pareciam ter sido felizes. Essa ideia dava-lhe uma enorme sensação de conforto. Continuou a analisar cuidadosamente o conteúdo do baú, até que chegou a uma caixa metálica de biscoitos. Abriu-a com cuidado, como se de uma caixa de Pandora se tratasse. Estava cheia de fotografias. Umas muito antigas, amarelecidas pelo tempo mostrando várias pessoas em poses de retrato e uma fotografia da casa, em construção. Outras a preto e branco, ainda os retratos de família, alguns em frente á casa, fotografias de crianças e jovens. Uma em particular, chamou-lhe a atenção: um casal muito jovem a rir, felizes. Ela encostada a uma bicicleta, ele a segurá-la pela cintura. Seriam os seus pais? Tão bonitos, tão felizes, tão jovens? Olhou atentamente cada pormenor dos seus rostos e corpos na tentativa de encontrar semelhanças físicas. Não poderia ter a certeza. Continuou a ver outras fotografias, algumas também a cores e reparou em várias do mesmo casal, já mais velho, com uma criança nos braços. Teresa olhou com cuidado. Era ela. A criança era muito parecida com as fotos dela própria mais pequena. Afinal, eram estes os seus pais. Continuou a ver fotografias até que uma lhe chamou a atenção. Aí, o mesmo casal segurava duas crianças. A mãe com um bebé de colo e o pai com uma criança de seis ou sete anos. Os quatro sorriam para a câmara. O bebé de colo era igualmente muito parecido com ela, nas suas fotografias de criança, mas a menina mais velha também era parecida com outras fotografias que Teresa tinha com mais idade. Encostou-se no sofá sem conseguir tirar os olhos daquelas pessoas que eram a sua família. Quem era aquela criança? Seria possível ter tido uma irmã? E perdida nestes pensamentos, Teresa olhou para o horizonte, para a savana que se estende para lá do alpendre da casa, até ao lago, ao fundo, que brilha com os cristais de sal a refletir a luz do Sol e onde os flamingos pintam a água de vermelho.

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CASA BRANCA

No guia turístico a cidade era descrita como um pequeno paraíso, repleto de flores e árvores frondosas, voltada para o lago imponente onde se podiam ver pequenos barcos de pesca com velas brancas ao vento. O guia afirmava também que sendo uma cidade de fronteira estava cheia de vida, de comércio, de gentes de várias origens que se cruzavam num reboliço quase cosmopolita. Helena relia aquelas frases tranquilizadoras e revia as fotografias do lago que lhe anunciavam meses de tranquilidade e uma nova vida depois de mais de um ano a trabalhar num campo de refugiados junto à fronteira da Somália, em terra de ninguém, onde reinava o pó, a paisagem desoladora e a frustração de não ver o fim daquela guerra estranha.

Depois de quase sete horas de viagem, desde Nairobi, num autocarro bafiento e aos solavancos, ela chega finalmente à cidade. Era quase noite e o céu escuro prometia chuva e tempestade. O calor, húmido, fazia-a sentir-se ainda mais cansada e suja, com o pó da estrada colado à pele suada e pegajosa.

Estavam duas pessoas à espera dela. Não se conheciam mas era fácil identificar Helena, a única branca a sair do autocarro. Eram futuros colegas e trabalhariam no mesmo projecto. Também viviam todos na mesma casa, um pouco afastada da cidade, em frente ao lago.

Ao atravessarem a cidade ela pode ver, assustada, a mescla de carros, carrinhas, bicicletas, motorizadas, autocarros que se atropelavam mutuamente e buzinavam sem parar e na berma ia notando os vendedores de rua que iluminados apenas por uma lamparina de querosene pareciam surgir do nada como se fossem almas do outro mundo.

Os colegas falavam sem parar, do projecto, da casa, da viagem dela e iam dando informações precisas sobre os locais por que passavam. “Aqui é o mercado.””Olha, aquilo é peixe do lago, frito.””Aquele edifício é um centro comercial onde há um supermercado aberto 24h.””Esta é a zona mais rica da cidade.””Ali é o lago.” Helena tentava participar na conversa mas os olhos dela estavam voltados para a cidade que se ia revelando  pela janela do carro. Quando entraram na picada que os levava até casa, por entre solavancos violentos, um relâmpago atravessou o céu e rompeu a noite deixando ver as casas de barro, as cabras e as vacas deitadas na estrada, os quiosques de lata e o lixo espalhado pela berma. Depois, um estrondo assustador. Começou a chover e em segundos a estrada mais parecia um rio de lama escorregadia que fazia resvalar o carro a cada movimento. Do lado direito os relâmpagos sucediam-se como fogo de artifício. Do lado esquerdo, Helena podia ver agora as estrelas. Lá estava o Cruzeiro do Sul, Saturno bem visível e o início da Via Láctea. Em terra, no meio daquela disparidade celestial, o carro aproximava-se de casa. Mesmo durante os poucos segundos de total escuridão que intercalavam os sucessivos relâmpagos, as paredes da casa, brancas, imitiam uma luz própria que a tornava visível e etérea.

Os dias foram-se sucedendo, Helena foi descobrindo a cidade e foi-se adaptando ao calor húmido. Começou a trabalhar também. A explosão de cores da natureza, de flores e de verde que o guia turístico prometera, estavam lá, lado a lado com os bairros de lata, o centro da cidade barulhento, decadente e poluído, as estradas em terra batida e o pó, os miúdos de ninguém, ou de toda a gente, esfarrapados e sujos a deambular pelas ruas, o lago sujo, cinzento. As contradições eram constantes, mas ela estava habituada e também a estas se ia habituando e afeiçoando. O maior problema eram as noites. Não conseguia dormir. Para além das dezenas de mosquitos que teimavam em zumbir à volta da cama, protegida pela rede, dos gritos dos morcegos que faziam raides nocturnos e viviam nos beirais do telhado, mesmo por cima das janelas do quarto e do zumbido ensurdecedor dos insectos que vivem no pântano em frente, havia aqueles gritos constantes, ritmados, ao longe, que a acordavam a meio da noite. Tinham-lhe dito que era um funeral, que era mesmo assim, que duravam muitos dias e que ela se ia habituar aos barulhos da noite, com o tempo.

Uma vez, Helena acordou com uma luz quente, amarela a bater-lhe no rosto. Olhou em volta, ensonada e percebeu que o Sol ainda não nascera. Eram 4h da manhã e aquela luz insistia em bater-lhe no rosto mal deitava a cabeça na almofada. Levantou-se e aproximou-se da janela. No lago, em frente, a lua cheia descia no horizonte como uma bola de fogo reflectindo na água aquela luz quente, solar. Helena pegou na máquina fotográfica, apontou a objectiva para o lago e disparou. A seguir viu uma luz brilhante na sua direcção, como se alguém na água a estivesse a fotografar de volta. Esfregou os olhos e depois tirou mais uma fotografia. Quando voltou a olhar para o lago, a luz brilhante atingiu-a, outra vez. Sentiu um arrepio e correu para a cama, para a protecção da rede. Ao longe começou a ouvir gritos e cânticos.

De manhã, pouco depois de ter finalmente adormecido, foi acordada por um barulho estranho. Estava tão cansada que mal conseguia abrir os olhos mas ouvia claramente um bater de asas irregular, inquieto e finalmente viu-o… um pássaro preto e branco, delicado, que voava de janela em janela à procura de saída. Helena, olhou com estranheza as janelas fechadas e para a entrada do quarto, sem porta mas com um biombo e um cortinado bem alinhados e depois levantou-se para abrir uma janela e deixar o pássaro sair. Ficou a olhar para a paisagem bucólica lá fora por alguns momentos e abanou a cabeça, com força, quando se lembrou dos eventos estranhos da noite, como se tudo não passasse de uma partida da imaginação.

O cansaço originado pelas insónias constantes, pelo calor e pela adaptação a tantas coisas novas aumentava. Ela tentava dormitar sempre que podia, mas as noites já eram aguardadas com ansiedade. Cada ruído, uma tortura, cada cântico uma inquietação na alma. Era outro funeral, diziam os amigos, o terceiro em menos de um mês e riam do seu ar assustado e incrédulo. Um deles tentou brincar com a situação e disse-lhe que estavam rodeados de morte e que até áquela data nunca tinham visto nenhum fantasma. Explicaram-lhe que morriam muitas crianças pouco  depois de nascer, muitas mães a seguir ao parto, muitas pessoas com SIDA, outros às mãos dos vizinhos e familiares. A negligência, a falta de recursos, a histeria colectiva e a cultura de violência iam espalhando a mortandade e como cada funeral durava dias e incluía muita cantoria, muito álcool, muito sexo, por vezes, era tudo normal. A morte anunciava-se na noite através dos gritos e cantorias dos funerais, que quando eram simultâneos competiam entre si  e ela só tinha de se habituar. O mesmo colega que brincara com ela disse-lhe que nem aquela casa magnífica, que parecia ali tão deslocada escapara à fatalidade da morte. Tudo acontecera no quarto que agora era dela, há uns dez anos. A casa fora construída por um dinamarquês  que casara com uma mulher local, para ser o lar do casal. Alguns anos depois eles separaram-se, o homem voltou à Dinamarca, a mulher ficou com a casa. Ela teve outros homens, outros amores mais ou menos sérios. Um dia resolveu  partir para a Dinamarca para tentar encontrar melhores oportunidades de trabalho, uma vez que pelo casamento tinha obtido cidadania daquele país. Na noite em que fez a festa de despedida, juntando na casa dezenas de amigos e familiares apareceu um antigo namorado que nunca deixara de a perseguir. Pediu-lhe para conversar, que queria dizer-lhe algo importante e despedir-se em privado. Subiram para o quarto. Ele espancou-a com toda a brutalidade até à morte. Em baixo a música alta e a excitação da festa impediram os convidados de ouvir o que se passava. Helena estava lívida no fim da história e sentia arrepios só de pensar em voltar a dormir naquele quarto. Todos se riam e brincavam com ela.

Tornou-se cada vez mais difícil dormir. Os ruídos pareciam-lhe cada vez mais agressivos, os cânticos ensurdecedores. Toda ela tremia sempre que ouvia os cânticos e começou a tentar dormir com a luz acesa.

Uma noite a casa ficou sem electricidade e lá fora ela podia ver os relâmpagos que caiam no lago. Tentou acalmar-se. Não podia entrar em pânico por algo tão absurdo. Então viu uma luz branca passar rapidamente pela janela. Enterrou-se na cama agarrada à almofada. A luz passou rapidamente pela outra janela. Os cães uivavam e o frenesim dos cânticos funerários aumentava. Helena levantou-se de um salto, encheu-se de coragem e foi à janela tentar perceber o que se passava no momento em que um relâmpago fortíssimo atingiu o lago mesmo em frente à casa, iluminando tudo à sua volta. A chuva rompeu o céu e caía com violência e o mundo parecia que ia acabar. Helena, saltou para trás, assustada. Procurou freneticamente velas que ela sabia que estavam no quarto e não as encontrou. Entretanto, ouviu o barulho de uma porta metálica a bater. Gritou e em pânico correu pelas escadas abaixo e saiu para a chuva quando viu a porta da entrada aberta. Viu uma luz branca surgir do lado direito da casa e sem pensar correu para o lado oposto. Os cães corriam atrás dela e uivavam, a chuva e os relâmpagos intensificavam-se e Helena chorava descontrolada e corria sem saber para onde até que bateu com a cabeça no tronco mais baixo de uma das árvores das traseiras e caiu, sem sentidos em cima de um monte de terra.

Na semana seguinte e depois de passar alguns dias no hospital, Helena voltou à Europa num estado de grande debilidade física e mental. Os colegas que partilhavam a casa com ela ficaram confusos com os acontecimentos. Acontecia por vezes, a quem trabalhava nestes contextos, sofrer de depressões, ataques de pânico e stress mas tudo aquilo lhes parecia tão extremo. Vieram outros colegas substituir a Helena e a seguir outros e com o tempo a história dela caiu  no esquecimento.

Só os habitantes locais continuam a ter medo da casa. Ninguém se aproxima dela. Acreditam que está assombrada pela alma da mulher assassinada no quarto do segundo andar. Vários pescadores testemunharam coisas estranhíssimas. Um deles, contava-se muitas vezes, quase morreu de susto quando uma noite, enqanto pescava com a ajuda da candeia, viu uma luz brilhante apontada a ele por duas vezes no quarto de cima. Outro, conta-se que viu mesmo a falecida à janela numa noite de tempestade. E um antigo guarda da casa conta como numa noite de tempestade, sem luz, e enquanto fazia a ronda com ajuda de uma lanterna, deu com a porta aberta e uma das raparigas da casa desmaiada em cima da sepultura da antiga dona da casa,assassinada, nas traseiras. Só podia ter sido obra do Diabo. A Casa Branca estava irremediavelmente assombrada.

Não me lembro do dia em que morri

“Lá está ele outra vez. Mas de onde saiu aquele miúdo que agora passa os dias nesta terra de ninguém? Meu Deus! Será que há mais crianças lá do sítio de onde ele vem? E se um dia me aparecem todas por cá… Tenho de ter muito cuidado, não me podem ver aqui. Era só o que me faltava agora ter de me esconder deles e não poder andar por onde quero. Mas há tanto tempo que não via nenhum. Ele até é engraçado, tem ar de reguila e tem uma genica! Gosto de o ver a descer a encosta, parece que voa em cima da bicicleta e depois quando chega ao riacho faz aquela habilidade de parar de repente e virar a bicicleta de lado… ehehehehe levanta tanta poeira que até deixo de o ver e depois larga tudo e atira-se ao riacho. Mas tenho de ter cuidado para ele não me ver. Até pode morrer de susto, sei lá! O melhor é eu ter cuidado… Ele está a cantar! Desafinado, que até faz doer os ouvidos… já nem me lembro da última vez que ouvi um deles. E se eu me aproximasse devagarinho? … E tentasse falar com ele? Nem sei se ainda sou capaz de falar. E será que eles me veem mesmo? … É melhor parar com estes disparates e ficar sossegada no meu canto, longe do miúdo.”

– João! Anda para casa que o jantar já está pronto! – gritou a mãe, junto ao alpendre.
E repetiu o nome dele vezes sem conta, como acontecia quase sempre quando iam para a casa de campo.
– Já vou mãe, estou quase a chegar! – gritou o João ao longe, ofegante, a subir a encosta de bicicleta.
– Vai lavar as mãos e anda para a mesa, que está tudo a arrefecer – disse-lhe a mãe num tom reprovador, entrando em casa.
– Olá pai, mãe… que cheirinho, estou cheio de fome – disse o João enquanto distribuía beijos e se sentava.
– Tens de me explicar por onde é que tu andas todo o dia quando estamos aqui? É que ninguém te põe a vista em cima … – afirmou o pai curioso.
– Ando a fazer o reconhecimento geográfico e a descobrir a região. Há duas aldeias abandonadas aqui perto, algumas casas em ruínas espalhadas pelos montes, um riacho com quedas de água e uma piscina natural ao fundo da encosta… – respondeu o João muito sério.
– Ó filho, mas não gosto que andes por aí sozinho tantas horas, podes perder-te, ou pode acontecer-te alguma coisa e depois ficamos aflitos – afirmou a mãe preocupada.
– Não há ninguém nas redondezas para me fazer mal. Vocês queriam uma casa de fim-de-semana num lugar sossegado, não queriam? – respondeu o João com alguma ironia.
– Ele tem razão Fátima! Aqui não há vivalma e ele pode andar por onde quiser à vontade. Além do mais nós não conseguimos convencer os irmãos mais velhos a vir para cá ao fim-de-semana por isso o João tem de se entreter de alguma maneira – disse o pai condescendente.
– Eu sei que tens razão, mas fico sempre preocupada. Que querem? Ainda por cima sempre que vou à vila fazer compras e digo às pessoas que estamos na Casa das Glicínias, ficam a olhar para mim muito surpreendidas e dizem sempre a mesma coisa “Ai valha-me Deus minha senhora, e não tem medo de estar lá para em baixo sozinha?”, “Credo, ali não há vivalma, se lhes acontece alguma coisa ninguém vos socorre”…
– Ó mulher pára lá com isso que ainda assustas o miúdo – interrompeu o pai, preocupado -, já sabemos que o povo da vila acha estranho nós termos comprado esta casa, mas nós estamos muito bem aqui, não é verdade?
– Eu sei Carlos, mas não consigo deixar de ficar inquieta de cada vez que vou à vila. Ainda ontem na mercearia me contaram uma história sem pés nem cabeça mas que me deixou preocupada; dizem que a aldeia do Fundo da Serra está assombrada, que algumas pessoas já viram o fantasma de uma mulher por lá e que os pastores contam histórias muito estranhas que se passam lá para aquelas bandas – disse a mãe.
– Não é verdade, mãe! Eu vou lá muitas vezes e nunca vi nada esquisito. É no Fundo da Serra que tem a piscina natural, mesmo perto da aldeia, ainda hoje lá estive. Lá só há pedras, mata e o riacho – disse o João tentando serenar a mãe.
– Que disparate Fátima. Andas a dar ouvidos às crendices desta gente? Nem parece teu.
– Pronto, pronto, já cá não está quem falou, só repeti o que me contaram – disse a mãe mudando logo a seguir de assunto.

“Hoje estás a demorar muito rapazinho. Já estou cansada de estar aqui sentada, escondida à tua espera. Agora custa-me mais a passar os dias porque fico à espera que apareças. Acho que não devia sentir estas coisas. As criaturas como eu não deviam sentir nada mas eu tenho cada vez mais vontade de ir falar com ele. De quebrar o ritmo dos meus dias, de passar a fronteira entre os vivos e os mortos e ir falar com aquele rapazinho cheio de vida. Não posso! As pessoas têm medo dos fantasmas, o miúdo pode sentir-se mal com o susto. Não, tenho de ficar bem escondida e sossegada!… Aí vem ele a toda a velocidade pela encosta abaixo… ai meu Deus… ele caiu e bateu com a cabeça nas pedras!… Vá, levanta-se menino. Levanta-te, sacode a poeira e vai dar o teu mergulho… Ele não se mexe. Está ali estendido no chão sem se mexer. O que é que eu faço? Vou aproximar-me para o ver melhor… mas sem ele me ver. Mas ele está desacordado… será que ainda está vivo? Visto assim de mais perto parece que está a dormir e parece mais novinho do que eu pensava…. Mas o que é que eu sei de crianças? Nada! Nunca tive filhos e já não via nenhuma há tantos anos que até me tinha esquecido que existiam. Acorda menino! O que é que eu faço? Eu que estou no reino dos mortos! Vou aproximar-me ainda mais… com muito cuidado… ui, ele está a sangrar da testa e tem os braços esmurrados… Vou lá! Ele não há-de acordar já. Deixa-me ajoelhar aqui deste lado…. Devagarinho… será que lhe posso tocar? (suspirou) Ai, tantas coisas que eu não sei sobre esta minha nova condição! Quando estamos vivos é tudo mais fácil, sabemos o que fazer, as pessoas reconhecem-nos e não fogem de nós. Vivemos em função dos outros. Somos fulana de tal, filha de fulano de tal, mulher de alguém, irmã de alguém, amiga de alguém, inimiga de alguém, amada ou desprezada por alguém… Mas agora não sei o que fazer. E ele não acorda… Se o rapazinho morresse podia fazer-me companhia, ficávamos com a mesma condição e eu já podia falar com ele sem ele se assustar… que disparate! O que estou eu para aqui a pensar? Um rapazinho com tanta vida não pode morrer assim. Vou tocar-lhe!.. Ai, tem o corpo quente e suado… está vivo. E se eu tentar chamar por ele? Será que ainda consigo falar? Ou será que ele consegue ouvir os mortos?”
– Rrrrapazzzzinho, acorda! – disse a mulher com esforço e hesitante. – Acorda vá, abre os olhos – continuou ela enquanto o abanava devagarinho.

O João sentia a cabeça a andar à roda e uma dor intensa sobre o olho esquerdo. Tentava abrir os olhos mas não era capaz e ouvia alguém a chamá-lo ao longe. Tentou concentrar-se naquela voz estranha que o mandava acordar e tentou abrir os olhos novamente. No início sentiu-se ofuscado pela luz do dia, via tudo desfocado, depois, aos poucos começou a sentir-se melhor. Lentamente virou a cabeça para o lado direito e foi então que a viu, ajoelhada ao lado dele, com as mãos cruzadas sobre o colo, a olhá-lo angustiada. Era uma mulher pequenina, miudinha, muito frágil. Era impossível adivinhar-lhe a idade. Podia ter oitenta anos, podia ter cem anos, podia ter mais ainda. O João nunca tinha visto uma mulher tão velha. Ele ainda estava um pouco tonto mas não conseguia afastar os olhos dela. O rosto coberto de rugas profundas, a pele manchada, os olhos brilhantes e serenos a sobressair do rosto miúdo. E o cabelo, todo branco, enorme a cair-lhe ondulado sobre as costas. O João começou a sentir-se melhor e deu-lhe a mão.

– Acho que torci o tornozelo, a senhora ajuda-me a levantar? – perguntou ele.
A mulher olhou-o perplexa, quase sem acreditar no que acabava de ouvir.
– Tu não tens medo de mim rapazinho? – perguntou a mulher, intrigada, com um ar quase assustado.
– Medo?! Da senhora? Não, porquê? – afirmou o João com estranheza.
A mulher ajudou-o a sentar-se e olhou muito fixamente para ele. Depois afagou-lhe suavemente o cabelo, tocou-lhe na testa e disse-lhe com um ar muito sério e triste:
– Rapazinho, eu acho que tu morreste quando caíste da bicicleta. Agora estás do outro lado da vida como eu, passaste para o mundo dos mortos, por isso é que não tens medo mim.
O João, segurou com mais força na mão da mulher e pôs-se em pé. A custo cambaleou até uma pedra e sentou-se lá a olhar incrédulo para aquela figura pequenina que lhe falava da vida e da morte.
– Eu estou bem vivo, dói-me o corpo todo e a senhora também está bem viva aqui ao pé de mim. Onde é que mora? – afirmou o João muito seguro de si.
A mulher, muito velha, com aqueles longos cabelos brancos a esvoaçar ao vento parecia um pouco louca, mas os olhos brilhantes e serenos tranquilizavam o João e transmitiam-lhe afecto.
– Eu morava naquela casinha em ruínas que tem a varanda de madeira no primeiro andar. Morei lá sempre. Era a casa mais bonita da aldeia. Lembro-me que a minha mãe punha vasos de sardinheiras em todas as janelas, na varanda e ao longo das escadas e a casa ficava tão linda, tão colorida. E tínhamos árvores de fruta na leira e eu e as minhas irmãs brincávamos por lá despreocupadas. Éramos tão felizes! O meu pai era da Guarda. Era muito respeitado na aldeia. E a minha mãe gostava de nos aperaltar a todos, ao domingo para irmos à missa à vila… – contava a mulher com um ar sonhador, ausente.
– Mas o que aconteceu quando as pessoas foram embora? A senhora ficou aqui sozinha? – perguntou o João curioso.
A mulher olhou para ele intrigada.
“Este rapazinho faz perguntas muito difíceis… eu já morri há tanto tempo, que já só me lembro dos dias felizes… e ele não acredita que está morto. Valha-me Deus… o que hei-de fazer?”
– Eu não me lembro do dia em que morri, já passou muito tempo – disse a mulher -, acho que primeiro foi o meu irmão que imigrou, depois as minhas irmãs casaram e partiram… os meus pais morreram também, depois morreu a minha irmã Maria, depois morreu a Lurdes… morreram todos.
O João ouvia-a atentamente quando começou a sentir tonturas novamente. Deixou o corpo escorregar para o chão e ficou encostado à pedra. Fechou os olhos e adormeceu a ouvir a mulher contar aquela história.

“Ele continua desacordado. E já é quase de noite… Será que o rapazinho adormeceu para a vida lhe voltar ao corpo? Que barulho é este? Estou a ouvir gente a gritar… devem andar à procura dele. Vou continuar aqui escondida, não volto para lá que ainda me veem. Desçam, ele está aqui, isso, continuem a descer… Ah! Lá estão eles; três homens com candeias para alumiar o lusco fusco. Já o viram! Aquele deve ser o pai dele, está a chorar a tentar acordá-lo. O rapazinho acordou e está a abraçar o pai. Eu sabia! Eu sabia que ele ia voltar à vida. Ainda bem que me afastei, senão aqueles homens ainda tinham fugido de mim e largavam para ali o miúdo a pensar que estava morto. Ai, mas foi tão bom hoje… ainda bem que ele morreu só durante um bocadinho e pôde falar comigo.”

História com história

Corria o ano de 1984, em plena guerra fria, quando eu, então com 14 aninhos, no auge do meu período punk, grande admiradora do Carl Sagan, do Isac Asimov e de ficção científica escrevi esta história. Descobri há dias, durante uma crise de fada do lar, enquanto revirava a minha sala num frenesim de limpeza, uma pasta com as minhas histórias da adolescência. Foi um momento raro e empolgante, foi uma espécie de arqueologia da memória. E perante a dificuldade de terminar um novo conto, nesta fase de muito trabalho, achei por bem partilhar uma dessas histórias, escrita para um concurso de Português, no 8º ano e com o tema obrigatório “Um dia na vida de um jovem do ano 2020”.
Espero que se divirtam, como eu me diverti quando a encontrei, com a minha percepção do futuro há vinte anos atrás. E até breve, que vêm novas histórias a caminho :).

O dia estava quente e nem parecia que as aulas iam recomeçar daí a pouco mais de duas semanas. A Cati acabava de chegar do acampamento de férias. Decididamente não tinham sido as melhores férias que já passara. Depois de introduzir no computador da escola os dados sobre o que queria encontrar nas férias, este decidiu que ela iria para as selvas protegidas da América do Sul e claro, foi sozinha que mais ninguém teve resultados tão estranhos.
Agora, de regresso à cidade, a Cati sentia-me bastante mais feliz pois já estava com saudades, sobretudo dos amigos. Mal saiu do túnel de chegada dirigiu-se para casa e ao chegar viu-se obrigada a ligar a caixa de comunicação para pedir ao pai que lhe abrisse a porta.
– Olá pai! Desculpa mas o meu cartão automático perdeu a validade. Está tudo bem cá em casa? A mãe está?
– A tua mãe hoje chega mais tarde. Está a trabalhar num projecto novo. Que tal as férias? Melhores que as do ano passado? – perguntou.
– Nem por isso. Francamente até se tornaram aborrecidas – queixou-se.
– Isso é mesmo de ti. Desde os 5 anos que nunca gostas das férias.
– Há alguma coisa para comer? – perguntou a Cati.
– Pede ao novo robot. Chama-se Niki. Tenho de me ir embora, vê se encontras alguns amigos. Até logo!
– Olá Niki – disse a Cati para o novo robot. – Quero que me prepares um gelado enorme e delicioso, o melhor que souberes fazer.
– Não posso, a tua mãe pediu dieta para ti – disse o Niki muito sério.
A Cati riu-se, entusiasmada e sentiu-se bem por estar de volta a casa. Mas apetecia-lhe mesmo comer gelado e por isso saiu.

Estava sentada na mesa do café quando viu um grupo de amigos a aproximar-se.
– Cati, que surpresa, não sabia que já estavas de volta – disse a Vanda.
Falaram durante todo o almoço das férias e dos planos que tinham para o ano seguinte. Mais tarde o Ivo sugeriu que fossem a casa dele para experimentar o novo computador da amizade. Quando chegaram identificaram-se e entraram e ele levou-os logo ao quarto.
– Aqui está a pequena maravilha – disse o Ivo apontando para o computador.
– Quem quer experimentar primeiro? – perguntou.
– Eu – disse a Cati rapidamente.
– Ok, tens de preencher este questionário e depois esperar o resultado.
Alguns segundos depois apareceram os resultados.

Jovem 17 anos
Sexo masculino
Residência – base espacial 16
Código para comunicar: GLB46

Depois de observar os dados a Cati começou a rir.
– Realmente a mim só me acontecem coisas incríveis, primeiro foram as férias na selva e agora um amigo que mora numa base espacial.
– Liga depressa para a base espacial que também quero conhecer esse teu amigo – disse a Vanda.
Depois de escrever o código, a Cati esperou alguns momentos até que apareceu uma imagem no ecran e ouviu-se:
– Olá! Eu sou o Ian e gostava de conhecer-te melhor. Queres vir até á base espacial 16?
– Sim, claro, quero muito. Mas posso levar alguns amigos?
– Sim, não há problema nenhuma. Têm é de apresentar na Estação 4 o meu número de código por questões de segurança. Sem ele não podem passar o campo de forças que protege a base de intrusos. Aqui vai O3TL962. Até logo!
A imagem desapareceu do ecran. Estavam todos muito entusiasmados pois nunca nenhum deles tinha visitado uma base espacial. Avisaram os pais que não dormiam em casa, com a desculpa de ficarem em casa uns dos outros e partiram.
– Vamos depressa para apanharmos a nave de passageiros das 3 da tarde – disse o Ivo.
Já dentro da nave e quase a chegar à base 16 o grupo de amigos estava fascinado. A Base ficava muito mais longe do que eles imaginavam. Fica próxima da primeira Lua de Júpiter e eles nunca tinham feito uma viagem tão longa. A nave demorou duas imensas horas a chegar mas finalmente os amigos sentiram os bancos moverem-se em direcção a um tunel iluminado. Chegaram ao fim e pararam pois qualquer coisa os impedia de continuar e então o Bruno lembrou-se do código para passar o campo de forças. Inseriram o código e foram levados até uma sala onde o Ian os esperava. Ele também tinha trazido alguns amigos para que todos se conhecessem. Decidiram separar-se aos pares e encontrar-se no angar de partida mais tarde.
Distraidamente, enquanto o Ian lhe mostrava a base espacial, a Cati observava-o. Era alto e forte, tinha os olhos grandes e expressivos de um castanho muito claro, quase dourado e o cabelo levemente encaraclado no mesmo tom dos olhos e o sorriso mais lindo que ela já vira.
Entretanto ele pegou-lhe na mão e levou-a para um bar.
– Vamos parar aqui para beber qualquer coisa. Aposto que não ouviste uma palavra do que eu disse, em que estavas a pensar? – disse ele a rir.
Atrapalhada, a Cati disse-lhe qu estava apenas fascinada com tudo aquilo pois era muito diferente da Terra.
– E então o que achas da vida aqui? – perguntou o Ian.
– Sei lá! Conheço muito pouco a vida nas bases espaciais. Lá na Terra as pessoas preocupam-se sobretudo com a recuperação da natureza e não temos muita informação sobre o que se passa fora. Mas explica-me tu. Aliás, eu nem sei bem o que aconteceu antes das bases espaciais.
– Ok, mas é uma história comprida, se te aborrecer diz que eu paro. Tudo começou em 1996 quando os Estados Unidos resolveram construir uma base espacial em órbita da Lua. Teoricamente o objectivo seria a investigação científica, no entanto, escondido da população terrestre construiram 3 bases espaciais para refúgio de um grupo de pessoas selecionado em caso de guerra nuclear. Acidentalmente a farsa foi descoberta por um satélite de espionagem da URSS. Pensando tratar-se de bases militares no espaço este país ataca algumas, aparentemente sem qualquer motivo e sem aviso. Repentinamente as pessoas veem-se no meio de uma guerra mundial. Então, um grupo de pessoas conseguiu apoderar-se das bases espaciais e levaram-nas para longe da Terra na esperança de salvar a espécie humana. Quando a guerra acabou quase todo o planeta estava destruído.
– É incrível como as pessoas se deixaram levar a esse ponto – disse a Cati.
– É verdade, mas felizmente nem tudo estava perdido, pois nessa altura a população sobrevivente organizou um governo comunitário e começou a recuperar a Terra. Já alguma vez viste fotografias da Terra antes da guerra?
– Já – disse a Cati. – Os meus pais mostram-me muitas vezes. Têm muita pena de a nossa geração nunca ter visto aquelas paisagens maravilhosas e acho que todos os adultos se sentem culpados por isso.
– Mas continuando – disse o Ian – o pequeno grupo que tinha partido com as bases espaciais voltou e ajudou muito a população terrestre. No entanto, pouco a pouco foram-se afastando e foi crescendo uma barreira entre os que tinham partido e os que tinham ficado. O resto tu já sabes: o governo construiu cidades e selvas protegidas por campos de força que dentro de pouco tempo serão retirados pois a tecnologia criada para limpar a atmosfera está a ter resultados incríveis. Aqui em cima e apesar de continuarmos ligados à Terra, achamos que já não somos precisos e dedicamo-nos sobretudo à pesquisa científica.
– Estou fascinada – disse a Cati. – As coisas que tu sabes! Nunca imaginei a história dessa maneira. O meu computador de ensino torna tudo mais difícil, por isso nunca passei do primeiro grau em História.
– Se quiseres faço-te um programa novo, mais interessante.
– A sério?! És um génio.
– Bem… vamos continuar a ver a base? – perguntou o Ian.
– Vamos claro! Tu és o melhor guia do mundo.
Continuaram então a visita e Ian mostrou-lhe tudo, desde a sua casa, até à torre de controlo e aos espaços de lazer. E no final, conduziu a Cati através de um corredor enorme, até uma porta enorme que se abriu automáticamente.
– Isto é uma surpresa para ti – disse o Ian.
– Esta é uma espécie de sala de recordações. Os nossos pais quando deixaram a Terra trouxeram com eles tudo o que puderam para recordarem sempre a sua beleza. Estão aqui fotografias, filmes, animais e plantas de todos os lugares do planeta.
– Ian, nem sei o que dizer. Estou fascinada e vou voltar cá mais vezes de certeza.
O Ian sorriu com carinho e disse:
– Acho que vamos ser muito bons amigos. E agora que tal voltarmos que já devem estar à nossa espera?
Correram para o angar, despediram-se uns dos outros e partiram de regresso a casa. Estavam todos muito entusiasmados e falavam ao mesmo tempo.
Chegaram ao Porto muito tarde, partiram a toda a velocidade no passeio magnético e chegaram o mais depressa que puderam.
A Cati chegou a casa, identificou-see entrou. Lá estavam os pais mais um grupo de amigos que falavam alegremente das suas férias. Ela disse que tinha estado em casa da Vanda e que já tinham decidido onde queriam passar as férias do Natal, independentemente do que o computador da escola decidisse.
– Esta minha filha nunca pára de fazer planos – disse a mãe a brincar. – E então para onde é que vocês querem ir?
– Para a Base Espacial 16 – disse ela decidida enquanto todos à sua volta a olhavam surpreendidos. – Mas agora vou dormir que estou muito cansada. Até amanhã!

A Casa dos Relógios III

(terceira e última parte do conto que começa no post de 08.01)

Através da porta entreaberta, podia ver-se a árvore de Natal enfeitada, o presépio, as crianças a abrir os presentes embrulhados com papéis e fitas delicadas, Afonso sentado numa cadeira a ler o jornal e Carolina, sentada no chão, no meio dos filhos a rir como uma criança.
– Olha! Repara no relógio da parede – disse o Simão baixinho puxando o braço de Helena.
Ela olhou para o relógio de cuco, onde faltava menos de um minuto para as oito da manhã e olhou para o mesmo relógio, amparado entre os braços pequenos do Simão e voltou a olhar para a cena familiar à sua frente. Aí, podia ver Simão entusiasmado, a tentar desembrulhar um presente enorme com a ajuda da mãe, onde se via emergir a cabeça de um simpático cavalo de madeira colorido. Então… ecoou por toda a casa o cuco repetitivo do relógio a marcar a hora certa. Olhou rapidamente para o relógio que o Simão segurava ao seu lado, que marcava oito horas em ponto, e viu o rostinho dele hipnotizado… e quando voltou a olhar para a sala viu-a vazia, decadente, sem vida.
– Já acabou! – disse o Simão muito triste. – Mas vês como funciona a magia? Eu posso voltar a ver os meus pais, os meus irmãos, os meus dias mais felizes…
– Podes voltar ao tempo marcado nos relógios todos? – perguntou Helena assombrada.
– Não! Há relógios que não funcionam comigo. Não acontece nada quando pego neles. Não percebo porquê e não me lembro de a colecção do meu pai ser tão grande – explicou ele taciturno. – Mas posso voltar sempre para junto dos meus irmãos, ver a minha mãe… viste como ela é bonita? Nunca me canso de os visitar.
Helena pegou-lhe na mão e correu para a sala dos relógios.
– Qual é o relógio que mais gostas e que não funciona contigo, Simão? – perguntou Helena.
– Não está aqui. É o Velho Mudo que o tem – respondeu prontamente o Simão, arrastando-a para fora da sala.
Pararam em frente à escultura do Velho, muito velho, com ar triste e um relógio enorme nas mãos e ficaram ambos a olhar aquela imagem na parede.
– Ele também sai da parede como tu? – perguntou a Helena sem desviar o olhar.
– Só quando eu lhe tiro o relógio. E olha que não é fácil que ele agarra-o com muita força… mas depois como o relógio não tem magia ele acaba por o levar outra vez e voltar ao seu lugar. Tenta tu – incentivou o Simão.
Helena hesitou. A figura daquele homem provocava-lhe sentimentos contraditórios de ansiedade e profunda tristeza. O coração parecia que ia saltar-lhe do peito, enfurecido, a respiração era-lhe difícil mas mesmo assim, ela estendeu as mãos trémulas para o relógio que o Velho segurava. Quase morreu de susto quando uma mão lhe segurou firmemente o pulso afastando-a do seu objectivo. Helena podia sentir a pele seca, sem vida, as mãos ossudas que lhe magoavam o pulso e quando levantou os olhos para o rosto do Velho, que a aprisionava, viu-o fitá-la com um olhar inquiridor. Era como se não entendesse porque motivo o seu relógio podia suscitar tanta cobiça e ao mesmo tempo como se se interrogasse porque não o deixavam em paz, sozinho. Helena puxou o braço para se soltar, assustada e quando conseguiu viu o pulso vermelho e olhou para o Simão.
– É preciso lutar com ele! Fazer muita força para lhe tirar o relógio – afirmou ele conhecedor.
– Simão, este relógio não nos pertence por isso não devemos insistir – explicou a Helena.
– Mas esta casa é minha! Não é justo! – choramingou.
Entretanto, o Simão ficou muito calado, a escutar. A Helena começou também a ouvir o som dos violinos ao longe.
– Tenho de ir! – disse ele sorridente e a começar a correr. – Vou ver a festa com os meus irmãos. Não digas a ninguém! É um segredo nosso.
Helena ficou sozinha na sala azul e sentiu um arrepio. Era incapaz de racionalizar os últimos acontecimentos. Mas também era incapaz de ir embora. Tinha a alma cheia de perguntas e a tempestade continuava intensa lá fora.
Ficou a olhar para a figura do Velho, na parede. Depois voltou para a sala dos relógios. Abriu as gavetas e portas dos armários com delicadeza, ciente de estar a invadir um espaço alheio mas incapaz de conter a curiosidade. De repente, por trás de alguns livros da estante apercebeu-se de um fundo falso. Esticou a mão e retirou alguns documentos. Aproximou-os do candeeiro e leu-os atentamente.
“Declarações de dívida de Afonso Bandeira para com Diogo Cunha… os dois homens que eu vi aqui… meu Deus, uma fortuna, mesmo em… 1926”, pensou Helena enquanto perscrutava os documentos. “E uma hipoteca da casa, também, em favor de Diogo Cunha!”
Helena voltou a meter a mão no fundo falso. Tacteou toda a superfície e num canto, difícil de alcançar, sentiu qualquer coisa metálica. Esticou-se o mais possível e conseguiu agarrar no objecto. Era outro relógio de bolso, pequeno, delicado, que marcava 4h47. Helena apertou-o nas mãos e sentiu-se flutuar como se a gravidade tivesse confundido a física e decidido ausentar-se naquele momento.
Num ápice, o Sol brilhava intensamente à sua volta e Helena deu si no jardim da casa. Ouviu vozes a sussurrar. Olhou em volta angustiada. Ao fundo, junto ao lago, longe do alcance da casa podia distinguir dois vultos. O relógio que trazia nas mãos marcava 4h40. Correu por entre as sebes e arbustos simétricos tentando não fazer barulho e não dar nas vistas. Conforme se ia aproximando podia distinguir claramente os dois vultos. Eram Diogo e Carolina, muito próximos, muito íntimos. Ele a acariciar-lhe o rosto. Ela a segurar a cesta de flores e a aconchegar o rosto na mão dele.
– Não consigo passar nem mais um dia sem ti, meu amor – ouviu Helena .
– Diogo, eu amei-te e vou amar-te sempre mas não posso abandonar os meus filhos e ele nunca os vai deixar ir connosco – disse Carolina.
– Carolina, está tudo planeado. Vamos fugir hoje! É a festa de fim de ano, vai haver uma enorme agitação na casa. Tu e as crianças vão comigo para o Brasil e vamos ser felizes, finalmente!
– Meu amor, como és ingénuo. O Afonso nunca nos vai perdoar e vai perseguir-nos até ao fim do mundo se assim tiver de ser – disse Carolina infeliz aconchegando-se no abraço do amante. – Não é por me amar, nem pelas crianças… mas o orgulho… vamos feri-lo de morte.
– Sossega e confia em mim. Ele não vai ter recursos para ir atrás de nós. Eu passei os últimos anos a planear este dia e não deixei nada ao acaso. Eu sonho contigo Carolina, desde criança e vivi apenas para conseguir conquistar-te e dar-te tudo o que tu mereces – sussurrou Diogo, abraçando-a emocionado. – Logo quando todos festejarem o Ano Novo nós partimos. Preparei uma surpresa especial para a noite de hoje que vai monopolizar a atenção de toda a gente.
– Eu confio em ti, meu amor! E beijaram-se apaixonadamente, felizes, sem urgência, como quem tem a vida inteira para saborear os lábios do outro.
Nesse preciso momento, Helena sentiu-se levitar novamente, olhou para o relógio e este, parado, marcava 4h47. Deu por si novamente na sala dos relógios, com um sentimento de angústia inexplicável. Voltou a guardar tudo no fundo falso e a colocar os livros na prateleira e saiu. Na sala azul parou em frente ao Velho. Podia ver claramente uma lágrima escorrer-lhe pela face de mármore.
Entretanto a música soava mais alto, o burburinho de pessoas a falar e a rir também e Helena, num impulso correu para o corredor e atravessou a casa até chegar às escadas.
A festa decorria no salão de baile, em baixo. Do outro lado da escadaria, ela viu o Simão com os irmãos escondidos, a rir, a olhar para baixo. Helena olhou bem para a escadaria. Queria descer mas tinha medo de ser vista e tentava perceber que lanço de escadas a levaria para perto daqueles cortinados de veludo, ao fundo, onde ela se podia esconder. Quando parecia que ninguém estava a ver, correu pelas escadas abaixo e deu por si, ao contrário do que pensara, precisamente na entrada do salão. Escondeu-se rapidamente atrás de uma coluna enorme.
Foi então que viu em cima, Carolina a correr, a agarrar nas crianças enquanto as repreendia e a atravessar o corredor. E em baixo, um homem, que saía de detrás dos cortinados de veludo, do outro lado do hall, e atirava qualquer coisa para debaixo das escadas. Antes que pudesse pensar no que estava a acontecer Helena ouviu um estrondo ensurdecedor e viu a escadaria a explodir juntamente com parte do primeiro andar. Ela encolheu-se atrás da coluna, em pânico, com as mãos a cobrir a cabeça, rodeada de gritos, de ruído de coisas a partir e ficou assim, sem se mexer, sem abrir os olhos, por muito tempo. A última coisa que tinha visto tinha sido Carolina e as crianças a cair do primeiro andar, projectadas pela violência da explosão.
Aos poucos Helena sentiu tudo a acalmar à sua volta. Lentamente abriu os olhos e ergueu-se. Quando saiu detrás da coluna viu a casa exactamente como estava no momento em que lá entrou. Olhava incrédula a toda a volta e não via indícios do que tinha presenciado.
Sentou-se nas escadas, a olhar para tudo e a repensar os últimos acontecimentos. Depois ouviu um ligeiro ruído vindo dos cortinados, olhou e viu sair devagarinho, o Velho, muito velho, agarrado ao seu relógio.
– Você?… aqui?… pensei que não… – gaguejou Helena.
– Eu venho aqui todos os dias, ou todas as horas, já nem sei quantas vezes revivo este momento – murmurou o homem com visível dificuldade em falar e mover-se.
– Quem é você? – perguntou Helena sem resistir à curiosidade.
– Sou um assassino, imoral, condenado a viver nas trevas da minha memória para toda a eternidade. O meu nome é Diogo Cunha – disse o Velho sem emoção.
– Eles morreram…? – perguntou Helena.
– Sim e com eles perdi a minha vida também.
– Você também morreu na explosão?
– Não! Eu sobrevivi para morrer de dor todos os dias e horas da minha vida até ao meu último suspiro.
– E os relógios? E as crianças? O seu relógio? Como é que… – começou Helena, dando asas a todas as dúvidas que a assaltavam.
– Esta casa foi o meu túmulo. Quis morrer com eles também. O relógio na parte da frente da casa, fui eu que o mandei fazer para assinalar o meu último momento de vida. A partir daquele momento nada mais vivi, apenas revivi. E neste relógio que trago junto a mim estão todas as horas da minha vida – explicou o Velho.
– Mas… você morreu, muitos anos depois de se fechar nesta casa… mas você está…? – inquiriu Helena perplexa.
– Eu só sei que morri naquele dia, naquele minuto… desde então os dias e horas são todos iguais… não tente compreender tudo, minha filha, eu próprio não sou capaz.
– Sabe porque é que eu estou aqui? – perguntou Helena, que se questionava há muito sobre o que lhe estava a acontecer.
– Porque chovia e você precisava de se abrigar – respondeu o Velho enquanto se agarrava ao corrimão para começar a subir as escadas.
Nesse momento, Helena desviou os olhos dele e viu o relógio, enorme, pousado no degrau, ao seu lado.
– O seu relógio…
O Velho olhou para trás a custo, fitou-a e sorriu.
– Eu estarei para sempre aprisionado nesta casa, refém do tempo que passou. Leve consigo o relógio, o guardião dos meus dias, horas e minutos e volte a dar-lhe vida através da magia das palavras.

A casa dos relógios II

(continuação do conto que começa no post anterior)

Helena estava paralisada, de medo, de fascínio, de curiosidade segurando contra o peito o pequeno relógio de bolso quando ouviu vozes a aproximarem-se. Conseguia ouvir perfeitamente a voz de dois homens que se aproximavam da porta da sala e num instante de audácia, olhou em volta e correu para trás de um enorme biombo oriental, delicadamente lacado, onde se escondeu.

– Entre, meu caro amigo, mas que alegria me dá a sua visita… é tão raro vê-lo hoje em dia!
– Os negócios, Afonso, os negócios prendem-me e acabo por passar mais tempo no Brasil do que aqui.
– Vão longe os tempos despreocupados de Coimbra, não é meu caro Diogo? As voltas que a vida deu desde então… – disse Afonso com um sorriso, enquanto indicava ao amigo uma cadeira para se sentar.
– É verdade, estamos mais velhos, mais cansados, mais ricos também – retorquiu Diogo com um ar sarcástico. – Mas afinal que maravilha era essa que me queria mostrar? Se bem que é difícil suplantar esta casa que está a construir, que é uma verdadeira jóia.
– Esta casa é um disparate onde a minha mulher anda a ver se gasta toda a minha fortuna. Tem aquela inclinação para as artes e para as coisas delicadas e inúteis, que fazem com que as mulheres sejam incapazes de ter tino para negócios. Enfim, quanto mais ela andar entretida com a casa e com os filhos, menos me incomoda. Quase não nos vemos, a não ser quando recebemos convidados ou vamos a eventos sociais, e nisso ela é extraordinária, ninguém é mais elegante e requintado.
– Meu amigo, se bem me lembro a sua esposa é uma mulher requintadíssima e muito bela e esta casa faz juz à sua reputação – disse Diogo sem tirar os olhos do chão.
– Sim, sim, mas não viemos aqui para falar de mulheres – respondeu ansioso. – O que lhe queria mostrar era esta extraordinária colecção de relógios que comecei há uns dez anos, pouco depois de Coimbra e de o amigo ter ido tentar a sua sorte para o Brasil.

Nessa altura, Helena, que via a cena através de uma frincha no biombo reparou que não havia mais relógios na sala para além dos que estavam expostos nos armários com portas de vidro. Os dois homens observaram atentamente a colecção toda. Afonso extasiado a relatar a proveniência de cada relógio, as aventuras por que passara para o adquirir e Diogo, distante, a tentar seguir o amigo mas sem interesse nenhum na colecção.
De repente, Afonso olhou para um relógio e disse constrangido para o amigo:
– Perdoe-me, meu caro, mas esqueci-me completamente que tenho uma reunião importantíssima dentro de algum tempo na cidade. Fiquei tão feliz por o rever e entusiasmei-me tanto a mostrar-lhe os relógios que perdi a noção das horas e tenho mesmo de ir. Mil desculpas pela indelicadeza… mas temos de continuar a nossa conversa. Fique para jantar. Será um enorme prazer… Vou pedir para chamarem a Carolina, ela vai ficar encantada por lhe mostrar a casa e eu não demoro… pode ser?
Diogo engoliu em seco e ficou lívido mas retorqui com segurança:
– Sim, será um prazer meu caro amigo, temos muitas coisas para pôr em dia.
– Muito bem! Venha então até à sala azul, vou pedir para lhe trazerem um chá e entretanto a minha esposa virá recebe-lo. Até logo, meu caro Diogo.

E os dois homens saíram. Helena suspirou de alívio e esgueirou-se até à porta para espreitar o que se passava na sala azul através da fechadura. Lá estava Diogo sentado. Uma empregada a servir-lhe um chá. A sala toda forrada a azul e mármore branco era luminosa, parecia um pedaço de céu. Então, Diogo retirou o seu relógio de bolso para ver as horas. Helena olhou perplexa. Era igualzinho ao relógio que ela tinha na mão, que agora surpreendentemente marcava 6h22. Segundos depois entrou na sala a esposa de Afonso, Carolina. Trazia no braço uma pequena cesta com flores, que com certeza tinha acabado de colher no jardim, e parecia aos olhos de Helena, uma princesa saída de um conto clássico. Trazia um vestido verde que lhe realçava os olhos felinos, dourados e segurava o chapéu de palha que protegera a sua pele alva e o rosto perfeito, do sol do fim da tarde. Era a imagem da delicadeza.
As mãos de Diogo tremeram quando a viu, entornando o chá e ele levantou-se desajeitado mas sem jamais conseguir desviar os olhos daquela mulher. Ela não se movia desde que o vira. Tinha uma expressão de incredulidade e ternura no rosto que parecia dominar todo o espaço à volta deles. Helena sentiu uma angústia profunda perante aquela cena, como se pressentisse algo terrível. Olhou para o relógio que tinha na mão e ele estava parado novamente, marcando 6h23. Quando voltou a olhar pela fechadura viu apenas a sala vazia, como quando chegara à casa. Levantou-se e olhou em volta e voltou a ver todos os relógios que cobriam a sala. Pousou instantaneamente o relógio de bolso na mesinha ao seu lado e abriu a porta. Voltou a olhar as esculturas na parede, rodopiou pela sala, sentiu o ar frio e pensou que se calhar tinha tido um sonho estranho, que nada daquilo era possível, que estava a sonhar ainda.
“Gostaste do meu tesouro?” ouviu uma voz infantil a perguntar e olhou em seu redor sem ver ninguém.
“Estou aqui, olha para mim”, continuou a voz.
Helena olhou com mais atenção e então reparou no menino de mármore na parede, a brincar em cima de um cavalo de madeira. E viu perplexa o cavalinho começar a balançar, para a frente e para traz, para a frente e para traz e o rosto da criança risonho, às gargalhadas.
“Ora toca-me!” dizia ele. E Helena sem acreditar no que via aproximou-se como um autómato e obedeceu. Quando a sua mão se aproximou da mão da criança que segurava o cavalinho, esta soltou-o, agarrou a mão da Helena e saltou para o chão. Helena deu um passo atrás e caiu assustada. A criança ria sem parar e aproximou-se dela oferecendo-lhe a mão para a ajudar a levantar.
– Quem és tu? – perguntou Helena. – Como é possível… tu estavas na parede…
– Eu sou o Simão e esta casa é minha e eu queria mostrar-te o meu tesouro.
– Os relógios? – perguntou a Helena.
– Não… esse era o tesouro do meu pai. A magia… eu queria mostrar-te a magia…

(e continua ainda…)

A casa dos relógios I

Há muitos dias que não acontecia uma gloriosa manhã de sol como aquela. Sol de Inverno, intenso, teimoso, a romper o ar gélido e a iluminar o mar furioso que fustigava as rochas. Helena passeava na praia, com os braços cruzados sobre o poncho quente de lã e os pés descalços na areia molhada e fria. Desde pequena que adorava andar descalça, numa espécie de ritual íntimo com a terra-mãe, e percorria o areal com pequenos passos seguros enterrando os pés um atrás do outro e olhando para trás, para ver as pegadas desaparecerem no momento seguinte, efémeras, como se ela própria desaparecesse e se renovasse a cada passo.
Já tinha perdido a conta dos dias passados na casa da praia. Helena tinha-se refugiado ali, como sempre, para escrever. Precisava de estar sozinha, de não contabilizar os dias e horas que passavam para se sentir livre e dar vida às ideias que depois transformava em histórias, que entregava à sua editora, que depois as transformava em mais um livro. Às vezes passava meses sozinha na casa da praia e invariavelmente, quando terminava, partia sem regresso marcado para qualquer lado do mundo, indiferente ao maior ou menor sucesso do seu trabalho, alheia ao frenesim promocional, que enlouquecia a editora e que involuntariamente criava à sua volta uma aura de mistério. Helena S. era uma romancista de sucesso, um fenómeno literário, mas ninguém conhecia aquela mulher pequenina, de cabelos negros em desalinho, sorriso tímido e olhar penetrante.
Durante os últimos dias, talvez semanas, não tinha sido capaz de escrever uma única linha. Passava horas a fio à frente do computador, a ouvir música e a escrever frases que apagava mal colocava o ponto final. Naquela manhã decidiu não escrever; decidiu aproveitar o sol raro de Inverno e passear na praia. Ria-se sozinha, olhando para os passos que desenhava na areia a desaparecer atrás de si. Rodopiava, corria, arrastava os pés, saltava, numa espécie de escrita efémera que o mar teimava em apagar. Deixou-se levar por esse impulso, que a divertia, e caminhou mais do que alguma vez tinha caminhado. A determinada altura, ofegante e cansada decidiu sentar-se a contemplar o mar. Recuou até ao cimo das dunas, que eram altíssimas naquela zona e parou. Respirou fundo e sentiu o ar frio invadir-lhe o peito, fechou os olhos e ouviu a cadência silenciosa do mar. Quando se sentiu revigorada e pronta para voltar à casa da praia, ergueu-se e olhou em volta. Nunca tinha estado antes naquele lugar e então reparou num pequeno caminho de areia que partia dali e penetrava no canavial imenso que se estendia até um pinhal bem mais atrás. Resolveu segui-lo e ver até onde a levava.
Deparou-se, algum tempo depois, com uma imponente mansão abandonada, em ruínas. Na sua época, tinha sido sem dúvida uma casa maravilhosa. Era fácil imaginar como tinha sido a fachada arte nova, com frisos belíssimos a emoldurar as janelas, com varandas ondulantes e esculpidas com elementos do mar e da terra, com vitrais coloridos que brincavam com a luz. Nem a invasão de plantas que se apoderou da casa, nem a degradação dos anos que apagou frescos, destruiu vitrais, varandas, frisos e esculturas, nem o ferrugem que cobriu os maravilhosos contornos do ferro forjado eram capazes de apagar a imponência e o esplendor daquela casa. Helena passou horas a observar cada detalhe, como se lesse em cada centímetro de parede uma história perdida no tempo. Era extraordinária e havia um detalhe, acima de todos, que a intrigava, que não combinava com a arquitectura cuidadosamente planeada da casa. Na fachada principal, por cima da belíssima porta de entrada, em madeira maciça, gasta, recortada sem um único ângulo recto, encontrava-se um relógio enorme, incorporado num friso que fazia lembrar uma estrela-do-mar. As horas esculpidas em numeração romana tinham-se esvanecido sob o efeito da erosão, mas os ponteiros, ainda que completamente cobertos de ferrugem, estavam lá, intactos a marcar a última hora: 11h59.
Subitamente, Helena foi arrancada ao estado de encantamento que a casa lhe provocara por um trovão ensurdecedor, seguido de chuva intensa que em segundos a deixou completamente encharcada. Tinha perdido a noção do tempo. Estava a escurecer, estava frio e abatera-se sobre ela uma tempestade violenta. Num impulso, Helena deu um encontrão com o ombro na porta da casa e esta abriu-se deixando ver o chão de mármore, os frescos apagados das paredes, a decoração em estuque que restava no tecto, os candeeiros monumentais e a escadaria; uma escadaria como ela nunca tinha visto, que a partir de uma base comum rodopiada e se separava criando três acessos a diferentes partes da casa. Helena fechou a porta atrás de si, deixou de ouvir a trovoada, de se sentir intimidada pelos relâmpagos e olhou em volta, maravilhada. A escadaria parecia o coração da casa a pulsar de vida, os frescos ganharam cores intensas e pareciam iluminar o interior do salão, as figuras esculpidas a estuque pareciam querer sair do tecto e dançar à sua volta, os candeeiros pintados com cores fortes, maravilhosos, pareciam iluminar o mundo. Helena começou a andar lentamente, rodopiando sobre si própria para não perder um único pormenor. Foi então que começou a ouvir a música. Primeiro ao longe, muito longe, um piano soltava notas delicadas de uma melodia encantadora. Depois a música foi-se aproximando, começaram a ouvir-se violinos também, em perfeita sintonia. E depois vozes, muitas vozes. Vozes de homens e mulheres, risos e gargalhadas, sons de festa e alegria. E então, Helena ouviu claramente um burburinho de crianças que brincavam e riam e corriam pela casa. Ela olhou em volta e não viu ninguém, mas ouvia as crianças cada vez mais intensamente. O som vinha do andar de cima e não só as ouvia a brincar como podia sentir os seus passos enquanto corriam alegremente.
Colocou a mão no corrimão de madeira e começou a subir tentando encontrar o caminho naquele labirinto de escadas que se entrelaçavam e separavam como se tivessem vida própria. Foi então que ouviu claramente “Anda! Quero mostrar-te o meu tesouro!” seguido de gargalhadas e burburinho de riso de crianças. Tentou seguir aquela voz e quando chegou ao cimo das escadas e olhou para o corredor à sua frente viu, num ápice, um vulto de criança dobrar a esquina a correr. Apressou-se para o tentar apanhar, continuou a ouvir o desafio “Anda!” e o riso alegre de crianças. Entrou num labirinto de salas e salões que se abriam uns para os outros e para novos corredores e escadas. Voltou a ver o vulto dobrar outra esquina, continuou a segui-lo e deu por si numa sala forrada a veludo azul celeste, decorada com esculturas que saíam das paredes como se tivessem um dia tido vida própria e tivessem sido aprisionadas por um feitiço qualquer. Eram figuras de homens, mulheres e crianças, de várias idades, em várias situações. Helena reparou atentamente numa delas; um velho, muito velho, no fim da vida, com o olhar mais triste do mundo, que segurava nos braços, um enorme relógio. E depois viu a porta entreaberta. Ela era capaz de jurar que quando entrara naquela sala não havia mais nenhuma porta, mas agora lá estava ela, mesmo à sua frente, paralela à porta por onde tinha entrado e lá dentro ouvia-se agora, claramente, o burburinho alegre das crianças. Avançou curiosa, empurrou lentamente a porta e entrou. Olhou em volta perplexa e encantada. Nas paredes, no tecto, em cima dos móveis, por todo o lado podiam ver-se centenas de relógios, todos parados, todos com uma hora diferente. Quando olhou para a delicada mesinha de mármore mesmo ao seu lado, Helena não pôde deixar de reparar num belíssimo relógio de bolso antigo, em ouro, uma verdadeira obra de arte que estava pousado no meio de vários outros relógios. Pegou nele com cuidado. Marcava 6h23. No mesmo instante, sentiu a porta fechar-se violentamente nas suas costas e sobressaltada reparou que todos os relógios tinham começado a trabalhar, em sentido contrário, como se estivessem a recuar no tempo.
(continua brevemente)