Pelos caminhos de Angola…


Já toda a gente sabe que uma grande viagem começa com um pequeno passo. O que nem toda a gente sabe é que uma viagem pequena pode começar com muitos passos atribulados. Foi o caso desta. Conseguir visto foi uma saga épica, comunicar com a organização em Luanda uma aventura, depois ia perdendo o voo porque a ligação para Lisboa atrasou quase 1h, depois ficamos na pista enquanto reparavam o motor 3 do avião (o que deixou grande parte dos passageiros pra morrer, não eu, claro, mas os outros todos que achavam que os motores 1, 2 e 4, pelo menos, não eram suficientes) e depois como partimos atrasados chegamos ao destino ao mesmo tempo que outros 2 voos e foi um pandemónio para passar a imigração.
Parece muito mau, não parece? Mas não é. Qualquer resquício de ressentimento pelo tempo passado no consulado, pelo drama da organização da viagem ou pelos precalços do voo foram parar às urtigas mal pus os pés fora do aeroporto. Não! Luanda não é bonita. Pelo menos a que eu conheço, o centro, e sempre a correr e de passagem. É basicamente um grande estaleiro de obras, com um trânsito exasperante (acho que os angolanos falam do trânsito tanto como os portugueses do tempo :)), um calor sufocante e preços absolutamente chocantes para quase tudo.
Basta uma voltinha pela cidade para perceber onde estão as construtoras e os bancos portugueses a ganhar dinheiro e porque motivo o meu voo vinha cheio de tugas (homens, que ao que parece as moças não imigram muito para cá…. mas deviam :)). O trânsito, enfim, é intenso, há muita poluição, mas convenhamos… eu vivi em Nairobi… por comparação os condutores aqui são uns carneirinhos no meio do smog. O calor húmido e sufocante dá cabo da vontade de trabalhar, mas com ele posso eu bem, que não há nada como o solinho dos trópicos a deixar o corpo dengoso e a mente descontraída (por falta de energia suficiente para lidar com demasiados pensamentos complexos). Os preços têm-me feito sentir forreta. Quando percebi que o meu almoço mediocre não custou 5 dólares, mas 50 (totó, eu sei, eu sei), que o meu hotel de 200 dólares é apenas uma espelunca com ar condicionado e sem baratas (que é o mais importante, nem discuto), que uma embalagem de leite de soja custa 8 dolares e um pacote de bolachas 5 e que a gasolina custa muito menos (menos de 1 dolar) que comida desenvolvi um estado psíquico preocupante. Fiquei poupada, conto os tostões, não dou esmolas, não dou grojetas, não tenho fome… que medo!
Descobri também uma utilidade importante para os casaquinhos de malha que trouxe comigo: uso-os no quarto para poder ter o ar condicionado fresquinho. Barata e mosquito não gosta de frio 😀
Ainda não perceberam porque é que a coisa está a correr bem? Não!? Como é que eu posso explicar? Para além de todas estas coisas serem pormenores num cenário maior fazem-me rir imenso e depois há as pessoas que me fazem rir também e que riem comigo. Já tinha saudades de me tratarem por “visita”. “Estou aqui com a visita” “Apresento-lhe a visita”. Também tinha saudades dos divertidos equívocos da língua: “eu chupava muito” (bebia muito) “e claro, quem chupa anda com gente que também gosta de chupar” (a propósito do motorista que era alcoólico). E gosto do mix de familiaridade e novidade que está por todo o lado: de poder escolher Cuca ou Super Bock, de poder pedir café e croissants ou fungi, de haver multibancos mas chamarem-se multicaixas, de poder abastecer na Galp ou na Sonangol, ouvir a Antena 1 ou uma rádio local, de ver na rua a vender A Bola e o Jornal de Angola… E amanhã vou para Ondjiva, no Kunene e vou estar a poucos quilómetros da Namíbia e acho que vou gostar ainda mais. Até porque Luanda não tem nada de bonito… que eu conheça… ainda.

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4 Respostas

  1. Adoro estes teus relatos dos acontecimentos…não me convenceriam contudo a ir a Angola…mas convencem-me sempre que “tás na tua praia” e que adoras esse teu trabalho. E é bonito de se ver e de saber, que estás bem, e que lidas melhor ainda com todas as adversidades. Afinal, sempre achei que eras mais africana que portuguesa 🙂 estás nas tuas quintas! Aproveita bem e vai dando noticias, maninha! Cuida-te! Bj gde

  2. As tuas descrições dão sempre vontade de estar ao teu lado, de viver o que vives! Apetecia me estar aí!

  3. Adivinha quem sou…lol

  4. Que prosa maravilhosa! Angola é mesmo assim e quem melhor que tu conseguirá transmitir as realidades tal qual elas são. Que tal um desafio para a escrita de um romance. Depois da dita (ou dito), não é verdade?
    Bom trabalho, boa saúde e nós por cá tudo bem e já noutras paragens. Um forte abraço nosso.

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