MULHERES INVISÍVEIS


Os escândalos sexuais associados à Igreja estão na ordem do dia. Não se fala de outra coisa. Infelizmente a discussão é quase sempre estéril e asfixiada pelos estereótipos do costume. E eu farto-me de fazer perguntas: e então as raparigas? Não são violadas? Não são assediadas? Não são vitimas das mesmas ofensas? E as mulheres não cometem igualmente actos de pedofilia? Não violam e não assediam? Será possível que neste rol de vítimas e carrascos só exista o sexo masculino? Ou estará o feminino mais uma vez invisível, num mundo onde o papel das mulheres (exacerbado pela religião) se limita a uma dicotomia entre o anjo e o diabo, numa esquizofrenia de extremos que não deixa espaço para, neste contexto, elas poderem ser vítimas (sendo a encarnação do Mal, da Tentação e do Pecado) ou carrascos (sendo a encarnação do Amor, da Maternidade e portanto da ausência de pulsões sexuais). Incomoda-me que não se fale nisto. Incomoda-me que toda a gente, quer do lado da Igreja, quer do lado dos que fazem campanha contra a Igreja, reduzam este tema à questão da homossexualidade (que, já agora, também não é só masculina). Acaba sempre por ser uma questão de homens e as mulheres perdem-se na invisibilidade.

No Quénia quase não se fala nesta situação actual da Igreja e eu vou acompanhando apenas pela imprensa estrangeira publicada na internet. Mas, desde que cheguei a Portugal que este tema faz parte do meu dia a dia e depois de uma bela conversa de sábado à noite com os amigos, iluminada pela reconhecida sabedoria da caipirinha, em que chegamos a esta conclusão sobre a invisibilidade feminina, eu não podia deixar de partilhar a inquietação no blogue. Tenho exactamente a mesma sensação que tive quando há uns anos atrás cheguei ao Huambo e vi painéis pelas ruas com dezenas ou centenas de fotos de crianças desaparecidas. Eram quase todos rapazes. Lembro-me de fazer um esforço para identificar fotos de raparigas nos painéis e ser quase impossível. Mas então as raparigas não desapareciam? Ou será que ninguém as procurava? Ou tinham-se perdido em redes de exploração doméstica ou sexual e tornaram-se invisíveis? É sempre o mesmo fenómeno e poderíamos repetir exemplos que não acabam mais.

Estaria tudo explicado se elas fossem raptadas por extra-terrestres ou se uma estranha doença dizimasse a população feminina da Terra… mas nós andamos aqui, no meio dos homens e umas das outras e no entanto, na maior parte das vezes nem sequer nos vemos a nós próprias. Não são apenas os homens que não nos veem. Nós também não nos vemos. Neste caso, não nos vemos como parte integrante do problema e colocamo-nos à margem “É um problema de homens que não conseguem controlar as suas pulsões sexuais”, “É um problema de homossexuais”, “É um problema de pedófilos”, “É um problema da Igreja”. Lamento informar quem ainda não abriu os olhos para ver o mundo como ele é, que este é um problema de todos nós. O primeiro pressuposto enganador é talvez o facto de pensarmos que é um problema da Igreja, logo um problema de homens (a Igreja é uma instituição patriarcal arcaica, onde as mulheres são invisíveis) e sendo um problema de homens ficar justificado ou pelo estereótipo da impossibilidade de os homens controlarem a sua sexualidade ou pelo estereótipo de os homossexuais serem pedófilos. Convenhamos que até para o universo masculino isto é extremamente redutor e insultuoso. E as coisas complicam-se ainda mais se pensarmos em quantos colégios católicos de raparigas há por esse mundo fora. E quantas mulheres fizeram votos tal como os homens e se recolheram à vida religiosa? Quantas sucumbem à tentação do prazer e não resistem ao desejo e vivem vidas duplas e proibidas. Será que só eu é que ouvi falar de casos de sexo entre padres, freiras e membros das comunidades onde vivem? Não são essas histórias tão velhas como a história do mundo? Mas então porque é que ninguém me mostra estatísticas, números de raparigas vítimas de pedofilia? E porque é que ninguém me mostra números de acusações de pedofilia contra mulheres? Porque é que continuamos invisíveis?

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