Chegadas e Despedidas


Tenho frequentemente o privilégio de encontrar pessoas extraordinárias. Muitas ficam na minha vida e outras surgem em trânsito mas acrescentam sempre alguma coisinha ao meu mundo. Alguns são verdadeiros personagens saídos do fantástico (do fantástico que é a vida real, aquela que supera sempre a ficção). Foi assim a caminho do Kunene. Um belo encontro, numa viagem de 90 minutos.

Tinha reparado nele no aeroporto, não sei bem porquê e depois de quase ter perdido o meu voo, porque não percebi que “Unéni”, era Kunene, e entrar esbaforida pelo avião adentro, encontrei o meu lugar à janela, ao lado do dele, no corredor. Quando uma senhora enorme resolve trocar de lugar e vir sentar-se no nosso meio, olhamos um para o outro horrorizados, de tal forma, que ela deve ter-se sentido mal e voltou a sentar-se. Desatamos às gargalhadas, apresentamo-nos, levantamos os apoios de braços e okupamos ilegalmente os 3 lugares. Saiu-me um daqueles personagens que parece que já viveram mil vidas. Era músico. Vivia em Paris. Já tocou em Portugal com muita gente conhecida também. Passou pela guerra, pela diáspora, era um cidadão do mundo construído de bocadinhos dos mundos todos por que passou. A viagem voou. Ele seguiu para Benguela e eu saí no Kunene. Foi uma espécie de speed dating patrocinado pela TAAG.

O Kunene visto do ar anuncia promessas difíceis de cumprir. Chão a perder de vista serpentado por rios, coberto de tapetes verdes, ocre e palha, a olhar para um céu azul puro sem uma nesga de poluição. A cidade, Ondjiva, é pequena, arrumadinha, alindada, com ruas largas a combinar com a grandiosidade da paisagem. Nunca percebi bem porque é que em grandes espaços se constróem urbes apertadas. O hotel é uma ode ao kitsch africano. Não tenho rede para fazer upload de fotos, uma pena, até porque sou incapaz de descrever a combinação psicadélica de estátuas de animais em pedra, lagos interiores, mobiliário imponente e têxteis garridos. É um luxo. Foi também aqui que enfrentei a primeira barata da viagem. Uma verdadeira heroína do reino das baratas que quando me viu de chinelo em punho, em cima do sofá prontinha para a assassinar, resolveu levantar voo e suicidar-se dentro de um candeeiro de parede (que tive de deixar acesso a noite inteira para ela ficar bem esturricada).

O trabalho tem sido muito bom também. Como de costume, fui recebida na escola com cânticos, dança, teatro e desta vez até poesia surrealista. Nunca percebi porque é que em Portugal ninguém me trata assim, como deve ser, com honras de “visita”, até porque acabo sempre a dançar e é uma bela maneira de quebrar o gelo. Gosto particularmente do sentido de humor da maioria dos angolanos. Ainda hoje fiquei a saber, por exemplo, que a democracia em Angola é uma ilusão de gente que não percebe nada. Isto é um país socialista, diziam-me, os recursos são generosamente divididos por todos. Temos é um conceito diferente do “todos”, que os estrangeiros não são capazes de entender. E rimo-nos muito com as voltas da história e as histórias da vida. E depois é uma beleza trabalhar com educação aqui. Há muitas, mas mesmo muitas coisas mal, mas há outras tantas coisas espantosas. Adoro a vontade de aprender dos miúdos, o exibicionismo intelectual dos mais crescidos, o dar tudo por uma bela discussão sobre qualquer área do conhecimento e o orgulho de quem acha que nem tudo o que vem de fora é que é bom. Ainda hoje, o meu momento alto foi quando um aluno me apanha no corredor e pergunta, podemos falar sobre Nietzsche?, e eu digo, podemos, pois claro e sentamo-nos á sombra a filosofar. Note-se que isto já me aconteceu mais vezes e eu fico sempre embasbacada.

E com esta me vou que o jantar está a chegar e vou finalmente trocar o fungi e feijão por uma iguaria que pedi ao cozinheiro: omeleta de queijo e batatas fritas J.

 

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Uma resposta

  1. Que maravilha maninha…como sempre, já vi que estás muito à vontade aí e a disfrutar ao máximo…aguardo reportagem fotográfica 🙂

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