INSÓLITOS

1. Alguns hospitais e centros de saúde têm “gender violence specific facilities”. A primeira vez que vi isto escrito entre “Oftalmologia” e “Cardiologia” achei que estava a ter alucinações. Ajuda a perceber a dimensão do problema, certo? É inacreditável!

2. Hoje almocei com os meus amigos italianos de Nanyuki, que vieram a Nairobi. Fiquei a saber, que uma das crianças seropositivas, orfãs, da casa que eles gerem, morreu esta semana enquanto passava as férias da Páscoa em casa da avó. Morreu porque ficou com malária e a avó teve vergonha de dizer no hospital que a criança era seropositiva e portanto ela recebeu o tratamento errado. É insólito, estúpido e deixa-me muito zangada.

3. Ontem passei no Edifício da Imigração que tem sempre montes de gente à porta e uma quantidade absurda de militares armados até aos dentes. Ia com headphones a ouvir música quando resolvi atravessar o jardim do edifício para cortar caminho e portanto não ouvi ninguém a chamar-me. Fiquei parada no meio do caminho, quando vi um militar a encostar o cano da arma ao pescoço de um sujeito, branco (é esta a parte insólita, repare-se, porque se fosse negro era normal), que ia todo lampeiro a entrar no edifício. Nessa altura tirei os headphones e ouço outro militar aos berros de arma na mão a vir ter comigo. Era hora de almoço e o serviço ia fechar e não era suposto entrar ninguem… nada de mais!

FUTILIDADES

1. Morro de saudades da minha máquina de lavar roupa. Não sei como é que antigamente se vivia sem este maravilhoso electrodoméstico. Além de não conseguir que a roupinha fique a cheirar tão bem como quando sai da máquina e de achar que não fica tão bem lavada (por mais que eu me esforce até esfolar os dedos!), vou ficar sem roupa num instante, que ela está a gastar-se a olhos vistos. Está a desbotar, a borbotar, a alargar… não é bonito!

2. No Quénia as pessoas vestem-me muito mal. O país inteiro precisa de uma intervenção; uma edição especial do “What not to Wear”. O fato, é a farda quotidiana de todos, homens e mulheres, mas as calças têm pregas (valha-me deus! é tão feio… parecem uns balões) e ainda ninguém lhes disse que a coisa passou de moda há 20 anos, os tecidos são de má qualidade e os cortes de fugir. É mau! Pior que tudo é quando até as criancinhas andam de fato a fazer a mesma ficura triste em miniatura. Deve ser o país no mundo onde o fato tem mais consumidores: mandem para cá a Máximo Dutti, a Hugo Boss, o YSL que esta gente precisa urgentemente de ajuda.

3. Estou cansada de dizer que não sou da família do Cristiano Ronaldo. É verdade, o moço é um herói por estas bandas e mal eu digo que sou portuguesa pergunta,m-me por ele: como está, se é tão bonito ao vivo como na TV (bonito??? corpinho Danone ainda vá, mas bonito???), se é simpático… enfim, eu lá tenho de explicar, que apesar de sermos um país pequeno e pertencermos todos à mesma tribo, não somos todos da mesma família!

QUE NUNCA NOS FALTE LIBERDADE!

Hoje é um dia importante no país onde nasci. É importante para todas as mulheres porque têm direitos iguais, para todas as crianças que podem ir à escola, para todas as pessoas que podem ser o que lhes der na real gana, para todas as pessoas que podem defender as causas que bem entenderem e para todas as pessoas que podem manifestar-se, criticar e opinar sem serem abatidos pela polícia à queima-roupa ou detidos sem culpa formada. É importante para a Esquerda e para a Direita porque podem coexistir.
Sempre achei o 25 de Abril um dia importante, mas nunca como este ano. Há muitas coisas que estão mal, todos sabemos. Também preferia ter um ensino de qualidade em vez de ter ensino obrigatório até aos 18 anos para embelezar as estatísticas. Gostava que houvesse mais equilíbrio social, mais oportunidades, menos preconceitos. Gostava que o meu país fosse melhor. Gostava de ter melhores políticos e melhores cidadãos.
Mas hoje estou longe de casa, num país fascinante que estou a descobrir aos poucos, mas onde há várias coisas que me incomodam. Todas elas têm a ver com a falta de liberdade. Incomoda-me um líder estudantil ser impedido de completar a sua formação por se ter manifestado, incomoda-me a homossexualidade ser um crime, incomoda-me as mulheres não terem direitos iguais e serem constantemente vítimas de violência, incomoda-me o fanatismo religioso que impõe códigos morais castradores e que atentam contra a liberdade individual, incomodam-me os preconceitos relativamente a tudo o que foge à norma e incomoda-me bastante que me chamem mzungu, que significa europeu, mas que na verdade serve para denominar todos os brancos. Se o significado fosse literal, seria motivo de orgulho para mim, porque é o que eu sou – Europeia – cada vez mais, sempre que me confronto com outras culturas. Assim não.
São tantas as faltas de liberdade que me incomodam que me lembrei especialmente de casa, hoje.
E assusta-me que na maior parte do mundo a liberdade seja um bem cada vez mais escasso. Podia fazer-se com as revoluções o que alguns casais apaixonados fazem com os casamentos: renovar os votos. Eu quero renovar os votos da revolução francesa para que na Europa nunca nos falte liberdade, nem igualdade, nem fraternidade.

CURIOSIDADES

A qualidade da comunicação social e a liberdade de imprensa. Desde o primeiro dia em que cheguei que tenho estado atenta e consumido bastante jornalismo, sobretudo escrito. Para mim é um meio fundamental para me contextualizar e conhecer melhor o país e foi com alguma surpresa que constatei que no Quénia se faz bom jornalismo, independente, inteligente e audaz. Além da actualidade nacional, também as notícias internacionais estão sempre presentes, com uma clara preferência pelos países africanos, mas sem esquecer o resto do mundo. O Daily Nation, sobretudo, é uma referência de jornalismo sério e alguns cronistas, como a Lucy Oriang (a minha preferida), são absolutamente brilhantes.

De acordo com uma recente sondagem de opinião as instituições em que os quenianos mais confiam são a comunicação social (73%), as ONGDs e o sector privado. No final da lista com cerca de 3% de confiança está o parlamento, seguido de toda a classe política e da justiça. É curioso, eu já vi este cenário em qualquer lado :). Dá que pensar!

Todos os dias há notícias de linchamentos e casos de justiça popular. É clara a ineficiência policial (com falta de capacidade de resposta e elevados índices de corrupção) e das instâncias judiciais na resolução dos problemas. É assustadora a resposta popular. A facilidade com que se organizam milícias e se recorre à justiça popular é um sintoma que parece estar a tornar-se numa doença cada vez mais perigosa para a saúde do país.

Anda um leopardo à solta em Nairobi. O Kenya Wildlife Service já tentou de tudo mas o animal continua a aterrorizar algumas partes da cidade e vai dando conta de algumas cabecitas de gado (coitado tem de comer, num é?!). Para mim o que é curioso não é propriamente a deriva do bicho mas o facto de ele ainda não ter morrido atropelado.

MTAFITI MAISHA (Vida de perguntador)

Às vezes, chegar ao fim do dia com a agradável sensação de “missão cumprida”, pode ter um preço muito elevado. Foi o que aconteceu ontem.
Estava tudo preparado para mais uma visita do meu trabalho de campo. Ficaram de me ir buscar ao hotel, providenciaram almoço e um programa para todo o dia. Fantástico! O que eu não sabia era que as quintas de produção e os centros de transformação dos produtos ficavam a 50 km de distância, nas entranhas das montanhas, com acesso por picada, depois de uma noite de chuva torrencial, com a terra inundada e cheia de buracos. Valeram-me os comprimidos para o enjoo (e eu nunca enjoo!) e mesmo assim devo ter chegado verde ao destino. Mas a pior surpresa foi o facto de pura e simplesmente não entender o gerente do projecto e portanto acabar por fazer uma entrevista por telepatia. Eu continuo a ter muita dificuldade em perceber o inglês do Quénia, sobretudo na província e pior ainda quando o meu interlocutor não tem um dente da frente. Aí a dicção fica impossível de perceber. Nem tentei usar o gravador para a entrevista, que decorreu como um verdadeiro exercício de telepatia, em que eu tentava tirar o sentido de cada frase pelas duas ou três palavras que percebia. Foi difícil!
Depois o temido regresso pela mesma picada, desta vez até uma localidade a 15 km de Meru para apanhar um matatu. Tudo muito bem até se sentar ao meu lado, a meio do caminho, a pessoa mais mal-cheirosa que eu já cheirei. E não havia pastilhas para o enjoo que me valessem.
Depois de chegar ao hotel coberta de pó, enjoada e com dores nas costas, depois do duche desinfectante e da reorganização dos meus apontamentos da entrevista telepática, caí na cama e dormi umas 10h seguidas.
E acho que a FCT devia prever um subsídio de risco para perguntadores a trabalhar em condições extremas!

PELAS TERRAS ALTAS DO QUÉNIA

A viagem
Chegar aqui foi interessante. Tinha as referências todas, o local de partida dos transportes, em Nairobi, os tipos de autocarros e matatus, os horários… só não estava preparada para o caos da Accra Road (nunca estou mesmo depois de estar farta de experimentar sítios assim). Na mesma rua poeirenta e esburacada, encontram-se autocarros de luxo de 2 andares, com TV, AC, WC e mais uns quantos extras, matatus de 21 e 14 lugares, táxis partilhados de 7 lugares, sinais de destino para todos os cantos do Quénia (quase todos, que para o Norte não há transporte e quase metade do país fica no meio do deserto e isolado do mundo), gente a gritar para atrair clientes para as viaturas, um mundo de estabelecimentos comerciais decadentes, com cores garridas, produtos fora de prazo e música altíssima, bagagens, sacos gigantes e embrulhos, gente por todo o lado (gente feliz a cantar e a gritar, a receber um ente querido, gente a chorar a despedir-se, gente a carregar coisas incríveis), uma manta de retalhos de cores, aromas e sons.
É um espectáculo interessante se nos conseguirmos abstrair e fazer de conta que não estamos lá. É um pouco assustador se se levar a tarefa de encontrar um transporte e iniciar a viagem, demasiado a sério. Eu consigo abstrair-me tranquilamente. Olhei para o cenário caótico, comecei a dizer mecanicamente “Hapana. Asante” (Não, obrigada!) a toda a gente que me abordava para me enfiar num autocarro qualquer, comprei o jornal e sentei-me no degrau de uma loja aberta para a rua como se soubesse exactamente o que fazer. Com o jornal à frente do nariz, ia espreitando por cima dele e observava a rua, os destinos, os veículos, até perceber onde estava o meu táxi partilhado de 7 lugares com destino a Nanyuki, à 1h da tarde. Era cedo, deixei-me estar sossegada enquanto apreciava o reboliço e depois lá me levantei e dirigi-me para o meu veículo. Confirmei com uma senhora se era mesmo o que eu queria, e depois, paguei o bilhete com o dinheiro certo para não pensarem que eu não sabia o preço e me cobrarem mais, como é costume. Escolhi um lugar à janela e instalei-me até começar a viagem.
Demoramos quase 4h a chegar ao nosso destino o que é um pouco cansativo quando a viagem tem alguns solavancos e vamos batendo com a cabeça no tejadilho (também provoca algumas
dores de cabeça, é certo).


Nanyuki, Monte Quénia, a três quilómetros do Equador
A paisagem altera-se conforme a altitude vai aumentando. Primeiro, os subúrbios da grande cidade, depois o tráfego intenso na estrada principal e finalmente o verde, a terra cultivada, a floresta, a chuva e o cheiro a terra, até chegarmos aos prados secos, extensos, a cheirar a capim e finalmente Nanyuki. É uma pequena cidade cheia de comércio, mercados e lojas. Não é bonita, nem é feia. É uma das entradas para o Parque Nacional Monte Quénia. E a montanha, imponente, nos seus mais de 5000 mt, está sempre presente no horizonte mesmo que esteja coberta de nuvens pois transforma-se numa espécie de montanha etérea. No primeiro dia acordei muito cedo, antes das 6h da manhã e espreitei pela janela do quarto o sol a nascer, vermelho-fogo, por trás do Monte Quénia. Não é à toa que os Kikuyus, a tribo da região e a mais populosa do país consideram a montanha sagrada e acreditam que lá vive o seu deus. Também se encontram algumas aldeias Masai aqui na região. É interessante: Kikuyus tradicionalmente agricultores e Masai tradicionalmente pastores. É importante salientar que esta, a região do Monte Quénia, é um dos principais centros de produção agrícola do país. Apesar de se terem cometido algumas atrocidades ecológicas (e outras) desde a época colonial – o clima ameno da montanha e a fertilidade dos solos atraíram uma grande parte dos colonos ingleses que ao longo do século 20 expropriaram os Kikuyus para criarem grandes propriedades agrícolas, remetendo-os para reservas periféricas e destruíram grande parte da floresta e do ecossistema original – parece haver um esforço grande para cuidar das florestas e da vida selvagem que restam. Percebe-se bem porque é que foi nesta região que começaram as lutas contra o colonialismo, com o movimento Mau Mau.
Mas adiante… uma das coisas que mais me chamou a atenção desde o primeiro momento foram os pássaros… é verdade. Primeiro é impossível não reparar neles porque fazem uma barulheira deliciosa, depois, é impossível ficar indiferente às cores que pintam o céu de um lado para o outro. Descobri que preciso de uma máquina fotográfica melhor para os fotografar bem. Outro pormenor encantador, são as flores e as cores intensas das flores. E com uma natureza tão generosamente colorida não percebo porque é que em swahili só se identificam 5 cores.
Outro fenómeno encantador (mau para a agricultura, é certo) é que parece que Nanyuki fica numa clareira de sol e céu azul, ao passo que tudo à volta se rende ao calendário da época das chuvas longas. Eu gosto de tempestades e é lindo sentar-me nas traseiras da casa, no meu momento Greta Garbo do dia “I want to be alone!”, em cima do tanque de lavar a roupa e apreciar o horizonte à minha volta: 180º de nuvens escuras e ameaçadoras, que rugem à distância, rajadas por relâmpagos coloridos, enquanto o céu por cima de mim continua azul e vai deixando vislumbrar as estrelas da noite.
(continua…)

A OUTRA CIDADE

Uma coisa coisa boa deste meu trabalho é que me obriga a girar e a levantar as pedras para ver o que está por baixo e assim fico com uma perspectiva abrangente da realidade. Isto nem sempre é fácil ou agradável mas é fundamental. Já tinha aqui referido que Nairobi é uma cidade cheia de contrastes mas ainda não tinha mergulhado neles (e convenhamos que ainda não mergulhei, estou só a fazer snorkling).
Esta semana visitei uma organização de Comércio Justo que fica no Bairro de Lata de Mathare Valley, um dos mais antigos e o segundo maior da cidade. O maior, o famoso bairro de Kibera, tem mais de meio milhão de habitantes e fica já aqui ao lado da zona “bem” onde eu estou instalada. Já visitei e trabalhei em outros bairros de lata, em outras cidades (nomeadamente em Maputo, que conheço bem), mas nada se parece com o que encontrei aqui em Nairobi. Ao contrário daquilo que me é familiar os bairros de lata não se desenvolvem como um anel à volta da cidade. Aqui, eles crescem e aparecem onde há espaço e até parece haver uma lógica diferente, pois muitas das zonas periféricas da cidade são mais nobres e aí abundam as casas de luxo e grandes propriedades. Assim, toda a cidade é pontuada por estes bairros, maiores ou mais pequenos, e que estão em constante crescimento com o fluxo crescente de pessoas que abandonam o campo para tentar a sorte na cidade. De cerca forma constituem um microcosmos (muito macro em alguns casos), com regras sociais muito próprias, com um mercado imobiliário dinâmico (pois é, muitos dos “barracos” são alugados e fonte de rendimento e investimento para muita gente), etc.
Um facto que me surpreendeu é que a maioria das casas e “estabelecimentos comerciais” do bairro, são mesmo totalmente construídos em chapa. Parece lógico, eu sei, por isso mesmo se chamam bairros de lata, mas os que eu conheço são frequentemente construídos em adobe, com lama e pedras (o que mantém as casas mais frescas), com algumas casas com paredes de tijolo mesmo e a chapa apenas a servir de telhado e a remendar uma ou outra parede. Mas aqui, a chapa domina tudo. A chapa, o pó, o fumo e o lixo. As “casas” são quase coladas umas às outras, a privacidade é nula. O saneamento e a electricidade inexistentes, as vielas (sim, que não se pode chamar rua a sítios onde quase só se passa de lado) em terra batida. E claro, o verde da cidade, que tanto me encantou à chegada, não existe nestas paragens, nem os ecopontos, nem os “beautification programs”. Por vezes, o verde termina no quarteirão ao lado, mas nunca chega aos bairros. Aqui reina a paisagem árida, lunar, ao estilo “Mad Max”, coberta de chapa reluzente e um sentido de humor brilhante. É impossível não reparar em pormenores como o “Confort Funeral Services”, anunciado por uma tabuleta gigante pintada à mão na frontaria de um “barraco” esburacado e manhoso. (Depois de uma vida neste caos, há que pelo menos ser sepultado com conforto… é justo!)Lindo também é o “Sunshine Hotel”, que não deve ter um único raio de Sol durante todo o dia, pois está enfiado no meio de outros barracos num buraco lamacento. E não podemos esquecer o Hotel Barcelona e o Hotel New York a dar um ar cosmopolita à vizinhança. Igualmente impressionante é o número de Igrejas, de todos os credos que nascem como cogumelos pela cidade toda, mas que aqui, nos bairros de lata, encontram uma espécie incubadora. Os nomes são reveladores “Friends Church” (pois claro, valham-nos os amigos num sítio destes), “Hope Church” (booooring!), “End Times Glory Minister” (uns visionários bem informados) e por aí em diante. (A questão das Igrejas merece um post próprio. Eu ando a anotar os nomes sempre que passo por uma nova e a tentar perceber o fenómeno. A seu tempo voltarei ao assunto).
Esta foi uma primeira impressão, muito superficial. Mas vou voltar aqui e vou conhecer outros bairros de lata e irei dando conta do que vejo. Para já, vou mudar-me por umas semanas para o Monte Quénia. Não vai ser fácil sobreviver ao ar limpo e despoluído. Estou tão “agarrada” ao monóxido de carbono que temo pela minha saúde. Mas é a vida do “Perguntador” (tradução literal do swahili para investigador).