O QUÉNIA NO SEU MELHOR

Neste país ninguém cumpre horários, de tal maneira, que o mais atrasado dos tugas se sentiria rigoroso como um britânico, por comparação.
Agora, o que ninguém espera é ser castigado por chegar cedo. É o exercício de poder dos tristes.
Tinham ficado de dar uns documentos a uma amiga minha às 11h da manhã, mas ela passou pelo serviço mais cedo, por volta das 10h e resolveu ir ver se estavam prontos, para não ter voltar lá.
Má ideia! Muito má ideia.
A recepcionista, olhou para ela com cara de má e disse-lhe:
– Você veio uma hora mais cedo! Isso é uma grande falta de educação!
– Mas os documentos já estão prontos? – pergunta a minha amiga.
– Já, mas para não voltar a ser tão mal educada não lhos dou. E em vez das 11h, agora só lhos entrego ao meio dia!

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INSÓLITOS DO QUOTIDIANO

Não é à toa que eu estou sempre a dizer que vivo em permanente estado de choque cultural. Sabem que, por exemplo, se precisarmos aqui da Polícia além de termos de pagar uma generosa contribuição ao guarda de serviço temos também de pagar a gasolina do carro? Imagino que o subsídio de gasolina de cada esquadra seja destinado ao depósito do carro de luxo do chefe. E o suborno policial, não é suborno nenhum, porque é tão descarado que toda a gente o vê como uma espécie de complemento de ordenado. Mas agora imaginem o pobre do mzungu com a casa assaltada, a chamar a polícia, e do outro lado a dizerem-lhe:
-Mas sabe? Primeiro tem de vir aqui à esquadra, pagar a gasolina do carro patrulha e dar uma “ajudinha” aos guardas de serviço.
E é tal e qual, senão pior, como no caso em que um amigo meu foi à polícia denunciar um assalto à mão armada em que o ladrão ia disparar contra ele mas a bala caiu antes do disparo e o polícia lhe diz:
– Eu nem vou registar essa ocorrência, que disparate. É óbvio que não eram profissionais, porque se fossem não tinham falhado o tiro.
Eu fiquei só a pensar, mas então quem raio é que denuncia os ladrões profissionais?
Mas há mais e melhor! Se precisarem de uma ambulância no Quénia, esqueçam, encomendem a alma a quem entenderem, se for coisa grave ou chamem um amigo automobilizado, se puderem.
Para a ambulância sair do parque do hospital, também é suposto ir lá alguém para pagar a gasolina e o complemento de ordenado dos paramédicos.
Basicamente, todos os serviços de protecção civil requerem pagamento de combustível e complementos de ordenado, o que tendo em conta a qualidade dos profissionais e das viaturas e a quase ausência de equipamento equivale a pagar para o boneco.
O meu conselho é andar sempre com uma mala de primeiros socorros, ter à mão uns quantos números de telefone de gente automobilizada pronta a ajudar e frequentar umas aulas de defesa pessoal para bater nos senhores maus que nos querem roubar mas que não são suficientemente profissionais para nos matar.

ERA UMA VEZ UMA GALINHA…

Ontem ofereceram-nos uma galinha. Uma senhora galinha, daquelas com penas, voz irritante e muita vida. Não estávamos a contar e a Jenny ficou excitadíssima porque aprendeu recentemente a matar galinhas e tinha pela frente mais uma oportunidade para praticar. Atiramos com a galinha para as traseiras do jipe e pelo caminho, por entre cacarejos nervosos de quem sabe que vai quinar brevemente e penas a esvoaçar íamo-nos rindo com os pormenores macabros e a descrição que ela fazia da nobre arte de matar galinhas.

Quando chegamos à parte da estrada que continua em picada cheia de buracos e solavancos, achamos estranho deixar de ouvir a bicha, mas continuamos a brincar com a ideia, agora, de ela ter dado com cabeça no tejadilho e desmaiado.

Qual a nossa surpresa quando chegamos a casa, abrimos a mala do jipe e vemos a galinha, morta, por baixo de um cacho de bananas que também transportávamos.

Isto é macabro eu sei, mas temos de nos rir das desgraças. A parte mais hilariante foi ver a Jenny olhar para a galinha, infelicíssima e a dizer que não devíamos come-la sem fazer uma autópsia e determinar a causa da morte.

A parte seguinte de arrancar penas e preparar a bicha eu já não assisti e também não como carne, por isso não provei a iguaria. Mas é muita falta de sorte, perder assim uma oportunidade de praticar a matança da galinha.

CULTIVAR VS ACEITAR A DIFERENÇA

Ultimamente tenho pensado bastante nesta questão e a aceitação da diferença, em vez do cultivo da diferença, parece-me cada vez mais uma atitude perigosa, paternalista e que pouco contribui para a construção de uma verdadeira sociedade intercultural global. A aceitação da diferença é um valor importante da cultura ocidental e, sobretudo Europeia onde apesar de haver resistências e intolerâncias, se verifica não só a valorização da diferença per si, mas também a sua valorização em termos de mais valia, nomeadamente na construção do espaço Europeu. E eu sempre achei isto tudo muito bem, muito nobre e muito produtivo, até ao dia em que saí da minha zona de segurança, onde faço parte da maioria e partilho os meus valores e referências e passei a ser a pessoa estranha e diferente para os outros. E aí aceitar as diferenças deixou de ser suficiente para mim, pois não muda nada, não acrescenta nada, é estéril.
Tudo isto torna-se ainda mais preocupante quando os profissionais do Desenvolvimento, caem no ciclo vicioso das concessões culturais, fazendo de conta que são iguais e que tudo partilham e aceitam, em nome de um acesso mais fácil às pessoas e comunidades com quem querem trabalhar. Para além de ser uma atitude de desonestidade para com eles próprios, é uma atitude de profundo desrespeito pelos outros, de paternalismo fácil que parte do princípio que a cultura ocidental, ao contrário das outras, é magnânima e tudo integra a bem da sagrada estabilidade sem conflitos. O argumento recorrente é que para conseguir trabalhar com populações isoladas, sem acesso a TV e informação sobre outras formas de ser, de estar e de viver, é preciso aceitar as diferenças e fazer concessões para evitar o temido choque cultural com o qual, supostamente estas pessoas são incapazes de lidar. É impressão minha ou quem diz isto está a perder uma belíssima oportunidade de expor estas populações à diferença que eles próprios representam, perdendo assim a oportunidade de partilhar outros mundos e outros valores e de cultivar a diferença? E é claro que é difícil, que demora mais tempo a ganhar a confiança das pessoas, a conquistar o nosso espaço e a ter margem de manobra. Mas não é impossível. E se abraçarmos o desafio de cultivar a diferença, isso não significa que esteja sempre tudo bem, que na mútua descoberta encontremos sempre pontes, compreensão e diálogo. Nada disso. Não é simples e não há fórmulas mágicas para lidar com as diferenças, mas na partilha reside o respeito pelas mútuas particularidades e isso eu acho que é fundamental.
Apesar de já ter passado por outros países em África e por outros lugares do mundo nada me preparou para o desafio que o Quénia representa para a minha capacidade de lidar com as diferenças. Nunca, nenhum outro lugar colocou tão em causa os meus valores e a minha forma de ver o mundo. Vivo em permanente choque cultural há quase um ano e rapidamente descobri que aceitar simplesmente as diferenças dos outros e tentar passar despercebida não me ajudava em nada, não mudava nada, era uma atitude estéril. Faço muito poucas concessões. Não escondo de ninguém o que sou, o que sinto e o que penso. E sabem que mais? Funciona! Funciona porque as pessoas não são estúpidas por serem pobres, por viverem isoladas e por não estarem expostas à diferença.
Mas deixem-me dar-vos um exemplo. A religião. O Quénia é o país que eu conheço onde a religião é mais presente no dia a dia das pessoas e onde o fundamentalismo e o fanatismo religioso tem mais ovelhas para os seus rebanhos. Para além disso é uma questão colectiva e praticada em praça pública. Os vizinhos anotam quem vai ou não à missa, em qualquer esquina ou canto de jardim nos deparamos com pregadores, armados de amplificadores a tentar doutrinar as massas e rodeados de público atento, a vida da maior parte das pessoas é pautada por uma inércia doentia que tem origem na crença de que deus tudo resolve e tudo providência. O creacionismo é uma crença comum, mesmo nas universidades e a teoria da evolução não é ensinada nas escolas. Todos os momentos quotidianos são pautados por orações colectivas. E alguém sem religião é, simplesmente, considerada amoral. Ora eu consigo aceitar, num patamar intelectual, que a religião seja importante na vida das pessoas, que as conforte e as enquadre socialmente. O que não sou capaz de aceitar é que um indivíduo desonesto, alcoólico, preguiçoso, que bate na mulher e nos filhos e que vai à missa seja considerado um cidadão modelo, enquanto que outro indivíduo honesto e honrado mas sem religião seja visto com desconfiança e não seja considerado uma pessoa de bem. E aqui eu tenho um papel a desempenhar se assumir a minha diferença e expor aos outros o meu mundo e os meus valores. Eu não fico de olhos fechados e cabeça baixa de cada vez que há uma oração colectiva (às refeições, em reuniões, formações etc.) e continuo a fazer o que estava a fazer ou simples retiro-me respeitosamente e regresso quando tudo terminou. No início as pessoas falam baixinho entre si e olham desconfiadas, mas depois há sempre alguém mais corajoso que se aproxima e questiona a minha atitude e aí, abre-se uma janela de oportunidade fantástica para a partilha da diferença e respeito mútuo, num patamar de igualdade entre os indivíduos. E depois, com o tempo, o convívio e a partilha, chegam habitualmente à conclusão “ela não é religiosa mas é boa pessoa” e aí, nessa fase, temos espaço para trabalhar e cultivar a diferença. E entretanto, descobrimos novos mundos juntos. É claro que eu gostava que as pessoas desenvolvessem espírito crítico, ganhassem autonomia e deixassem de ser dominadas pela religião, é assim que eu penso. E é claro que a maior parte gostava de me transformar numa ovelha do rebanho. Mas o que está em causa não é conquistar o outro para o nosso lado, ainda que trabalhemos nesse sentido, é simplesmente cultivar as diferenças e mostrar que o mundo é diverso e os indivíduos singulares e que isso não representa problema nenhum.

IMPALA PARK – KISUMU

Finalmente visitei o Impala Park, aqui em Kisumu. Não tem comparação nenhuma com um parque de safaris, obviamente, mas é um lugar bonito, com alguns animais à solta (e outros, infelizmente enjaulados), excelente para passeios e piqueniques, quase ao lado de casa. Não o visitei antes porque me cobravam tarifa de turista, que são 15 euros (um disparate). Este fim de semana lá me cobraram como residente (3 euros) e eu fui espreitar. Ficam aqui algumas fotos para vos mostrar  o que vi 🙂