Domingo no Chimoio


Ao domingo vai-se à missa, casa-se, sai-se à rua e almoça-se em família. Um pacote de actividades banais engalanado por toaletes brilhantes e coloridas, música, dança, cânticos e a fatidica morte da galinha.

Basta um pequeno passeio na cidade, pela manhã, para vermos a religião em acção. As igrejas (de todas as confissões possíveis e imaginadas) estão repletas de gente, com as portas abertas e os crentes menos madrugadores encavalitados, do lado de fora, a tentar participar na missa. Em todas elas se ouvem cânticos alegres e se vê as pessoas a dançar e a bater palmas. Nada de missas cinzentas e solenes. À volta das igrejas veem-se grupos de pessoas a ensaiar cantorias e a dançar. Elas de capulanas iguais, eles de fato (sempre dois tamanhos acima) e gravatas espampanantes. São a personificação da alegria. Em algumas igrejas evangélicas a alegria é elevada a histeria, com os cânticos e danças a roçar o transe e um pastor de microfone na mão aos gritos a falar do Senhor. 

Este ritual dominical confunde-se com outro, que são os casamentos, também eles cheios de cantigas, danças, música. É tradição, depois da cerimonia religiosa os noivos e os convidados irem celebrar para a praça ou jardins da cidade. É um mar de gente embrulhada em cores vibrantes, elas de rosa choque, vermelho sangue, azul turquesa, verde fluorescente, eles de camisas de cetim a combinar com elas e fatos com calças de pregas, sempre dois tamanhos a cima. Os grupos dos casamentos chegam muitas vezes em carrinhas de caixa aberta que circulam pela cidade com toda a gente lá dentro a cantar e a dançar. O carro dos noivos, quando existe, é enfeitado com fitas de Natal brilhantes. Depois é ver esta gente toda na praça principal: filas de homens e mulheres uns em frente aos outros a cantar e a dançar. Filas de gente a seguir o noivo, que impõe o ritmo, e que serpenteiam pela praça em festa. É uma alegria.

Mas domingo, sem almoço em família, não é domingo e almoço em família é sinónimo de galo. Sim, o tradicional não é galinha e quando perguntei porquê o galo, que até é mais duro e mais pequeno, disseram-me que era “por ser galo, claro, por ser macho!”. Uma explicação brilhante. Quer isto dizer que por entre as pessoas em festa e emperiquitadas que andam na rua ao domingo de manhã se vê uma grande quantidade delas a carregar galos destinados à guilhotina e à panela. Aliás depois das cantorias da missa, começa a ouvir-se os galos a correr pela vida nos quintais, a fugir à cozinheira assassina. Os vizinhos aqui do lado, por exemplo, hoje tiveram um difícil de matar. Fartou-se de correr e cacarejar e voltar a fugir das mãos da morte, mas acabou na panela como os outros.

 

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