DIA(S)POSITIVOS – MOÇAMBIQUE


Moçambique está mesmo diferente. Não imaginam a minha surpresa quando vi o Kamasutra Gay, em destaque, na montra de uma livraria nova, no novo Maputo Shopping. É que eu lembro-me de mal se conseguir comprar livros que não fossem religiosos e de não haver propriamente livrarias em lado nenhum. Foi lindo! Maravilhosas também são as Lojas da Frelimo… exactamente!, lojas de merchandising como as do FCP e nos locais mais bem localizados. É muito à frente. Se esta moda se pega não vai ser bonito ver à venda T-shirts com a cara do Sócrates, malas e pochetes com a rosa socialista ou toalhas de praia e bonés que parecem a bandeira da Suécia mas que afinal são do PP porque têm a cara do Paulo Portas estampada. Que medo! E também há tuk tuks agora, como no Quénia… as motinhas com cobertura para transportar passageiros. Aqui têm um nome impronunciável, são novas em folha, amarelas e a melhor maneira de passear na cidade, até porque o trânsito é intenso mas mais ou menos tranquilo e a cidade não cheira a gasolina… (pausa!)… (jurei a mim própria não fazer comparações com o Quénia mas elas estão sempre, sempre, na minha cabeça e eu tenho dificuldade em conter-me)… adiante… E as viagens de avião… uma maravilha. Confesso que voos domésticos em África (e sim, estou a generalizar conscientemente) costumam ser um pesadelo: aviões velhos que parece que se vão desintegrar à mínima aragem, aeroportos feios, sujos e caóticos, atrasos, serviços maus, viagens canceladas… tudo pode acontecer. E esta minha viagem integra vários voos domésticos e eu estava com aquele sentimento de impotência paciente… “Vai ser lindo!” Nada. O antigo aeroporto internacional de Maputo agora só funciona para voos domésticos e bem. Check in rápido e organizado, pessoal simpático e competente, polícia cooperante… um mimo! “Quer que tire o cinto?”, pergunto eu no raio X “Não precisa o constrangimento senhora, a máquina vai apitar com as suas pulseira, de qualquer maneira”, disse o Polícia. Lindo! Teve direito ao meu melhor sorriso do dia. Aeroporto de Tete: restaurado, limpo, bonito e eficiente. E outra coisa muito importante, a LAM aposta em não reproduzir modelos decadentes e irrealistas de beleza feminina. A regra de a hospedeira de bordo ter de ter a altura X, o peso X e as medidas X, aqui não pega. Elas são lindas e de todos os géneros e se se tiver de mudar alguma coisa, que se mudem os aviões, como era o caso do meu de hoje a caminho de Tete. Era um modelo completamente desadequado à senhora roliça e super simpática que nos serviu o lanche, pois ela mal cabia no corredor e tinha dificuldade em virar-se e mesmo assim fazia o seu trabalho com toda a graciosidade. Sobre a simpatia das pessoas eu não me canso de tecer elogios. Eu sei que gosto tanto disto que devo estar a exercer aquele efeito da atracção de que se fala nos best sellers de auto-ajuda, mas não quero saber, é o que me tem acontecido. Senão vejam, hoje novamente na viagem para Tete. Senta-se ao meu lado um sujeito muito simples e digo simples porque devia ser a primeira vez que andava de avião e estava muito atrapalhado. Estava impaciente, imaginem, por não lhe entregarem a mala que ele deixou quando mostrou o bilhete. Quando lhe explicaram que estava no porão, ficou numa aflição tal que foi preciso explicar-lhe várias vezes que no final da viagem a mala e ele haviam de se reencontrar outra vez. No entanto, apesar da inquietação e da falta de experiência nestas andanças mundanas, não deixou de ser um perfeito cavalheiro. Eu levantei a mão para chamar a hospedeira e ele levantou-se imediatamente e chamou-a para mim, abriu-me e fechou-me a mesinha sem sequer me dar tempo de ser auto-suficiente (e acho que tinha estado a ver como o vizinho do lado fazia antes de tentar) e tirou-me a mochila e deixou-me passar à frente dele. Bolas! E isto tudo com um ar solene e tímido e sem nunca falar comigo. Maravilha. Chegar a Tete, confesso que foi uma emoção. Ver o rio Zambeze, poderoso, a atravessar a cidade ao pôr do Sol, foi uma imagem que me ficou registada na memória. E na memória também vai ficar o hotel. Ok, aqui temos um pequeno problema. É sabido que em África, qualquer alojamento com menos de 4 estrelas é um perigo e a ter menos estrelas o ideal é escolher backpackers, sempre, ou albergues da Igreja. Aqui em Moçambique se calhar a coisa é ainda um bocadinho pior do que nos outros lugares, sobretudo tendo em conta a relação preço-qualidade. A oferta é pouca, mesmo em Maputo, para a procura e o fosso entre os estupidamente caros e os muito caros é enorme (sendo que o serviço nem sempre é melhor) e os baratos, não Obrigada!, nem pensar. Há um ou outro backpacker bom, mas para um estilo de viagem que não é compatível com trabalho. Mas adiante… só para terem uma ideia, sou levada para o melhor hotel da cidade. Um lugar impessoal, arquitectura em blocos, mas de cara lavada, com ar condicionado e limpo e mais nada…. e mesmo mais nada e cobram 95 USD por isto. Está mal! Ainda por cima o recepcionista não encontrava a reserva e discutia com o meu motorista (que tinha feito a reserva), que o quarto 24 não estava reservado em meu nome e que não tinha lá nada e muito vai e vem e volta e pergunta a mesma coisa e entretanto chega o dono, sul africano, depois de meia hora de saga que me estava a divertir imenso, confesso. Chega e pergunta o que se passa, porque é que ainda não tinha quarto ao que o recepcionista responde “Ele diz que reservou o quarto 24 mas não tem reserva aqui nesse nome”, “E temos mais algum quarto livre?”, pergunta o dono. “Temos, mas não é o 24!” E aí eu tive de intervir e jurei que não tinha nenhuma superstição com o número 24, que podia ser outro qualquer, que até gosto mais de outros números. Fiquei com o 14, e tive direito a uma cerveja paga pela casa para compensar a atrapalhação. E tudo se resolveu :). Mas este tipo de serviço, estas confusões e exercícios de paciência para qualquer europeu não desaparecem se se pagar 250 USD por um quarto. Portanto, o ideal é relaxar, aproveitar para rir um bocadinho com a diversidade cultural e acreditar que no fim fica tudo bem. E outra coisa que não se pode controlar a 100% é a bicharada. O ar condicionado é essencial, a limpeza, nem se fala, os mosquiteiros também, mas estamos nos trópicos e as criaturas têm milhares de anos de adaptação em cima e estão em casa. Por isso, mesmo que tentemos controlar todas as variáveis, o meu maior pesadelo acontece. Esta semana em Maputo no meu hotel catita e com pouquíssimas probabilidades de acontecer… aconteceu! Estou eu sossegadita na cama a ver um filme no computador e eis que vejo uma barata gigante a passear-se no cortinado. Fiquei sem pinga de sangue! E não tinha insecticida para a atordoar antes de a aniquilar. Precisei de toda a minha coragem e lá a consegui esmagar com um sapato. Mas fiquei tão nervosa que resolvi sair para o jardim para fumar um cigarro. Má ideia… mas mesmo, muito, muito má. Estou eu a tentar acalmar-me quando uma maldita barata voadora gigante resolve aterrar no meu pescoço e tentar descer pelo decote. Ia morrendo!

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