Moçambique – Alerta amarelo!

A última semana foi passada em Muxungué e na região envolvente, uma das mais pobres e isoladas. No início do mês houve ataques armados, mortos, feridos e pânico generalizado. Ganharam vida, velhos e novos fantasmas da guerra. A viagem foi adiada até ao limite porque havia que cumprir normas de segurança e a região, já bem isolada, ficou quase interdita, com recolher obrigatório e estradas desaconselhadas.

A desinformação é muita mas da boca da população o que se houve é que tudo começou com um ataque das autoridades e descambou com um contra-ataque da Renamo. É comum a polícia impedir as reuniões, comícios e actividades em geral da Renamo. Há casos de dirigentes agredidos, militantes presos e espancados. Desta vez, como em outras, a polícia entra num edifício onde estavam reunidos militantes da Renamo, dispara indescriminadamente, espanca e prende uma série de pessoas. É de salientar que estamos em época de campanha eleitoral para eleições municipais a realizar em Junho e que a actividade partidária é mais do que normal.

Ora a seguir, consta que um grupo de militantes da Renamo, numa bela noite entra pela esquadra da polícia adentro e dispara a matar sobre quem lá estava. Diz o povo que perante esta confusão toda, não faltaram oportunistas a servir-se da confusão para causar ainda mais distúrbios e roubos e pânico. Foi um pandemónio! Morreram várias pessoas. A população fugiu da cidade, as escolas fecharam, os negócios fecharam e durante dias ficou toda a gente na expectativa.

A Renamo há muito que pede uma revisão da lei eleitoral para ter direitos iguais aos da Frelimo. (Direitos estes alterados pelo governo e contrários ao Acordo de Paz) O Presidente, pessoa pouco querida por gente de todos os quadrantes políticos incluindo o dele, parece que é do tipo arrogante, surdo e pouco competente. Ouve-se falar de Chissano com muita saudade.

A compôr o circo da desmocracia, o presidente histórico da Renamo, abalou há meses para o seu reduto de guerra na Gorongosa, a partir de onde faz exigências ao governo e ameaça pegar em armas de vez em quando. Neste momento, 15 dias após os atentados em Muxungué, a Renamo exige ser levada a sério nas suas reivindicações e quer respostas do governo ou não se candidatará a eleições. O governo, infantiliza o adversário e faz-se de mouco e de burro. O povo, entre a piada fácil (do género “o Chissano levou anos a tirar o Dlakama do meio do mato e o Guebuza manda-o para lá outra vez) e a desvalorização dos acontecimentos, não deixa de sentir um nervoso miudinho de quem sabe que as coisas podem dar para o torto.

Felizmente, um conflito aqui na região, não deve ser do interesse de ninguém nesta altura. Mas temos uma democracia da treta, gente prepotente com armas e uma população ignorante e não me parece que dois velhos casmurros e com egos enormes consigam resolver a desmocracia a bem.

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Parece Portugal nos anos 80

Disseram-me isto sobre Angola, hoje, e ficou a martelar-me no pensamento. Os maravilhosos anos 80: tempos de vacas obesas, oportunismos cegos, o sonho de ser funcionário público e não fazer nada para o resto da vida, os cursos e as universidades a nascerem como cogumelos. Eh pá, de facto a analogia tem muito que se lhe diga….

E a moda!? As cores todas do arco-iris numa única toilete, de preferência fluorescentes e com motivos florais, os vestidos de malha coleantes a moldar o corpo, bem curtinhos para não se esconder nada e os acessórios reluzentes e grandes para se verem ao longe.

Até na TV… as primeiras telenovelas de produção nacional que provocavam choradeiras descomunais à hora do jantar e um ódio de morte aos personagens maus da fita. Era tempo também dos primeiros programas de música, com muitos videoclips a ditar modas e os apresentadores com guiões forçados e ares artificiais.

Na música é que não há analogias possíveis… prontos, alguma coisa havia de escapar.

Mas o mais engraçado, assim à distância, é que desde a crença inocente de que se ia ter um trabalho bom para o resto da vida, ao colorido da roupa e ao experimentalismo televisivo o quotidiano tresandava a esperança. Íamos viver melhor que os nossos pais, íamos ter mais oportunidades, íamos ser em tudo diferentes… a esperança era tal que alguns de nós até sonhavam ir para África acabar com a miséria dos outros como se tivessemos em nós o know how, a varinha mágica para fazer acontecer o mundo perfeito :).

E agora aqui, vemos a história repetir-se em muitos aspectos e do alto da nossa sabedoria, de experiência feita, saboreamos o sentimento de esperança contagioso e brindamos com um gin tónico a um desfecho diferente.

DA REVOLUÇÃO DOS “ESCRAVOS” À GERAÇÃO À RASCA

Cheguei há alguns dias de Moçambique, onde durante uma conversa me perguntaram como era Portugal antes da Revolução dos “Escravos”. A minha primeira reacção foi uma gargalhada interior, mas depois, pensando melhor, entre a semelhança fonética e a realidade da época, o termo nem é assim tão disparatado. Na verdade estávamos escravizados por um sistema ditatorial que mantinha Portugal subdesenvolvido, onde uma esmagadora percentagem da população era analfabeta e a outra parte ficava-se pela quarta classe ou pouco mais, onde o saneamento básico e a electricidade eram luxos de algumas zonas urbanas num país maioritariamente rural, onde a mobilidade social não existia e a mobilidade física também não, onde as mulheres eram privadas do direito de voto e de autonomia, onde do mundo além fronteiras se tinha uma visão fosca e manipulada e onde havia fome e descamisados. Era um país cinzento e tacanho onde a maioria do povo, o “Pé Descalço” como lhe chamavam, encontrava conforto e alegria na fé: na crença de termos um império além mar e por isso sermos ricos e superiores, na crença da santa estabilidade que nos manteve à margem da guerra e das convulsões sociais da maior parte do século XX, na crença de hipotecarmos uma geração a uma inevitável guerra colonial porque tínhamos de defender o que era nosso e o mundo inteiro estava contra nós e na fé em Deus e na Igreja que nos prometia o reino dos céus se sofrêssemos muito e fossemos muito pobrezinhos e que nos encorajava a fiscalizar os valores e as vidas uns dos outros que não podiam fugir da mesma bitola. Mas sempre houve quem não se acomodasse e quisesse mais, quem não tivesse tanta certeza assim na recompensa celestial e preferisse garantir uma vida melhor antes de morrer, quem não temesse o mundo para além das fronteiras e da ordem estabelecida. Esses foram embora. Esses existem em todas as famílias Portuguesas, os que foram para África, para o Brasil… para qualquer lado onde pudessem viver melhor.

Faz-me portanto, muita confusão, ler e ouvir algumas opiniões de reacção ao protesto da Geração à Rasca, que fazem a apologia do Portugal de outrora como se se tratasse de um paraíso perdido, culpando esta mesma geração pelo actual estado de coisas. E faz-me igualmente muita confusão recorrer-se constantemente ao número de pessoas que saem do país, como indicador de um estado de degradação irreversível da nação, como se fosse um fenómeno novo.

No primeiro caso, trata-se de pura utopia, explicada pelo mesmo fenómeno que faz com que cada geração apregoe que na sua juventude é que se vivia bem. Convenhamos que nos falta uma grande dose de realismo. No segundo caso, trata-se de falta de reflexão e gestão de expectativas. Cinco milhões de Portugueses vivem fora de Portugal, muitos de segunda e terceira geração, um terço da população, portanto. Somos um país de emigrantes, de gente que se faz à vida e que faz pela vida. Só que hoje em dia não é só, nem sobretudo, o Pé Descalço, que vai embora, são cidadãos qualificados em cuja educação o Estado investiu e em cujo futuro as famílias depositaram inúmeras expectativas. Esperava-se que o país os integrasse no mercado de trabalho e os aproveitasse para se desenvolver. Não é isso que acontece. Espera-se que o Estado tudo providencie, sobretudo para quem cresceu na época em que a educação se generalizou e democratizou ao mesmo tempo que o processo de integração na UE injectou milhões de euros num país que não os soube usar para se modernizar e desenvolver. De repente, as torneiras fecharam-se, a economia internacional entrou em colapso, os nossos políticos tentam tapar buracos em vez de fazerem obras estruturais, tentam extorquir aos mais fracos sem retirar privilégios a quem verdadeiramente os tem e tentam pôr uns nos outros a culpa de uma situação em que todos são responsáveis, porque são o resultado de 30 anos de má governação. E no meio disto tudo muitos Portugueses continuam a querer uma vida fácil, cheia de fé no Estado providência como se fosse coisa abstracta e eterna, a sonhar com o emprego das 9h às 5h, com meia hora de tolerância à chegada, 6 pausas para fumar e outras tantas para tomar café, um ordenado respeitável ao fim do mês e responsabilidade zero. Os que saem do país, são na maioria das vezes bem sucedidos, não só porque encontram melhores condições de trabalho, mas também porque aprendem a ser mais flexíveis, a valorizar todas as experiências que têm e a capitalizá-las no mercado laboral e aprendem lições básicas de profissionalismo e ética que os tornam melhores e mais competitivos.

O problema não é o nosso mercado de trabalho ter-se alargado ao espaço europeu, isso só nos traz vantagens e mais opções. O problema é Portugal, apesar de tudo, continuar cinzento e tacanho. O problema é quem cá está não fazer pela vida: nem os políticos pela vida colectiva, nem os indivíduos muitas vezes pela sua própria vida. É termos inveja do sucesso dos outros e ainda acharmos que só tem dinheiro quem rouba e que só alcança os sonhos quem tem cunhas. É termos medo de perder coisas que não temos como estabilidade e segurança e ficarmos paralisados ou rebaixarmo-nos a condições de trabalho insultuosas arrastando todo o mercado de trabalho para o paradigma do “quem aceita menos dinheiro para trabalhar?”. O problema é acharmos sempre que a responsabilidade é dos outros, que cidadania é ter bilhete de identidade, que liberdade é insultar políticos em conversas de café e que democracia é pôr uma cruz num papel.

Alegra-me, portanto, que na génese do Protesto da Geração à Rasca esteja um grupo de cidadãos independente e apartidário que quer mostrar descontentamento, participar e questionar toda a sociedade sobre o actual estado de coisas numa tentativa de se repensar colectivamente que tipo de país queremos ter e o que pode cada um de nós fazer para o mudar. Desde a Revolução dos “Escravos” até esta Geração à Rasca, muita coisa mudou e eu acredito que Portugal é inquestionavelmente melhor, mas há muito mais para mudar, sobretudo nas nossas cabeças, nas nossas mentalidades e instituições e a responsabilidade é de todos, sem excepção.

Párem lá de ajudar os pobrezinhos…

Era uma vez uma escola rural num país pobre. Muitas das crianças iam para a escola sem comer e a vida em geral era muito difícil. Um dia o governo fez um acordo com uma organização humanitária americana para que esta doasse a farinha necessária para se fazer papas de milho. A comunidade foi mobilizada para que as mães rotativamente cozinhem na escola e sirvam a refeição ao final da manhã. O Governo está feliz porque tem mais crianças na escola e está mais perto de cumprir mais um ODM, as crianças estão felizes porque podem comer pelo menos uma refeição por dia e os pais estão felizes pela mesma razão.

Esta cena de vir às lágrimas acontece numa região onde praticamente só se produz milho e arroz. Só que quando a colheita é boa o milho excedente não se vende porque a aldeia está cheia de milho gratuito daquela generosa organização, ou então as pessoas não conseguem fazer farinha por não terem dinheiro para pagar a moagem pois não conseguem obter nenhuma forma de rendimento. Quando a colheita é má e as coisas pioram ainda mais, as pessoas ficam sem forma de comprar sementes para voltar a plantar os campos. Felizmente, podem contar sempre com os senhores Macgovern e Dole, os dois magnatas do sector agrícola, antigos senadores americanos, que criaram a organização que envia a farinha de milho para a comunidade.

Esta foi a história com que me deparei hoje de manhã numa comunidade pobre eternamente agradecida aos senhores americanos que lucram e perpetuam a pobreza deles. Quando vi os sacos de milho “USAID – not for sale” empilhados na escola fiquei doente e em conversa com várias pessoas cheguei a pensar que lhes ia provocar um curto circuito cerebral por questionar aquela doação e argumentar que eram apenas vantajosas para os agricultores americanos. Estou um bocado cansada de assistir vezes sem conta às mesmas histórias de terror disfarçadas de contos de fadas. Só me apetecem dizer: “Acordem, meus amigos!”

O MUNDIAL VISTO A PARTIR DO QUÉNIA

Nesta minha bancada de onde assisto ao Mundial “africano”, pouco vejo de festa e entretenimento e assisto a um jogo económico-simbólico perverso manipulado por grandes empresas e interesses políticos.

Todos sabemos que as quantias de dinheiro e os interesses de vária ordem envolvidos num campeonato deste género são imensos mas acho que nunca foram tão perversos como agora. A partir desta bancada eu vejo um continente inteiro em bicos de pés a acenar ao mundo, e vejo uma poderosíssima máquina simbólica a usar e a reforçar um sentimento de inferioridade colectivo.

Uma das consequências mais preocupantes deste mundial é a generalização, o reforço da ignorância internacional em relação ao continente. O Mundial é da África do Sul, e dificilmente haveria condições para o realizar em outros países africanos mas vende bem falar de África, essa massa continental onde raramente se distinguem geografias, culturas e histórias e à qual se associa apenas pobreza, guerras, ignorância e subdesenvolvimento, numa homogeneização absurda do Mediterrâneo ao Cabo. É muito frustrante trabalhar para mudar esta visão redutora de um continente inteiro e de repente ver esta brutal máquina simbólica a vender esta imagem aos próprios africanos, que veem este campeonato como um jogo de vida ou morte entre África e o mundo, a preto e branco. A manipulação é tão grande, a mensagem é tão forte, que num país onde ninguém é queniano, onde o sentimento de pertença a uma nação não existe de todo, onde cada um se auto-limita nas suas fronteiras étnicas e considera outros concidadãos inimigos, de um dia para o outro, tornaram-se todos “africanos” contra o mundo e cada jogo é uma batalha onde se joga a honra de um continente inteiro. Num instante a vuvuzela se tornou num instrumento tradicional e num símbolo “africano” . E ai de quem criticar aquele zumbido absurdo dos estádios, porque está contra a África inteira e a desprezar a África inteira. Curiosamente nunca se viram vuvuzelas pelo Quénia antes. E ai de quem apoiar qualquer equipa que jogue com uma equipa africana, ou de quem critique o mau desempenho de uma equipa africana pois é uma atitude altamente racista e de desprezo para com África. E claro que quando as equipas africanas perdem é o resultado de uma enorme conspiração internacional contra África.

A ideia de um sentimento colectivo de valorização e pertença africana também me seduziu no início, uma pequena pedra a ajudar à construção da União Africana que tão importante seria para os vários países e cidadãos do continente, mas a realidade vista da bancada do Quénia rapidamente me desiludiu. Os vários atentados contra os direitos humanos na África do Sul foram ignorados. Ouve muitos africanos explorados na construção dos estádios, muitos africanos que ficaram sem casa ou sem os seus negócios de beira de estrada porque a polícia sul africana quis “limpar” o país e dar uma imagem destorcida aos turístas e houve muitos, mesmo muitos africanos que não conseguiram visto para assistir aos jogos. Um processo muito fácil para qualquer não africano, mas quase impossível para os africanos comuns no grande Mundial de África, pois o país anfitrião temia que os vizinhos usassem o campeonato para imigrar e depois aí residir ilegalmente. E nunca aqui ouvi ninguém, absolutamente ninguém, questionar nada disto, ou o facto de nem mesmo a maioria dos sul africanos beneficiar economicamente com o evento (quanto mais os outros!), ou o facto de se estar a gastar imenso dinheiro em estruturas para “inglês ver” num país (a África do Sul e não “África” como tanta gente confunde) onde há tantas necessidadedes mais básicas e importantes.

Aqui da bancada do Quénia este campeonato esteve perdido desde o início. Gostava de ter visto o mundial servir para levantar vozes africanas contra o neo-colonialismo  económico, para ver africanos defenderem o respeito pelos Direitos Humanos em África, para assistir ao despertar de um  genuíno sentimento de partilha com outros países africanos na luta por interesses comuns. Mas não, aqui assistiu-se a uma telenovela que promovia a FIFA, a MTN, a Coca Cola e outros através da manipulação simbólica do Mundial de Futebol. No Quénia, onde hoje todos são “africanos”, em Agosto, aquando do referendo da Constituição, nem sequer serão quenianos e poderemos assistir ao reacender da violência que se seguiu às últimas eleições. Espero que isso não aconteça. Espero estar completamente enganada. E espero que de outras bancadas, em outros países africanos, se tenha visto outro Mundial.

SARAMAGO E O PORTUGAL DOS PEQUENINOS

A morte do Saramago deixou-me perplexa. Não pelo acontecimento em si, que a Morte é o passo seguinte para todos nós, mas pela pequenez e mesquinhez que ela suscitou em tanta gente. É nestas alturas que se percebe que Portugal é mesmo um país pobre. Fiquei triste. A viver no outro lado do mundo e cheia de sentimentos contraditórios em relação a esta vivência tenho desenvolvido uma imagem idílica de Portugal, consciente de que é mentira, mas ainda assim reconfortante. Ontem acordei do sonho e lembrei-me porque é que não gosto de viver em Portugal e porque é que tantas vezes tenho vergonha de ser Portuguesa. É esta constante maldicencia, a inveja de quem tem sucesso e se destaca, o boicote a quem foge do rebanho, é uma pequenez colectiva contagiosa e destrutiva.

Acho que a maior parte dos Portugueses não gosta de pessoas reais. Essas têm defeitos e qualidades, dons e falhas, têm dias bons e maus, agem bem e mal, são contraditórias. É como se fosse inconcevível que alguém, igualzinho a nós, seja melhor do que nós em alguma coisa, ou que por qualquer motivo se detaque onde a maioria não consegue deixar de ser anónimo. Então é preciso idealizar os heróis como seres perfeitos, legitimando assim a nossa incapacidade de chegar onde eles chegaram.Muitas pessoas transmitem mesmo mensagens de ódio, porque Saramago era Comunista, porque era Ateu, porque “renegou” a Pátria, porque não gostam do que ele escreveu, da forma como escreveu, e portanto é apenas um tipo comum, ignóbil e deve ser tão insignificante como todos nós. Que pequenez. Que disparate.

Ultimamente, durante o meu momento onírico em relação a Portugal, digo a muita gente que o meu país é um país de Poetas e de Literatura e digo-o ciente de que não gosto de todos os autores, nem de todas as obras, mas orgulhosa do facto de termos uma tradição literária ancestral e consistente e Saramago faz, concerteza, parte dela. A quantidade de obras traduzidas e o reconhecimento internacional ao seu trabalho fazem muito mais pela língua Portuguesa e pela cultura Portuguesa, em Portugal e no mundo, do que o Ministério da Cultura, o Instituto Camões e o IPAD todos juntos. Temos mais autores que mereciam um Nobel e o mesmo reconhecimento? Temos. Temos vários até e para todos os gostos e isso devia ser motivo de orgulho e não de crítica. E também tenho dito muitas vezes que o meu país é livre e com orgulho, que lá somos livres de dizer o que pensamos, de ter opiniões diferentes e de defender os nossos ideais. Pelos vistos muitos Portugueses só querem liberdade de expressão para quem se expressa pela mesma bitola e o Saramago era a antítese disso. Sem concordar com tudo o que ele dizia, admirava-o profundamente por isso. Dizia o que pensava, sem concessões.

O homem que era Saramago morreu e sem dramatismos, não acho que Portugal ou o mundo tenham “perdido” nada, pois fechou-se apenas um ciclo de vida. Mas o escritor que era Saramago vai viver e Portugal e o mundo “ganharam” literatura e a pátria que é a língua Portuguesa ficou mais rica.

Com a obra do Saramago tenho uma relação de amor-ódio. Alguns livros acho intragáveis e outros absolutamente brilhantes. Lembro-me que o primeiro que li foi “A Jangada de Pedra” e perdi-me naquela deriva Ibérica pelo mundo. “A História do Cerco de Lisboa” deu-me a conhecer outro Portugal e outro mundo e o “Evangelho Segundo Jesus Cristo” emocionou-me e fez-me pensar. “O Ensaio sobre a Cegueira” é de todos o meu preferido, uma das minhas obras-primas literárias. É um livro duríssimo que me abriu o olhos para a fragilidade da civilização e do ser humano. Com todos eles, Saramago emocionou-me, fez-me viajar e sonhar e aprender em Português. O homem, polémico, humano morreu. A obra dele, igualmente polémica mas viva em livros que chegam a todo o mundo, ficará. É difícil ser Grande no Portugal dos Pequeninos e só alguns conquistam o direito à eternidade. Saramago foi um deles. Bem haja!

BOMBAS CONTRA A DEMOCRACIA

Ontem morreram cinco pessoas e quase cem ficaram feridas devido a um atentado bombista. Aconteceu durante uma manifestação no centro de Nairobi a propósito da nova Constituição. O Quénia está em processo de revisão constitucional e vai submete-la a referendo popular no próximo mês de Agosto. É um passo importante para o desenvolvimento do país e para garantir maior justiça social. As negociações entre os mais diversos parceiros sociais e a discussão popular, apesar de ofuscadas por demagogias populistas, têm decorrido com uma abertura democrática surpreendente. As várias versões e propostas publicadas nos jornais e discutidas publicamente e a tentativa de construir um contrato social difícil, que integre toda a diversidade social, tribal, cultural e religiosa do país tem sido uma constante.

Para mim, aliás, o grande problema da nova proposta constitucional é querer tanto agradar a todos, que se torna contraditória. No entanto, apesar de todo este esforço os fantasmas do costume fazem a sua aparição para assustar a Democracia. As tensões sociais e tribais que deram origem à violência pós-eleitoral em 2008, continuam a ser as mesmas. O Quénia não existe. Existem 41 tribos confinadas a um território que não querem partilhar e que cada uma quer dominar, em seu benefício. É uma sociedade segregada, onde ninguém se mistura, onde ninguém quer cooperar, onde a noção de cidadania nacional não existe e onde cada um espera pela sua “vez de comer”, ou seja, de chegar ao poder, partilhà-lo entre os seus e fazer o que agora acusam o Governo de fazer.

Sempre que pergunto, a quenianos, se acham que as próximas eleições em 2012 vão assistir a uma repetição de barbaridades, respondem-me que não. Todos me dizem que não, que é passado e até desvaloriza, como se tivesse sido um acidente… uma momentânea demência colectiva. É mentira! Estão a enganar-se a eles próprios e as bombas contra a democracia já estão a começar a ser lançadas.