REGRESSO


Acabei de chegar a casa. Na verdade cheguei a Portugal a meio de Julho depois de 18 meses muito intensos no Quénia. Precisei de tempo para mim. Tempo para assentar ideias, para reencontros, para processar informação, para pacificar as emoções e descansar. Cheguei encantada com Portugal, com o facto de viver cá me ser tão fácil e “natural”. Parecia-me o melhor lugar do mundo. Devia de ser a Portuguesa mais contente com este país de gente zangada, desencantada e em estado de crise permamente. Não escrevi no blogue, nem peguei em trabalho durante semanas e preferi deixar-me levar pelo Verão e deixar as coisas tomar o seu devido lugar na minha mente e no meu coração.

Em Junho tinha planos mirabolantes para viajar pela Índia. Estava no limite da minha energia e a desintegrar-me e devo ter sido atingida pelo raio do movimento Zen que me fez acreditar que seria muito mais feliz depois de passar 10 dias a meditar na Índia. Era um plano perfeito. Eu queria fazer um novo curso de meditação, mais aprofundado (sim, existe um guru new age dentro de mim), a Índia fica a muito poucos euros de distância do Quénia e é lá que nascem ou renascem a maioria dos espiritos iluminados. No fundo, no fundo, eu acho que o meu subconsciente tinha como plano B mandar-me para lá em estágio para depois escrever best sellers de auto-ajuda e ganhar dinheiro a sério porque está farto de tentar justificar o facto de eu ser bolseira de investigação…. mas adiante…. Era um belíssimo plano, teria concerteza encontrado a Luz e quem sabe o Amor e o Dinheiro e andaria a irradiar energia positiva pelo mundo não fossem uns pequenos constrangimentos que começaram a ganhar importância devido ao meu estado de fragilidade geral. A Índia é um país pobre, cheio de pedintes profissionais, descamisados e crianças de rua e eu detesto pobres. Não que ache que eles devem ser escondidos, mas porque acho que ninguém devia ser pobre e que todos devíamos ter direito a uma vida digna.  Deve ser um preciosismo de quem viveu em choque com abismais assimetrias sociais, mas que fazer? Pobres? Não obrigada, não agora. E depois a Índia está cheia de poluição, de lixo e de caos e eu comecei a achar que encontrar a Luz naquelas condições era capaz de não ser a melhor opção. E assim, à última hora, encontrei o meu Ashram: Portugal. Uma energia incontrolável atraía-me para este lugar mágico, este paraíso de serenidade, trânsito ordenado, sem poluição e apenas pontuado por pedintes aqui e ali, onde se fala o Português (uma língua maravilhosa que não se ouve no Quénia), onde se come bem e se bebe melhor, onde as pessoas gostam de sair até tarde, de esplanadas e passeios na rua, onde adoramos discutir uns com os outros mas sem nos matarmos uns aos outros, onde podemos criticar abertamente o sistema e ser anti tudo e onde temos uma enorme capacidade de nos rirmos de nós próprios. Não havia mais nenhum lugar onde me apetecesse estar e imbuída deste encantamento desmesurado pelo meu país resolvi fazer a mala e regressar. Encontrei a Luz do Sol e do Verão que me aqueceu o corpo e a alma e me ajudou a ficar de bem com a vida. Encontrei o Amor das pessoas que me querem bem e que são importantes para mim. Não encontrei o Dinheiro, nem mesmo depois de jogar no euro milhões, mas dizem que não se pode ter tudo na vida. Corri este país de Norte a Sul. Fui a romarias e festivais, assisti a concertos e peças de teatro, cantei, dancei e ri até não poder mais. Matei saudades do mar e brindei até à exaustão: “Ao Verão, aos amigos e às coisas boas da vida!” Não meditei grande coisa, nem sequer dormi muito mas renovei energias e pacifiquei-me com a minha experiência dura no Quénia.

Sinto-me bem em casa. Estou feliz e agora cheia de vontade de arregaçar as mangas, voltar ao trabalho, escrever a tese e partir para outros desafios. Portugal tem muitos defeitos. Estou farta de ver criminosos com honras de prime time na televisão pública, estou triste com a nossa miserável classe política, já não suporto o gene da Crise que nos degenera o ADN, nem o síndrome da vitimização dos Portugueses, mas por enquanto não vejo nenhum outro lugar onde tenha mais vontade de estar.

E este blogue que começou como uma forma de eu publicar os meus contos e se foi transformando num roteiro de viagem e num repositório de reflexões e opiniões vai sofrer umas alterações, aos poucos há-de tomar novo rumo, como eu, para onde e como ainda não sabemos.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: