DIA(s)POSITIVOS EM TETE


Nunca tinha visitado a província de Tete antes. O calor intenso, a malária e Cahora Bassa eram praticamente as únicas referências que tinha… que pobreza! Há tanto mais. É certo que o calor é mortífero, mas sobretudo na cidade de Tete, que é baixa e se estende pelas duas margens do Zambeze. Aqui, a temperatura média nesta altura do ano, é de 38º e no meio do dia vai aos 40 e muitos… dureza, mas em outras zonas, a maior altitude, é tranquilamente quente. Também é verdade que a malária anda por aí à solta, sobretudo na cidade. Os mosquitos são uma praga e não há nada que os controle. Apesar de todos os cuidados algumas partes de mim parecem um mapa de sarampo, mas tirando isso eu para já continuo resistente à doença. Quanto ao resto, não há maneira de transmitir o que os olhos veem, nem o que a alma sente. Cahora Bassa materializou-se para mim e saiu do mundo das referências abstractas. É uma criação humana imponente no meio de uma criação da natureza com uma beleza indescritível, de cortar a respiração. A natureza não é só generosa por estas bandas, é uma mãos largas, onde a mãe África perdeu a cabeça! E então nesta altura do ano, com tudo verde e cheio de vida, no final da estação da chuva, é maravilhoso. Mas há mais surpresas. Tete é a província com maior potencial de desenvolvimento neste momento e isso salta-nos à vista de todas as maneiras e feitios. Tem sido descoberto minério, incluindo ouro, na maior parte ainda por explorar e há água mineral, algodão e tabaco com produções e investimentos cada vez maiores. Há empresas de exploração de minério, uma dinâmica de construção impressionantes (edifícios, estradas, pontes… tudo), uma indústria hoteleira florescente que não chega para as encomendas, serviços de transportes que fazem as estradas assemelhar-se à imagem que tenho de alguns lugares dos EUA, com circulação constante de camiões gigantes. A cidade tem o seu quê de pioneirismo, de espírito de caça ao ouro. Está cheia de estrangeiros, sobretudo portugueses que trabalham na construção civil e na barragem, mas também aventureiros, biscateiros, cooperantes, gente em busca de oportunidades e do sonho africano… é uma espécie de imã para aquela dimensão do espírito colonial que não passa pela opressão mas pelo espírito empreendedor e aventureiro. Aqui não há crise! Qualquer coisa dá dinheiro. O mercado é enorme, em acelerado crescimento e com imensas necessidades. Confesso que é um fenómeno muito interessante de observar, o que tenho tido oportunidade de fazer, de perto desde que vim parar a uma espécie de motel de estrada fora da cidade (por estar tudo, mas tudo, absolutamente cheio), propriedade de um português, onde há quartos, um restaurante e um Pub… assim, nem mais! Sou na maior parte das vezes a única mulher no restaurante rodeada por portugueses barrigudos, mal vestidos e que não conseguem dizer uma frase sem meter dois palavrões pelo meio. Um mimo! Estou numa espécie de paraíso para trolhas e camionistas, com bacalhau, pudim de abade prisco e pataniscas na ementa e a televisão sempre ligada na TVI, onde os empregados, todos moçambicanos, me parecem de uma delicadeza e educação extrema, quase aristocrática, por comparação. E isto tudo, em convívio perfeito com a cultura tradicional do interior, onde o Régulo me tratou por excelência, me fez vénias e me ofereceu no final uma saca com massarocas como se me estivesse a dar um baú de pedras preciosas. Tem sido uma semana um bocadinho bipolar. Em breve sigo para a Beira… a ver o que Moçambique me reserva por lá!

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