Bay of Tigers

“Today I have a new book you will love to read. It’s the ‘Bay of Tigers'” e eu sorri. Tentarem vender-me a “Baía dos Tigres” em Nairobi tantos anos depois de o ler pela primeira vez foi, no mínimo, insólito.

Em 1997 eu ainda não tinha posto os pés em África, nem em lado nenhum para além da Península Ibérica, e o rastilho que daria origem uns anos depois ao meu Big Bang ainda mal se tinha acendido, mas nesse ano, antes de o meu universo começar a expandir-se, o Pedro Rosa Mendes, jornalista do Público, partiu para uma viagem extraordinária, durante meses, por terra, de Angola a Moçambique. A “Baía dos Tigres” é o relato dessa viagem. Só que a viagem não foi um safari idílico ao interior do continente africano, foi uma espécie de descida ao Inferno, através da guerra civil em Angola e de um continente marcado por conflitos, miséria e violência. É um livro duro de ler mas extraordinário.

Lembrei-me muitas vezes dele quando em 2005 fui pela primeira vez a Angola e tal como ele (apesar de a guerra já ter acabado), não conseguia ver para além da destruição, dos edifícios e casas do Huambo cobertos de buracos de balas, dos tanques abandonados na berma da estrada, das carcaças de carros incendiados, dos painéis gigantes com centenas de fotos de crianças desaparecidas. Uma África bem diferente da dos relatos dos exploradores clássicos em busca do exótico e como o autor refere ” There is no scenery, no villages, no people around fires, or elephants silhouetted against the sky. I could speak of such things, I was hoping to, but it would be a lie.”

Foi difícil para mim ultrapassar estas imagens e encontrar beleza humana e natural em Angola, que é um país fantástico e reli a Baía dos Tigres outra vez quando voltei, dessa vez com uma sensação de intimidade, porque era capaz de reconhecer os lugares, as situações, alguns personagens. E o livro ficou sempre associado a esta minha experiência dura e riquíssima dos primeiros anos do meu Big Bang.

Foi por isso estranho ir a Nairobi e recomendarem-me o livro. Deixem-me só explicar uma coisa: em Nairobi há uma boa livraria, não, em Nairobi há uma excelente livraria, daquelas onde os livreiros não são vendedores de livros mas apaixonados por livros e onde se criam laços e empatias com os clientes. Eu desgraço-me de cada vez que lá vou. Adoro passar às vezes horas a conversar com um dos donos e ouvi-lo falar dos clássicos africanos, dos últimos lançamentos, das coisas que ele anda a ler. Por incrível que pareça, nestas intimidades literárias a nacionalidade das pessoas não tem importância nenhuma e o senhor apesar de me conhecer bem e de saber já que tipo de livros me interessam, me emocionam ou me aborrecem, não sabia que eu era Portuguesa e falava-me da Baía dos Tigres e do autor como se tivesse descoberto uma pérola num lugar exótico e distante. Quase, quase que comprei a edição em inglês para ver a tradução, mas resisti e fiquei-me por uma bela conversa com direito a capuccino, sobre Angola e Portugal e as armadilhas da História e as histórias da vida.

BY THE SEA

Eis um livro raro, daqueles que nos seduzem e nos fazem sentir infelizes quando lemos a última página porque a magia terminou.

O narrador desta história é Saleh Omar, um exilado político improvável da longínqua Zanzibar, que tem por bagagem uma preciosa caixa de mogno com incenso. “I am a refugee, an asylum seeker. These are not simple words, even if habit of hearing them makes them seem so. I arrived at Gatwick airport in the late afternoon of 23 November last year. It is a familiar minor climax in our stories, leaving what we know and arriving in strange places, carrying little bits of jumbled luggage suppressing secret and garbled ambitions.”

Não se trata de um jovem, perseguido por motivos políticos ou outros, mas de um idoso, no fim da vida que atravessa o mundo em busca de paz e redenção. Ao contar-nos a sua história, abre-nos a porta e convida-nos a entrar num mundo que em muitos aspectos já não existe, a Zanzibar do início do século XX, do grande mercado das especiarias, das histórias coloniais.

O mar, que vê ao longe, através da janela da casa onde mora, numa pequena localidade costeira inglesa é praticamente o único elo de ligação entre duas vidas, a  actual no exílio e a outra, em Zanzibar, onde o azul e o cheiro do mar contaminavam um quotidiano feito de outros rituais, de outros ritmos e de outras cores. O Mar e um outro homem, Latif Mahmud, alguém intimamente ligado ao seu passado. E através do encontro entre estes dois homens renascem emoções adormecidas de amor, traição, ódio com origem numa ilha distante ao largo do Índico, noutro mundo, noutro tempo.

O autor deste romance, Abdurazak Gurnah, é também ele um filho de Zanzibar, onde nasceu em 1948, antes de ir estudar para Inglaterra, em 68, onde é actualmente professor de Literatura, na Universidade de Kent. Alguém disse um dia (supostamente alguem famoso, cujo nome não me recordo) que um escritor deveria escrever sempre sobre coisas que conhece. Gurnah fá-lo sem dúvida e com uma mestria e elegância absolutamente sedutoras.

Excerto

“She was nineteen, and I was thirty-two, not as big a difference in age as it might sound to some ears now. She had spent five or six of those years in the dark, proving and ripening until a man came to ask for her. She had never been anywhere, hardly ever read and did not even listen to the radio. Her days in those years were the work and pleasures of the house, and decorating and preening herself to receive and visit other women in similar restraint to herself. While I travelled, acquired a little, very little, learning, worked for the British and thereby understood something of the workings of our irredeemable world, set up a prosperous business and owned two houses. We had ardly spoken, had never been alone together before our wedding, I had not even seen her standing without the black shroud around her. Yet we were fortunate and had few difficulties in the beginning of our life together. She loved the house as I did, and loved for us to sit in the upstairs room, the outer veranda door open to the sea a few feet away, and the other door open to the balcony over the inner courtyard, listening to the radio or playing cards. There we spoke and told each other things we had never said before. And I new then what a desert my life had been before that, and learnt the sweetness of silence between companions.”