Kunene, versão National Geographic

Sete horas de viagem para ir e vir a Ombala ya Mungo. Duas das quais em estrada nova, alcatroada. Depois de me conformar com a impossibilidade de ir à Namíbia, mesmo aqui ao lado, por não ter um visto de múltiplas entradas e com a impossibilidade de ir a Kuroca, no extremo da província (montanhas, Koi San e populações isoladas que ainda estão agora a ser “descobertas”) por ser muito remoto, eis que a vida me surpreende. Tinha feito as pazes com o “modo trabalho” e a ideia “não estou aqui para passear” mas hoje, ao visitar, em trabalho, a Ombala ya Mungo, a uns 150 km da cidade dou por mim numa espécie de aventura “National Geographic”.

ImageImageImage

Visitei o meu primeiro Kimbo, por mero acaso, porque era a casa de um dos professores que nos acompanhavam e ele quis ir cumprimentar a mãe. Não é mais do que uma casa de família no mato, mas é muito mais do que qualquer referência nossa possa imaginar. Imaginem uma quinta toda cercada com paus afiados espetados. Lá dentro, vacas e cabras, muitas, ou não estivessemos em terra de criadores de gado (um pesadelo para quem não come carne), alguma terra cultivada e alguns qilómetros depois nova cerca, alta, mais alta que eu e uma espécie de aldeia lá dentro. A “aldeia” é a casa da família. Logo na entrada 4 casas de pau e palha são os aposentos dos rapazes. Depois uma casa maior em chapa e com janelas de vidro. Era a casa do professor e outros irmãos casados tinham casas idênticas. Depois um caminho estreito levava aos aposentos das raparigas (nada de misturas) e ao pátio das visitas e dos homens. Este é um espaço a céu aberto, cercado por paus altos, com troncos estendidos para as pessoas se sentarem, uma fogueira no meio e caveiras de vacas e cornos a servir de decoração. Quem vai visitar o Kimbo, entra e aguarda ali que o venham receber e convide depois, ou não, para entrar em aposentos mais intímos. Pareceu-me que a espera pode durar horas até alguém dar conta de ter visita em casa. E isto é assim só para os homens. Se a visita for mulher, entra directamente pelo Kimbo adentro, até à palhota da cozinha, que é o lugar delas, ora pois claro. Mais para o interior do Kimbo e por entre casas de adobe, de chapa, galinheiros, cães, cabras, galinhas, crianças aos magotes e celeiros chega-se à “sala”, uma construção redonda, em adobe e palha, com uma entrada que não tem nem um metro de altura. Lá dentro, bancos de paus toscos e um tecto de palha, cheínho de teias de aranha (demasiado baixo para o meu gosto), acolhem a família ou os visitantes mais ilustres.

Image

O nosso professor deixa-nos à vontade e vai algures buscar a mãe para nos cumprimentar. Chega passado pouco tempo e diz-nos que ela não vem porque está incomodada. Caneco, não era caso para tanto, pensei eu, a senhora se não gosta de visitas fazia um sacrificiozinho que nós também já íamos sair. Mas entretanto, começo a ouvir perguntar, se está mesmo muito incomodada ou só um pouco. Era só um pouco, e já estava a passar. Malária? perguntaram. Parece que sim e já está medicada. Suspirei de alívio, até porque já tinha tido a minha dose de constrangimentos sociais no dia anterior. E de facto as doenças incomodam, parece-me um termo muito bem escolhido.

ImageImage

E pouco depois lá saímos do Kimbo do professor e fomos visitar a escola onde a comunidade contruiu 6 salas de aula com paus e chapa mas duas turmas ainda tinham aula debaixo da árvore. E muito mais haveria para contar, incluindo a visita ao cemitério apinhado de mortos, mas estou pra morrer… de sono e por hoje só queria deixar aqui a descrição do precioso Kimbo para não me esquecer.

Kunene adentro…

Hoje foi dia de encontro com a comunidade local e os líderes tradicionais.  Saímos da escola para o mato e fomos primeiro na casa do Soba. Entramos na picada e lá fomos percorrendo as entranhas do Kunene para lá das estradas, dos edifícios novos, dos camiões da Namíbia, dos comícios barulhentos do MPLA (que a partir das 6.30 da manhã convocam os militantes de megafone em punho “Militante do MPLA, acorda! Vem pró comício do teu povo!”).

Image

Ali eramos só nós, os imbondeiros, as núvens de pó, o silêncio e os pássaros azuís à nossa volta. A casa do Soba é igual a tantas outras casas tradicionais: uma espécie de condomínio fechado familiar com cerca de paus, casa de dormir, casa de comer, cozinha,  curral e celeiros, gente e animais e o cantinho para recepção dos convidados debaixo da árvore. (O raio da árvore tinha um vespeiro e eu ia morrendo, mas isso não interessa nada. Engoli o medo, ignorei o zumbido à minha volta e fiz o que tinha a fazer como uma lady. Nem um ai!)

Conseguimos pular os cumprimentos tradicionais que podiam demorar quase uma hora e que implicam uma lengalenga de perguntas e respostas convencionadas, acompanhadas por fortes apertos de mão e acenos com a cabeça. Para todos os efeitos sou a representante do governo da Finlandia e deveria ter honras especiais e passar pelo ritual todo. Mas o espanto perante a minha cabeleira afro e o meu Português escorreito, de quem esperava uma “visita” loira e incompreensível, facilitou as formalidades. Cumprimentos, vénias, sorrisos, bom dia e obrigada por nos receber ficou mais do que suficiente.

Depois do encontro com o Soba, esperava-nos a comunidade da aldeia, na igreja, em frente à escola, a uns quilómetros dali. Mais pó, mais imbondeiros, mais silêncio e pássaros azuis. A igreja, são uns paus com uma chapa em cima a cobrir um altar improvisado, com um pano gasto, comemorativo da visita de João Paulo II a Angola e filas de bancos de plástico por baixo das árvores. O Soba chega de mota atrás de nós e toma o seu lugar ao lado do pastor, do professor, dos secretários e dos catequistas que compõem a elite da comunidade. O povo, homens de um lado e mulheres do outro, aguardam que os ilustres locais e convidados tomem os seus lugares.

Image

Vejo novamente a surpresa no rosto das pessoas, a estranharem-me e vejo os sorrisos rasgados, de alívio, ao som do meu “Bom dia!”, uma das poucas palavras que as pessoas conhecem em Português (estamos em terra do Cuanhama) mas que as faz sentirem-se imediatamente mais confortáveis. Tenho um tradutor. Por cada palavra que eu digo ele faz um discurso e gesticula imenso e as pessoas batem palmas no fim. Digo mais meia duzia de palavras e segue-se mais um discurso, mais gestos exuberantes e mais palmas. Começo a fazer perguntas directas às pessoas. Os homens respondem-me com discursos. As mulheres, com os braços cruzadas sobre o peito respondem-me com poucas palavras mas com rostos transparentes. Peço ao tradutor para me traduzir o que os homens dizem e eu sozinha, quase consigo ler na cara das mulheres o que estão a dizer sem perceber uma palavra de Cuanhama. A tradução lá vai confirmando e dando pormenores e o encontro com a comunidade transforma-se num vai e vem de línguas, perguntas, reflexões, queixas e inquietações.

No final perguntam se ficamos para a missa. Duas horas de homilia em Cuanhama parecia-me perfeitamente dispensável. Olho desesperada para os meus acompanhantes que percebem a minha aflição e dizem que temos outros compromissos marcados. Sorrio e encolho os ombros. Estico a mão e começo nova ronda de formalidades “informais” com os membros ilustres da comunidade. Agradeço aos outros e saímos da igreja ao som de palmas e cânticos de volta ao jipe que por entre o pó, os imbondeiros, o silêncio e os pássaros azuis nos traz de regresso ao mundo.