País rico, país pobre


OLYMPUS DIGITAL CAMERATantos anos de apoio ao desenvolvimento, tantos indicadores positivos e tanto por fazer ainda. Às vezes nem sei bem o que pensar. Moçambique foi bom aluno e deu saltos quantitativos e qualitativos importantes. O país de há 10 anos não é o mesmo de hoje, verdade. Mas povoações como as que tenho visitado não terão mudado muito. São as mais pobres das mais pobres, num conceito de pobreza o mais alargado possível.
Hoje há muito mais infraestrutras, há turismo, há um mercado empresarial florescente, matérias-primas a serem descobertas em quantidade. Os doadores têm vindo a cortar de ano para ano o apoio ao desenvolvimento que compunha o orçamento de estado porque supostamente Moçambique já não precisa. Mas as novas actividades económicas não parecem estar a complementar as receitas e a vida vai correndo “à maneira” como se diz por cá, ou seja, com sacrifício.
As incongruências seriam de rir às gargalhadas se não fossem tão tristes. Veja-se o caso de uma operadora de redes móveis que lança uma mega campanha de doação de internet às escolas. Faz uma espécie de road show onde distribuem t-shirts e doam uma placa de banda larga com tráfego ilimitado para 30 anos. Excelente, não!? Seria, se as escolas tivessem electricidade e computadores e quem soubesse trabalhar neles. Mas estas escolas, mal têm um quadro para escrever com giz e professores que sabem escrever e pais a saber que é importante mandar os filhos à escola.
E, assim, “à maneira” alheias à banda larga e outras coisas do outro mundo, há povoações que continuam a viver como há 10, há 20 ou há 30 anos, onde as crianças com 13 e 14 anos já são mães, onde a maioria das tradições são bárbaras para as mulheres (e aqui não há relativismo cultural que me valha), onde a educação não é valorizada, as violações são normais e até incentivadas por cultos do arco da velha.
Mas os indicadores de desenvolvimento continuam fantásticos, supostamente a qualidade de vida das pessoas aumentou imenso e o crescimento económico é invejável. Faz-me lembrar aquela piada sobre como é que se explica um valor médio. “Se eu tenho 4 galinhas e tu não tens nenhuma, em média temos 2 galinhas cada um” , e ninguém passa fome quer o tolo acreditar (acrescento eu).
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2 Respostas

  1. É triste realmente…o suposto desenvolvimento e crescimento estão muito longe de chegar aí pelos vistos…e é incrível como ainda acontecem tantas coisas más e as mulheres são tão inferiorizadas ainda neste século…é uma triste realidade!

  2. Sim, há localidades muito pobres e isoladas de tudo por aqui. Quanto às mulheres… é mais complexo que isso. As maioria das pessoas não se sente propriamente inferiorizada pois é a vida que conhecem, é assim que vive toda a gente com que se relacionam. Não há TV, as pessoas não viajam, e o quotidiano é muito limitado, portanto não há outras realidades para comparar e a ignorância é imensa. É isso que torna tudo mais difícil.

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