A PERGUNTADORA NA TERRA DOS FIORDES

Um interregno na experiência africana pode fazer maravilhas, sobretudo se formos para os antípodas do contexto em que vivemos. Ajuda a colocar as coisas em perspectiva e a aliviar a tensão originada pelo estado permanente de choque cultural. Uma conferência em Trondheim, na Noruega. Uma oportunidade para partilhar e discutir os dados da investigação recolhidos até agora Uns dias livres para conhecer um pouquinho a terra dos fiordes. Um artigo para terminar longe do terreno, com outro olhar sobre a realidade. Imensos estereótipos sobre o Norte destruídos a cada minuto que passa. Um cenário natural tão avassalador que nem apetece tirar fotografias porque o produto final é mentira, é menos bonito que o original. Um friozinho de arrepiar que sabe bem como variação ao calor. Um país pintado de cores de Outono para fugir à “monotonia” do verde luxuriante ou do pó e da terra vermelha. Um país de fiordes, rios e lagos para compensar as saudades da água de quem vive em Nairobi. Ar puro e águas cristalinas. A Perguntadora a descobrir coisas novas, feliz e com tempo e condições para processar informações armazenadas.

A conclusão tranquilizadora de que mudar e experimentar coisas novas ajuda a resolver quase tudo.

E a certeza de que o mundo é um lugar plural e diverso e que aí reside toda a sua beleza e encanto.

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MASAI MARA

É o parque natural mais famoso do Quénia e um nome que nos transporta imediatamente para a África dos safaris (no verdadeiro sentido da palavra, uma vez que safari significa viagem em Swahili) e da vida selvagem.

Já lá fui duas vezes. A primeira experiência foi má. Não gostei. A segunda foi uma surpresa, um incidente que colocou o Mara no meu mapa dos afectos para sempre.

Como quase tudo na vida, o resultado final depende de nós, do nosso estado de espírito, da nossa abertura a desafios, da forma como lidamos com a vida… no entanto, quando se trata de um safari em Masai Mara as coisas também dependem um bocadinho de quem nos está a mostrar o parque. Uma pessoa pode ter a maior tolerância do mundo e a maior abertura possível aos desafios mas se der de caras com um tipo como o Cobra (o primeiro guia que me levou ao Mara), funcionário de uma empresa turística de vigaristas que nos cobra muito mais dinheiro do que o inicialmente acordado, senhor de uma enorme falta de educação, profissionalismo e ainda por cima arrogante, não há grande saída. Se juntarmos a tudo isto o facto de ele desconhecer o parque, temos garantido o pior safari de sempre, uma enorme desilusão e dias de tensão garantida. Eu, que sou uma rapariga calminha e ponderada tive vontade de lhe arrancar os olhos várias vezes!

Para mim é um facto que o parque está sobrevalorizado na bolsa turística, é o paradigma do safari de massas, é inexplicavelmente caro e alguns acessos são tão maus que podem estragar o espírito para a viagem antes de lá se chegar. Sobretudo a estrada de Narok, a mais usada, que liga Nairobi ao parque, representa horas e horas de buracos, pó, mais pó e mais buracos e uma viagem penosa e desmotivadora. Isto num país que, para os padrões africanos, até tem estradas decentes e naquele que é o itinerário mais usado pelo turismo, a indústria mais importante do país. Não se percebe muito bem!

Mas adiante… vamos aos aspectos mágicos e inesquecíveis e a algumas dicas para evitar os piores.

O parque de Masai Mara, no sudoeste do Quénia está ligado ao Serengeti, na Tanzania. Basicamente trata-se de dois nomes diferentes para designar uma mesma coisa, que por acaso (ou nem por isso) tem uma fronteira pelo meio e administrações diferentes e nacionalidades diferentes. Ora, nós sabemos isso, a fronteira está lá para toda a gente ver no meio da savana, mas os animais selvagens não sabem e não havendo forma de lhes ensinar coisas tão importantes como o patriotismo, o respeito pelas leis fronteiriças ou o ódio reciproco por terem pertenças territoriais diferentes, eles passeiam-se de um lado para o outro, como sempre fizeram, ignorando as fronteiras dos homens e seguindo apenas os seus instintos de sobrevivência. Esta indisciplina animal dá origem ao mais extraordinário espectáculo do parque: a grande migração, quando milhões de animais circulam entre o Serengeti e o Masai Mara, em busca de água, de alimentos, para acasalar ou para parir.

É fascinante a quantidade de animais que se podem facilmente ver de um lado para o outro durante um pequeno passeio no parque. Então se tivermos um bom guia, que conheça o parque e saiba em que zonas estão as diferentes espécies, o espectáculo é garantido.

A minha segunda visita ao Mara foi inesperada. Um belo jantar em Kisumu, junto ao lago Vitória, uns amigos em férias a conhecer o Quénia, a vontade de ir ao Mara, uma pergunta inocente ao gerente do resort “Vocês organizam safaris?”, um telefonema a um amigo dele que aluga viaturas e quando damos conta tínhamos marcado uma visita de doidos ao Masai Mara, por um preço inacreditável para dois dias depois.

Saída às 5 da manhã, 5h de viagem, por Kisii e através de vales e montanhas verdes. Uma boa estrada que se transforma em picada (e em ringue de lutas na lama se chover, como pudemos verificar no regresso!) nos últimos quilómetros. Chegamos ao Mara a meio da manhã e ficamos sem fôlego quando avistamos a imensidão da savana do topo de uma montanha depois de atravessar uma das regiões mais verdes do país. Lembro que a savana fica a 2000m de altitude e que portanto, nós estávamos bem mais altos. Não há fotografias que façam justiça ao impacto desta paisagem. O horizonte a perder de vista, a savana pintada de mil tons de ocre e amarelo pontuada por pequeninas manchas escuras, que são as acácias, o silêncio imponente, o céu sem fim e aquela sensação de pequenez que nos faz tanta falta, que não quer dizer que somos insignificantes, mas apenas que somos parte integrante de algo bem maior. É maravilhoso!

Chegados à entrada do parque e depois de desembolsar $60 cada estrangeiro e 1000Ksh (cerca de 10 euros) cada residente, que foi o meu caso (apesar de não ser verdade) porque um dos guardas não me queria fazer desconto de estudante e o outro simpatizou comigo e acabou por fazer ainda mais, o desconto de residente, achamos por bem contratar os serviços de um ranger do parque para nos guiar. É a melhor solução e a mais barata. Alugar um carro todo o terreno com motorista e depois no parque os serviços de um ranger, (a partir de 15 euros) que conhece o território e os animais como ninguém.

Depois é um desfilar interminável de espécies, paisagens, emoções e Masai Mara conquista-nos para sempre. E se juntarmos à experiência uma visita a uma aldeia Masai, um dos povos mais emblemáticos do Quénia, nativos da região, que vivem em harmonia com a savana e que andam a ser empurrados de um lado para o outro, em reservas inventadas desde que Masai Mara passou a servir o turismo, temos a cereja em cima do bolo e a garantia de uma experiência absolutamente inesquecível. Claro que como tudo no Quénia, tem um preço. É preciso negociar a entrada com o chefe da aldeia. A mim parece-me mais que justo! Afinal os Masai, que são o povo da savana, são os que menos ganham com a indústria turística e os que mais sofrem por causa dela.

DEFLORESTAÇÃO, SECA E FOME

No Quénia, para muitos o país dos safaris e do grande espectáculo da vida selvagem, a destruição da floresta Mau, ao longo dos últimos vinte anos, tem uma influência directa na diminuição da precipitação, na retenção de água e na alimentação de alguns dos mais importantes lagos e rios da região. A seca que atinge todo o país e a fome que afecta já cerca de 10 milhões de pessoas no Norte são a face mais visível e dramática de um ciclo complexo de irresponsabilidade política e corrupção cujas consequências ameaçam afectar profundamente a estabilidade económica e social, a segurança alimentar e a própria vida selvagem, que tem sido a imagem de marca do país.

Todos nós sentimos de alguma forma os efeitos das alterações climáticas e a discussão das soluções e consequências deste problemas entram-nos todos os dias pela porta adentro através da comunicação social. Sabemos que as estações do ano já não são o que eram, que as catástrofes naturais parecem ser cada vez mais frequentes, que em muitos lugares a água escasseia. No entanto, em muitos países, estas consequências ainda não afectam directamente a maioria da população e as alteração climáticas continuam de alguma forma num patamar abstracto pois continuamos a ter água nas torneiras, electricidade nas tomadas e comida no prato. Infelizmente, o mesmo não se passa em todo o mundo e em muitos lugares a seca, a fome e os conflitos armados são consequências directas da destruição ambiental e das alterações climáticas. O Quénia é, actualmente, um bom exemplo desta cadeia de situações extremas e um testemunho importante para melhor compreendermos a dimensão concreta deste problema.

A floresta Mau, cinco vezes maior que a província de Nairobi, a sudoeste das Terras Altas, tem uma das maiores taxas de precipitação do Quénia e constitui a maior zona de retenção de água do país. Aí nascem doze rios e a floresta alimenta mais de vinte e cinco cursos de água que por sua vez alimentam cinco lagos da região incluindo o Lago Nakuru, no centro do parque natural com o mesmo nome, um dos mais famosos do país, que acolhe anualmente milhares de flamingos em migração e é lar para muitos outros animais selvagens incluindo a maior população de rinocerontes brancos do Quénia, o Lago Naivasha, essencial para uma das principais actividades económicas da região, a produção de flores e o próprio Lago Vitória, o segundo maior lago de água doce do mundo, fundamental para a economia e o equilíbrio ambiental do Quénia, do Uganda e da Tanzânia.

Originalmente, a floresta era povoada pelo povo Ogiek, que eram fundamentalmente caçadores-recolectores e cujas actividades tinham um impacto muito reduzido no ecossistema.
No entanto, a partir de finais da década de oitenta e sobretudo durante os anos noventa, tudo mudou. A floresta Mau, com terras extremamente férteis, passou a ser encarada não como bem público, mas como um bem de interesse político e começou a ser uma prática comum a concessão de terrenos florestais em troca de favores políticos e para pagar serviços de vária ordem. Para além dos vários membros do parlamento que são grandes proprietários (ou foram e entretanto venderam os terrenos com lucros elevados), há inúmeros funcionários públicos que foram beneficiados com terrenos no Mau, como os antigos militares que constituíram a força de manutenção de Paz na Serra Leoa. O antigo presidente Daniel Arap Moi, por exemplo, é proprietário de uma das maiores plantações de chá do Quénia, em plena floresta.
Desde o início da ocupação sistemática do Mau até aos nossos dias, cerca de 40% da floresta foi destruída para dar lugar à actividade agrícola, que por sua vez recorre tradicionalmente a práticas ambientalmente insustentáveis, como o “cortar e queimar”, ou seja, abater árvores e queimar floresta para criar terrenos de cultivo que em poucos anos se esgotam perpetuando este ciclo de destruição. A redução significativa deste ecossistema originou por sua vez uma redução gradual dos níveis de precipitação que aqui são fundamentais para alimentar os inúmeros rios que levam a água a vários pontos da região. Em algumas regiões do país não chove há dois anos e as últimas épocas das chuvas têm registado níveis de precipitação bastante reduzidos. Talvez mais grave ainda do que a diminuição das chuvas é o facto de a destruição da floresta reduzir a capacidade de retenção de água do Mau, que sempre serviu de “central” natural de captação e distribuição de água. Portanto, para além de chover pouco, quando chove a água perde-se rapidamente.

Várias ONGDs e organizações ambientalistas, incluindo o famoso Green Belt Movement alertam há anos, em vão, para os perigos associados à destruição da floresta Mau. Outras tantas, mais recentemente, alertam para a situação grave de crise alimentar no Norte do país, mas ninguém estava sintonizado nesta frequência e a mensagem perdeu-se. O Norte do Quénia é uma espécie de Terra de Ninguém. É terra de refugiados provenientes dos vários conflitos armados nos países vizinhos (a Somália, a Etiópia, o Sudão), de tráfico de armas e circulação de mercenários e bandidos. É uma terra sem lei, para onde não é possível viajar sem “security permit”, sem escolta armada, onde as estradas pavimentadas são praticamente inexistentes e para onde não circulam transportes públicos. As populações locais, isoladas, estão entregues a si próprias e ao apoio intermitente e difícil de algumas organizações internacionais. Mas quando a seca começou a afectar as principais regiões agrícolas do país, quando os rios começaram a secar, o nível dos lagos e das barragens a baixar e sobretudo, quando a água e a electricidade começaram a ser racionados em Nairobi, o problema passou a ser encarado com seriedade. Tarde de mais, infelizmente, para os cerca de 10 milhões de pessoas que precisam de assistência alimentar para sobreviver. Há muitos anos que não se assistia na televisão a imagens recorrentes de seres humanos esqueléticos a morrer de fome. Mas da mesma forma que o Norte é Terra de Ninguém no Quénia, o Quénia é Terra de Ninguém para o resto mundo e para comunicação social internacional.

No dia 6 de Agosto o City Council de Nairobi iniciou o racionamento de água e electricidade na cidade (que se estende a todo o país, em vários casos de forma mais severa). Nas zonas residenciais a electricidade é suspensa entre as 6h da manhã e as 6h da tarde 3 dias por semana, mas nos bairros de lata, como em Kibera, onde só aí vivem mais de 500 mil pessoas, só há água um dia por semana e quase nunca há electricidade. A conta atribuída aos mais pobres na factura da Seca é muito mais elevada, aumentando os riscos de epidemias de cólera e outras associadas à falta de higiene que só contribuirão para agravar ainda mais o problema. Além do mais, muitos pequenos comerciantes estão a ser afectados pelo racionamento, obrigados a fechar os seus negócios e a despedir empregados. Mas nem só os seres humanos estão a sofrer com a falta de água. Em alguns Parques Naturais o Kenya Wildlife Service tem de fornecer água aos animais, uma vez que os seus pontos de água secaram, e em alguns casos, tem mesmo de transferir alguns animais em perigo, como é o caso dos hipopótamos em locais onde os seus lagos baixaram drasticamente expondo os animais ao Sol. Os pastores também têm sofrido violentamente os efeitos da seca e nem mesmo medidas de última hora do governo, como a compra de animais em risco, para abate e utilização da carne, tem resultado. Alguns pastores Masai, por exemplo, perderam centenas de cabeças de gado e é comum hoje em dia encontrar animais mortos na berma das estradas, como a caminho do Parque Nacional de Amboseli, um dos mais famosos do país, voltado para o Kilimanjaro.

A escalada de problemas expostos pela comunicação social e de debates sobre o problema da seca, da fome e da necessidade urgente de reflorestação da floresta Mau tem sido impressionante. As etnias que se dedicam tradicionalmente à pastorícia, com o gado a morrer por falta de pasto começam a invadir terrenos agrícolas de outros grupos tradicionalmente agricultores e o rastilho dos tão temidos conflitos étnicos pode acender-se a qualquer momento. O conflitos são já muitos, a água é defendida com armas, a comida também. O governo decidiu responder à crise com a expulsão de todos os agricultores da floresta Mau para que se possa proceder à reflorestação. O antigo presidente, voltou à vida pública para dizer que a culpa não é dele, que não fez nada ilegal e que tudo não passa de uma campanha contra ele e o seu antigo governo. O caos está instalado. A única boa notícia, é que pelo menos aqui, agora, o tema está a ser discutido por todos e em todo o lado e a sensibilização para a protecção ambiental está a crescer. O maior perigo, é que tal como acontece com o racionamento de água e de luz, a maior conta desta factura seja paga pelos mais pobres e desprotegidos. A reflorestação do Mau é essencial, mas este processo não pode cair no mesmo padrão de irresponsabilidade social e má gestão que caracterizou a destruição da floresta. As várias campanhas de reflorestação que surgem todos os dias precisam de planeamento. Não basta ir para a floresta plantar árvores, lavar as mãos e vir embora. Os habitantes do Mau, na sua grande maioria não ocuparam ilegalmente as terras onde vivem, compraram-nas ou receberam-nas de alguém e têm títulos de propriedade e precisam ser indemnizados e tratados também com justiça para recomeçarem as suas vidas em outros locais. Os pequenos agricultores, que são a grande maioria, cerca de 15 000 pessoas, não podem simplesmente ser expulsos das terras onde vivem e servir de bode expiatório para o problema da destruição do Mau, quando foram apenas actores de uma peça dramática escrita por maus gestores e maus políticos.

Apesar dos efeitos dramáticos da destruição da floresta Mau, que afectam o quotidiano de todos os quenianos neste momento, esta pode ser uma oportunidade excelente para criar maior consciência na população relativamente à necessidade de protecção do ambiente e nomeadamente da preservação de florestas, para introduzir campanhas educativas que permitam aos pequenos agricultores aprender formas de cultivo mais sustentáveis e para planear a reflorestação e a gestão de recursos ambientais. Resta saber se os actuais políticos são melhores que os anteriores, mais responsáveis e melhores gestores e se vão aproveitar ou não esta oportunidade.