Angolanices: Lição nº1

Luanda vista de casa.

Luanda vista de casa.

 

Os motoristas, tal como os taxistas de todo o mundo, são uma fonte de informação preciosa e agentes de integração para o desgracado do expatriado que chega a uma terra nova. É através deles que se vão desvendando as regras, a linguagem, a forma de pensar e é com eles que nos rimos de nós e da nossa ignorância e impotência.
Aprendem-se conceitos novos como o de “mulher enquadrada”, por exemplo. Numa sociedade onde o rácio homem/mulher é de cerca de 1:3, segundo a estatistica popular, a maioria das mulheres arranja parceiro, pois há muitos homens com várias mulheres. Então, há uma ou outra que fica sozinha “mas a maioria fica enquadrada”, e a estabilidade social está garantida.
Também se aprendem novas aplicações das palavras, como “chupar” em vez de beber que pode salvar-nos de vários embaraços.
Depois há coisas um pouco mais complexas como “morrer de pensamento” (que é uma das minhas preferidas!). É o mesmo que morrer de desgosto, ou de preocupação, ou de amor (que já não se usa)… enfim, é quando consumimos a vida por cismar demais numa coisa só. Ouvi esta ácerca da desvalorização da moeda que aconteceu no passado, em que de um dia para o outro as pessoas ficaram sem nada, pois o dinheiro amealhado deixara de ter valor. Foi tão mau, que “morreu muita gente de pensamento”.
E tem expressões deliciosas como a “viúva crónica” uma mulher que leva a viuvez tão a peito que veste de preto para o resto da vida e não quer nem ouvir falar de outro homem. Segundo alguns especialistas locais, viúva crónica acha que casamento é doença sem cura para o resto da vida :).

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REGRESSO

Acabei de chegar a casa. Na verdade cheguei a Portugal a meio de Julho depois de 18 meses muito intensos no Quénia. Precisei de tempo para mim. Tempo para assentar ideias, para reencontros, para processar informação, para pacificar as emoções e descansar. Cheguei encantada com Portugal, com o facto de viver cá me ser tão fácil e “natural”. Parecia-me o melhor lugar do mundo. Devia de ser a Portuguesa mais contente com este país de gente zangada, desencantada e em estado de crise permamente. Não escrevi no blogue, nem peguei em trabalho durante semanas e preferi deixar-me levar pelo Verão e deixar as coisas tomar o seu devido lugar na minha mente e no meu coração.

Em Junho tinha planos mirabolantes para viajar pela Índia. Estava no limite da minha energia e a desintegrar-me e devo ter sido atingida pelo raio do movimento Zen que me fez acreditar que seria muito mais feliz depois de passar 10 dias a meditar na Índia. Era um plano perfeito. Eu queria fazer um novo curso de meditação, mais aprofundado (sim, existe um guru new age dentro de mim), a Índia fica a muito poucos euros de distância do Quénia e é lá que nascem ou renascem a maioria dos espiritos iluminados. No fundo, no fundo, eu acho que o meu subconsciente tinha como plano B mandar-me para lá em estágio para depois escrever best sellers de auto-ajuda e ganhar dinheiro a sério porque está farto de tentar justificar o facto de eu ser bolseira de investigação…. mas adiante…. Era um belíssimo plano, teria concerteza encontrado a Luz e quem sabe o Amor e o Dinheiro e andaria a irradiar energia positiva pelo mundo não fossem uns pequenos constrangimentos que começaram a ganhar importância devido ao meu estado de fragilidade geral. A Índia é um país pobre, cheio de pedintes profissionais, descamisados e crianças de rua e eu detesto pobres. Não que ache que eles devem ser escondidos, mas porque acho que ninguém devia ser pobre e que todos devíamos ter direito a uma vida digna.  Deve ser um preciosismo de quem viveu em choque com abismais assimetrias sociais, mas que fazer? Pobres? Não obrigada, não agora. E depois a Índia está cheia de poluição, de lixo e de caos e eu comecei a achar que encontrar a Luz naquelas condições era capaz de não ser a melhor opção. E assim, à última hora, encontrei o meu Ashram: Portugal. Uma energia incontrolável atraía-me para este lugar mágico, este paraíso de serenidade, trânsito ordenado, sem poluição e apenas pontuado por pedintes aqui e ali, onde se fala o Português (uma língua maravilhosa que não se ouve no Quénia), onde se come bem e se bebe melhor, onde as pessoas gostam de sair até tarde, de esplanadas e passeios na rua, onde adoramos discutir uns com os outros mas sem nos matarmos uns aos outros, onde podemos criticar abertamente o sistema e ser anti tudo e onde temos uma enorme capacidade de nos rirmos de nós próprios. Não havia mais nenhum lugar onde me apetecesse estar e imbuída deste encantamento desmesurado pelo meu país resolvi fazer a mala e regressar. Encontrei a Luz do Sol e do Verão que me aqueceu o corpo e a alma e me ajudou a ficar de bem com a vida. Encontrei o Amor das pessoas que me querem bem e que são importantes para mim. Não encontrei o Dinheiro, nem mesmo depois de jogar no euro milhões, mas dizem que não se pode ter tudo na vida. Corri este país de Norte a Sul. Fui a romarias e festivais, assisti a concertos e peças de teatro, cantei, dancei e ri até não poder mais. Matei saudades do mar e brindei até à exaustão: “Ao Verão, aos amigos e às coisas boas da vida!” Não meditei grande coisa, nem sequer dormi muito mas renovei energias e pacifiquei-me com a minha experiência dura no Quénia.

Sinto-me bem em casa. Estou feliz e agora cheia de vontade de arregaçar as mangas, voltar ao trabalho, escrever a tese e partir para outros desafios. Portugal tem muitos defeitos. Estou farta de ver criminosos com honras de prime time na televisão pública, estou triste com a nossa miserável classe política, já não suporto o gene da Crise que nos degenera o ADN, nem o síndrome da vitimização dos Portugueses, mas por enquanto não vejo nenhum outro lugar onde tenha mais vontade de estar.

E este blogue que começou como uma forma de eu publicar os meus contos e se foi transformando num roteiro de viagem e num repositório de reflexões e opiniões vai sofrer umas alterações, aos poucos há-de tomar novo rumo, como eu, para onde e como ainda não sabemos.

RIR É O MELHOR REMÉDIO

Em Kisumu existe o supermercado mais estranho que já vi. Fazemos as compras todas e depois se quisermos frescos temos de deixar o carro das compras encostado, subir umas escadas, atravessar toda a zona de bazar e artigos para o lar, voltar a descer escadas, atravessar a zona dos electrodomésticos e lá no meio temos a fruta e os vegetais… é estranho!

O inglês também pode ser uma língua muito traiçoeira.

– Where did they go?

– They’re just there… maybe having a quicky (LOL)

– Oh look, they’re coming!

Continuo a não perceber nada do que as pessoas dizem e acho que elas também não me percebem a mim. É fatal. Tentei combinar um almoço com uma pessoa que conheço, pelo telefone e deu nisto. Eu estava no Italian Lounge a trabalhar e combinei encontro no Nakumat downtown à 1h da tarde. À 1.15h eu ligo a perguntar se estava muito atrasada. Ela diz que está á minha espera no Italian Lounge. Eu digo que não era lá o encontro mas no Nakumat downtown. Ela diz que já vem a caminho, então. Eu faço umas compras e uma meia hora depois volto a ligar a perguntar onde ela estava. Ela diz que está na porta. Eu digo que estou na porta e não a vejo… concluímos que ela estava no Nakumat Mega City, do outro lado da cidade. Eu respirei fundo… e disse que o tempo tinha esgotado. Tinha outros compromissos e não podia continuar a esperar por ela… e fui para casa fazer o almoço.

A FESTA

Habituada a trabalhar com gente simples e pobre do meio rural e a viver numa casa de cientistas, o mundo da arte fica a mundos de distância da minha realidade. Foi por isso uma surpresa extraordinária dar por mim esta semana numa festa rodeada de músicos, escritores, poetas, pintores, fotógrafos, gente famosa e aspirantes à fama, tudo embrulhado em glamour e bom gosto.
Eu tive de ir a Nairobi. A minha amiga Eva que vive cá em casa, também. Ela tinha de estar presente num evento de lançamento de livros para conhecer umas pessoas que têm interesse para o trabalho dela. Desencaminhou-me para lhe fazer companhia e como eu gosto de livros e não tinha nada melhor para fazer, disse que sim.
A estação das chuvas já começou, na altura certa do calendário e Nairobi estava transformado numa piscina de lama gigante onde os carros flutuavam, parados, horas a fio. A festa, num dos bairros mais bonitos da cidade, numa casa maravilhosa (que descobri depois ser o estúdio e escritório do músico pop, provavelmente mais famoso do Quénia), com um jardim de sonho, foi ligeiramente perturbada pela tempestade. Em vez de velas ao longo do jardim acenderam-se fogueiras poderosas, em vez de assistirmos aos concertos, leituras e performances ao ar livre, montaram umas tendas gigantes abertas para o palco e não sei de onde apareceram dezenas de funcionários a carregar guarda-chuvas gigantes para nos transportar de tenda em tenda (entre o bar, a exposição de livros etc) e em vez de passearmos as nossas roupinhas de festa incólumes (quem as tinha, que não era o meu caso), passeávamo-las na mesma mas decoradas com salpicos de lama, molhadas, amarrotadas sem problema nenhum . O pior foi a chuva forte trazer com ela milhares (sim, mesmo milhares) de insectos voadores que ficam desvairados com a luz e morrem. Era impossível controlar a quantidade de insectos mortos pelo chão e que voavam em todas as direcções. Quase que desisti de entrar na festa. Mas lá ganhei coragem e tirando aquele momento infeliz em que conversava com dois jovens escritores muito interessantes e gritei quando senti qualquer coisa viva na perna, por baixo das calças, fazendo um esforço enorme para não me despir à frente de toda a gente, as coisas até correram bem (corri para a casa de banho, tirei as calças, matei os dois intrusos que lá estavam, respirei fundo e voltei como se nada tivesse acontecido).
Rapidamente percebi que os famosos cá da terra estavam lá em peso e foi engraçado estar a falar com pessoas veneradas pelos outros mas que nós não fazemos a mínima ideia de quem são. Só percebia a dimensão da fama das pessoas com quem me cruzava pela quantidade de flashes e câmaras de filmar que se viravam para nós.
Para surpresa minha e ao contrário da elite endinheirada deste país, a classe artística pareceu-me despretensiosa, bem humorada, culta e composta por gente bonita e interessante. Era uma faceta do Quénia que eu desconhecia, aliás uma das coisas de que sinto mesmo falta aqui é de arte, de música, concertos, exposições, teatro… tudo muito difícil de encontrar. O meio artístico é pequeno, muito restrito a Nairobi e a pessoas muito interessantes, politicamente críticas, dinâmicas, viajadas mas com um profundo desconhecimento do resto do país. A mim pareceu-me que visitei um mundo paralelo durante umas horas, um mundo muito longe do Quénia. Mas soube-me lindamente!

A SOPA

O império britânico não aprecia sopa. Não faz parte da gastronomia (excepto em Zanzibar) e o hábito da sopa quentinha a forrar o estômago não existe. Cá em casa vivem americanos, ingleses e quenianos e o facto de de vez em quando eu me dar ao trabalho de fazer sopa é-lhes estranho. No entanto, se para os americanos e ingleses é estranho mas gostam de provar e até podem gostar, para os quenianos é mesmo uma coisa incompreensível: é demasiado leve para encher a barriga (acham eles de tudo que não é feito de papas de milho e não cola à parede), só tem vegetais (que não alimentam), não leva carne (sem papa de milho e sem carne a humanidade exterminar-se-ia rapidamente segundo o pensamento queniano).
No outro dia fiz creme de cenoura com gengibre, que é uma delicia. Para não me estar a levantar repetidamente pus tudo na mesa ao mesmo tempo, a sopa e o prato principal, que era arroz basmati com caril de vegetais. Servi a sopa e pus toda a gente à vontade para avançar para o prato seguinte caso não gostassem. Os americanos e os ingleses gostaram e comeram tudo. Os quenianos a meio encheram os pratos rasos de arroz, viraram a sopa por cima e disseram-me que ficava muito bem como molho e que assim, com o arroz enchia mais a barriga. Partiram-me o coração.

O QUÉNIA NO SEU MELHOR

Neste país ninguém cumpre horários, de tal maneira, que o mais atrasado dos tugas se sentiria rigoroso como um britânico, por comparação.
Agora, o que ninguém espera é ser castigado por chegar cedo. É o exercício de poder dos tristes.
Tinham ficado de dar uns documentos a uma amiga minha às 11h da manhã, mas ela passou pelo serviço mais cedo, por volta das 10h e resolveu ir ver se estavam prontos, para não ter voltar lá.
Má ideia! Muito má ideia.
A recepcionista, olhou para ela com cara de má e disse-lhe:
– Você veio uma hora mais cedo! Isso é uma grande falta de educação!
– Mas os documentos já estão prontos? – pergunta a minha amiga.
– Já, mas para não voltar a ser tão mal educada não lhos dou. E em vez das 11h, agora só lhos entrego ao meio dia!

INSÓLITOS DO QUOTIDIANO

Não é à toa que eu estou sempre a dizer que vivo em permanente estado de choque cultural. Sabem que, por exemplo, se precisarmos aqui da Polícia além de termos de pagar uma generosa contribuição ao guarda de serviço temos também de pagar a gasolina do carro? Imagino que o subsídio de gasolina de cada esquadra seja destinado ao depósito do carro de luxo do chefe. E o suborno policial, não é suborno nenhum, porque é tão descarado que toda a gente o vê como uma espécie de complemento de ordenado. Mas agora imaginem o pobre do mzungu com a casa assaltada, a chamar a polícia, e do outro lado a dizerem-lhe:
-Mas sabe? Primeiro tem de vir aqui à esquadra, pagar a gasolina do carro patrulha e dar uma “ajudinha” aos guardas de serviço.
E é tal e qual, senão pior, como no caso em que um amigo meu foi à polícia denunciar um assalto à mão armada em que o ladrão ia disparar contra ele mas a bala caiu antes do disparo e o polícia lhe diz:
– Eu nem vou registar essa ocorrência, que disparate. É óbvio que não eram profissionais, porque se fossem não tinham falhado o tiro.
Eu fiquei só a pensar, mas então quem raio é que denuncia os ladrões profissionais?
Mas há mais e melhor! Se precisarem de uma ambulância no Quénia, esqueçam, encomendem a alma a quem entenderem, se for coisa grave ou chamem um amigo automobilizado, se puderem.
Para a ambulância sair do parque do hospital, também é suposto ir lá alguém para pagar a gasolina e o complemento de ordenado dos paramédicos.
Basicamente, todos os serviços de protecção civil requerem pagamento de combustível e complementos de ordenado, o que tendo em conta a qualidade dos profissionais e das viaturas e a quase ausência de equipamento equivale a pagar para o boneco.
O meu conselho é andar sempre com uma mala de primeiros socorros, ter à mão uns quantos números de telefone de gente automobilizada pronta a ajudar e frequentar umas aulas de defesa pessoal para bater nos senhores maus que nos querem roubar mas que não são suficientemente profissionais para nos matar.