FIM DE SEMANA ALUCINANTE

Desde que estou em Kisumu que quero ir ao outro lado da fronteira e o Uganda cumpriu e encantou-me. É lindo, verde, tranquilo, acolhedor, o rio Nilo nasce lá e lá também pode fazer-se rafting num dos percursos de rápidos mais intensos do mundo, no White Waters Nile.

A expedição integrou 3 portugueses e 3 alemães. Saímos das nossas tocas quenianas em diferentes partes do país e lá fomos de autocarro para a outra banda. Primeira percepção: no Uganda as estradas são um espectáculo, sobretudo para quem vai aos trambulhões durante mais de 2h até chegar à fronteira. Chegados a Jinja, a grande surpresa: caminhamos pela cidade até ao nosso alojamento sem ninguém vir atrás de nós a gritar Mzungu, a oferecer serviços… a chatear. Fomos andando pelo centro da cidade encantados com aquela privacidade a que já não estamos habituados, experimentando a cordialidade local na busca do nosso destino por ruas tranquilas bordejadas de árvores e casas lindas. O Explorers Backpackers, onde ficamos é um lugar magnífico onde se pode dormir por $7, comer bem e descansar entre viajantes dos quatro cantos do mundo. Foi também aí que encontramos os primeiros personagens que integraram esta história, desde o recepcionista que gostou tanto do meu nome que me abraçou quase até me partir as costelas, até ao Nash que no último dia, quando estavamos muito atrasadas para o autocarro, saiu do trabalho dele para nos ir lá levar… de borla… coisa nunca vista!

O primeiro dia foi passado a visitar a cidade, que é uma cidade muito especial, muito turística tanto entre estrangeiros como ugandeses e portanto impossível de generalizar o que lá se sente e se passa para o resto do país. De qualquer forma, senti que me fez recuperar um certo estado de encantamento com “África” que há muito não sentia. Fez-me lembrar Moçambique. As pessoas simpáticas e prestáveis, doces, a nostalgia colonial da arquitectura, linda, o verde exuberante, maravilhoso e voltar a ouvir “Por favor” e “Obrigada” fizeram maravilhas ao nosso espirito. Fomos ver a Nascente do Nilo… bem diferente… da do Mondego por exemplo que começa com umas gotinhas a cair de uma rocha. Nada disso! O rio Nilo nasce no Lago Vitória e é grande, largo e imponente desde os primeiros metros de vida. Percebe-se o lugar do parto porque mudam as correntes. Deixam de andar ao sabor do vento e passam a ter ordem e resistência empurrando a água rio acima. Para lá chegar não foi fácil, perdemo-nos pela cidade e a caminho dos barcos que nos levariam lá passamos pelos comerciantes de carvão, pelos pescadores da margem, pelos bairros mais pobres e ficamos com a sensação de “Ups! Acho que não devíamos estar aqui”. Mas era mesmo lá e todos nos trataram bem e arranjamos um barquito para nos levar à ilha no meio do Nilo onde se pode ver a coisa. Ao fim do dia mudamos de poiso. Saímos do Explorers da cidade e fomos para o Explorer Base Camp onde passamos os dias seguintes, a 8km, na margem do Nilo com vistas sublimes sobre os primeiros rápidos do rio.  primeira noite aqui foi absolutamente estranha. Seis residentes estrangeiros no Quéni
a numa mesa de esplanada a partilhar experiências, frustrações e muitas questões sobre o que andavamos a fazer daquele lado do mundo e um rol de personagens incríveis a abordarem-nos, a sentarem-se connosco e a discutir. Parecia que estavamos numa espécie de atendimento ao público. Primeiro chegou o menino americano salvador do mundo. Apresentou-se, sentou-se perguntou quem eramos e que fazíamos. Ele estava no Uganda há quase 2 meses. Ia salvar o mundo através da educação e queria viver em “África” para sempre (só que estava quase a ir embora… afinal tinham sido só uma espécie de férias humanitárias). Acho que nos excedemos um bocadinho na forma como questionámos os valores e as motivações dele, os ânimos acenderam-se e ele saiu da mesa. A seguir veio um ugandês, questionar as questões que tinhamos colocado ao americano. Ficou muito chocado com as nossas opiniões, e sobretudo por não acreditarmos em nada que não passe pelos africanos resolverem sozinhos os seus próprios problemas, a começar pelos governos corruptos que os governam. Também saiu da mesa exaltado. Depois veio outro. Sentou-se e perguntou: afinal o que é que vocês pensam sobre isto? (isto o quê amigo? Donde é que tu saiste?) e lá voltamos ao mesmo. É tão difícil partilhar ideias! Como se não tivessemos já tido emoções suficientes, descobrimos que a carteira de uma das nossas amigas foi roubada neste vai e vem de gente. Ficou sem telefone, sem dinheiro, sem cartões e pior, sem passaporte. Um filme! Teve de ficar para tras e está agora ainda em Kampala, a resolver o problema com a embaixada alemã para poder regressar ao Quénia.

E depois no dia seguinte, lá fomos fazer rafting. Os rápidos têm classificações consoante o perigo que oferecem entre grau 1 (nada) e grau 6 (risco de vida mesmo para os mais experientes). O nosso percurso de 30km incluía vários rápidos de grau 3, 4 e 5 e um de grau 6 que contornamos, por terra com os barcos à cabeça. Eu já tinha experimentado fazer rafting mas nunca com rápidos acima do grau 3 e teria ficado muito feliz por voltar a fazer o mesmo  sem subir no ranking do perigo de vida mas os meus companheiros de viagem não tinham tanto apego à vida e eu como sou uma “Maria vai com todos” não tive outro remédio senão ir com eles. Logo no primeiro rápido a sério o barco virou, fui sugada para o fundo do rio, segui as regras (fechei os olhinhos, embrulhei-me em posição fetal e esperei que o rio me cuspice para a superfícei) e surpreendentemente ganhei confiança. A segurança foi super eficaz e passou-se tudo tão rapidamente que comecei a achar que afinal aquilo não era tão mau como parecia. Foi um dia fantástico, cheio de emoções e adrenalina. No último rápido, o pior de grau 5, depois de termos contornado o 6 fatal, eu olhei para aquela tormenta de correntes revoltadas e pensei 2 vezes antes de entrar no barco, mas depois de tudo o que já tínhamos passado, encolhi os ombros e lá fui. Má hora! O nosso barco encalhou no meio das correntes cruzadas e fomos sacudidos, cuspidos e engolidos pelas águas com violência. Na queda, um dos remos de madeira atingiu-me em cheio na cara e eu fui ao fundo semi-inconsciente. Depois foi o pânico, a dificuldade de sair do meio do rio que me queria engolir, a dor na cara que parecia que ia explodir. Mais uma vez a segurança foi eficaz e lá me salvaram e meteram num barco. Chorei baba e ranho, uma vergonha. Mas o balanço foi muito positivo, apesar de hoje ter um olho negro, uma perna a mancar e dores nos braços de remar 30km. Sobrevivi à parte mais selvagem do Nilo! Claro que ainda há alguns riscos, várias bacterias e parasitas que nos podem ter entrado no sistema, a malária sempre à espreita e surpresa… aquela zona está cheia de moscas tse tse… mas nada que um check up a doenças tropicais não resolva quando voltar à pátria.

Jinja, Uganda, rafting no Nilo… a não perder! It’s once in a lifetime 😉