ENTRE MUNDOS


Acordei mortinha por partilhar coisas bonitas. Ontem foi um dia extraordinário, passado com amigos, a usufruir do Quénia no seu melhor. Mas entretanto descobri que ontem incendiaram um homem aqui ao lado de casa e voltei à Terra. O encantamento esmoreceu e a indignação e tristeza cresceram. Estou entre extremos outra vez. Entre mundos que mal se tocam. O da natureza, das  imagens de sonho, da vida selvagem e da imensidão dos espaços e o das pessoas, da violência, da pobreza e da mentalidade que eu não consigo entender.

Lamento muito mas depois desta história não posso limitar-me a pôr aqui fotografias maravilhosas e fazer o relato de um dia especial. Tenho de partilhar as duas coisas.

No mundo das pessoas, contou-me a nossa empregada ao pequeno-almoço, que um homem foi assassinado aqui ao lado de casa na noite passada (é verdade que ontem ao jantar o guarda nos veio avisar para não sairmos que estava a haver uma confusão qualquer na rua, mas como estavamos cansados nem questionamos o que se passava).

Eu: Bom dia Millicent! Bem disposta?

M.: Bom dia. Sabe o que aconteceu aqui ontem?

Eu: O quê?

M. Incendiaram  um homem!

Eu: Porquê?

M. : Eram dois bandidos, tentaram roubar uma mota e ainda agrediram o dono, mas o povo viu e deram cabo deles. Levavam uma lata de gasolina para a mota roubada e o povo despejou-a em cima de um deles e chegou-lhe o fogo. Morreu queimado.

Eu: E a polícia? Apareceu? Prendeu os assassinos?

M. (muito chocada a olhar para mim): Nããão! É a justiça popular!

(Entretanto passaram-se 5h, entre a altura em que escrevi este post e o agora, em que tenho acesso à internet para o publicar e a caminho o cyber café o meu motorista de tuk tuk, o Pascal, um amor de pessoa e homem de total confiança, vangloriou-se de ter incendiado um bandido na noite passada. Era um, entre os muitos que resolveram fazer “justiça” matando o criminoso à porrada e pegando-lhe fogo no fim. “It’s the Kenyan way”, dizia ele orgulhoso.  Eu às vezes já nem sei o que bem Bem e Mal. Mas isto faz de gente boa tão má como os criminosos.)

No mundo da natureza, ontem, eu, a Mzunguinha e a irmã dela, a Marta, que veio cá de férias, mais o Lawrence andamos a passear pela região. Acordamos bem cedinho e fomos fazer um passeio de barco pelo Lago Vitória e depois abalamos estrada fora até à floresta de Kakamega, onde eu fui atacada por térmitas (formigas gigantes que mordem dolorosamente as pessoas) e onde andamos (sobretudo eles, confesso) a trepar lianas feitos Tarzans e basicamente encantados com tudo o que nos rodeava. Deixo-vos algumas fotos para testemunharem este mundo 🙂


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3 Respostas

  1. Não sei que diga. Fiquei sem palavras. A crueldade humana é repugnante. A beleza da natureza imprecionante.

  2. Contrastes tão grandes e visões tão díspares do mundo e da humanidade… irreconciliáveis? Perhaps…

  3. Um mundo de contrastes violentos! A tua descrição é ao mesmo tempo brutal e real. Ontem estivemos a ver o filme premiado, sobre o Iraque e os ingredientes que relatas também estavam lá. Depois do filme o sono tardou a chegar! Que mundo cão! E com todo o respeito que tenho por esse adorável bicho.
    Esta aldeia global faz-nos reflectir sobre uma imensidão de situações…Será que sempre foi assim?
    Quem pode ficar indiferente? Como interpretar tudo isto? Que respostas?
    Ainda bem que vamos sendo capazes de apreciar e cultivar locais tão encantadores como aqueles onde repousaste o teu olhar.
    Um beijão

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