DA REVOLUÇÃO DOS “ESCRAVOS” À GERAÇÃO À RASCA

Cheguei há alguns dias de Moçambique, onde durante uma conversa me perguntaram como era Portugal antes da Revolução dos “Escravos”. A minha primeira reacção foi uma gargalhada interior, mas depois, pensando melhor, entre a semelhança fonética e a realidade da época, o termo nem é assim tão disparatado. Na verdade estávamos escravizados por um sistema ditatorial que mantinha Portugal subdesenvolvido, onde uma esmagadora percentagem da população era analfabeta e a outra parte ficava-se pela quarta classe ou pouco mais, onde o saneamento básico e a electricidade eram luxos de algumas zonas urbanas num país maioritariamente rural, onde a mobilidade social não existia e a mobilidade física também não, onde as mulheres eram privadas do direito de voto e de autonomia, onde do mundo além fronteiras se tinha uma visão fosca e manipulada e onde havia fome e descamisados. Era um país cinzento e tacanho onde a maioria do povo, o “Pé Descalço” como lhe chamavam, encontrava conforto e alegria na fé: na crença de termos um império além mar e por isso sermos ricos e superiores, na crença da santa estabilidade que nos manteve à margem da guerra e das convulsões sociais da maior parte do século XX, na crença de hipotecarmos uma geração a uma inevitável guerra colonial porque tínhamos de defender o que era nosso e o mundo inteiro estava contra nós e na fé em Deus e na Igreja que nos prometia o reino dos céus se sofrêssemos muito e fossemos muito pobrezinhos e que nos encorajava a fiscalizar os valores e as vidas uns dos outros que não podiam fugir da mesma bitola. Mas sempre houve quem não se acomodasse e quisesse mais, quem não tivesse tanta certeza assim na recompensa celestial e preferisse garantir uma vida melhor antes de morrer, quem não temesse o mundo para além das fronteiras e da ordem estabelecida. Esses foram embora. Esses existem em todas as famílias Portuguesas, os que foram para África, para o Brasil… para qualquer lado onde pudessem viver melhor.

Faz-me portanto, muita confusão, ler e ouvir algumas opiniões de reacção ao protesto da Geração à Rasca, que fazem a apologia do Portugal de outrora como se se tratasse de um paraíso perdido, culpando esta mesma geração pelo actual estado de coisas. E faz-me igualmente muita confusão recorrer-se constantemente ao número de pessoas que saem do país, como indicador de um estado de degradação irreversível da nação, como se fosse um fenómeno novo.

No primeiro caso, trata-se de pura utopia, explicada pelo mesmo fenómeno que faz com que cada geração apregoe que na sua juventude é que se vivia bem. Convenhamos que nos falta uma grande dose de realismo. No segundo caso, trata-se de falta de reflexão e gestão de expectativas. Cinco milhões de Portugueses vivem fora de Portugal, muitos de segunda e terceira geração, um terço da população, portanto. Somos um país de emigrantes, de gente que se faz à vida e que faz pela vida. Só que hoje em dia não é só, nem sobretudo, o Pé Descalço, que vai embora, são cidadãos qualificados em cuja educação o Estado investiu e em cujo futuro as famílias depositaram inúmeras expectativas. Esperava-se que o país os integrasse no mercado de trabalho e os aproveitasse para se desenvolver. Não é isso que acontece. Espera-se que o Estado tudo providencie, sobretudo para quem cresceu na época em que a educação se generalizou e democratizou ao mesmo tempo que o processo de integração na UE injectou milhões de euros num país que não os soube usar para se modernizar e desenvolver. De repente, as torneiras fecharam-se, a economia internacional entrou em colapso, os nossos políticos tentam tapar buracos em vez de fazerem obras estruturais, tentam extorquir aos mais fracos sem retirar privilégios a quem verdadeiramente os tem e tentam pôr uns nos outros a culpa de uma situação em que todos são responsáveis, porque são o resultado de 30 anos de má governação. E no meio disto tudo muitos Portugueses continuam a querer uma vida fácil, cheia de fé no Estado providência como se fosse coisa abstracta e eterna, a sonhar com o emprego das 9h às 5h, com meia hora de tolerância à chegada, 6 pausas para fumar e outras tantas para tomar café, um ordenado respeitável ao fim do mês e responsabilidade zero. Os que saem do país, são na maioria das vezes bem sucedidos, não só porque encontram melhores condições de trabalho, mas também porque aprendem a ser mais flexíveis, a valorizar todas as experiências que têm e a capitalizá-las no mercado laboral e aprendem lições básicas de profissionalismo e ética que os tornam melhores e mais competitivos.

O problema não é o nosso mercado de trabalho ter-se alargado ao espaço europeu, isso só nos traz vantagens e mais opções. O problema é Portugal, apesar de tudo, continuar cinzento e tacanho. O problema é quem cá está não fazer pela vida: nem os políticos pela vida colectiva, nem os indivíduos muitas vezes pela sua própria vida. É termos inveja do sucesso dos outros e ainda acharmos que só tem dinheiro quem rouba e que só alcança os sonhos quem tem cunhas. É termos medo de perder coisas que não temos como estabilidade e segurança e ficarmos paralisados ou rebaixarmo-nos a condições de trabalho insultuosas arrastando todo o mercado de trabalho para o paradigma do “quem aceita menos dinheiro para trabalhar?”. O problema é acharmos sempre que a responsabilidade é dos outros, que cidadania é ter bilhete de identidade, que liberdade é insultar políticos em conversas de café e que democracia é pôr uma cruz num papel.

Alegra-me, portanto, que na génese do Protesto da Geração à Rasca esteja um grupo de cidadãos independente e apartidário que quer mostrar descontentamento, participar e questionar toda a sociedade sobre o actual estado de coisas numa tentativa de se repensar colectivamente que tipo de país queremos ter e o que pode cada um de nós fazer para o mudar. Desde a Revolução dos “Escravos” até esta Geração à Rasca, muita coisa mudou e eu acredito que Portugal é inquestionavelmente melhor, mas há muito mais para mudar, sobretudo nas nossas cabeças, nas nossas mentalidades e instituições e a responsabilidade é de todos, sem excepção.

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