A betinha nos trópicos


A betinha sou eu, claro. Uso maquilhagem nem que tenha de recorrer ao retrovisor do jipe, fujo, grito e choro com insectos feios, descasco a fruta e disponha-a com arte no prato, uso perfume e creme de corpo e verniz nas unhas.  E não como carne (pelos deuses!).

São pequenas coisas que fazem parte de mim, dos meus hábitos de conforto. Obviamente não morro sem elas, mas lá por de vez em quando andar nos confins de África não significa que tenha de parecer uma mulher das cavernas. Sem exageros, que não me maquilho propriamente com olhos esfumados a fazer trabalho de campo, nem ando de saltos altos e clutch… mas há que manter os meus padrões mínimos de bem-estar. Eu não sou outra pessoa cá, sou a mesma.

Mas hà situações muito engraçadas. É conhecida a minha mariquice com a bicharada pequena. Ainda há uns dias, deixei um grupo de adolescentes com quem estava a trabalhar perplexos e a chorar de rir porque fui mordida por uma tse tse, e saí disparada a correr pela sala fora (doi que se farta, verdade!)… e não voltei a entrar. Obriguei toda a gente a vir para fora, enfrentar uma ventania dos infernos. Nessa noite quando lavei o cabelo, de balde e caneca, parecia que me saia lama da cabeça.

Mas também houve aquele dia em que o jipe não chegava à escola e tivemos de nos fazer a pé pelo meio do mato. À frente era só homens grandes e fortes mas  a certa altura começam a fugir aos gritos. “O que foi?”, pergunto eu. “Tem cobra doutora.” Eu suspiro, sorrio “As cobras fogem com a trepidação, batam os pés com força ao andar que elas fogem” e lá segui à frente, a enchotar répteis com eles todos atrás de mim desconfiados.

E houve um dia em que ia sendo atropelada enquanto me maquilhava. Sim estas coisas podem pôr em risco a vida das pessoas. Era a casa de passagem mais simples por onde passámos. Tudo limpíssimo mas conforto mínimo. Um quarto com uma cadeira de plástico e uma cama no meio. Cozinha, escritório e sala de refeições ao ar livre. Latrina ao fundo do quintal. Espelhos, nada. Então, estou eu a pôr rímel usando um dos retrovisores do jipe quando o motorista entra sem me ver e faz marcha atras sem eu ter tempo, nem para um ai. Tive de carregar na maquilhagem dos dias seguintes para disfarçar a nódoa negra na testa. O senhor ficou inconsolável e eu com uma bela dor de cabeça.

Mas uma das coisas mais caricatas é a minha aversão à empregadagem. Não às pessoas, em si, claro, mas ao facto de haver empregados para tudo, dentro de casa a toda a hora. Por um lado, eu gosto de tratar das minhas coisas e por outro gosto de privacidade. O facto de ser uma betinha complica-me ainda mais a situação porque baralha as pessoas. É um hábito entranhado na cultura local em todos os países africanos por onde passei. Quem tem alguma coisa, arranja logo um empregado ou empregada para cozinha e serviço doméstico a tempo inteiro. Sim, não há cá trabalho a dias.

Uma pessoa sai de manhã da casa de banho, ainda estremunhada, e já tem o batalhão de limpeza à porta de Cif e esfregona na mão. E eu só com o meu meio neurónio matinal a funcionar faço tudo pela metade e tenho de voltar várias vezes à casa de banho. Então, está a empregada a lavar a sanita e eu peço desculpa mas preciso lavar os dentes. Depois ela está a lavar o lavatório e eu peço desculpa mas preciso maquilhar-me e quando ela julga que está tudo arrumado eu vou lá outra vez arrumar os caracóis e molho tudo. É um stress.

A parte gira, é que com as mudanças graduais dos papéis de género, há cada vez mais homens domésticos em África. Neste momento em que escrevo, por exemplo, está o Sr. António, no corredor, a passar roupa a ferro e deve estar amuado porque eu não o deixei fazer o almoço.

 

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2 Respostas

  1. ter um senhor António a tratar da casa devia ser engraçado…mais ainda se ele fosse jeitoso…lol… quanto à bicharada pequena…bem, eu devia fazer certamente mais figuras tristes que tu… 🙂

  2. Não, o Sr. António não é jeitoso 😛 e mesmo que fosse… não gosto. Parecem sombras sempre pela casa e ficas sem privacidade nenhuma. É bom ter ajuda para limpar a casa, mas quando eu não estou lá 🙂

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