De Luanda com amor


Regresso a Angola. Muitas províncias para visitar, mas mais tempo do que é costume em Luanda. A mesma Luanda que me cheira sempre a gasolina e que me soa a rebarbadeiras, berbequins e martelos pneumáticos, mas que tem uma vida e uma energia admiráveis.
Não é uma cidade saudável, é bruta e agressiva para quem chega desavisado. Não é uma cidade para turistas. É uma cidade de trabalho, onde as oportunidades se atropelam e o dinheiro além de ter outro valor, é por si só um valor.
Para mim, é uma luta constante para não lhe “ganhar azar”, como se diz na minha terra. A capacidade de se ser positivo e ver o copo meio cheio, aqui é essencial e o exercício atinge todo um outro nível de mestria
O trânsito é ridículo. Ninguém se mexe e perdem-se horas absurdas dentro do carro. Mas de que outro modo se poderia apreciar uma pega de caras feita pela polícia a dois motociclistas sem capacete? A moto a tentar fugir por entre os carros e os dois polícias, um atrás do outro a fazer-lhe frente, a atirar-se ao volante e a obrigá-los a parar. Confesso que tive pena de não haver um terceiro polícia a agarrar o acento de trás e a fazer peões.
É obrigatório ter carro. Não se sobrevive em Luanda de outra forma, o que é estúpido dado o caos do trânsito. Sem carro sentimo-nos prisioneiros. Não há táxis, praticamente. Os que há não são de confiança. Já fiquei mais de uma vez cerca de 2h à espera deles. Depois há os táxis “informais”, mas também não são muitos e nem sempre estão disponíveis, para além de corrermos o risco de nos metermos num carro podre e ficarmos apeados, com ele a deitar fumo, num ermo qualquer. Em Luanda também não se anda a pé. Não por medo de assaltos mas porque o barulho é demasiado, os passeios nem sempre existem, o pó e a poluição destroem os pulmões e o calor é imenso. Sem transporte fica-se dependente dos outros para quase tudo. Sobretudo para o lazer e isso é uma chatice. Não há espaços verdes. A ilha de Luanda, mesmo com todos os esgotos da cidade a acabarem no mar, é um oásis de tranquilidade. A nova marginal, que alindou a baixa da cidade, é excelente para um passeio. E depois há alguns espaços culturais, bares, teatro ainda por descobrir. Tudo isto, que ajuda a suavizar a cidade bruta, fica fora de mão por falta de transporte.
A luz falha regularmente por algumas horas. A cidade cresce à bruta, muito para além das suas capacidades e infraestruturas. Cá em casa, apesar de todo o conforto, dentro de portas, estamos num 7º andar sem elevador (grande poupança com ginásio!) e muitas vezes sem luz e água (a bomba não funciona sem luz). O vizinho do lado tem um gerador. Cá em casa não há espaço, pelo que parece. Quando a electricidade falha, partilha connosco um cabo através da janela da cozinha aonde se pode ligar uma extensão para manter o frigorífico, o servidor e os computadores a funcionar. Não deixa de ser hilariante estar em casa sem luz e sem água, mas ligados ao mundo.
No meio deste caos todo, é aqui que se sente o pulsar da nação. É aqui que de meses para meses se vê a cidade a mudar e a crescer, as pessoas a fazer pela vida, o mundo inteiro à procura de oportunidades. É sobretudo aqui que os angolanos, orgulhosos, expressam através de carros sumptuosos e reluzentes, roupas caras e vistosas e um visual sofisticado, o seu sucesso. E é aqui também que esfregam o seu dinheiro na cara de toda a gente. É legitimo. Para quem andou por aqui nos últimos anos é fácil perceber a dimensão do crescimento e do desenvolvimento, em todos os sectores. Há muito para fazer, claro e muito mais para criticar também. Mas não deixa de ser admirável e Luanda é a expressão de todos estes paradoxos. Há que dar-lhe crédito por isso.
Felizmente, Angola não é só Luanda e tenho ainda Cabinda, Zaire, Bié, Kuando Kubango e Namibe pela frente 🙂A general view of Luanda Central A general view of Luanda Central Business District (CBD)

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4 Respostas

  1. Pois é maninha… já tinha saudades destes longos posts e divertidas descrições do teu dia a dia por terras longinquas…continua a brindar-nos com as tuas histórias 🙂 beijinho grande

  2. Beijinhos, minhas queridas! Vou dando notícias sempre que possível.

  3. as histórias de novo à solta 🙂

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