O Retrato possível – Mbanza Congo


A Mãe Natureza, de vez em quando passa-se e tem momentos de criatividade fulgorante. No caso do Zaire e sobretudo, ali durante uns 100km até chegar à capital, pegou numa bisnaga de tinta verde que diluiu, acrescentou e combinou para pintar a terra toda em tons diferentes da mesma cor. Com quantos tons de verde se pode pintar a natureza? É preciso vir cá, na época da chuva, para ver. Contado ninguém acredita. E ainda por cima a paleta de verdes é dinâmica e os tons vão se iluminando, desvanecendo, intersectando, esticando e contraindo ao sabor das núvens e do azul do céu. Dá-me vontade de ficar ali, no meio do verde, do silêncio profundo de quilómetros e quilómetros sem se ver vivalma, rodeada de pássaros e borboletas coloridos a desafiar a monocromia.
E como se esta brincadeira criativa com as cores não bastasse, a Artista pegou na terra e também brincou com a geometria. Parece que com as mãos, pegou na terra vermelha, barrenta e amassou-a e moldou-a até obter formas únicas. Há montanhas suaves, irrepreensivelmente redondas, que se tocam e parecem fazer ondular o horizonte a perder de vista. Há planícies perfeitas, pontilhadas por montes isolados, que parecem catedrais góticas, com rocha avermelhada a rasgar os cumes verdes e a esticarem-se na direcção do céu. E há vales que parecem existir apenas para nos obrigar a subir montanhas sem visão periférica, para depois, chegados lá em cima, ficarmos de boca aberta, entorpecidos pela dimensão e pela beleza do mundo que se estende à nossa frente.
Mbanza Congo está precisamente construída no topo de uma das montanhas mais altas e de qualquer ponto da cidade a vista é de espanto. Sinto-me uma privilegiada ao passear pela cidade porque na minha qualidade de recém chegada, cada recanto, cada frincha entre as casas, cada curva da estrada me oferece um cenário encantador, surpreendente. No topo, ou centro, como se preferir, está a cidade antiga que remonta aos tempos gloriosos do grande Reino do Congo, de que era capital desde o século XIII. Ainda subsistem ruínas de antigos palácios e daquela que dizem ser a mais antiga igreja da África subsariana. Estão lado a lado com a nostalgia decadente da cidade colonial, quando se chamava, por falta de imaginação com certeza, S. Salvador. O resto da urbe cresce nas encostas da montanha. É aí que se estendem os musseques, de casas feitas de adobe laranja e muita pobreza, coloridos pela luz do Sol e pelas cores vibrantes das roupas, dos mercados e da vida quotidiana.
Para trás ficou a viagem de 600km para cá chegar, uns 300 dos quais em terra batida e picadas pelo mato… outras histórias… para outro dia, até porque vou repetir o percurso todo no regresso, amanhã.

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Uma resposta

  1. Fogo, deixaste-me com vontade de ir ao Zaire 🙂 a tua descrição é maravilhosa e uma delícia de se ler…havias de escrever um livro sobre as tuas aventuras em viagem…ía ser um sucesso! continua a escrever assim e a deliciar-nos com momentos de literatura únicos 😉 bj gde

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