Kunene adentro…

Hoje foi dia de encontro com a comunidade local e os líderes tradicionais.  Saímos da escola para o mato e fomos primeiro na casa do Soba. Entramos na picada e lá fomos percorrendo as entranhas do Kunene para lá das estradas, dos edifícios novos, dos camiões da Namíbia, dos comícios barulhentos do MPLA (que a partir das 6.30 da manhã convocam os militantes de megafone em punho “Militante do MPLA, acorda! Vem pró comício do teu povo!”).

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Ali eramos só nós, os imbondeiros, as núvens de pó, o silêncio e os pássaros azuís à nossa volta. A casa do Soba é igual a tantas outras casas tradicionais: uma espécie de condomínio fechado familiar com cerca de paus, casa de dormir, casa de comer, cozinha,  curral e celeiros, gente e animais e o cantinho para recepção dos convidados debaixo da árvore. (O raio da árvore tinha um vespeiro e eu ia morrendo, mas isso não interessa nada. Engoli o medo, ignorei o zumbido à minha volta e fiz o que tinha a fazer como uma lady. Nem um ai!)

Conseguimos pular os cumprimentos tradicionais que podiam demorar quase uma hora e que implicam uma lengalenga de perguntas e respostas convencionadas, acompanhadas por fortes apertos de mão e acenos com a cabeça. Para todos os efeitos sou a representante do governo da Finlandia e deveria ter honras especiais e passar pelo ritual todo. Mas o espanto perante a minha cabeleira afro e o meu Português escorreito, de quem esperava uma “visita” loira e incompreensível, facilitou as formalidades. Cumprimentos, vénias, sorrisos, bom dia e obrigada por nos receber ficou mais do que suficiente.

Depois do encontro com o Soba, esperava-nos a comunidade da aldeia, na igreja, em frente à escola, a uns quilómetros dali. Mais pó, mais imbondeiros, mais silêncio e pássaros azuis. A igreja, são uns paus com uma chapa em cima a cobrir um altar improvisado, com um pano gasto, comemorativo da visita de João Paulo II a Angola e filas de bancos de plástico por baixo das árvores. O Soba chega de mota atrás de nós e toma o seu lugar ao lado do pastor, do professor, dos secretários e dos catequistas que compõem a elite da comunidade. O povo, homens de um lado e mulheres do outro, aguardam que os ilustres locais e convidados tomem os seus lugares.

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Vejo novamente a surpresa no rosto das pessoas, a estranharem-me e vejo os sorrisos rasgados, de alívio, ao som do meu “Bom dia!”, uma das poucas palavras que as pessoas conhecem em Português (estamos em terra do Cuanhama) mas que as faz sentirem-se imediatamente mais confortáveis. Tenho um tradutor. Por cada palavra que eu digo ele faz um discurso e gesticula imenso e as pessoas batem palmas no fim. Digo mais meia duzia de palavras e segue-se mais um discurso, mais gestos exuberantes e mais palmas. Começo a fazer perguntas directas às pessoas. Os homens respondem-me com discursos. As mulheres, com os braços cruzadas sobre o peito respondem-me com poucas palavras mas com rostos transparentes. Peço ao tradutor para me traduzir o que os homens dizem e eu sozinha, quase consigo ler na cara das mulheres o que estão a dizer sem perceber uma palavra de Cuanhama. A tradução lá vai confirmando e dando pormenores e o encontro com a comunidade transforma-se num vai e vem de línguas, perguntas, reflexões, queixas e inquietações.

No final perguntam se ficamos para a missa. Duas horas de homilia em Cuanhama parecia-me perfeitamente dispensável. Olho desesperada para os meus acompanhantes que percebem a minha aflição e dizem que temos outros compromissos marcados. Sorrio e encolho os ombros. Estico a mão e começo nova ronda de formalidades “informais” com os membros ilustres da comunidade. Agradeço aos outros e saímos da igreja ao som de palmas e cânticos de volta ao jipe que por entre o pó, os imbondeiros, o silêncio e os pássaros azuis nos traz de regresso ao mundo.

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Párem lá de ajudar os pobrezinhos…

Era uma vez uma escola rural num país pobre. Muitas das crianças iam para a escola sem comer e a vida em geral era muito difícil. Um dia o governo fez um acordo com uma organização humanitária americana para que esta doasse a farinha necessária para se fazer papas de milho. A comunidade foi mobilizada para que as mães rotativamente cozinhem na escola e sirvam a refeição ao final da manhã. O Governo está feliz porque tem mais crianças na escola e está mais perto de cumprir mais um ODM, as crianças estão felizes porque podem comer pelo menos uma refeição por dia e os pais estão felizes pela mesma razão.

Esta cena de vir às lágrimas acontece numa região onde praticamente só se produz milho e arroz. Só que quando a colheita é boa o milho excedente não se vende porque a aldeia está cheia de milho gratuito daquela generosa organização, ou então as pessoas não conseguem fazer farinha por não terem dinheiro para pagar a moagem pois não conseguem obter nenhuma forma de rendimento. Quando a colheita é má e as coisas pioram ainda mais, as pessoas ficam sem forma de comprar sementes para voltar a plantar os campos. Felizmente, podem contar sempre com os senhores Macgovern e Dole, os dois magnatas do sector agrícola, antigos senadores americanos, que criaram a organização que envia a farinha de milho para a comunidade.

Esta foi a história com que me deparei hoje de manhã numa comunidade pobre eternamente agradecida aos senhores americanos que lucram e perpetuam a pobreza deles. Quando vi os sacos de milho “USAID – not for sale” empilhados na escola fiquei doente e em conversa com várias pessoas cheguei a pensar que lhes ia provocar um curto circuito cerebral por questionar aquela doação e argumentar que eram apenas vantajosas para os agricultores americanos. Estou um bocado cansada de assistir vezes sem conta às mesmas histórias de terror disfarçadas de contos de fadas. Só me apetecem dizer: “Acordem, meus amigos!”

NO REINO DA BICHARADA

Nhamatanda é um paraíso para os insectos e o inferno para mim. Está a dar-me cabo dos nervos :). Já passei por muitos sítios, já levei com muita fauna, mas nunca nada como aqui. A escola onde estou tem boas instalações mas está mesmo no meio do mato cerrado. Os jardins são lindos, exuberantes e a envolvente é mato denso e floresta. Muito bonito, sem dúvida. Muito fresco, cheio de sombra, passarinhos, flores e até árvores de fruto… que lindo! Na verdade é uma emboscada. Uma pessoa pensa que chegou a um jardim do Éden e nunca mais tem sossego. Os mosquitos, aos montes e agressivos são o menor dos meus males e ainda por cima a escola e o internato estendem-se por uma área enorme e o meu quarto, no bloco destinado a visitas, fica afastado de tudo. Uma chatice que além de me perturbar o convívio social me obriga a andar uns 300 metros por um caminho de terra e capim, sem luz nenhuma à noite. Dá um bocado de medo! Comecei a ver a minha vida andar para trás quando comecei a caminhar pelos trilhos da escola e a ver uma incrível diversidade de fauna a saltar e voar a cada passo meu e para confirmar os meus receios, o meu guia diz-me para caminhar com passos pesados nos sítios com mais capim para as cobras se afastarem com a vibração. Ai o caraças! Desde a primeira hora só tenho tido confirmações da adversidade do lugar. Tenho sempre criaturas a zumbir à minha volta, a pousar em mim e a povoar o meu quarto sem eu perceber por onde entram. Para piorar tudo (sim, é possível!) hoje choveu e a fauna triplicou e anda doida. Neste momento, por exemplo, estou a escrever só com a luz da casa de banho a ver se eles se mandam para lá e mesmo assim não param de me aterrar insectos no monitor atraídos pela luz. As paredes e o chão estão cheios de insectos mortos à chinelada e de caminho vou barricar-me debaixo do mosquiteiro, preso debaixo do colchão. Entretanto estou a ouvir os Moonspell a ver se o vozeirão do Fernando Ribeiro me impõe algum medo à bicharada e estou a fumar cá dentro na esperança de os matar por intoxicação. Vão ser difíceis os próximos dias!

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E entretanto fez-se dia e eu mal dormi, mas foi muito engraçado ao pequeno-almoço, eu com vergonha de dizer que estava aterrorizada com a bicharada e os meus anfitriões muito preocupados e solidários comigo. Eu com medo de me acharem uma betinha e eles, muito queridos, a dizer que era mesmo assim, que até para eles que estavam habituados aos bichos havia alturas em que aqui era demais e fizeram-me mesmo sentir melhor quando me disseram “Mas olha, o outro consultor que esteve aqui antes nem ia para o quarto sozinho e era homem! Quando nós vimos você ir pelo mato de noite, sem luz, até ficamos pasmados.” Pois, eu também ando uma bocado pasmada com a fauna, mas esta gente é um amor, e neste momento estão a pulverizar o quarto e a retirar os cadáveres da noite e a tomar providências a ver se hoje a coisa corre melhor 🙂

O MUNDIAL VISTO A PARTIR DO QUÉNIA

Nesta minha bancada de onde assisto ao Mundial “africano”, pouco vejo de festa e entretenimento e assisto a um jogo económico-simbólico perverso manipulado por grandes empresas e interesses políticos.

Todos sabemos que as quantias de dinheiro e os interesses de vária ordem envolvidos num campeonato deste género são imensos mas acho que nunca foram tão perversos como agora. A partir desta bancada eu vejo um continente inteiro em bicos de pés a acenar ao mundo, e vejo uma poderosíssima máquina simbólica a usar e a reforçar um sentimento de inferioridade colectivo.

Uma das consequências mais preocupantes deste mundial é a generalização, o reforço da ignorância internacional em relação ao continente. O Mundial é da África do Sul, e dificilmente haveria condições para o realizar em outros países africanos mas vende bem falar de África, essa massa continental onde raramente se distinguem geografias, culturas e histórias e à qual se associa apenas pobreza, guerras, ignorância e subdesenvolvimento, numa homogeneização absurda do Mediterrâneo ao Cabo. É muito frustrante trabalhar para mudar esta visão redutora de um continente inteiro e de repente ver esta brutal máquina simbólica a vender esta imagem aos próprios africanos, que veem este campeonato como um jogo de vida ou morte entre África e o mundo, a preto e branco. A manipulação é tão grande, a mensagem é tão forte, que num país onde ninguém é queniano, onde o sentimento de pertença a uma nação não existe de todo, onde cada um se auto-limita nas suas fronteiras étnicas e considera outros concidadãos inimigos, de um dia para o outro, tornaram-se todos “africanos” contra o mundo e cada jogo é uma batalha onde se joga a honra de um continente inteiro. Num instante a vuvuzela se tornou num instrumento tradicional e num símbolo “africano” . E ai de quem criticar aquele zumbido absurdo dos estádios, porque está contra a África inteira e a desprezar a África inteira. Curiosamente nunca se viram vuvuzelas pelo Quénia antes. E ai de quem apoiar qualquer equipa que jogue com uma equipa africana, ou de quem critique o mau desempenho de uma equipa africana pois é uma atitude altamente racista e de desprezo para com África. E claro que quando as equipas africanas perdem é o resultado de uma enorme conspiração internacional contra África.

A ideia de um sentimento colectivo de valorização e pertença africana também me seduziu no início, uma pequena pedra a ajudar à construção da União Africana que tão importante seria para os vários países e cidadãos do continente, mas a realidade vista da bancada do Quénia rapidamente me desiludiu. Os vários atentados contra os direitos humanos na África do Sul foram ignorados. Ouve muitos africanos explorados na construção dos estádios, muitos africanos que ficaram sem casa ou sem os seus negócios de beira de estrada porque a polícia sul africana quis “limpar” o país e dar uma imagem destorcida aos turístas e houve muitos, mesmo muitos africanos que não conseguiram visto para assistir aos jogos. Um processo muito fácil para qualquer não africano, mas quase impossível para os africanos comuns no grande Mundial de África, pois o país anfitrião temia que os vizinhos usassem o campeonato para imigrar e depois aí residir ilegalmente. E nunca aqui ouvi ninguém, absolutamente ninguém, questionar nada disto, ou o facto de nem mesmo a maioria dos sul africanos beneficiar economicamente com o evento (quanto mais os outros!), ou o facto de se estar a gastar imenso dinheiro em estruturas para “inglês ver” num país (a África do Sul e não “África” como tanta gente confunde) onde há tantas necessidadedes mais básicas e importantes.

Aqui da bancada do Quénia este campeonato esteve perdido desde o início. Gostava de ter visto o mundial servir para levantar vozes africanas contra o neo-colonialismo  económico, para ver africanos defenderem o respeito pelos Direitos Humanos em África, para assistir ao despertar de um  genuíno sentimento de partilha com outros países africanos na luta por interesses comuns. Mas não, aqui assistiu-se a uma telenovela que promovia a FIFA, a MTN, a Coca Cola e outros através da manipulação simbólica do Mundial de Futebol. No Quénia, onde hoje todos são “africanos”, em Agosto, aquando do referendo da Constituição, nem sequer serão quenianos e poderemos assistir ao reacender da violência que se seguiu às últimas eleições. Espero que isso não aconteça. Espero estar completamente enganada. E espero que de outras bancadas, em outros países africanos, se tenha visto outro Mundial.

A LESTE, O PARAÍSO

Para quem anda distraído, é importante começar a dar o verdadeiro valor ao impacto que o extraordinário desenvolvimento económico da China e da Índia vai ter (e já está a ter) no mundo e muito especialmente, em África.

Não há equívocos entre interesses públicos e pessoais, ajuda e corrupção.  A China e a Índia têm interesses estratégicos no continente, nos recursos naturais, no mercado de trabalho, nas relações diplomáticas e são claros quanto ao que pretendem. Estão aqui para fazer negócio e nestes negócios, que não são ajuda, nem cooperação, nem caridade ainda não percebi muito bem se os cidadãos comuns ficam a ganhar, mas os estados africanos são soberanos nos negócios que fazem e seja a democracia mais desenvolvida e com mais mecanismos de supervisão e o balanço talvez seja positivo.

E isto veio a propósito de uma notícia publicada hoje nos jornais e da reacção dos leitores online. Os EUA desaconselham os seus cidadãos a visitar o Quénia por questões de segurança, enquanto a Somália for um foco de tensão e ameaça regional. Eis a resposta deliciosa deste leitor que espelha a opinião da maioria dos que fizeram comentários online:

Submitted by Krue
Posted Janeiro 27, 2010 05:22 PM

Thank you mr. Ambassador and I continue to wonder what you are doing in this unsafe country enjoying it so much that you mix and mingle with the locals in traditional regalia. Spare us your cheap talk and go back to the US as soon as you can. With no Americans visiting Kenya, Kenya will not lose much if anything at all. They do not visit as much anyway. Kenya needs to tap the east especially China, there are investors, tourists and are a whopping 2 billion of them!

Bay of Tigers

“Today I have a new book you will love to read. It’s the ‘Bay of Tigers'” e eu sorri. Tentarem vender-me a “Baía dos Tigres” em Nairobi tantos anos depois de o ler pela primeira vez foi, no mínimo, insólito.

Em 1997 eu ainda não tinha posto os pés em África, nem em lado nenhum para além da Península Ibérica, e o rastilho que daria origem uns anos depois ao meu Big Bang ainda mal se tinha acendido, mas nesse ano, antes de o meu universo começar a expandir-se, o Pedro Rosa Mendes, jornalista do Público, partiu para uma viagem extraordinária, durante meses, por terra, de Angola a Moçambique. A “Baía dos Tigres” é o relato dessa viagem. Só que a viagem não foi um safari idílico ao interior do continente africano, foi uma espécie de descida ao Inferno, através da guerra civil em Angola e de um continente marcado por conflitos, miséria e violência. É um livro duro de ler mas extraordinário.

Lembrei-me muitas vezes dele quando em 2005 fui pela primeira vez a Angola e tal como ele (apesar de a guerra já ter acabado), não conseguia ver para além da destruição, dos edifícios e casas do Huambo cobertos de buracos de balas, dos tanques abandonados na berma da estrada, das carcaças de carros incendiados, dos painéis gigantes com centenas de fotos de crianças desaparecidas. Uma África bem diferente da dos relatos dos exploradores clássicos em busca do exótico e como o autor refere ” There is no scenery, no villages, no people around fires, or elephants silhouetted against the sky. I could speak of such things, I was hoping to, but it would be a lie.”

Foi difícil para mim ultrapassar estas imagens e encontrar beleza humana e natural em Angola, que é um país fantástico e reli a Baía dos Tigres outra vez quando voltei, dessa vez com uma sensação de intimidade, porque era capaz de reconhecer os lugares, as situações, alguns personagens. E o livro ficou sempre associado a esta minha experiência dura e riquíssima dos primeiros anos do meu Big Bang.

Foi por isso estranho ir a Nairobi e recomendarem-me o livro. Deixem-me só explicar uma coisa: em Nairobi há uma boa livraria, não, em Nairobi há uma excelente livraria, daquelas onde os livreiros não são vendedores de livros mas apaixonados por livros e onde se criam laços e empatias com os clientes. Eu desgraço-me de cada vez que lá vou. Adoro passar às vezes horas a conversar com um dos donos e ouvi-lo falar dos clássicos africanos, dos últimos lançamentos, das coisas que ele anda a ler. Por incrível que pareça, nestas intimidades literárias a nacionalidade das pessoas não tem importância nenhuma e o senhor apesar de me conhecer bem e de saber já que tipo de livros me interessam, me emocionam ou me aborrecem, não sabia que eu era Portuguesa e falava-me da Baía dos Tigres e do autor como se tivesse descoberto uma pérola num lugar exótico e distante. Quase, quase que comprei a edição em inglês para ver a tradução, mas resisti e fiquei-me por uma bela conversa com direito a capuccino, sobre Angola e Portugal e as armadilhas da História e as histórias da vida.

AMIGOS DO LAGO VITÓRIA

O Lago Vitória, com mais de 68 000 km2 é o maior lago africano, o maior lago tropical do mundo e é partilhado por três países: o Uganda, a Tanzânia e o Quénia. É uma fonte de vida incomparável na região, fundamental mas não infinita. Mais de 30 milhões de pessoas dependem dele para viver e muitas culturas e tradições estão a ele associadas. Infelizmente, como acontece um pouco por todo o mundo, os problemas ambientais que enfrenta são muitos e o lago está a morrer lentamente. Mas há também cada vez mais organizações envolvidas na protecção do Lago Vitória, com uma dinâmica impressionante. No Quénia, tenho a oportunidade de acompanhar de perto uma delas, a OSIENALA, onde alguns amigos trabalham e tenho aprendido imenso sobre preservação, sustentabilidade e educação ambiental. É um mundo novo para mim mas é um mundo cheio de esperança.

O grande lago sofre de vários males. Os mais óbvios talvez sejam a pesca excessiva (sobretudo a pesca desregulamentada com recurso a redes demasiado apertadas que capturam peixes em crescimento) e a poluição de origem agro-química e falta de saneamento, tão visível na cidade de Kisumu onde a água é negra e densa. No entanto, há mais ameaças. O lago está infestado por jacintos de água que são alimentados basicamente pelos nitratos usados nos fertilizantes e muitas vezes quando olho para ele parece mais um enorme pasto verde do que um manto de água. O jacinto de água tal como a perca do Nilo são espécies exógenas, introduzidas no lago e que afectam seriamente todo o equilíbrio do ecossistema. Outra ameaça muito séria está relacionada com a destruição e/ou apropriação das zonas húmidas para o cultivo do arroz, uma vez que são estas terras que servem de filtro para o lago. E assiste-se também a um conflito recorrente entre seres humanos e a vida selvagem que culminam no abate de muitos hipopótamos e outras espécies. E a degradação do lago não é alheia às mudanças climáticas, com o nível da água a baixar devido à escassez de chuvas, a malária a aumentar (esta é uma das zonas com maior incidência de malária), intercalando com períodos de cheia que vitimam milhares de pessoas na região. O cenário é negro, a degradação visível a olho nú e o futuro preocupante.

O que eu não esperava, até porque a sociedade civil no Quénia parece-me pouco activa, era encontrar tantos projectos, tantas organizações e tanta dinâmica na região, com protagonistas locais que se fazem ouvir bem longe, a tentar contrariar esta história banal. A OSIENALA, que eu conheço melhor, é disso um excelente exemplo. Lá trabalham mais de 50 pessoas, na maioria jovens, quase todos formados e especializados, assim como vários voluntários, quase todos estudantes, mas que partilham a mesma paixão pela sua terra, indissociável do lago Vitória. Entre todos desenvolvem diversas actividades que incluem a emissão da Radio Lake Vitoria com mais de 3 milhões de ouvintes, que aborda especialmente questões ligadas à sustentabilidade ambiental e à região e que emite também a partir da internet, vários programas de educação ambiental para vários tipos de públicos, programas comunitários para a gestão ambiental e de recursos do lago Vitória em rede e articulados com organizações congéneres no Uganda, na Tanzania, no Burundi e no Ruanda e ainda a promoção de latrinas ecológicas, de campanhas para prevenir o HIV/SIDA, de projectos de reabilitação da paisagem, micro-crédito e empreendedorismo, investigação e consultoria.

A própria OSIENALA que conta com vários doadores e tem uma dimensão apreciável, financia associações e grupos de jovens mais pequenos que desenvolvem projectos de cariz mais local, em toda a região. Um projecto que considero particularmente interessante é, por exemplo, o desenvolvimento da aquacultura como forma de combate à excessiva exploração de recursos piscatórios no lago, com tanques experimentais nas instalações da própria organização e com a criação de infra-estruturas na comunidade e com a comunidade para este tipo de actividade. O eco-turismo e o artesanato (com potencial para vir a obter uma futura certificação de produto do Comércio justo) são outras actividades complementares que tentam dar nova vida ao lago e aos seus habitantes.

E fazem-se ouvir longe e onde é preciso, com representantes em reuniões como a que serviu para preparar a participação do Quénia na Cimeira de Copenhaga e em outras estruturas governamentais onde têm uma forte actividade de advocacy.

As organizações como a OSIENALA e os jovens que as integram são uma luz de esperança e uma força de mudança poderosa, assim como uma fonte de inspiração para todos aqueles que querem mudar o mundo e torná-lo num lugar melhor para todos. Bem hajam!