Párem lá de ajudar os pobrezinhos…

Era uma vez uma escola rural num país pobre. Muitas das crianças iam para a escola sem comer e a vida em geral era muito difícil. Um dia o governo fez um acordo com uma organização humanitária americana para que esta doasse a farinha necessária para se fazer papas de milho. A comunidade foi mobilizada para que as mães rotativamente cozinhem na escola e sirvam a refeição ao final da manhã. O Governo está feliz porque tem mais crianças na escola e está mais perto de cumprir mais um ODM, as crianças estão felizes porque podem comer pelo menos uma refeição por dia e os pais estão felizes pela mesma razão.

Esta cena de vir às lágrimas acontece numa região onde praticamente só se produz milho e arroz. Só que quando a colheita é boa o milho excedente não se vende porque a aldeia está cheia de milho gratuito daquela generosa organização, ou então as pessoas não conseguem fazer farinha por não terem dinheiro para pagar a moagem pois não conseguem obter nenhuma forma de rendimento. Quando a colheita é má e as coisas pioram ainda mais, as pessoas ficam sem forma de comprar sementes para voltar a plantar os campos. Felizmente, podem contar sempre com os senhores Macgovern e Dole, os dois magnatas do sector agrícola, antigos senadores americanos, que criaram a organização que envia a farinha de milho para a comunidade.

Esta foi a história com que me deparei hoje de manhã numa comunidade pobre eternamente agradecida aos senhores americanos que lucram e perpetuam a pobreza deles. Quando vi os sacos de milho “USAID – not for sale” empilhados na escola fiquei doente e em conversa com várias pessoas cheguei a pensar que lhes ia provocar um curto circuito cerebral por questionar aquela doação e argumentar que eram apenas vantajosas para os agricultores americanos. Estou um bocado cansada de assistir vezes sem conta às mesmas histórias de terror disfarçadas de contos de fadas. Só me apetecem dizer: “Acordem, meus amigos!”