CASA BRANCA


No guia turístico a cidade era descrita como um pequeno paraíso, repleto de flores e árvores frondosas, voltada para o lago imponente onde se podiam ver pequenos barcos de pesca com velas brancas ao vento. O guia afirmava também que sendo uma cidade de fronteira estava cheia de vida, de comércio, de gentes de várias origens que se cruzavam num reboliço quase cosmopolita. Helena relia aquelas frases tranquilizadoras e revia as fotografias do lago que lhe anunciavam meses de tranquilidade e uma nova vida depois de mais de um ano a trabalhar num campo de refugiados junto à fronteira da Somália, em terra de ninguém, onde reinava o pó, a paisagem desoladora e a frustração de não ver o fim daquela guerra estranha.

Depois de quase sete horas de viagem, desde Nairobi, num autocarro bafiento e aos solavancos, ela chega finalmente à cidade. Era quase noite e o céu escuro prometia chuva e tempestade. O calor, húmido, fazia-a sentir-se ainda mais cansada e suja, com o pó da estrada colado à pele suada e pegajosa.

Estavam duas pessoas à espera dela. Não se conheciam mas era fácil identificar Helena, a única branca a sair do autocarro. Eram futuros colegas e trabalhariam no mesmo projecto. Também viviam todos na mesma casa, um pouco afastada da cidade, em frente ao lago.

Ao atravessarem a cidade ela pode ver, assustada, a mescla de carros, carrinhas, bicicletas, motorizadas, autocarros que se atropelavam mutuamente e buzinavam sem parar e na berma ia notando os vendedores de rua que iluminados apenas por uma lamparina de querosene pareciam surgir do nada como se fossem almas do outro mundo.

Os colegas falavam sem parar, do projecto, da casa, da viagem dela e iam dando informações precisas sobre os locais por que passavam. “Aqui é o mercado.””Olha, aquilo é peixe do lago, frito.””Aquele edifício é um centro comercial onde há um supermercado aberto 24h.””Esta é a zona mais rica da cidade.””Ali é o lago.” Helena tentava participar na conversa mas os olhos dela estavam voltados para a cidade que se ia revelando  pela janela do carro. Quando entraram na picada que os levava até casa, por entre solavancos violentos, um relâmpago atravessou o céu e rompeu a noite deixando ver as casas de barro, as cabras e as vacas deitadas na estrada, os quiosques de lata e o lixo espalhado pela berma. Depois, um estrondo assustador. Começou a chover e em segundos a estrada mais parecia um rio de lama escorregadia que fazia resvalar o carro a cada movimento. Do lado direito os relâmpagos sucediam-se como fogo de artifício. Do lado esquerdo, Helena podia ver agora as estrelas. Lá estava o Cruzeiro do Sul, Saturno bem visível e o início da Via Láctea. Em terra, no meio daquela disparidade celestial, o carro aproximava-se de casa. Mesmo durante os poucos segundos de total escuridão que intercalavam os sucessivos relâmpagos, as paredes da casa, brancas, imitiam uma luz própria que a tornava visível e etérea.

Os dias foram-se sucedendo, Helena foi descobrindo a cidade e foi-se adaptando ao calor húmido. Começou a trabalhar também. A explosão de cores da natureza, de flores e de verde que o guia turístico prometera, estavam lá, lado a lado com os bairros de lata, o centro da cidade barulhento, decadente e poluído, as estradas em terra batida e o pó, os miúdos de ninguém, ou de toda a gente, esfarrapados e sujos a deambular pelas ruas, o lago sujo, cinzento. As contradições eram constantes, mas ela estava habituada e também a estas se ia habituando e afeiçoando. O maior problema eram as noites. Não conseguia dormir. Para além das dezenas de mosquitos que teimavam em zumbir à volta da cama, protegida pela rede, dos gritos dos morcegos que faziam raides nocturnos e viviam nos beirais do telhado, mesmo por cima das janelas do quarto e do zumbido ensurdecedor dos insectos que vivem no pântano em frente, havia aqueles gritos constantes, ritmados, ao longe, que a acordavam a meio da noite. Tinham-lhe dito que era um funeral, que era mesmo assim, que duravam muitos dias e que ela se ia habituar aos barulhos da noite, com o tempo.

Uma vez, Helena acordou com uma luz quente, amarela a bater-lhe no rosto. Olhou em volta, ensonada e percebeu que o Sol ainda não nascera. Eram 4h da manhã e aquela luz insistia em bater-lhe no rosto mal deitava a cabeça na almofada. Levantou-se e aproximou-se da janela. No lago, em frente, a lua cheia descia no horizonte como uma bola de fogo reflectindo na água aquela luz quente, solar. Helena pegou na máquina fotográfica, apontou a objectiva para o lago e disparou. A seguir viu uma luz brilhante na sua direcção, como se alguém na água a estivesse a fotografar de volta. Esfregou os olhos e depois tirou mais uma fotografia. Quando voltou a olhar para o lago, a luz brilhante atingiu-a, outra vez. Sentiu um arrepio e correu para a cama, para a protecção da rede. Ao longe começou a ouvir gritos e cânticos.

De manhã, pouco depois de ter finalmente adormecido, foi acordada por um barulho estranho. Estava tão cansada que mal conseguia abrir os olhos mas ouvia claramente um bater de asas irregular, inquieto e finalmente viu-o… um pássaro preto e branco, delicado, que voava de janela em janela à procura de saída. Helena, olhou com estranheza as janelas fechadas e para a entrada do quarto, sem porta mas com um biombo e um cortinado bem alinhados e depois levantou-se para abrir uma janela e deixar o pássaro sair. Ficou a olhar para a paisagem bucólica lá fora por alguns momentos e abanou a cabeça, com força, quando se lembrou dos eventos estranhos da noite, como se tudo não passasse de uma partida da imaginação.

O cansaço originado pelas insónias constantes, pelo calor e pela adaptação a tantas coisas novas aumentava. Ela tentava dormitar sempre que podia, mas as noites já eram aguardadas com ansiedade. Cada ruído, uma tortura, cada cântico uma inquietação na alma. Era outro funeral, diziam os amigos, o terceiro em menos de um mês e riam do seu ar assustado e incrédulo. Um deles tentou brincar com a situação e disse-lhe que estavam rodeados de morte e que até áquela data nunca tinham visto nenhum fantasma. Explicaram-lhe que morriam muitas crianças pouco  depois de nascer, muitas mães a seguir ao parto, muitas pessoas com SIDA, outros às mãos dos vizinhos e familiares. A negligência, a falta de recursos, a histeria colectiva e a cultura de violência iam espalhando a mortandade e como cada funeral durava dias e incluía muita cantoria, muito álcool, muito sexo, por vezes, era tudo normal. A morte anunciava-se na noite através dos gritos e cantorias dos funerais, que quando eram simultâneos competiam entre si  e ela só tinha de se habituar. O mesmo colega que brincara com ela disse-lhe que nem aquela casa magnífica, que parecia ali tão deslocada escapara à fatalidade da morte. Tudo acontecera no quarto que agora era dela, há uns dez anos. A casa fora construída por um dinamarquês  que casara com uma mulher local, para ser o lar do casal. Alguns anos depois eles separaram-se, o homem voltou à Dinamarca, a mulher ficou com a casa. Ela teve outros homens, outros amores mais ou menos sérios. Um dia resolveu  partir para a Dinamarca para tentar encontrar melhores oportunidades de trabalho, uma vez que pelo casamento tinha obtido cidadania daquele país. Na noite em que fez a festa de despedida, juntando na casa dezenas de amigos e familiares apareceu um antigo namorado que nunca deixara de a perseguir. Pediu-lhe para conversar, que queria dizer-lhe algo importante e despedir-se em privado. Subiram para o quarto. Ele espancou-a com toda a brutalidade até à morte. Em baixo a música alta e a excitação da festa impediram os convidados de ouvir o que se passava. Helena estava lívida no fim da história e sentia arrepios só de pensar em voltar a dormir naquele quarto. Todos se riam e brincavam com ela.

Tornou-se cada vez mais difícil dormir. Os ruídos pareciam-lhe cada vez mais agressivos, os cânticos ensurdecedores. Toda ela tremia sempre que ouvia os cânticos e começou a tentar dormir com a luz acesa.

Uma noite a casa ficou sem electricidade e lá fora ela podia ver os relâmpagos que caiam no lago. Tentou acalmar-se. Não podia entrar em pânico por algo tão absurdo. Então viu uma luz branca passar rapidamente pela janela. Enterrou-se na cama agarrada à almofada. A luz passou rapidamente pela outra janela. Os cães uivavam e o frenesim dos cânticos funerários aumentava. Helena levantou-se de um salto, encheu-se de coragem e foi à janela tentar perceber o que se passava no momento em que um relâmpago fortíssimo atingiu o lago mesmo em frente à casa, iluminando tudo à sua volta. A chuva rompeu o céu e caía com violência e o mundo parecia que ia acabar. Helena, saltou para trás, assustada. Procurou freneticamente velas que ela sabia que estavam no quarto e não as encontrou. Entretanto, ouviu o barulho de uma porta metálica a bater. Gritou e em pânico correu pelas escadas abaixo e saiu para a chuva quando viu a porta da entrada aberta. Viu uma luz branca surgir do lado direito da casa e sem pensar correu para o lado oposto. Os cães corriam atrás dela e uivavam, a chuva e os relâmpagos intensificavam-se e Helena chorava descontrolada e corria sem saber para onde até que bateu com a cabeça no tronco mais baixo de uma das árvores das traseiras e caiu, sem sentidos em cima de um monte de terra.

Na semana seguinte e depois de passar alguns dias no hospital, Helena voltou à Europa num estado de grande debilidade física e mental. Os colegas que partilhavam a casa com ela ficaram confusos com os acontecimentos. Acontecia por vezes, a quem trabalhava nestes contextos, sofrer de depressões, ataques de pânico e stress mas tudo aquilo lhes parecia tão extremo. Vieram outros colegas substituir a Helena e a seguir outros e com o tempo a história dela caiu  no esquecimento.

Só os habitantes locais continuam a ter medo da casa. Ninguém se aproxima dela. Acreditam que está assombrada pela alma da mulher assassinada no quarto do segundo andar. Vários pescadores testemunharam coisas estranhíssimas. Um deles, contava-se muitas vezes, quase morreu de susto quando uma noite, enqanto pescava com a ajuda da candeia, viu uma luz brilhante apontada a ele por duas vezes no quarto de cima. Outro, conta-se que viu mesmo a falecida à janela numa noite de tempestade. E um antigo guarda da casa conta como numa noite de tempestade, sem luz, e enquanto fazia a ronda com ajuda de uma lanterna, deu com a porta aberta e uma das raparigas da casa desmaiada em cima da sepultura da antiga dona da casa,assassinada, nas traseiras. Só podia ter sido obra do Diabo. A Casa Branca estava irremediavelmente assombrada.

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