NO REINO DO MEDO E DA INÉRCIA


Confesso que não sei muito bem como abordar isto. É um tema delicado. Há mais de um ano que ando a fugir dele, mas ele persegue-me e domina de tal maneira a vida à minha volta que não posso não falar nele. De alguma forma acreditava que com o tempo ia compreender, ia desvendar verdades ocultas ao primeiro olhar e ia poder explicar. Não foi assim que aconteceu. Continuo sem entender, sem desvendar e sem ser capaz de explicar.
A forma como as pessoas vivem a Religião e a forma como a Religião comanda a vida das pessoas não pode ser descurada pelos profissionais do Desenvolvimento porque ela interfere em todos os aspectos da vida e do quotidiano.
Não quero de forma alguma discutir a Fé e a forma como cada indivíduo vive a sua espiritualidade. E também não quero fazer uma apologia das religiões, se são melhores ou piores. Muito menos quero assumir o papel de conhecedora e crítica das religiões.
Hoje quero apenas dar conta das minhas inquietações, das minhas questões e partilhar uma realidade à qual eu acho que quem trabalha em prol do Desenvolvimento, em países como o Quénia não pode ficar indiferente.
Em muitos países africanos, a religião, assume um papel preponderante na vida das pessoas de uma forma impensável para qualquer Europeu. É, sem dúvida, o resultado de centenas de anos de missão evangelizadora do Ocidente, da destruição da História africana (um dos maiores crimes do Colonialismo a par da escravatura), da economia de mercado das almas onde hoje em dia competem centenas de Igrejas em busca de seguidores, de poder e de dinheiro. E é claro, o resultado da pobreza extrema e das dificuldades da vida que a tornam vazia de sentido, de conforto e de esperança sem a presença de um Deus criador e sem a crença de uma vida melhor depois da morte. E a Fé pode e é, sem dúvida, um excelente paliativo que torna a vida das pessoas mais suportável e que lhes dá respostas importantes para a sua felicidade. Mas em nenhum outro lugar como no Quénia, esta omnipresença me pareceu mais devastadora. É indiscutível que a presença da Igreja em África tem um papel fundamental no desenvolvimento. Em muitos locais onde os próprios governos não chegam, a Igreja está presente, no meio das maiores adversidades e nos lugares mais inóspitos. E está presente a evangelizar mas também a promover a educação, a saúde, o desenvolvimento comunitário. Aliás basta ver a quantidade impressionante de organizações de cariz religioso ou de inspiração cristã, islâmica, hindu… Se esta presença se traduz em benefício efectivo para as populações, isso já é outra história. Tal como acontece com ONGDs ou agências para o desenvolvimento, há projectos bons e maus, há resultados melhores e piores e a Igreja não escapa a esta lógica.
No entanto, aqui, para além das centenas de religiões, desde as mais comuns de inspiração cristã como católicos, metodistas, adventistas, protestantes, anglicanos, jeovás, ou de inspiração muçulmana ou hindu (cujas respectivas populações são bastante significativas) há uma miríade de outras religiões, com as designações mais estranhas e insondáveis e os propósitos mais insólitos. São as Trompetas de Zion, a Igreja das Pastagens Verdes, a Igreja dos Amigos, o Tabernáculo da Felicidade, a Fonte da Redenção… e mais um sem fim delas. Todas estão em todo o lado. Qualquer barraco de chapa ou de madeira serve para acolher os crentes e as crenças e na maior parte das vezes competem entre si pelo prémio do “Pastor que consegue berrar mais alto”.
No meio deste cenário encontra-se algo terrível: a impossibilidade de não se ter religião. E acho isto terrível porque coloca as pessoas sob o escrutínio comunitário dos guardiães da moral e dos bons costumes para quem não ter religião é ser amoral. E perante esta realidade os rituais multiplicam-se como se houvesse uma necessidade constante de se mostrar publicamente o quanto se é religioso e portanto, pessoa de bem. Todas as actividades do dia a dia são pautadas por orações colectivas: aulas, reuniões, dia de trabalho no escritório, refeições e tudo o mais que se consiga imaginar. Muitas religiões estão miscigenadas com crenças animistas e com a cultura tradicional, fechando os crentes numa espécie de mundo paralelo, onde a vida se desenrola através de lógicas que não me fazem sentido e onde prevalece o obscurantismo.
Mas pior que tudo isto é a cultura do medo. É um fenómeno transversal a todas as religiões e alimentado por todas elas. O Quénia é um reino do Medo. As pessoas têm medo de tudo o que é diferente, têm medo de se destacar, têm medo de ser criticas, têm medo de não preencherem os requisitos da moral e dos bons costumes, têm medo da “autoridade”, têm medo de castigos divinos, de espíritos dos antepassados, de pragas e magia, têm medo pensar, de ter opiniões, de ter iniciativa e criatividade. Desde muito cedo é inculcada nas crianças a cultura do medo e a apologia da obediência. O espírito crítico, a reflexão e a individualidade são destruídos muito cedo e a religião perpetua esta ausência ao longo da vida das pessoas.
Na minha investigação sobre as mulheres e a criação de auto-emprego a minha maior frustração é ouvir constantemente a resposta “Vou pedir a ajuda de Deus”, “Vou aguardar a ajuda de Deus”, “Está nas mãos de Deus” a todas as questões da vida para as quais bastava as pessoas saírem desta letargia doentia e fazerem qualquer coisa por si próprias. O medo e a inércia de mãos dadas com a santa omnipresença religiosa a alimentar a pobreza e a ignorância. Mas há uma coisa que me intriga. O Quénia, como já disse várias vezes é uma sociedade muito diversificada e profundamente desigual e perante toda a diversidade de etnias e grupos religiosos é impossível não observar determinados padrões de desigualdade. Os grupos muçulmanos e hindus detêm a maior parte da riqueza do país. As zonas mais ricas de Nairobi pertencem-lhes, as maiores empresas e negócios também e é muito menos comum encontrá-los em situações de extrema pobreza. Essa está reservada àqueles que pertencem a cultos cristãos e que vivem no reino do medo e da letargia, se bem que outras tradições religiosas também os cultivam. Não percebo.
E no meio deste quadro, para mim profundamente triste, acho que quem trabalha com estas populações tem de estar atento a estes fenómenos, tentar compreender o seu porquê e trabalhar para mudar as mentalidades. E sobretudo as Igrejas e as instituições de inspiração religiosa, que trabalham com seriedade para melhorar a qualidade de vida das pessoas, devem repensar-se e supervisionar o que em nome delas é feito em países como o Quénia.
Não vale a pena desenvolver complexos programas de apoio ao desenvolvimento enquanto as pessoas continuarem a viver numa cultura de mão estendida à ajuda internacional, de medo à mudança e de crença na intervenção divina para lhes resolver todas as dificuldade, porque aqui quando alguém precisa de dinheiro a primeira coisa em que pensa é onde é que vai arranjar um sponsor (uma palavra que toda a gente adora) e depois pede ajuda a Deus para aparecer alguém que lhes dê o tal dinheiro
Não adianta ensinar artes e ofícios quando ninguém se atreve a fazer algo diferente do que toda a gente faz, a arriscar uma ideia, a tentar um negócio. Não adianta conceber e pôr em prática belíssimos projectos para diminuir a incidência do HIV/Sida ou os casos de violência doméstica quando as pessoas acreditam que tudo acontece de acordo com os desígnios de Deus e que ele tudo resolverá.
E acho sinceramente que as instituições religiosas têm um papel fundamental na mudança deste estado de coisas, na erradicação do sentimento “Big Brother is whatching you”, no fim da cultura do medo, do ócio e da inércia e na transição para uma nova fase, de ruptura com a missão civilizadora da evangelização, através do culto da solidariedade, do diálogo  e da liberdade individual.

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2 Respostas

  1. Olá querida amiga! Adorei a tua “história”. Realmente o problema é complexo! Mas não é só em África. A propósito desta época de Páscoa, há dias trocávamos ideias o Carlos e eu sobre esta temática.
    E à nossa volta fomo-nos apercebendo dum conjunto de gente que investiga, trabalha com as mais diferentes racionalidades e que não abdica da necesidade dos rituais da época da Páscoa, transformados e adaptados mas todos eles de um grande fervor e fé.
    Aqui está mais um tema para “espiolharmos” com os pés debaixo da mesa. Certo? Um até breve e um beijão grande. Boa saúde e bom trabalho.
    Fernanda

  2. O teu post, amiga, bate-me cá no fundo. A
    lguns cristão iluminados escrevem muito bem sobre isto, a ideia do livre-arbítrio como própria criação divina que não pode/deve ser destruída. Mas não é a maioria, nem lá perto… um abraço a pensar

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