SARAMAGO E O PORTUGAL DOS PEQUENINOS

A morte do Saramago deixou-me perplexa. Não pelo acontecimento em si, que a Morte é o passo seguinte para todos nós, mas pela pequenez e mesquinhez que ela suscitou em tanta gente. É nestas alturas que se percebe que Portugal é mesmo um país pobre. Fiquei triste. A viver no outro lado do mundo e cheia de sentimentos contraditórios em relação a esta vivência tenho desenvolvido uma imagem idílica de Portugal, consciente de que é mentira, mas ainda assim reconfortante. Ontem acordei do sonho e lembrei-me porque é que não gosto de viver em Portugal e porque é que tantas vezes tenho vergonha de ser Portuguesa. É esta constante maldicencia, a inveja de quem tem sucesso e se destaca, o boicote a quem foge do rebanho, é uma pequenez colectiva contagiosa e destrutiva.

Acho que a maior parte dos Portugueses não gosta de pessoas reais. Essas têm defeitos e qualidades, dons e falhas, têm dias bons e maus, agem bem e mal, são contraditórias. É como se fosse inconcevível que alguém, igualzinho a nós, seja melhor do que nós em alguma coisa, ou que por qualquer motivo se detaque onde a maioria não consegue deixar de ser anónimo. Então é preciso idealizar os heróis como seres perfeitos, legitimando assim a nossa incapacidade de chegar onde eles chegaram.Muitas pessoas transmitem mesmo mensagens de ódio, porque Saramago era Comunista, porque era Ateu, porque “renegou” a Pátria, porque não gostam do que ele escreveu, da forma como escreveu, e portanto é apenas um tipo comum, ignóbil e deve ser tão insignificante como todos nós. Que pequenez. Que disparate.

Ultimamente, durante o meu momento onírico em relação a Portugal, digo a muita gente que o meu país é um país de Poetas e de Literatura e digo-o ciente de que não gosto de todos os autores, nem de todas as obras, mas orgulhosa do facto de termos uma tradição literária ancestral e consistente e Saramago faz, concerteza, parte dela. A quantidade de obras traduzidas e o reconhecimento internacional ao seu trabalho fazem muito mais pela língua Portuguesa e pela cultura Portuguesa, em Portugal e no mundo, do que o Ministério da Cultura, o Instituto Camões e o IPAD todos juntos. Temos mais autores que mereciam um Nobel e o mesmo reconhecimento? Temos. Temos vários até e para todos os gostos e isso devia ser motivo de orgulho e não de crítica. E também tenho dito muitas vezes que o meu país é livre e com orgulho, que lá somos livres de dizer o que pensamos, de ter opiniões diferentes e de defender os nossos ideais. Pelos vistos muitos Portugueses só querem liberdade de expressão para quem se expressa pela mesma bitola e o Saramago era a antítese disso. Sem concordar com tudo o que ele dizia, admirava-o profundamente por isso. Dizia o que pensava, sem concessões.

O homem que era Saramago morreu e sem dramatismos, não acho que Portugal ou o mundo tenham “perdido” nada, pois fechou-se apenas um ciclo de vida. Mas o escritor que era Saramago vai viver e Portugal e o mundo “ganharam” literatura e a pátria que é a língua Portuguesa ficou mais rica.

Com a obra do Saramago tenho uma relação de amor-ódio. Alguns livros acho intragáveis e outros absolutamente brilhantes. Lembro-me que o primeiro que li foi “A Jangada de Pedra” e perdi-me naquela deriva Ibérica pelo mundo. “A História do Cerco de Lisboa” deu-me a conhecer outro Portugal e outro mundo e o “Evangelho Segundo Jesus Cristo” emocionou-me e fez-me pensar. “O Ensaio sobre a Cegueira” é de todos o meu preferido, uma das minhas obras-primas literárias. É um livro duríssimo que me abriu o olhos para a fragilidade da civilização e do ser humano. Com todos eles, Saramago emocionou-me, fez-me viajar e sonhar e aprender em Português. O homem, polémico, humano morreu. A obra dele, igualmente polémica mas viva em livros que chegam a todo o mundo, ficará. É difícil ser Grande no Portugal dos Pequeninos e só alguns conquistam o direito à eternidade. Saramago foi um deles. Bem haja!

Banqueiro dos Pobres – A história do Grameen Bank

A expectativa relativamente a este livro era enorme. O microcrédito é uma realidade incontornável para quem trabalha na área do Desenvolvimento, uma inovação com resultados comprovados, que veio para ficar e tinha, portanto, bastante curiosidade em conhecer melhor o homem por trás da ideia e o processo de crescimento do Grameen Bank.

É sem dúvida, um livro inspirador, daqueles que nos fazem acreditar que é possível mudar um bocadinho o mundo. É uma história impressionante de experiências, erros e sucessos. É um testemunho apaixonado sobre a visão de Muhamad Yunus relativamente ao mundo que o rodeia, aos problemas dos nossos tempos e sobre a melhor forma de os resolver.

E eu dei por mim, apesar de tudo, com vontade de morder nas canelas do Sr. Yunus, que é como quem diz de lhe dizer muitas vezes “Olhe que não…”. “Sossega, olha que o homem ganhou um prémio Nobel e tudo, deve perceber mais disto que tu” era uma frase que ecoava permanentemente na minha cabeça… sem grande sucesso no apaziguamento da minha inquietação.

Deixem-me esclarecer uma coisa, eu sei que o microcrédito é uma ferramenta poderosíssima na luta contra a pobreza e que o Grameen Bank e o seu fundador são exemplos fantásticos de preserverança, criatividade e sucesso. O problema é que não acho que esta seja uma panaceia para a pobreza e a solução para todos os problemas de má governação e exclusão social.

Ao ler esta biografia quase que acreditamos que o Sr. Yunus é um sujeito tão vulgar como o nosso vizinho do lado e que só porque teve uma boa ideia e trabalhou árduamente conseguiu alcançar todos os seus sonhos. É assim que ele se vê a si próprio e é assim que o vemos se nos deixarmos levar pelo discurso apaixonado. Mas não é verdade. Ele é um cidadão privilegiado de um dos países mais pobres do mundo, que teve oportunidade de estudar no estrangeiro, de se rodear de pessoas influentes e de pertencer à élite e esse facto foi crucial em várias fases da vida do Grameen Bank. Fosse ele um comum cidadão anónimo (sem conhecer pessoas influentes no governo do Bangladesh, no Banco Mundial, nas Nações Unidas, em grandes ONGDs) e duvido muito que a história fosse a mesma.

Concordo totalmente com ele quando crítica a “indústria” do desenvolvimento e a forma como a ajuda é canalizada e mal usada. Quando ele afirma que instituições como o Banco Mundial seriam muito mais eficazes se tivessem sedes em países como o Bangladesh,  em vez de Washington, se estivessem próximos da pobreza que querem combater e se poupassem recursos necessários para os mais pobres reduzindo o peso da “máquina” do desenvolvimento e os privilégios dos que lá trabalham, tem o meu total apoio.

Mas quando compara os pobres do Bangladesh com o pobres do Ocidente criticando sobretudo na Europa, aquilo que ele considera um obsoleto sistema de protecção social que impede os pobres de sair da pobreza, que os marginaliza e destitui de auto-confiança e meios para serem auto-suficientes, cai numa generalização infeliz e desconhecedora da realidade. Quando coloca no mesmo patamar a influência nefasta do ultra-liberalismo económico e aquilo a que chama a “caridade” Europeia, afirmando que a competição é muito mais eficaz para promover o desenvolvimento (desde que “socialmente responsável” mas sem controlo estatal) do que a caridade, pois os pobres sabem muito bem como sair da pobreza, por si próprios, se tiverem acesso a algum dinheiro, eu pergunto-me se estamos a viver no mesmo mundo.

Em primeiro lugar os Sistemas de Segurança Social não são todos iguais e não podem ser todos metidos no mesmo saco. Mas mesmo generalizando e mesmo com todas as limitações e incongruências que reconhecemos no sistema, não é um sistema baseado na caridade, mas sim na solidariedade e na cooperação. É muito imperfeito, precisa de supervisão, precisa de políticas mais eficazes mas baseia-se no princípio da solidariedade em que quem tem mais deve contribuir para ajudar quem tem menos e em que o Estado deve providenciar serviços básicos a todos os cidadãos. Eu sei que é um conceito Europeu, entranhado na nossa genética histórica, mas o facto de ele o criticar tanto fez-me pensar a sério no assunto. É uma opção política, sem dúvida. Eu prefiro viver num Estado solidário do que num Estado meramente competitivo mas percebo o ponto de vista dele relativamente ao poder da competição, o que não posso é ficar indiferente quando ele chama caridade à solidariedade e quando faz afirmações categóricas sobre a forma como os “nossos” pobres, a viver de pensões e subsídios são subjugados e castrados pelo sistema. Não consigo deixar de ser cínica e de pensar que adorava ver a cara do Sr. Yunus perante a criatividade e empreendedorismo de tantos Portugueses que dominam de tal forma o sistema que fazem dele um modo de vida, que se aproveitam das falhas enormes que existem para manipular a seu favor os recursos que devem ser usados com maior justiça e critério. Não estamos a falar da Srª X do Bangladesh que depois de um microcrédito ganhou auto-confiança, ganhou um pouco mais de dinheiro e agora pode comer 3 refeições por dia (o que é excelente, sem dúvida). Estamos a falar de pobres, que apesar de todas as falhas do nosso sistema educativo foram à escola, que apesar de todas as falhas do nosso sistema de saúde têm uma muito maior esperança de vida e que apesar de todos os problemas podem ter acesso a incentivos para criar empresas, pequenos negócios ou viverem de biscates prestando serviços necessários, muitas vezes muito bem pagos.

Também não posso concordar com o Sr. Yunus quando afirma que todos os pobres sabem como sair da pobreza desde que tenham dinheiro. Continuamos a falar de realidades a universos de distância. Para ele sair da pobreza é poder comer 3 vezes ao dia e morrer depois dos 50 anos e para isso basta se calhar escapar a um intermediário para ter um pouco mais de lucro na fiação de tecido, ou comprar uma bicicleta para ir vender directamente ao mercado. Quando ele tenta passar esta ideia de um quase empreendedorismo natural por parte de todos os pobres, eu gostava que ele viesse aqui, ao Quénia (sim, porque ao Bangladesh eu nunca fui e portanto concluo que por lá as coisas possam ser diferentes) e perguntasse aos pobres quais são os seus sonhos (como diria uma querida amiga a trabalhar nos bairros de lata de Nairobi, “se for vendedor de tomates, quer vender um bocadinho mais de tomates, nem sequer quer ter uma loja, uma banca mais bem localizada ou revender tomates para outros vendedores”) para perceber que as pessoas quase não sonham, que a inércia e o “follow the leader” são o pão deles de cada dia e que ter acesso a microcrédito, por si só não resolve nada.

Fiquei decepcionada. Reconheço obviamente a importância do micro-crédito e o mérito do Grameen Bank na sua criação e difusão mas esta ideia de que o Sr. Yunus se vangloria de não ser nem de Esquerda, porque acredita que o Estado deve interferir o menos possível na vida colectiva e que é a competição no mercado que permite ultrapassar a pobreza, nem de Direita, porque acha que o ultra-liberalismo actual é cruel e explora os mais pobres perpetuando a pobreza, deixa-me desconcertada. A crença dele no mercado regido por princípios de solidariedade social é interessante mas a sociedade à imagem do Grameen Bank é uma utopia (privado, lucrativo mas a ajudar os pobres) se não houver regulamentação e uma sociedade civil forte e participativa.

Recomendo vivamente a leitura do livro. Dá que pensar. Faz-nos sair das nossas zonas de conforto e provoca-nos inquietação. É bom! Is Food for Thought.

Bay of Tigers

“Today I have a new book you will love to read. It’s the ‘Bay of Tigers'” e eu sorri. Tentarem vender-me a “Baía dos Tigres” em Nairobi tantos anos depois de o ler pela primeira vez foi, no mínimo, insólito.

Em 1997 eu ainda não tinha posto os pés em África, nem em lado nenhum para além da Península Ibérica, e o rastilho que daria origem uns anos depois ao meu Big Bang ainda mal se tinha acendido, mas nesse ano, antes de o meu universo começar a expandir-se, o Pedro Rosa Mendes, jornalista do Público, partiu para uma viagem extraordinária, durante meses, por terra, de Angola a Moçambique. A “Baía dos Tigres” é o relato dessa viagem. Só que a viagem não foi um safari idílico ao interior do continente africano, foi uma espécie de descida ao Inferno, através da guerra civil em Angola e de um continente marcado por conflitos, miséria e violência. É um livro duro de ler mas extraordinário.

Lembrei-me muitas vezes dele quando em 2005 fui pela primeira vez a Angola e tal como ele (apesar de a guerra já ter acabado), não conseguia ver para além da destruição, dos edifícios e casas do Huambo cobertos de buracos de balas, dos tanques abandonados na berma da estrada, das carcaças de carros incendiados, dos painéis gigantes com centenas de fotos de crianças desaparecidas. Uma África bem diferente da dos relatos dos exploradores clássicos em busca do exótico e como o autor refere ” There is no scenery, no villages, no people around fires, or elephants silhouetted against the sky. I could speak of such things, I was hoping to, but it would be a lie.”

Foi difícil para mim ultrapassar estas imagens e encontrar beleza humana e natural em Angola, que é um país fantástico e reli a Baía dos Tigres outra vez quando voltei, dessa vez com uma sensação de intimidade, porque era capaz de reconhecer os lugares, as situações, alguns personagens. E o livro ficou sempre associado a esta minha experiência dura e riquíssima dos primeiros anos do meu Big Bang.

Foi por isso estranho ir a Nairobi e recomendarem-me o livro. Deixem-me só explicar uma coisa: em Nairobi há uma boa livraria, não, em Nairobi há uma excelente livraria, daquelas onde os livreiros não são vendedores de livros mas apaixonados por livros e onde se criam laços e empatias com os clientes. Eu desgraço-me de cada vez que lá vou. Adoro passar às vezes horas a conversar com um dos donos e ouvi-lo falar dos clássicos africanos, dos últimos lançamentos, das coisas que ele anda a ler. Por incrível que pareça, nestas intimidades literárias a nacionalidade das pessoas não tem importância nenhuma e o senhor apesar de me conhecer bem e de saber já que tipo de livros me interessam, me emocionam ou me aborrecem, não sabia que eu era Portuguesa e falava-me da Baía dos Tigres e do autor como se tivesse descoberto uma pérola num lugar exótico e distante. Quase, quase que comprei a edição em inglês para ver a tradução, mas resisti e fiquei-me por uma bela conversa com direito a capuccino, sobre Angola e Portugal e as armadilhas da História e as histórias da vida.

BY THE SEA

Eis um livro raro, daqueles que nos seduzem e nos fazem sentir infelizes quando lemos a última página porque a magia terminou.

O narrador desta história é Saleh Omar, um exilado político improvável da longínqua Zanzibar, que tem por bagagem uma preciosa caixa de mogno com incenso. “I am a refugee, an asylum seeker. These are not simple words, even if habit of hearing them makes them seem so. I arrived at Gatwick airport in the late afternoon of 23 November last year. It is a familiar minor climax in our stories, leaving what we know and arriving in strange places, carrying little bits of jumbled luggage suppressing secret and garbled ambitions.”

Não se trata de um jovem, perseguido por motivos políticos ou outros, mas de um idoso, no fim da vida que atravessa o mundo em busca de paz e redenção. Ao contar-nos a sua história, abre-nos a porta e convida-nos a entrar num mundo que em muitos aspectos já não existe, a Zanzibar do início do século XX, do grande mercado das especiarias, das histórias coloniais.

O mar, que vê ao longe, através da janela da casa onde mora, numa pequena localidade costeira inglesa é praticamente o único elo de ligação entre duas vidas, a  actual no exílio e a outra, em Zanzibar, onde o azul e o cheiro do mar contaminavam um quotidiano feito de outros rituais, de outros ritmos e de outras cores. O Mar e um outro homem, Latif Mahmud, alguém intimamente ligado ao seu passado. E através do encontro entre estes dois homens renascem emoções adormecidas de amor, traição, ódio com origem numa ilha distante ao largo do Índico, noutro mundo, noutro tempo.

O autor deste romance, Abdurazak Gurnah, é também ele um filho de Zanzibar, onde nasceu em 1948, antes de ir estudar para Inglaterra, em 68, onde é actualmente professor de Literatura, na Universidade de Kent. Alguém disse um dia (supostamente alguem famoso, cujo nome não me recordo) que um escritor deveria escrever sempre sobre coisas que conhece. Gurnah fá-lo sem dúvida e com uma mestria e elegância absolutamente sedutoras.

Excerto

“She was nineteen, and I was thirty-two, not as big a difference in age as it might sound to some ears now. She had spent five or six of those years in the dark, proving and ripening until a man came to ask for her. She had never been anywhere, hardly ever read and did not even listen to the radio. Her days in those years were the work and pleasures of the house, and decorating and preening herself to receive and visit other women in similar restraint to herself. While I travelled, acquired a little, very little, learning, worked for the British and thereby understood something of the workings of our irredeemable world, set up a prosperous business and owned two houses. We had ardly spoken, had never been alone together before our wedding, I had not even seen her standing without the black shroud around her. Yet we were fortunate and had few difficulties in the beginning of our life together. She loved the house as I did, and loved for us to sit in the upstairs room, the outer veranda door open to the sea a few feet away, and the other door open to the balcony over the inner courtyard, listening to the radio or playing cards. There we spoke and told each other things we had never said before. And I new then what a desert my life had been before that, and learnt the sweetness of silence between companions.”