FIM DE SEMANA ALUCINANTE

Desde que estou em Kisumu que quero ir ao outro lado da fronteira e o Uganda cumpriu e encantou-me. É lindo, verde, tranquilo, acolhedor, o rio Nilo nasce lá e lá também pode fazer-se rafting num dos percursos de rápidos mais intensos do mundo, no White Waters Nile.

A expedição integrou 3 portugueses e 3 alemães. Saímos das nossas tocas quenianas em diferentes partes do país e lá fomos de autocarro para a outra banda. Primeira percepção: no Uganda as estradas são um espectáculo, sobretudo para quem vai aos trambulhões durante mais de 2h até chegar à fronteira. Chegados a Jinja, a grande surpresa: caminhamos pela cidade até ao nosso alojamento sem ninguém vir atrás de nós a gritar Mzungu, a oferecer serviços… a chatear. Fomos andando pelo centro da cidade encantados com aquela privacidade a que já não estamos habituados, experimentando a cordialidade local na busca do nosso destino por ruas tranquilas bordejadas de árvores e casas lindas. O Explorers Backpackers, onde ficamos é um lugar magnífico onde se pode dormir por $7, comer bem e descansar entre viajantes dos quatro cantos do mundo. Foi também aí que encontramos os primeiros personagens que integraram esta história, desde o recepcionista que gostou tanto do meu nome que me abraçou quase até me partir as costelas, até ao Nash que no último dia, quando estavamos muito atrasadas para o autocarro, saiu do trabalho dele para nos ir lá levar… de borla… coisa nunca vista!

O primeiro dia foi passado a visitar a cidade, que é uma cidade muito especial, muito turística tanto entre estrangeiros como ugandeses e portanto impossível de generalizar o que lá se sente e se passa para o resto do país. De qualquer forma, senti que me fez recuperar um certo estado de encantamento com “África” que há muito não sentia. Fez-me lembrar Moçambique. As pessoas simpáticas e prestáveis, doces, a nostalgia colonial da arquitectura, linda, o verde exuberante, maravilhoso e voltar a ouvir “Por favor” e “Obrigada” fizeram maravilhas ao nosso espirito. Fomos ver a Nascente do Nilo… bem diferente… da do Mondego por exemplo que começa com umas gotinhas a cair de uma rocha. Nada disso! O rio Nilo nasce no Lago Vitória e é grande, largo e imponente desde os primeiros metros de vida. Percebe-se o lugar do parto porque mudam as correntes. Deixam de andar ao sabor do vento e passam a ter ordem e resistência empurrando a água rio acima. Para lá chegar não foi fácil, perdemo-nos pela cidade e a caminho dos barcos que nos levariam lá passamos pelos comerciantes de carvão, pelos pescadores da margem, pelos bairros mais pobres e ficamos com a sensação de “Ups! Acho que não devíamos estar aqui”. Mas era mesmo lá e todos nos trataram bem e arranjamos um barquito para nos levar à ilha no meio do Nilo onde se pode ver a coisa. Ao fim do dia mudamos de poiso. Saímos do Explorers da cidade e fomos para o Explorer Base Camp onde passamos os dias seguintes, a 8km, na margem do Nilo com vistas sublimes sobre os primeiros rápidos do rio.  primeira noite aqui foi absolutamente estranha. Seis residentes estrangeiros no Quéni
a numa mesa de esplanada a partilhar experiências, frustrações e muitas questões sobre o que andavamos a fazer daquele lado do mundo e um rol de personagens incríveis a abordarem-nos, a sentarem-se connosco e a discutir. Parecia que estavamos numa espécie de atendimento ao público. Primeiro chegou o menino americano salvador do mundo. Apresentou-se, sentou-se perguntou quem eramos e que fazíamos. Ele estava no Uganda há quase 2 meses. Ia salvar o mundo através da educação e queria viver em “África” para sempre (só que estava quase a ir embora… afinal tinham sido só uma espécie de férias humanitárias). Acho que nos excedemos um bocadinho na forma como questionámos os valores e as motivações dele, os ânimos acenderam-se e ele saiu da mesa. A seguir veio um ugandês, questionar as questões que tinhamos colocado ao americano. Ficou muito chocado com as nossas opiniões, e sobretudo por não acreditarmos em nada que não passe pelos africanos resolverem sozinhos os seus próprios problemas, a começar pelos governos corruptos que os governam. Também saiu da mesa exaltado. Depois veio outro. Sentou-se e perguntou: afinal o que é que vocês pensam sobre isto? (isto o quê amigo? Donde é que tu saiste?) e lá voltamos ao mesmo. É tão difícil partilhar ideias! Como se não tivessemos já tido emoções suficientes, descobrimos que a carteira de uma das nossas amigas foi roubada neste vai e vem de gente. Ficou sem telefone, sem dinheiro, sem cartões e pior, sem passaporte. Um filme! Teve de ficar para tras e está agora ainda em Kampala, a resolver o problema com a embaixada alemã para poder regressar ao Quénia.

E depois no dia seguinte, lá fomos fazer rafting. Os rápidos têm classificações consoante o perigo que oferecem entre grau 1 (nada) e grau 6 (risco de vida mesmo para os mais experientes). O nosso percurso de 30km incluía vários rápidos de grau 3, 4 e 5 e um de grau 6 que contornamos, por terra com os barcos à cabeça. Eu já tinha experimentado fazer rafting mas nunca com rápidos acima do grau 3 e teria ficado muito feliz por voltar a fazer o mesmo  sem subir no ranking do perigo de vida mas os meus companheiros de viagem não tinham tanto apego à vida e eu como sou uma “Maria vai com todos” não tive outro remédio senão ir com eles. Logo no primeiro rápido a sério o barco virou, fui sugada para o fundo do rio, segui as regras (fechei os olhinhos, embrulhei-me em posição fetal e esperei que o rio me cuspice para a superfícei) e surpreendentemente ganhei confiança. A segurança foi super eficaz e passou-se tudo tão rapidamente que comecei a achar que afinal aquilo não era tão mau como parecia. Foi um dia fantástico, cheio de emoções e adrenalina. No último rápido, o pior de grau 5, depois de termos contornado o 6 fatal, eu olhei para aquela tormenta de correntes revoltadas e pensei 2 vezes antes de entrar no barco, mas depois de tudo o que já tínhamos passado, encolhi os ombros e lá fui. Má hora! O nosso barco encalhou no meio das correntes cruzadas e fomos sacudidos, cuspidos e engolidos pelas águas com violência. Na queda, um dos remos de madeira atingiu-me em cheio na cara e eu fui ao fundo semi-inconsciente. Depois foi o pânico, a dificuldade de sair do meio do rio que me queria engolir, a dor na cara que parecia que ia explodir. Mais uma vez a segurança foi eficaz e lá me salvaram e meteram num barco. Chorei baba e ranho, uma vergonha. Mas o balanço foi muito positivo, apesar de hoje ter um olho negro, uma perna a mancar e dores nos braços de remar 30km. Sobrevivi à parte mais selvagem do Nilo! Claro que ainda há alguns riscos, várias bacterias e parasitas que nos podem ter entrado no sistema, a malária sempre à espreita e surpresa… aquela zona está cheia de moscas tse tse… mas nada que um check up a doenças tropicais não resolva quando voltar à pátria.

Jinja, Uganda, rafting no Nilo… a não perder! It’s once in a lifetime 😉

SARAMAGO E O PORTUGAL DOS PEQUENINOS

A morte do Saramago deixou-me perplexa. Não pelo acontecimento em si, que a Morte é o passo seguinte para todos nós, mas pela pequenez e mesquinhez que ela suscitou em tanta gente. É nestas alturas que se percebe que Portugal é mesmo um país pobre. Fiquei triste. A viver no outro lado do mundo e cheia de sentimentos contraditórios em relação a esta vivência tenho desenvolvido uma imagem idílica de Portugal, consciente de que é mentira, mas ainda assim reconfortante. Ontem acordei do sonho e lembrei-me porque é que não gosto de viver em Portugal e porque é que tantas vezes tenho vergonha de ser Portuguesa. É esta constante maldicencia, a inveja de quem tem sucesso e se destaca, o boicote a quem foge do rebanho, é uma pequenez colectiva contagiosa e destrutiva.

Acho que a maior parte dos Portugueses não gosta de pessoas reais. Essas têm defeitos e qualidades, dons e falhas, têm dias bons e maus, agem bem e mal, são contraditórias. É como se fosse inconcevível que alguém, igualzinho a nós, seja melhor do que nós em alguma coisa, ou que por qualquer motivo se detaque onde a maioria não consegue deixar de ser anónimo. Então é preciso idealizar os heróis como seres perfeitos, legitimando assim a nossa incapacidade de chegar onde eles chegaram.Muitas pessoas transmitem mesmo mensagens de ódio, porque Saramago era Comunista, porque era Ateu, porque “renegou” a Pátria, porque não gostam do que ele escreveu, da forma como escreveu, e portanto é apenas um tipo comum, ignóbil e deve ser tão insignificante como todos nós. Que pequenez. Que disparate.

Ultimamente, durante o meu momento onírico em relação a Portugal, digo a muita gente que o meu país é um país de Poetas e de Literatura e digo-o ciente de que não gosto de todos os autores, nem de todas as obras, mas orgulhosa do facto de termos uma tradição literária ancestral e consistente e Saramago faz, concerteza, parte dela. A quantidade de obras traduzidas e o reconhecimento internacional ao seu trabalho fazem muito mais pela língua Portuguesa e pela cultura Portuguesa, em Portugal e no mundo, do que o Ministério da Cultura, o Instituto Camões e o IPAD todos juntos. Temos mais autores que mereciam um Nobel e o mesmo reconhecimento? Temos. Temos vários até e para todos os gostos e isso devia ser motivo de orgulho e não de crítica. E também tenho dito muitas vezes que o meu país é livre e com orgulho, que lá somos livres de dizer o que pensamos, de ter opiniões diferentes e de defender os nossos ideais. Pelos vistos muitos Portugueses só querem liberdade de expressão para quem se expressa pela mesma bitola e o Saramago era a antítese disso. Sem concordar com tudo o que ele dizia, admirava-o profundamente por isso. Dizia o que pensava, sem concessões.

O homem que era Saramago morreu e sem dramatismos, não acho que Portugal ou o mundo tenham “perdido” nada, pois fechou-se apenas um ciclo de vida. Mas o escritor que era Saramago vai viver e Portugal e o mundo “ganharam” literatura e a pátria que é a língua Portuguesa ficou mais rica.

Com a obra do Saramago tenho uma relação de amor-ódio. Alguns livros acho intragáveis e outros absolutamente brilhantes. Lembro-me que o primeiro que li foi “A Jangada de Pedra” e perdi-me naquela deriva Ibérica pelo mundo. “A História do Cerco de Lisboa” deu-me a conhecer outro Portugal e outro mundo e o “Evangelho Segundo Jesus Cristo” emocionou-me e fez-me pensar. “O Ensaio sobre a Cegueira” é de todos o meu preferido, uma das minhas obras-primas literárias. É um livro duríssimo que me abriu o olhos para a fragilidade da civilização e do ser humano. Com todos eles, Saramago emocionou-me, fez-me viajar e sonhar e aprender em Português. O homem, polémico, humano morreu. A obra dele, igualmente polémica mas viva em livros que chegam a todo o mundo, ficará. É difícil ser Grande no Portugal dos Pequeninos e só alguns conquistam o direito à eternidade. Saramago foi um deles. Bem haja!

THE THEATRE EXPERIENCE

No passado fim de semana fui ao teatro. Não fui a um teatro qualquer, até porque não há muito por onde escolher, fui ao Teatro Nacional do Quénia, em Nairobi. A arte não é valorizada aqui. A música é importada dos EUA, ou de outros países africanos com uma cena artística mais dinâmica como a Nigéria ou a Tanzânia, o cinema é praticamente inexistente e resume-se a um ou dois projectos experimentais, a dança… só nos bares, a literatura reune uma pequena elite interessante mas é inexpressiva e os principais escritores estão exilados e o teatro, ao contrário do que acontece em outras Áfricas que eu conheço, é pobre e quase inexistente. Por isto tudo, o anúncio de um espectáculo em cena no Teatro Nacional, que prometia integrar música, arte circense e teatro deixou-me mortinha de curiosidade e lá fui eu mais a Mzunguinha, com uma expectativa relaxada, mas preparadas para um fim de tarde interessante.

Eu juro que eu quero ter coisas boas para dizer sobre o  Quénia para além da obvia beleza da natureza e da vida selvagem, mas é difícil. E qualquer possibilidade de o teatro entrar neste rol desapareceu mal chegamos à sala de espéctáculos.

A primeira sensação ao entrar no Teatro Nacional é de náusea com um cheiro intenso a urina, a segunda é de nojo ao ver o estado de degradação e sujidade: os cortinados a desfazerem-se e sem nunca terem sido lavados na vida, o veludo das cadeiras carcomido e manchado, o bar com um ar mais degradado do que o bar de qualquer colectividade de bairro portuguesa. Dentro da sala, com as saídas de incêndio fechadas a cadeado, o palco despido, desbotado e degradado e as cadeiras desalinhas e velhas sentiamo-nos nas entranhas de um matatu gigante, com a vantagem de não estar cheio de gente. A terceira sensação a invadir-nos e a revoltar-nos é a de perplexidade perante a própria performance que era tão má, mas tão má, que ao fim de meia hora levantamo-nos e saimos. E esta foi a parte mais triste. Que o estado não apoiasse a arte e investisse nas suas infra-estruturas eu entendia, mas tinha ainda a esperança de ver um espectáculo bom onde a qualidade dos artistas ofuscasse a indignidade do espaço. Não foi assim, tal como acontece em muitas outras coisas foi pobre, sem o mínimo profissionalismo, sem o mínimo esforço para ser bom, para se superar, sem paixão pela arte, sem envolvimento e sem qualidade.

E é nestas alturas que fico feliz por conhecer bem Angola e Moçambique e poder dizer que África não é toda assim. Que a pobreza não é desculpa para tudo, que o colonialismo já não serve de desculpa a quase nada e que em outras Áfricas, apesar de todas as dificuldades, há vida e arte e paixão a alimentar as gentes.

BOMBAS CONTRA A DEMOCRACIA

Ontem morreram cinco pessoas e quase cem ficaram feridas devido a um atentado bombista. Aconteceu durante uma manifestação no centro de Nairobi a propósito da nova Constituição. O Quénia está em processo de revisão constitucional e vai submete-la a referendo popular no próximo mês de Agosto. É um passo importante para o desenvolvimento do país e para garantir maior justiça social. As negociações entre os mais diversos parceiros sociais e a discussão popular, apesar de ofuscadas por demagogias populistas, têm decorrido com uma abertura democrática surpreendente. As várias versões e propostas publicadas nos jornais e discutidas publicamente e a tentativa de construir um contrato social difícil, que integre toda a diversidade social, tribal, cultural e religiosa do país tem sido uma constante.

Para mim, aliás, o grande problema da nova proposta constitucional é querer tanto agradar a todos, que se torna contraditória. No entanto, apesar de todo este esforço os fantasmas do costume fazem a sua aparição para assustar a Democracia. As tensões sociais e tribais que deram origem à violência pós-eleitoral em 2008, continuam a ser as mesmas. O Quénia não existe. Existem 41 tribos confinadas a um território que não querem partilhar e que cada uma quer dominar, em seu benefício. É uma sociedade segregada, onde ninguém se mistura, onde ninguém quer cooperar, onde a noção de cidadania nacional não existe e onde cada um espera pela sua “vez de comer”, ou seja, de chegar ao poder, partilhà-lo entre os seus e fazer o que agora acusam o Governo de fazer.

Sempre que pergunto, a quenianos, se acham que as próximas eleições em 2012 vão assistir a uma repetição de barbaridades, respondem-me que não. Todos me dizem que não, que é passado e até desvaloriza, como se tivesse sido um acidente… uma momentânea demência colectiva. É mentira! Estão a enganar-se a eles próprios e as bombas contra a democracia já estão a começar a ser lançadas.

CASA BRANCA

No guia turístico a cidade era descrita como um pequeno paraíso, repleto de flores e árvores frondosas, voltada para o lago imponente onde se podiam ver pequenos barcos de pesca com velas brancas ao vento. O guia afirmava também que sendo uma cidade de fronteira estava cheia de vida, de comércio, de gentes de várias origens que se cruzavam num reboliço quase cosmopolita. Helena relia aquelas frases tranquilizadoras e revia as fotografias do lago que lhe anunciavam meses de tranquilidade e uma nova vida depois de mais de um ano a trabalhar num campo de refugiados junto à fronteira da Somália, em terra de ninguém, onde reinava o pó, a paisagem desoladora e a frustração de não ver o fim daquela guerra estranha.

Depois de quase sete horas de viagem, desde Nairobi, num autocarro bafiento e aos solavancos, ela chega finalmente à cidade. Era quase noite e o céu escuro prometia chuva e tempestade. O calor, húmido, fazia-a sentir-se ainda mais cansada e suja, com o pó da estrada colado à pele suada e pegajosa.

Estavam duas pessoas à espera dela. Não se conheciam mas era fácil identificar Helena, a única branca a sair do autocarro. Eram futuros colegas e trabalhariam no mesmo projecto. Também viviam todos na mesma casa, um pouco afastada da cidade, em frente ao lago.

Ao atravessarem a cidade ela pode ver, assustada, a mescla de carros, carrinhas, bicicletas, motorizadas, autocarros que se atropelavam mutuamente e buzinavam sem parar e na berma ia notando os vendedores de rua que iluminados apenas por uma lamparina de querosene pareciam surgir do nada como se fossem almas do outro mundo.

Os colegas falavam sem parar, do projecto, da casa, da viagem dela e iam dando informações precisas sobre os locais por que passavam. “Aqui é o mercado.””Olha, aquilo é peixe do lago, frito.””Aquele edifício é um centro comercial onde há um supermercado aberto 24h.””Esta é a zona mais rica da cidade.””Ali é o lago.” Helena tentava participar na conversa mas os olhos dela estavam voltados para a cidade que se ia revelando  pela janela do carro. Quando entraram na picada que os levava até casa, por entre solavancos violentos, um relâmpago atravessou o céu e rompeu a noite deixando ver as casas de barro, as cabras e as vacas deitadas na estrada, os quiosques de lata e o lixo espalhado pela berma. Depois, um estrondo assustador. Começou a chover e em segundos a estrada mais parecia um rio de lama escorregadia que fazia resvalar o carro a cada movimento. Do lado direito os relâmpagos sucediam-se como fogo de artifício. Do lado esquerdo, Helena podia ver agora as estrelas. Lá estava o Cruzeiro do Sul, Saturno bem visível e o início da Via Láctea. Em terra, no meio daquela disparidade celestial, o carro aproximava-se de casa. Mesmo durante os poucos segundos de total escuridão que intercalavam os sucessivos relâmpagos, as paredes da casa, brancas, imitiam uma luz própria que a tornava visível e etérea.

Os dias foram-se sucedendo, Helena foi descobrindo a cidade e foi-se adaptando ao calor húmido. Começou a trabalhar também. A explosão de cores da natureza, de flores e de verde que o guia turístico prometera, estavam lá, lado a lado com os bairros de lata, o centro da cidade barulhento, decadente e poluído, as estradas em terra batida e o pó, os miúdos de ninguém, ou de toda a gente, esfarrapados e sujos a deambular pelas ruas, o lago sujo, cinzento. As contradições eram constantes, mas ela estava habituada e também a estas se ia habituando e afeiçoando. O maior problema eram as noites. Não conseguia dormir. Para além das dezenas de mosquitos que teimavam em zumbir à volta da cama, protegida pela rede, dos gritos dos morcegos que faziam raides nocturnos e viviam nos beirais do telhado, mesmo por cima das janelas do quarto e do zumbido ensurdecedor dos insectos que vivem no pântano em frente, havia aqueles gritos constantes, ritmados, ao longe, que a acordavam a meio da noite. Tinham-lhe dito que era um funeral, que era mesmo assim, que duravam muitos dias e que ela se ia habituar aos barulhos da noite, com o tempo.

Uma vez, Helena acordou com uma luz quente, amarela a bater-lhe no rosto. Olhou em volta, ensonada e percebeu que o Sol ainda não nascera. Eram 4h da manhã e aquela luz insistia em bater-lhe no rosto mal deitava a cabeça na almofada. Levantou-se e aproximou-se da janela. No lago, em frente, a lua cheia descia no horizonte como uma bola de fogo reflectindo na água aquela luz quente, solar. Helena pegou na máquina fotográfica, apontou a objectiva para o lago e disparou. A seguir viu uma luz brilhante na sua direcção, como se alguém na água a estivesse a fotografar de volta. Esfregou os olhos e depois tirou mais uma fotografia. Quando voltou a olhar para o lago, a luz brilhante atingiu-a, outra vez. Sentiu um arrepio e correu para a cama, para a protecção da rede. Ao longe começou a ouvir gritos e cânticos.

De manhã, pouco depois de ter finalmente adormecido, foi acordada por um barulho estranho. Estava tão cansada que mal conseguia abrir os olhos mas ouvia claramente um bater de asas irregular, inquieto e finalmente viu-o… um pássaro preto e branco, delicado, que voava de janela em janela à procura de saída. Helena, olhou com estranheza as janelas fechadas e para a entrada do quarto, sem porta mas com um biombo e um cortinado bem alinhados e depois levantou-se para abrir uma janela e deixar o pássaro sair. Ficou a olhar para a paisagem bucólica lá fora por alguns momentos e abanou a cabeça, com força, quando se lembrou dos eventos estranhos da noite, como se tudo não passasse de uma partida da imaginação.

O cansaço originado pelas insónias constantes, pelo calor e pela adaptação a tantas coisas novas aumentava. Ela tentava dormitar sempre que podia, mas as noites já eram aguardadas com ansiedade. Cada ruído, uma tortura, cada cântico uma inquietação na alma. Era outro funeral, diziam os amigos, o terceiro em menos de um mês e riam do seu ar assustado e incrédulo. Um deles tentou brincar com a situação e disse-lhe que estavam rodeados de morte e que até áquela data nunca tinham visto nenhum fantasma. Explicaram-lhe que morriam muitas crianças pouco  depois de nascer, muitas mães a seguir ao parto, muitas pessoas com SIDA, outros às mãos dos vizinhos e familiares. A negligência, a falta de recursos, a histeria colectiva e a cultura de violência iam espalhando a mortandade e como cada funeral durava dias e incluía muita cantoria, muito álcool, muito sexo, por vezes, era tudo normal. A morte anunciava-se na noite através dos gritos e cantorias dos funerais, que quando eram simultâneos competiam entre si  e ela só tinha de se habituar. O mesmo colega que brincara com ela disse-lhe que nem aquela casa magnífica, que parecia ali tão deslocada escapara à fatalidade da morte. Tudo acontecera no quarto que agora era dela, há uns dez anos. A casa fora construída por um dinamarquês  que casara com uma mulher local, para ser o lar do casal. Alguns anos depois eles separaram-se, o homem voltou à Dinamarca, a mulher ficou com a casa. Ela teve outros homens, outros amores mais ou menos sérios. Um dia resolveu  partir para a Dinamarca para tentar encontrar melhores oportunidades de trabalho, uma vez que pelo casamento tinha obtido cidadania daquele país. Na noite em que fez a festa de despedida, juntando na casa dezenas de amigos e familiares apareceu um antigo namorado que nunca deixara de a perseguir. Pediu-lhe para conversar, que queria dizer-lhe algo importante e despedir-se em privado. Subiram para o quarto. Ele espancou-a com toda a brutalidade até à morte. Em baixo a música alta e a excitação da festa impediram os convidados de ouvir o que se passava. Helena estava lívida no fim da história e sentia arrepios só de pensar em voltar a dormir naquele quarto. Todos se riam e brincavam com ela.

Tornou-se cada vez mais difícil dormir. Os ruídos pareciam-lhe cada vez mais agressivos, os cânticos ensurdecedores. Toda ela tremia sempre que ouvia os cânticos e começou a tentar dormir com a luz acesa.

Uma noite a casa ficou sem electricidade e lá fora ela podia ver os relâmpagos que caiam no lago. Tentou acalmar-se. Não podia entrar em pânico por algo tão absurdo. Então viu uma luz branca passar rapidamente pela janela. Enterrou-se na cama agarrada à almofada. A luz passou rapidamente pela outra janela. Os cães uivavam e o frenesim dos cânticos funerários aumentava. Helena levantou-se de um salto, encheu-se de coragem e foi à janela tentar perceber o que se passava no momento em que um relâmpago fortíssimo atingiu o lago mesmo em frente à casa, iluminando tudo à sua volta. A chuva rompeu o céu e caía com violência e o mundo parecia que ia acabar. Helena, saltou para trás, assustada. Procurou freneticamente velas que ela sabia que estavam no quarto e não as encontrou. Entretanto, ouviu o barulho de uma porta metálica a bater. Gritou e em pânico correu pelas escadas abaixo e saiu para a chuva quando viu a porta da entrada aberta. Viu uma luz branca surgir do lado direito da casa e sem pensar correu para o lado oposto. Os cães corriam atrás dela e uivavam, a chuva e os relâmpagos intensificavam-se e Helena chorava descontrolada e corria sem saber para onde até que bateu com a cabeça no tronco mais baixo de uma das árvores das traseiras e caiu, sem sentidos em cima de um monte de terra.

Na semana seguinte e depois de passar alguns dias no hospital, Helena voltou à Europa num estado de grande debilidade física e mental. Os colegas que partilhavam a casa com ela ficaram confusos com os acontecimentos. Acontecia por vezes, a quem trabalhava nestes contextos, sofrer de depressões, ataques de pânico e stress mas tudo aquilo lhes parecia tão extremo. Vieram outros colegas substituir a Helena e a seguir outros e com o tempo a história dela caiu  no esquecimento.

Só os habitantes locais continuam a ter medo da casa. Ninguém se aproxima dela. Acreditam que está assombrada pela alma da mulher assassinada no quarto do segundo andar. Vários pescadores testemunharam coisas estranhíssimas. Um deles, contava-se muitas vezes, quase morreu de susto quando uma noite, enqanto pescava com a ajuda da candeia, viu uma luz brilhante apontada a ele por duas vezes no quarto de cima. Outro, conta-se que viu mesmo a falecida à janela numa noite de tempestade. E um antigo guarda da casa conta como numa noite de tempestade, sem luz, e enquanto fazia a ronda com ajuda de uma lanterna, deu com a porta aberta e uma das raparigas da casa desmaiada em cima da sepultura da antiga dona da casa,assassinada, nas traseiras. Só podia ter sido obra do Diabo. A Casa Branca estava irremediavelmente assombrada.