A FESTA


Habituada a trabalhar com gente simples e pobre do meio rural e a viver numa casa de cientistas, o mundo da arte fica a mundos de distância da minha realidade. Foi por isso uma surpresa extraordinária dar por mim esta semana numa festa rodeada de músicos, escritores, poetas, pintores, fotógrafos, gente famosa e aspirantes à fama, tudo embrulhado em glamour e bom gosto.
Eu tive de ir a Nairobi. A minha amiga Eva que vive cá em casa, também. Ela tinha de estar presente num evento de lançamento de livros para conhecer umas pessoas que têm interesse para o trabalho dela. Desencaminhou-me para lhe fazer companhia e como eu gosto de livros e não tinha nada melhor para fazer, disse que sim.
A estação das chuvas já começou, na altura certa do calendário e Nairobi estava transformado numa piscina de lama gigante onde os carros flutuavam, parados, horas a fio. A festa, num dos bairros mais bonitos da cidade, numa casa maravilhosa (que descobri depois ser o estúdio e escritório do músico pop, provavelmente mais famoso do Quénia), com um jardim de sonho, foi ligeiramente perturbada pela tempestade. Em vez de velas ao longo do jardim acenderam-se fogueiras poderosas, em vez de assistirmos aos concertos, leituras e performances ao ar livre, montaram umas tendas gigantes abertas para o palco e não sei de onde apareceram dezenas de funcionários a carregar guarda-chuvas gigantes para nos transportar de tenda em tenda (entre o bar, a exposição de livros etc) e em vez de passearmos as nossas roupinhas de festa incólumes (quem as tinha, que não era o meu caso), passeávamo-las na mesma mas decoradas com salpicos de lama, molhadas, amarrotadas sem problema nenhum . O pior foi a chuva forte trazer com ela milhares (sim, mesmo milhares) de insectos voadores que ficam desvairados com a luz e morrem. Era impossível controlar a quantidade de insectos mortos pelo chão e que voavam em todas as direcções. Quase que desisti de entrar na festa. Mas lá ganhei coragem e tirando aquele momento infeliz em que conversava com dois jovens escritores muito interessantes e gritei quando senti qualquer coisa viva na perna, por baixo das calças, fazendo um esforço enorme para não me despir à frente de toda a gente, as coisas até correram bem (corri para a casa de banho, tirei as calças, matei os dois intrusos que lá estavam, respirei fundo e voltei como se nada tivesse acontecido).
Rapidamente percebi que os famosos cá da terra estavam lá em peso e foi engraçado estar a falar com pessoas veneradas pelos outros mas que nós não fazemos a mínima ideia de quem são. Só percebia a dimensão da fama das pessoas com quem me cruzava pela quantidade de flashes e câmaras de filmar que se viravam para nós.
Para surpresa minha e ao contrário da elite endinheirada deste país, a classe artística pareceu-me despretensiosa, bem humorada, culta e composta por gente bonita e interessante. Era uma faceta do Quénia que eu desconhecia, aliás uma das coisas de que sinto mesmo falta aqui é de arte, de música, concertos, exposições, teatro… tudo muito difícil de encontrar. O meio artístico é pequeno, muito restrito a Nairobi e a pessoas muito interessantes, politicamente críticas, dinâmicas, viajadas mas com um profundo desconhecimento do resto do país. A mim pareceu-me que visitei um mundo paralelo durante umas horas, um mundo muito longe do Quénia. Mas soube-me lindamente!

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3 Respostas

  1. …ainda bem para ti.Afinal apesar das diferenças , umas vezes boas, outras más, sempre aparecem momentos novos que podem compensar os mais fracos…
    Fica bem
    Márcia

  2. Pois eu acho que deverias ter mesmo tirado as calças. Ias ofuscar os famosos todos que estavam na festa. E que bichos eram esses que se atreveram a subir-te pelas pernas? Com tantos flashes e câmeras de filmar, desconfio que vais aparecer nas revistas cor-de-rosa aí do Quénia.
    Quanto à sensação estranha de veres toda a gente a venerar pessoas que tu não fazes ideia quem são, isso até cá me acontece em realação a algumas criaturas do chamado Jet7. No entanto, pelo menos nessa tua festa as pessoas não eram famosas por irem a festas, mas por escreverem, tocarem, etc. Quem dera que por cá também fosse esse o único critério para se ser famoso: o talento e/ou trabalho realizado e não a presença em festas frequentadas por gente descerebrada.

  3. Bela aventura maninha…

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