THE THEATRE EXPERIENCE


No passado fim de semana fui ao teatro. Não fui a um teatro qualquer, até porque não há muito por onde escolher, fui ao Teatro Nacional do Quénia, em Nairobi. A arte não é valorizada aqui. A música é importada dos EUA, ou de outros países africanos com uma cena artística mais dinâmica como a Nigéria ou a Tanzânia, o cinema é praticamente inexistente e resume-se a um ou dois projectos experimentais, a dança… só nos bares, a literatura reune uma pequena elite interessante mas é inexpressiva e os principais escritores estão exilados e o teatro, ao contrário do que acontece em outras Áfricas que eu conheço, é pobre e quase inexistente. Por isto tudo, o anúncio de um espectáculo em cena no Teatro Nacional, que prometia integrar música, arte circense e teatro deixou-me mortinha de curiosidade e lá fui eu mais a Mzunguinha, com uma expectativa relaxada, mas preparadas para um fim de tarde interessante.

Eu juro que eu quero ter coisas boas para dizer sobre o  Quénia para além da obvia beleza da natureza e da vida selvagem, mas é difícil. E qualquer possibilidade de o teatro entrar neste rol desapareceu mal chegamos à sala de espéctáculos.

A primeira sensação ao entrar no Teatro Nacional é de náusea com um cheiro intenso a urina, a segunda é de nojo ao ver o estado de degradação e sujidade: os cortinados a desfazerem-se e sem nunca terem sido lavados na vida, o veludo das cadeiras carcomido e manchado, o bar com um ar mais degradado do que o bar de qualquer colectividade de bairro portuguesa. Dentro da sala, com as saídas de incêndio fechadas a cadeado, o palco despido, desbotado e degradado e as cadeiras desalinhas e velhas sentiamo-nos nas entranhas de um matatu gigante, com a vantagem de não estar cheio de gente. A terceira sensação a invadir-nos e a revoltar-nos é a de perplexidade perante a própria performance que era tão má, mas tão má, que ao fim de meia hora levantamo-nos e saimos. E esta foi a parte mais triste. Que o estado não apoiasse a arte e investisse nas suas infra-estruturas eu entendia, mas tinha ainda a esperança de ver um espectáculo bom onde a qualidade dos artistas ofuscasse a indignidade do espaço. Não foi assim, tal como acontece em muitas outras coisas foi pobre, sem o mínimo profissionalismo, sem o mínimo esforço para ser bom, para se superar, sem paixão pela arte, sem envolvimento e sem qualidade.

E é nestas alturas que fico feliz por conhecer bem Angola e Moçambique e poder dizer que África não é toda assim. Que a pobreza não é desculpa para tudo, que o colonialismo já não serve de desculpa a quase nada e que em outras Áfricas, apesar de todas as dificuldades, há vida e arte e paixão a alimentar as gentes.

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