A Casa dos Relógios III

(terceira e última parte do conto que começa no post de 08.01)

Através da porta entreaberta, podia ver-se a árvore de Natal enfeitada, o presépio, as crianças a abrir os presentes embrulhados com papéis e fitas delicadas, Afonso sentado numa cadeira a ler o jornal e Carolina, sentada no chão, no meio dos filhos a rir como uma criança.
– Olha! Repara no relógio da parede – disse o Simão baixinho puxando o braço de Helena.
Ela olhou para o relógio de cuco, onde faltava menos de um minuto para as oito da manhã e olhou para o mesmo relógio, amparado entre os braços pequenos do Simão e voltou a olhar para a cena familiar à sua frente. Aí, podia ver Simão entusiasmado, a tentar desembrulhar um presente enorme com a ajuda da mãe, onde se via emergir a cabeça de um simpático cavalo de madeira colorido. Então… ecoou por toda a casa o cuco repetitivo do relógio a marcar a hora certa. Olhou rapidamente para o relógio que o Simão segurava ao seu lado, que marcava oito horas em ponto, e viu o rostinho dele hipnotizado… e quando voltou a olhar para a sala viu-a vazia, decadente, sem vida.
– Já acabou! – disse o Simão muito triste. – Mas vês como funciona a magia? Eu posso voltar a ver os meus pais, os meus irmãos, os meus dias mais felizes…
– Podes voltar ao tempo marcado nos relógios todos? – perguntou Helena assombrada.
– Não! Há relógios que não funcionam comigo. Não acontece nada quando pego neles. Não percebo porquê e não me lembro de a colecção do meu pai ser tão grande – explicou ele taciturno. – Mas posso voltar sempre para junto dos meus irmãos, ver a minha mãe… viste como ela é bonita? Nunca me canso de os visitar.
Helena pegou-lhe na mão e correu para a sala dos relógios.
– Qual é o relógio que mais gostas e que não funciona contigo, Simão? – perguntou Helena.
– Não está aqui. É o Velho Mudo que o tem – respondeu prontamente o Simão, arrastando-a para fora da sala.
Pararam em frente à escultura do Velho, muito velho, com ar triste e um relógio enorme nas mãos e ficaram ambos a olhar aquela imagem na parede.
– Ele também sai da parede como tu? – perguntou a Helena sem desviar o olhar.
– Só quando eu lhe tiro o relógio. E olha que não é fácil que ele agarra-o com muita força… mas depois como o relógio não tem magia ele acaba por o levar outra vez e voltar ao seu lugar. Tenta tu – incentivou o Simão.
Helena hesitou. A figura daquele homem provocava-lhe sentimentos contraditórios de ansiedade e profunda tristeza. O coração parecia que ia saltar-lhe do peito, enfurecido, a respiração era-lhe difícil mas mesmo assim, ela estendeu as mãos trémulas para o relógio que o Velho segurava. Quase morreu de susto quando uma mão lhe segurou firmemente o pulso afastando-a do seu objectivo. Helena podia sentir a pele seca, sem vida, as mãos ossudas que lhe magoavam o pulso e quando levantou os olhos para o rosto do Velho, que a aprisionava, viu-o fitá-la com um olhar inquiridor. Era como se não entendesse porque motivo o seu relógio podia suscitar tanta cobiça e ao mesmo tempo como se se interrogasse porque não o deixavam em paz, sozinho. Helena puxou o braço para se soltar, assustada e quando conseguiu viu o pulso vermelho e olhou para o Simão.
– É preciso lutar com ele! Fazer muita força para lhe tirar o relógio – afirmou ele conhecedor.
– Simão, este relógio não nos pertence por isso não devemos insistir – explicou a Helena.
– Mas esta casa é minha! Não é justo! – choramingou.
Entretanto, o Simão ficou muito calado, a escutar. A Helena começou também a ouvir o som dos violinos ao longe.
– Tenho de ir! – disse ele sorridente e a começar a correr. – Vou ver a festa com os meus irmãos. Não digas a ninguém! É um segredo nosso.
Helena ficou sozinha na sala azul e sentiu um arrepio. Era incapaz de racionalizar os últimos acontecimentos. Mas também era incapaz de ir embora. Tinha a alma cheia de perguntas e a tempestade continuava intensa lá fora.
Ficou a olhar para a figura do Velho, na parede. Depois voltou para a sala dos relógios. Abriu as gavetas e portas dos armários com delicadeza, ciente de estar a invadir um espaço alheio mas incapaz de conter a curiosidade. De repente, por trás de alguns livros da estante apercebeu-se de um fundo falso. Esticou a mão e retirou alguns documentos. Aproximou-os do candeeiro e leu-os atentamente.
“Declarações de dívida de Afonso Bandeira para com Diogo Cunha… os dois homens que eu vi aqui… meu Deus, uma fortuna, mesmo em… 1926”, pensou Helena enquanto perscrutava os documentos. “E uma hipoteca da casa, também, em favor de Diogo Cunha!”
Helena voltou a meter a mão no fundo falso. Tacteou toda a superfície e num canto, difícil de alcançar, sentiu qualquer coisa metálica. Esticou-se o mais possível e conseguiu agarrar no objecto. Era outro relógio de bolso, pequeno, delicado, que marcava 4h47. Helena apertou-o nas mãos e sentiu-se flutuar como se a gravidade tivesse confundido a física e decidido ausentar-se naquele momento.
Num ápice, o Sol brilhava intensamente à sua volta e Helena deu si no jardim da casa. Ouviu vozes a sussurrar. Olhou em volta angustiada. Ao fundo, junto ao lago, longe do alcance da casa podia distinguir dois vultos. O relógio que trazia nas mãos marcava 4h40. Correu por entre as sebes e arbustos simétricos tentando não fazer barulho e não dar nas vistas. Conforme se ia aproximando podia distinguir claramente os dois vultos. Eram Diogo e Carolina, muito próximos, muito íntimos. Ele a acariciar-lhe o rosto. Ela a segurar a cesta de flores e a aconchegar o rosto na mão dele.
– Não consigo passar nem mais um dia sem ti, meu amor – ouviu Helena .
– Diogo, eu amei-te e vou amar-te sempre mas não posso abandonar os meus filhos e ele nunca os vai deixar ir connosco – disse Carolina.
– Carolina, está tudo planeado. Vamos fugir hoje! É a festa de fim de ano, vai haver uma enorme agitação na casa. Tu e as crianças vão comigo para o Brasil e vamos ser felizes, finalmente!
– Meu amor, como és ingénuo. O Afonso nunca nos vai perdoar e vai perseguir-nos até ao fim do mundo se assim tiver de ser – disse Carolina infeliz aconchegando-se no abraço do amante. – Não é por me amar, nem pelas crianças… mas o orgulho… vamos feri-lo de morte.
– Sossega e confia em mim. Ele não vai ter recursos para ir atrás de nós. Eu passei os últimos anos a planear este dia e não deixei nada ao acaso. Eu sonho contigo Carolina, desde criança e vivi apenas para conseguir conquistar-te e dar-te tudo o que tu mereces – sussurrou Diogo, abraçando-a emocionado. – Logo quando todos festejarem o Ano Novo nós partimos. Preparei uma surpresa especial para a noite de hoje que vai monopolizar a atenção de toda a gente.
– Eu confio em ti, meu amor! E beijaram-se apaixonadamente, felizes, sem urgência, como quem tem a vida inteira para saborear os lábios do outro.
Nesse preciso momento, Helena sentiu-se levitar novamente, olhou para o relógio e este, parado, marcava 4h47. Deu por si novamente na sala dos relógios, com um sentimento de angústia inexplicável. Voltou a guardar tudo no fundo falso e a colocar os livros na prateleira e saiu. Na sala azul parou em frente ao Velho. Podia ver claramente uma lágrima escorrer-lhe pela face de mármore.
Entretanto a música soava mais alto, o burburinho de pessoas a falar e a rir também e Helena, num impulso correu para o corredor e atravessou a casa até chegar às escadas.
A festa decorria no salão de baile, em baixo. Do outro lado da escadaria, ela viu o Simão com os irmãos escondidos, a rir, a olhar para baixo. Helena olhou bem para a escadaria. Queria descer mas tinha medo de ser vista e tentava perceber que lanço de escadas a levaria para perto daqueles cortinados de veludo, ao fundo, onde ela se podia esconder. Quando parecia que ninguém estava a ver, correu pelas escadas abaixo e deu por si, ao contrário do que pensara, precisamente na entrada do salão. Escondeu-se rapidamente atrás de uma coluna enorme.
Foi então que viu em cima, Carolina a correr, a agarrar nas crianças enquanto as repreendia e a atravessar o corredor. E em baixo, um homem, que saía de detrás dos cortinados de veludo, do outro lado do hall, e atirava qualquer coisa para debaixo das escadas. Antes que pudesse pensar no que estava a acontecer Helena ouviu um estrondo ensurdecedor e viu a escadaria a explodir juntamente com parte do primeiro andar. Ela encolheu-se atrás da coluna, em pânico, com as mãos a cobrir a cabeça, rodeada de gritos, de ruído de coisas a partir e ficou assim, sem se mexer, sem abrir os olhos, por muito tempo. A última coisa que tinha visto tinha sido Carolina e as crianças a cair do primeiro andar, projectadas pela violência da explosão.
Aos poucos Helena sentiu tudo a acalmar à sua volta. Lentamente abriu os olhos e ergueu-se. Quando saiu detrás da coluna viu a casa exactamente como estava no momento em que lá entrou. Olhava incrédula a toda a volta e não via indícios do que tinha presenciado.
Sentou-se nas escadas, a olhar para tudo e a repensar os últimos acontecimentos. Depois ouviu um ligeiro ruído vindo dos cortinados, olhou e viu sair devagarinho, o Velho, muito velho, agarrado ao seu relógio.
– Você?… aqui?… pensei que não… – gaguejou Helena.
– Eu venho aqui todos os dias, ou todas as horas, já nem sei quantas vezes revivo este momento – murmurou o homem com visível dificuldade em falar e mover-se.
– Quem é você? – perguntou Helena sem resistir à curiosidade.
– Sou um assassino, imoral, condenado a viver nas trevas da minha memória para toda a eternidade. O meu nome é Diogo Cunha – disse o Velho sem emoção.
– Eles morreram…? – perguntou Helena.
– Sim e com eles perdi a minha vida também.
– Você também morreu na explosão?
– Não! Eu sobrevivi para morrer de dor todos os dias e horas da minha vida até ao meu último suspiro.
– E os relógios? E as crianças? O seu relógio? Como é que… – começou Helena, dando asas a todas as dúvidas que a assaltavam.
– Esta casa foi o meu túmulo. Quis morrer com eles também. O relógio na parte da frente da casa, fui eu que o mandei fazer para assinalar o meu último momento de vida. A partir daquele momento nada mais vivi, apenas revivi. E neste relógio que trago junto a mim estão todas as horas da minha vida – explicou o Velho.
– Mas… você morreu, muitos anos depois de se fechar nesta casa… mas você está…? – inquiriu Helena perplexa.
– Eu só sei que morri naquele dia, naquele minuto… desde então os dias e horas são todos iguais… não tente compreender tudo, minha filha, eu próprio não sou capaz.
– Sabe porque é que eu estou aqui? – perguntou Helena, que se questionava há muito sobre o que lhe estava a acontecer.
– Porque chovia e você precisava de se abrigar – respondeu o Velho enquanto se agarrava ao corrimão para começar a subir as escadas.
Nesse momento, Helena desviou os olhos dele e viu o relógio, enorme, pousado no degrau, ao seu lado.
– O seu relógio…
O Velho olhou para trás a custo, fitou-a e sorriu.
– Eu estarei para sempre aprisionado nesta casa, refém do tempo que passou. Leve consigo o relógio, o guardião dos meus dias, horas e minutos e volte a dar-lhe vida através da magia das palavras.

A casa dos relógios II

(continuação do conto que começa no post anterior)

Helena estava paralisada, de medo, de fascínio, de curiosidade segurando contra o peito o pequeno relógio de bolso quando ouviu vozes a aproximarem-se. Conseguia ouvir perfeitamente a voz de dois homens que se aproximavam da porta da sala e num instante de audácia, olhou em volta e correu para trás de um enorme biombo oriental, delicadamente lacado, onde se escondeu.

– Entre, meu caro amigo, mas que alegria me dá a sua visita… é tão raro vê-lo hoje em dia!
– Os negócios, Afonso, os negócios prendem-me e acabo por passar mais tempo no Brasil do que aqui.
– Vão longe os tempos despreocupados de Coimbra, não é meu caro Diogo? As voltas que a vida deu desde então… – disse Afonso com um sorriso, enquanto indicava ao amigo uma cadeira para se sentar.
– É verdade, estamos mais velhos, mais cansados, mais ricos também – retorquiu Diogo com um ar sarcástico. – Mas afinal que maravilha era essa que me queria mostrar? Se bem que é difícil suplantar esta casa que está a construir, que é uma verdadeira jóia.
– Esta casa é um disparate onde a minha mulher anda a ver se gasta toda a minha fortuna. Tem aquela inclinação para as artes e para as coisas delicadas e inúteis, que fazem com que as mulheres sejam incapazes de ter tino para negócios. Enfim, quanto mais ela andar entretida com a casa e com os filhos, menos me incomoda. Quase não nos vemos, a não ser quando recebemos convidados ou vamos a eventos sociais, e nisso ela é extraordinária, ninguém é mais elegante e requintado.
– Meu amigo, se bem me lembro a sua esposa é uma mulher requintadíssima e muito bela e esta casa faz juz à sua reputação – disse Diogo sem tirar os olhos do chão.
– Sim, sim, mas não viemos aqui para falar de mulheres – respondeu ansioso. – O que lhe queria mostrar era esta extraordinária colecção de relógios que comecei há uns dez anos, pouco depois de Coimbra e de o amigo ter ido tentar a sua sorte para o Brasil.

Nessa altura, Helena, que via a cena através de uma frincha no biombo reparou que não havia mais relógios na sala para além dos que estavam expostos nos armários com portas de vidro. Os dois homens observaram atentamente a colecção toda. Afonso extasiado a relatar a proveniência de cada relógio, as aventuras por que passara para o adquirir e Diogo, distante, a tentar seguir o amigo mas sem interesse nenhum na colecção.
De repente, Afonso olhou para um relógio e disse constrangido para o amigo:
– Perdoe-me, meu caro, mas esqueci-me completamente que tenho uma reunião importantíssima dentro de algum tempo na cidade. Fiquei tão feliz por o rever e entusiasmei-me tanto a mostrar-lhe os relógios que perdi a noção das horas e tenho mesmo de ir. Mil desculpas pela indelicadeza… mas temos de continuar a nossa conversa. Fique para jantar. Será um enorme prazer… Vou pedir para chamarem a Carolina, ela vai ficar encantada por lhe mostrar a casa e eu não demoro… pode ser?
Diogo engoliu em seco e ficou lívido mas retorqui com segurança:
– Sim, será um prazer meu caro amigo, temos muitas coisas para pôr em dia.
– Muito bem! Venha então até à sala azul, vou pedir para lhe trazerem um chá e entretanto a minha esposa virá recebe-lo. Até logo, meu caro Diogo.

E os dois homens saíram. Helena suspirou de alívio e esgueirou-se até à porta para espreitar o que se passava na sala azul através da fechadura. Lá estava Diogo sentado. Uma empregada a servir-lhe um chá. A sala toda forrada a azul e mármore branco era luminosa, parecia um pedaço de céu. Então, Diogo retirou o seu relógio de bolso para ver as horas. Helena olhou perplexa. Era igualzinho ao relógio que ela tinha na mão, que agora surpreendentemente marcava 6h22. Segundos depois entrou na sala a esposa de Afonso, Carolina. Trazia no braço uma pequena cesta com flores, que com certeza tinha acabado de colher no jardim, e parecia aos olhos de Helena, uma princesa saída de um conto clássico. Trazia um vestido verde que lhe realçava os olhos felinos, dourados e segurava o chapéu de palha que protegera a sua pele alva e o rosto perfeito, do sol do fim da tarde. Era a imagem da delicadeza.
As mãos de Diogo tremeram quando a viu, entornando o chá e ele levantou-se desajeitado mas sem jamais conseguir desviar os olhos daquela mulher. Ela não se movia desde que o vira. Tinha uma expressão de incredulidade e ternura no rosto que parecia dominar todo o espaço à volta deles. Helena sentiu uma angústia profunda perante aquela cena, como se pressentisse algo terrível. Olhou para o relógio que tinha na mão e ele estava parado novamente, marcando 6h23. Quando voltou a olhar pela fechadura viu apenas a sala vazia, como quando chegara à casa. Levantou-se e olhou em volta e voltou a ver todos os relógios que cobriam a sala. Pousou instantaneamente o relógio de bolso na mesinha ao seu lado e abriu a porta. Voltou a olhar as esculturas na parede, rodopiou pela sala, sentiu o ar frio e pensou que se calhar tinha tido um sonho estranho, que nada daquilo era possível, que estava a sonhar ainda.
“Gostaste do meu tesouro?” ouviu uma voz infantil a perguntar e olhou em seu redor sem ver ninguém.
“Estou aqui, olha para mim”, continuou a voz.
Helena olhou com mais atenção e então reparou no menino de mármore na parede, a brincar em cima de um cavalo de madeira. E viu perplexa o cavalinho começar a balançar, para a frente e para traz, para a frente e para traz e o rosto da criança risonho, às gargalhadas.
“Ora toca-me!” dizia ele. E Helena sem acreditar no que via aproximou-se como um autómato e obedeceu. Quando a sua mão se aproximou da mão da criança que segurava o cavalinho, esta soltou-o, agarrou a mão da Helena e saltou para o chão. Helena deu um passo atrás e caiu assustada. A criança ria sem parar e aproximou-se dela oferecendo-lhe a mão para a ajudar a levantar.
– Quem és tu? – perguntou Helena. – Como é possível… tu estavas na parede…
– Eu sou o Simão e esta casa é minha e eu queria mostrar-te o meu tesouro.
– Os relógios? – perguntou a Helena.
– Não… esse era o tesouro do meu pai. A magia… eu queria mostrar-te a magia…

(e continua ainda…)

A casa dos relógios I

Há muitos dias que não acontecia uma gloriosa manhã de sol como aquela. Sol de Inverno, intenso, teimoso, a romper o ar gélido e a iluminar o mar furioso que fustigava as rochas. Helena passeava na praia, com os braços cruzados sobre o poncho quente de lã e os pés descalços na areia molhada e fria. Desde pequena que adorava andar descalça, numa espécie de ritual íntimo com a terra-mãe, e percorria o areal com pequenos passos seguros enterrando os pés um atrás do outro e olhando para trás, para ver as pegadas desaparecerem no momento seguinte, efémeras, como se ela própria desaparecesse e se renovasse a cada passo.
Já tinha perdido a conta dos dias passados na casa da praia. Helena tinha-se refugiado ali, como sempre, para escrever. Precisava de estar sozinha, de não contabilizar os dias e horas que passavam para se sentir livre e dar vida às ideias que depois transformava em histórias, que entregava à sua editora, que depois as transformava em mais um livro. Às vezes passava meses sozinha na casa da praia e invariavelmente, quando terminava, partia sem regresso marcado para qualquer lado do mundo, indiferente ao maior ou menor sucesso do seu trabalho, alheia ao frenesim promocional, que enlouquecia a editora e que involuntariamente criava à sua volta uma aura de mistério. Helena S. era uma romancista de sucesso, um fenómeno literário, mas ninguém conhecia aquela mulher pequenina, de cabelos negros em desalinho, sorriso tímido e olhar penetrante.
Durante os últimos dias, talvez semanas, não tinha sido capaz de escrever uma única linha. Passava horas a fio à frente do computador, a ouvir música e a escrever frases que apagava mal colocava o ponto final. Naquela manhã decidiu não escrever; decidiu aproveitar o sol raro de Inverno e passear na praia. Ria-se sozinha, olhando para os passos que desenhava na areia a desaparecer atrás de si. Rodopiava, corria, arrastava os pés, saltava, numa espécie de escrita efémera que o mar teimava em apagar. Deixou-se levar por esse impulso, que a divertia, e caminhou mais do que alguma vez tinha caminhado. A determinada altura, ofegante e cansada decidiu sentar-se a contemplar o mar. Recuou até ao cimo das dunas, que eram altíssimas naquela zona e parou. Respirou fundo e sentiu o ar frio invadir-lhe o peito, fechou os olhos e ouviu a cadência silenciosa do mar. Quando se sentiu revigorada e pronta para voltar à casa da praia, ergueu-se e olhou em volta. Nunca tinha estado antes naquele lugar e então reparou num pequeno caminho de areia que partia dali e penetrava no canavial imenso que se estendia até um pinhal bem mais atrás. Resolveu segui-lo e ver até onde a levava.
Deparou-se, algum tempo depois, com uma imponente mansão abandonada, em ruínas. Na sua época, tinha sido sem dúvida uma casa maravilhosa. Era fácil imaginar como tinha sido a fachada arte nova, com frisos belíssimos a emoldurar as janelas, com varandas ondulantes e esculpidas com elementos do mar e da terra, com vitrais coloridos que brincavam com a luz. Nem a invasão de plantas que se apoderou da casa, nem a degradação dos anos que apagou frescos, destruiu vitrais, varandas, frisos e esculturas, nem o ferrugem que cobriu os maravilhosos contornos do ferro forjado eram capazes de apagar a imponência e o esplendor daquela casa. Helena passou horas a observar cada detalhe, como se lesse em cada centímetro de parede uma história perdida no tempo. Era extraordinária e havia um detalhe, acima de todos, que a intrigava, que não combinava com a arquitectura cuidadosamente planeada da casa. Na fachada principal, por cima da belíssima porta de entrada, em madeira maciça, gasta, recortada sem um único ângulo recto, encontrava-se um relógio enorme, incorporado num friso que fazia lembrar uma estrela-do-mar. As horas esculpidas em numeração romana tinham-se esvanecido sob o efeito da erosão, mas os ponteiros, ainda que completamente cobertos de ferrugem, estavam lá, intactos a marcar a última hora: 11h59.
Subitamente, Helena foi arrancada ao estado de encantamento que a casa lhe provocara por um trovão ensurdecedor, seguido de chuva intensa que em segundos a deixou completamente encharcada. Tinha perdido a noção do tempo. Estava a escurecer, estava frio e abatera-se sobre ela uma tempestade violenta. Num impulso, Helena deu um encontrão com o ombro na porta da casa e esta abriu-se deixando ver o chão de mármore, os frescos apagados das paredes, a decoração em estuque que restava no tecto, os candeeiros monumentais e a escadaria; uma escadaria como ela nunca tinha visto, que a partir de uma base comum rodopiada e se separava criando três acessos a diferentes partes da casa. Helena fechou a porta atrás de si, deixou de ouvir a trovoada, de se sentir intimidada pelos relâmpagos e olhou em volta, maravilhada. A escadaria parecia o coração da casa a pulsar de vida, os frescos ganharam cores intensas e pareciam iluminar o interior do salão, as figuras esculpidas a estuque pareciam querer sair do tecto e dançar à sua volta, os candeeiros pintados com cores fortes, maravilhosos, pareciam iluminar o mundo. Helena começou a andar lentamente, rodopiando sobre si própria para não perder um único pormenor. Foi então que começou a ouvir a música. Primeiro ao longe, muito longe, um piano soltava notas delicadas de uma melodia encantadora. Depois a música foi-se aproximando, começaram a ouvir-se violinos também, em perfeita sintonia. E depois vozes, muitas vozes. Vozes de homens e mulheres, risos e gargalhadas, sons de festa e alegria. E então, Helena ouviu claramente um burburinho de crianças que brincavam e riam e corriam pela casa. Ela olhou em volta e não viu ninguém, mas ouvia as crianças cada vez mais intensamente. O som vinha do andar de cima e não só as ouvia a brincar como podia sentir os seus passos enquanto corriam alegremente.
Colocou a mão no corrimão de madeira e começou a subir tentando encontrar o caminho naquele labirinto de escadas que se entrelaçavam e separavam como se tivessem vida própria. Foi então que ouviu claramente “Anda! Quero mostrar-te o meu tesouro!” seguido de gargalhadas e burburinho de riso de crianças. Tentou seguir aquela voz e quando chegou ao cimo das escadas e olhou para o corredor à sua frente viu, num ápice, um vulto de criança dobrar a esquina a correr. Apressou-se para o tentar apanhar, continuou a ouvir o desafio “Anda!” e o riso alegre de crianças. Entrou num labirinto de salas e salões que se abriam uns para os outros e para novos corredores e escadas. Voltou a ver o vulto dobrar outra esquina, continuou a segui-lo e deu por si numa sala forrada a veludo azul celeste, decorada com esculturas que saíam das paredes como se tivessem um dia tido vida própria e tivessem sido aprisionadas por um feitiço qualquer. Eram figuras de homens, mulheres e crianças, de várias idades, em várias situações. Helena reparou atentamente numa delas; um velho, muito velho, no fim da vida, com o olhar mais triste do mundo, que segurava nos braços, um enorme relógio. E depois viu a porta entreaberta. Ela era capaz de jurar que quando entrara naquela sala não havia mais nenhuma porta, mas agora lá estava ela, mesmo à sua frente, paralela à porta por onde tinha entrado e lá dentro ouvia-se agora, claramente, o burburinho alegre das crianças. Avançou curiosa, empurrou lentamente a porta e entrou. Olhou em volta perplexa e encantada. Nas paredes, no tecto, em cima dos móveis, por todo o lado podiam ver-se centenas de relógios, todos parados, todos com uma hora diferente. Quando olhou para a delicada mesinha de mármore mesmo ao seu lado, Helena não pôde deixar de reparar num belíssimo relógio de bolso antigo, em ouro, uma verdadeira obra de arte que estava pousado no meio de vários outros relógios. Pegou nele com cuidado. Marcava 6h23. No mesmo instante, sentiu a porta fechar-se violentamente nas suas costas e sobressaltada reparou que todos os relógios tinham começado a trabalhar, em sentido contrário, como se estivessem a recuar no tempo.
(continua brevemente)