Labirintos da memória

Vai para duas semanas que ela não consegue dormir. Não consegue dormir para além daqueles poucos minutos de sono profundo em que sonha com os flamingos e acorda aterrorizada, quase sem conseguir respirar. Todas as noites a mesma cena, a mesma angústia, o mesmo medo. No sonho está um belo dia de Sol e céu azul e um grupo de flamingos cor de rosa voa tranquilamente sobre a superfície de um lago demarcado a branco por uma aureola de sal que brilha com a luz. Simone esta na margem, sentada num banco de madeira, protegida pela sombra de uma acácia. Esta a olhar para o lago enquanto espera por alguém. Ela nunca se lembra por quem espera, mas acorda com a sensação clara de estar junto daquele lago a aguardar por alguém.6132_1148796651021_2118988_n
Está sozinha quando a água azul, bordejada por cristais de sal, começa a ficar vermelha, da cor do sangue. No princípio, ela pensa que são os flamingos cor de rosa, em bando a pousar na água, que dão a ilusão de a pintar de outra cor. Mas a mancha vermelha vai-se alastrando, engolindo a água e os flamingos levantam voo em alvoroço e escurecem o céu. A água, até então calma do lago, agita-se, revolta-se e levanta-se do leito em ondas medonhas que começam por cobrir a orla de sal e depois por invadir toda a terra em volta. Simone levanta-se de um salto, com o coração a bater descompassado e, quando se prepara para correr dali para fora, é atacada pelos flamingos que a imobilizam enquanto fazem um barulho ensurdecedor. Tudo à volta dela é vermelho: a água, o céu, os flamingos. Tem os braços e o rosto ensanguentados pela luta e num último esforço de sobrevivência tenta libertar-se e correr. Sente a presença de outra pessoa muito próxima, vira-se com esforço, levanta-se e quando olha nos olhos do recém chegado ouve um tiro, seco e rápido, sente uma dor aguda no peito e começa a ver tudo vermelho em seu redor.
Nesse preciso momento, Simone acorda. Todas as noites, a mesma hora, ela acorda deste sonho mau depois de ter passado a maior parte da noite sem dormir e não consegue voltar a fechar os olhos.

 

– Se voltares a cruzar o meu caminho, acabo contigo! Desaparece da minha vista, para sempre.- dizia Teresa, num tom frio e implacável enquanto o ameaçava com uma adaga antiga, mas afiada.
– Mas filha, não foi por mal, tudo o que eu fiz foi para te proteger. Não queria que soubesses a verdade para não sofreres.
– Não voltes a chamar-me filha! Eu não sou tua filha. Tu és um assassino. Mataste os meus pais, ficaste com as propriedades e os bens deles e só não me mataste também porque era apenas um bebé e a mãe… a tua mulher, não deixou e quis ficar comigo.
– Meu Deus! A morte da tua mãe deixou-te louca, que disparates estás para aí a dizer? Os teus pais foram assassinados pelos rebeldes e pediram-me, desesperados, para fugir contigo no colo e te salvar.
– Mentira, tudo mentira… a mãe… a tua mulher contou-me tudo antes de morrer. Eu estava lá. Ela tinha um peso enorme dentro dela, uma culpa, um remorso imenso por nunca me ter dito a verdade e não conseguia morrer sem aliviar o coração.
– A tua mãe tomava tantos medicamentos por causa da doença que não estava nela. Ela confundiu tudo, não foi assim que as coisas aconteceram.
– Sai daqui, de uma vez por todas. Desaparece da minha vida – gritou Teresa completamente transtornada e com a adaga perigosamente próxima do rosto do homem que lhe roubara a família.

 

De tempos a tempos a vida dos homens vale menos. Nessas alturas morre-se com facilidade, com mais facilidade. Muitas vezes às mãos daqueles em quem confiamos ou quando menos esperamos. Quase sempre sem aviso prévio ou explicação.
Viviam-se tempos desses quando eles morreram. Morreram por um punhado de terra, um piano de causa, pratas e porcelanas, uns títulos do tesouro, um cofre com dinheiro e jóias e dois baús de memórias. Morreram ás mãos do capataz, homem de confiança, que já tinha servido a geração anterior. A ida a muitos encontros de grupos armados que lutavam pela independência envenenou-lhe o coração. Começou a odiar os donos da casa. A mestiçagem e o nascimento naquela terra não lhes dava legitimidade, nem cidadania, nem direito à vida. Não foram mortes ideológicas, nem políticas, nem com nenhum sentido de vingança. Foram mortes mesquinhas, nascidas da ganancia.
É curioso que, nesses tempos, em que a vida dos homens vale menos, a memória não tem onde guardar tantas mortes e rapidamente morre também.

 

– Doutor, já lhe disse que não tenho memórias da minha infância. Não sei porquê mas não me lembro de nada antes dos seis ou sete anos. As minhas primeiras memórias são da escola, da minha avó a levar-me o lanche ao recreio, das brincadeiras com os outros miúdos… Fui uma criança normal. Os meus pais morreram num acidente quando era pequena mas vivi sempre com a minha avó, tios, primos… tudo normal doutor. Eu só preciso que me receite qualquer coisa para dormir.
– E esse sonho recorrente que a Simone tem? Alguma coisa no sonho lhe parece familiar, lhe traz alguma lembrança?
– Doutor, é um sonho horrível. Dê-me algo para eu dormir e não sonhar ,por favor…
– Eu vou dar-lhe e vou ajuda-lá Simone, mas a insónia e um sintoma de algo que precisamos consertar e preciso da sua ajuda para descobrir o que é. E esse sonho tem uma carga simbólica enorme que precisamos explorar.
– Eu não gosto de me lembrar dele, mas e verdade que no início, naquele momento em que estou sentada a ver o lago e os flamingos, enquanto espero por alguém, sinto… não sei como explicar… sinto-me bem naquele lugar… mais do que sentir bem, reconheço aquele lugar. Mas eu não tenho memória de alguma vez ter estado ali.

 

Teresa sentou-se na sala. Á frente dela, encostado aos joelhos, tinha um pequeno baú de pau preto, ricamente trabalhado, com entalhes de prata. Na mão, a chave que a mãe adoptiva lhe entregara antes de morrer, quando lhe contou a verdade sobre as suas origens.
Acariciou a madeira, fechou os olhos e inalou o cheiro forte do ébano. Ali dentro estava tudo o que restara da vida dos pais. Ela não tinha memória deles. Ninguém  á volta dela se lembrava deles. O que estivesse naquele baú contaria a única história a que ela tinha acesso. A história dela. Pegou na chave devagarinho, rodou-a na fechadura e abriu o tampo para trás.
A primeira coisa em que pegou foi numa caixa de sapatos. Lá dentro tinha roupa de bebé recém nascido. Pegou numa camisinha cor de rosa, minúscula, e quando a abriu viu o nome Teresa bordado no peito. Sentiu as lágrimas a quererem fugir e respirou fundo. Ao lado estava um conjunto de discos em vinil: Bach sobretudo. Vários livros. Num deles, Teresa reparou que havia uma flor seca a marcar uma página com uma pequena nota : “Hoje fizeste-me sentir o homem mais feliz do mundo, Meu Amor!” Sorriu. Pareciam ter sido felizes. Essa ideia dava-lhe uma enorme sensação de conforto. Continuou a analisar cuidadosamente o conteúdo do baú, até que chegou a uma caixa metálica de biscoitos. Abriu-a com cuidado, como se de uma caixa de Pandora se tratasse. Estava cheia de fotografias. Umas muito antigas, amarelecidas pelo tempo mostrando várias pessoas em poses de retrato e uma fotografia da casa, em construção. Outras a preto e branco, ainda os retratos de família, alguns em frente á casa, fotografias de crianças e jovens. Uma em particular, chamou-lhe a atenção: um casal muito jovem a rir, felizes. Ela encostada a uma bicicleta, ele a segurá-la pela cintura. Seriam os seus pais? Tão bonitos, tão felizes, tão jovens? Olhou atentamente cada pormenor dos seus rostos e corpos na tentativa de encontrar semelhanças físicas. Não poderia ter a certeza. Continuou a ver outras fotografias, algumas também a cores e reparou em várias do mesmo casal, já mais velho, com uma criança nos braços. Teresa olhou com cuidado. Era ela. A criança era muito parecida com as fotos dela própria mais pequena. Afinal, eram estes os seus pais. Continuou a ver fotografias até que uma lhe chamou a atenção. Aí, o mesmo casal segurava duas crianças. A mãe com um bebé de colo e o pai com uma criança de seis ou sete anos. Os quatro sorriam para a câmara. O bebé de colo era igualmente muito parecido com ela, nas suas fotografias de criança, mas a menina mais velha também era parecida com outras fotografias que Teresa tinha com mais idade. Encostou-se no sofá sem conseguir tirar os olhos daquelas pessoas que eram a sua família. Quem era aquela criança? Seria possível ter tido uma irmã? E perdida nestes pensamentos, Teresa olhou para o horizonte, para a savana que se estende para lá do alpendre da casa, até ao lago, ao fundo, que brilha com os cristais de sal a refletir a luz do Sol e onde os flamingos pintam a água de vermelho.

Coisas que só me acontecem em Luanda

Uma pessoa vai à baixa comprar papel de embrulho para um presente. Depois de muito trilhar por entre buracos, poças de água, lama, caos rodoviário e multidões de gente, encontra uma loja de tudo. Sim, daquelas do tipo das dos chineses, mas pior que as dos chineses.
Entramos e quando a porta se fechou atrás de nós, suspiramos de alívio com o ar condicionado a refrescar o corpo e olhamos espantadas para a parafernália de brinquedos, têxteis lar, material escritório, roupa, perucas e extensões, artigos para festas e mais mil e uma coisas que se possam imaginar, tudo pendurado no teto ou acomodado em prateleiras sobrelotadas e espalhado pelo chão.
Sinto que se der um passo inicio uma reacção em cadeia que pode provocar um cataclismo destruidor. Não vemos ninguém. E é então que somos dominadas pelo cheiro intenso a marisco. Eu e a minha amiga olhamos perplexas uma para a outra. “Cheira a marisco!?” – perguntamos em simultâneo.
Ouvimos uma voz, longínqua a dizer “Pode entrar.” Avançamos às cegas por entre a mercadoria e damos de caras com um balcão, onde por entre calculadoras, caixa registadora e mais sei lá o quê se encontra uma bacia de plástico, enorme, cheia de camarão cozido e várias folhas de jornal com montanhas de cascas. Tranquilas e empenhadas, duas mulheres agarradas a dois enormes camarões, perguntam o que desejamos, sem os largar.
“Queremos papel de embrulho”
“Procura aí do teu lado e vê qual queres” diz uma delas a chuchar uma cabeca de camarão com a máxima concentração.
Conseguimos encontrar o expositor. Os papéis eram todos pirosos mas lá se escolheu o menos mau. Estavam as folhas todas emaranhas e não conseguíamos tirar o que queríamos sem ajuda. Uma das mulheres, compreensiva, larga a cabeca de camarão e vem em nosso auxílio sem sequer limpar as mãos. Foi tão eficiente a agarrar as folhas que eu nem tive tempo de dizer “cuidado, vai ficar a cheirar a camarão”. Ainda teve a delicadeza de limpar subtilmente as mãos à parte de trás da folha, que enrolou muito direitinha e nos entregou. Mal ficou com as mãos livres atacou outro bicho e nunca mais o largou enquanto fez a conta, o troco e se despediu de nós.
Chegadas à rua, mal sentimos o choque de calor, barulho e cheiro a podre da cidade, suspiramos de alívio. Parecia que tínhamos vivido uma versão angolana das Crónicas de Narnia, onde em vez de um armário, tinhamos a loja a servir de portal entre mundos.